terça-feira, 25 de agosto de 2026

8º sem elevador

 



Prometo que esta reflexão será breve.

 

Ora... o meu prédio tem 10 andares, que equivalem a 13, já que as duas caves e o rés-do-chão são habitados, e a entrada se faz normalmente pelo piso -2. Eu moro no 8º.

 

Na semana passada, uma inundação no 2º andar provocou a avaria de ambos os elevadores. Faço uma pausa textual para os habituais comentários sobre antigamente também se vivia sem eles, da malta saudosista da idade da pedra. Retomando. Viver sem elevador custa. Mas viver sem ele não custa o mesmo para toda a gente.

 

Talvez quem mora nos pisos da entrada – sim, são dois – não se sinta sequer afetado por isto. Depois, a dificuldade acresce a cada piso. Mas, mesmo assim, não é igual para todos. Dei por mim a pensar nisto. Nas pessoas que têm cães para passear duas ou três vezes por dia; nas pessoas idosas, que mal podem caminhar a direito, quanto mais subir tantos degraus; nas famílias com crianças, que sobem transportando compras num braço e bebé no outro; nos cadeirantes, que ficaram em regime de confinamento.

 

Tudo isto me fez lembrar do autismo e de quem vive com ele. Desculpem voltar ao tema, mas somos sempre mais próximos dos nossos próprios estares, e este é o meu. Penso que o autismo seja a minha casa no 8º andar. E que alguns, como eu, subam só com as compras. Mas outros subam com outros pesos e dificuldades que eu ainda não tenho. É duro e desconfortável. É incómodo e piora, degrau a degrau, com o esforço. Esse esforço pode ser interação ou estímulo. São degraus feitos de barulho, de conversas inteligíveis, de coisas tão simples como lavar os dentes ou ir a uma festa de anos.

 

Vai sempre haver quem diga que não é uma situação assim tão má. É gente que mora nos pisos térreos do pensamento. Fica o convite para virem ao 8º. E, por favor, quando vierem, tragam o saco de areia para a Sam que deixei no carro...


Marina Ferraz



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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Carta aberta a uma mulher conservadora

 

Imagem retirada do Pixabay

Esta é uma carta aberta. Está aberta, provavelmente, porque o teu marido a abriu assim que chegou. Nada temas! Não vou dizer nada que ponha em causa a tua integridade. Sei bem os valores que defendes, todos tão religiosos e familiares. Sempre gostaste do bafiento aroma a anteontem com flor de laranjeira, que a mim nada me diz. E está tudo bem! Não podemos todos perfumar a casa com cravos vermelhos.

 

É engraçado que tenhamos crescido a escutar a mesma História. Engraçado que tenhamos desenhado, no mesmo quadro de ardósia, os mesmos números. Engraçado que tenhamos obtido somas tão diferentes dos números da História.

 

Mas não devia espantar-me. Quando eu sonhei com ser livre, tu sonhaste com o casamento. Quando eu me debati com as dificuldades da vida, já tinhas um diamante no dedo. Subiste de branco ao altar, quando eu vesti negro pelas ruas. Tiveste três filhos antes que eu tivesse a coragem de adotar um gato. Tivemos a nossa fase dos cosméticos e da maquilhagem em simultâneo. Eu, para ir a eventos. Tu, para esconder as negras. Tivemos o mesmo vício de correr para o banho mal chegávamos a casa. Eu, para enfiar o pijama. Tu, para que o teu homem não sujasse as mãos quando te batesse. Tive as minhas noites de amor e de insónia, onde tiveste noites de agressão e desmaio. Falei mais das minhas aventuras do que tu falaste das desventuras. Menina boa, sempre o soubemos, é a que cala.

 

Vi-te largar o silêncio. Fiquei tão feliz. Pensei que tivesses encontrado a voz debaixo da cama. Que a tivesses agarrado e erguido, no cansaço. (Foi idiotice minha essa alegria. Perdoa-me se vejo o mundo pelo meu filtro e acredito saber o que te faria feliz. Não precisas de me julgar... Eu própria me julguei pelo julgamento, dizendo a mim mesma que tens todo o direito de manter o teu conservadorismo, essa raiz antiga, servil de escravidão cor-de-rosa. Tens razão, não tenho o direito de te julgar!) Só que, ao ergueres a voz, uniste-a à de gente igual a ti. Fizeste um grito antifeminista, benzendo-te. E da tua boca saíram sentenças que condenavam as outras. E, entre as outras, estava eu.

 

Os valores bíblicos que voaram dos teus lábios – quando abriram pela última vez? Quando sangraram, esmurrados, no chão da esperança? – falavam da mulher-mãe, da mulher-esposa, da mulher que o feminismo tentou matar. E sabes o que ouvi? A Liberdade...

 

Os meus cravos voaram da tua boca, como pombas brancas. Os meus cravos voaram da tua boca, como palavras. E as tuas pombas tapavam o meu sol. As tuas palavras abalavam os meus direitos. E, ainda assim, eram pombas e palavras que só existiam porque, um dia, mulheres como eu defenderam a tua boca e a tua garganta e a tua voz e o teu espírito.

