terça-feira, 15 de setembro de 2026

Elogio à solitude

 


– Estou cansada.

 

Digo-lhe isto e ele, silenciosamente, olha-me através da sala. Nenhum movimento na minha direção. Nenhuma palavra. Deve conhecer-me. Sabe-me até ao âmago. Não ousa mais do que a sapiência da imobilidade, à qual se agarra firmemente, fingindo que não tem dentro uma sabedoria antiga, quase extinta.

 

– Acho que me vou deitar.

 

Continua. Escutando-me a agonia de um corpo que se arrastou de tarefa em tarefa por demasiadas horas. Lembrando o grito do despertador, ainda a cidade mergulhava na noite. Lembrando o arrastar dos ossos para fora das cobertas e o abrir dos estores e das janelas para refrescar a casa antes do sol abrasador trazer de novo o infernal sopro de Lúcifer. O seu silêncio, observando-me agora na noite vaga. O mesmo silêncio da madrugada. Estendo-lhe a mão e acede ao toque com a lisura do espanto.

 

– Anda.

 

Caminhamos juntos e deitamo-nos sobre o mesmo colchão, debaixo da mesma luz, do mesmo teto disforme, das mesmas rachas e manchas. E as minhas mãos exaustas abrem-lhe o verbo. E ele fala, finalmente.

 

Partilhamos, na noite, a intimidade das palavras que jorram e se entregam. Até que nos fechamos num cansaço lânguido e contente. Até que nos aninhamos, desligando a luz. Digo-lhe:

 

– Boa noite.

 

Ele não responde. Talvez porque tenha adormecido. Será que os livros dormem? Haverá descanso para as vidas que têm por dentro?

 

A gata salta para a cama. Esqueço depressa o silêncio no acorde ronronado do seu conforto. Entre mim e o livro dorme agora uma massa de pelo e contentamento. No apagar do dia, depois de tudo, se isto não é felicidade, eu não entendo o que seja...


Marina Ferraz



Fiquem atentos ao meu Instagram para saberem todas as novidades em primeira mão!




Se quiserem adquirir o meu livro "[A(MOR]TE)" - agora na 2ªEdição

enviem o vosso pedido para marinaferraz.oficial@gmail.com


Sem comentários:

Enviar um comentário