 

Esta noite, quando chegares a esta carta aberta e antes que sejas violada como o envelope que envolvia o manuscrito, gostava que soubesses que defendo o teu direito de seres a mulher que queres ser.

 

Eu fiz as contas à História. Sei que não posso vencer uma batalha contra o ciclo. Já me entra nos olhos a poeira dos sacudidos lençóis que se tinham guardado no baú. Ainda bem. Servirão de mortalha para mim e outras como eu. E perguntarás porquê. Por que razão precisaremos de mortalha se não podemos vencer o ciclo. Minha querida, entende. Mulheres como eu lutam, mesmo por causas perdidas. E sabes para quê?

 

Sabes para quê?

 

Entendes para quê?

 

Para que possas decidir tomar o teu banho antes de..., cuidar dos teus filhos, fazer o teu jantar, dar prazer ao teu homem e sair às ruas de voz erguida num alegado-Deus para tentares roubar-me o direito de escolher outra coisa.

 

 Assinado,

Uma mulher feminista


Marina Ferraz



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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eclipse

 

Imagem retirada do Pixabay

Os óculos são opacos. Não se vê com eles, exceto se olharmos para o Sol. O Sol é o que queremos ver... não é? É o que nos dizem que vejamos, pelo menos! Pomo-nos em filinha indiana e fazemos isso. Olhamos o Sol, com a segurança de óculos que nos ceguem para tudo o resto. Mas, afinal... é para que o Sol não nos cegue... não é? Segurança, dizem! Queremos estar seguros!

 

Os óculos opacos que usamos por recomendação sistemática (e sistémica) servem para que ocorram vários eclipses. Enquanto assistimos à atualidade mastigada, peneirada num gatekeeping invisível, comendo cegamente informação com fontes selecionadas e oportunamente sintetizadas, os eclipses vão acontecendo. Há o eclipse do descanso, o eclipse dos produtos a preço acessível, o eclipse das condições habitacionais, o eclipse da capacidade de deslocação. Enfim, o eclipse da qualidade de vida e dos direitos fundamentais. Evidentemente, nada disto é o Sol. O Sol são as promessas, que brilham e rebrilham debaixo de discursos demagógicos e melindrosos, que falam ao coração das gentes com o brilho de um futuro ofuscantemente melhor.

 

Olhar diretamente para estes discursos queima. Se não a retina, o sistema neuronal. Então, é melhor usar óculos. Opacos. Para que não se note tudo o que vai eclipsando por caminho. Não é por acaso que essas lentes são gratuitamente oferecidas por governos de todo o mundo...

 

Entretanto, isto não é sobre o eclipse de quarta-feira... Para isso, sim! É melhor protegerem os olhos!

 

Mas, quando acabar o fenómeno, lembrem-se de tirar os óculos. Antes que acabem de construir este megalómano parque de diversões capitalista nos nossos ombros. Antes que se eclipse, além de tudo o resto, a vontade de estar vivo.


Marina Ferraz



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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Livro intonso

 

Imagem gerada por IA

Comprei um livro antigo. Um livro intonso. Desculpem lá o palavrão, mas não se inventou ainda palavra mais moderna para isto. Muito provavelmente porque, hoje, este método de produzir livros já não se usa. No livro que comprei, as folhas nunca foram abertas. Podia talvez ter começado assim. Comprei um livro triste. Um livro que envelheceu, que amareleceu, e nunca foi lido.

 

Lembro-me ainda de ver o meu avô a cortar as folhas dos livros que lia. Fazia isto com a navalha que trazia sempre. Um gesto-ritual. O abrir da navalha, o cortar das folhas cuidadosamente, para que não rasgassem, para que ficassem retas, para respeitar o livro. E, depois, a rugosidade da canelura, tão diferente da suavidade dos olhos que liam, dos dedos que seguravam o cigarro – quantas vezes apagado? – e o pousavam para virar a página.

 

Numa banca de velharias comprei uma memória que era velha e um livro antigo que era novo. Ainda bem que fiquei com a navalha do meu avô. Hei de me sentar com este livro intonso. De lhe abrir as folhas com o mesmo gesto-ritual e de o fazer cumprir, por fim, o seu destino de livro, que é ser lido.

 

 

Tirarei assim o A Leste do Paraíso do lugar vazio que lhe deram, a Leste do Paraíso, numa estante esquecida e sem finalidade. Terá, é certo, uma canelura mais rugosa, mas, depois do beijo agressivo da lâmina, avançarei para ele com olhos suaves e curiosidade. Não terei um cigarro na mão, mas agarrarei a memória.

 

Gosto de pensar que salvei um livro.

(E é tão importante salvar livros! Ainda mais agora, que a moda é a “digitalização destrutiva” pelas grandes empresas de IA.)


Marina Ferraz



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