terça-feira, 28 de julho de 2026

Permitam-me interromper...

Imagem retirada do Pixabay

 

Não quero, não vou... já me falta a paciência, entendam, para os juízos de valor. Não sou ninguém para definir o que é a liberdade de expressão ou o sentido de responsabilidade dos outros, que certamente serão crescidinhos e munidos de um cérebro. Mas o algoritmo tem sido um bocadinho chato e, mesmo contra a minha vontade, vou dando de chapa com os vídeos, os comentários, as opiniões...

 

Queria dizer que não quero saber. Posso fazer isso. Não quero saber. Mas é mentira! Incomoda-me. O quanto me incomoda não é problema de quem diz o que diz e faz o que faz, mas meu. Meu, porque ainda vou permitindo que algumas palavras permeiem a capa-de-aço que visto diariamente para me proteger de imbecilidade (e do mundo, caso ainda não sejam sinónimos). A minha mãe bem me dizia que devia comprar capas-muralha de melhor qualidade... mas as verbas da escrita são ralas e o que sobra depois de pagos os astronómicos impostos ao Estado e os embolsos mensais das carecentes grandes empresas nem sempre chega para defesas dessas.

 

Não querendo fazer o disparate de julgar alguém, vou ficar-me pelo apanhado das problemáticas-tendência da semana, incluindo algumas conclusões superficiais, meramente expositivas. Portanto... na mesma semana em que ficamos a saber que gordos não podem ser felizes, descobrimos também que falar dos desconfortos quotidianos do autismo em entrevistas invalida todo o diagnóstico. Na sequência disto, descobrimos ainda que entrevistadores-de-alto-gabarito não sabem a diferença entre a palavra “normalizar” e a palavra “romantizar” e que os “psiquiatras de Facebook” não sabem a diferença entre uma “doença” e uma “divergência” (que é para não correr o risco de a palavra “deficiência” ofender alguém...).

 

Sacudo as palavras dos outros, o ódio gratuito e até a defesa dos que vêm criticar, mas também sem saberem do que falam. Deixo o telemóvel noutra divisão, para que não haja tentações. Interiormente, tenho opiniões, como toda a gente... e revolta que baste para me nascer este texto, em que tento não soar tão crítica... e falho como os estúpidos. (Deixo aqui uma informação relevante: a estupidez não é sintomática do autismo. Sim, o meu cérebro é autista porque eu nasci assim... é a vida... mas a estupidez não faz parte de uma disfunção cerebral. Veio depois. Talvez da socialização e dos esforços para ser/parecer normal? Nem eu sei!)

 

Seja como for, minha gente, vou de arrecuo para um beco do qual pensei que tinha saído e tentar ser só invisível outra vez. Falar de quem sou estava a tornar-se mais fácil, mas... deixem! Vou ali para o meu beco, ok? No meu canto, acho que não me sinto tão profundamente exausta.

 

É um mau momento para não fazer parte da norma.

 

É um mau momento para não ser os outros.

 

É um mau momento para existir.

 

Mas, por favor, continuem... desculpem a interrupção.


Marina Ferraz



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terça-feira, 21 de julho de 2026

G. e o burrinho

 

Imagem gerada por IA


Agora, sentas-te ali e ficas a pensar no que fizeste. O Povinho arrasta-se da cadeira para o canto e enfia as orelhas de burro voluntariamente.

 

O G. ri.

É o bully da sala. É mau. Só faz asneiras. Culpa os outros. Ri-se nas costas dos professores. Faz-se de santo quando é confrontado. E, logo a seguir, passa rasteiras, atira papéis, empurra quem espera na fila pela refeição do dia. Cochicha com os amiguinhos do peito. Faz planos mirabolantes para garantir que a sua barriga é a mais cheia, que os seus interesses são os primeiros a suprir, que têm um estatuto preferencial em todas as enfiadas. Ninguém ouse chamar-lhes Luís, Nandito, Aninhas... isso é para o Zé que, como já referimos, está ali metido à parede com orelhas de burro. Eles são os senhores, os chefes, os doutores, as excelências. Isto do respeitinho é bom e eles gostam.

 

O Povinho continua ali, com orelhas de burro. Sente-se um verdadeiro asno. Teve -3 no exame. É um burro mais burro que os outros. Houve a necessidade de criar notas ultranegativas para que ele soubesse isso mesmo. Que realmente é um burro e merece as orelhas, mesmo que tenha sido G a fazer merda.

 

O G. ri-se do burro. Aproxima-se. Parte-lhe as pernas. Ri-se. Garante aos professores que o Zé não será prejudicado. Que eles não serão prejudicados. O diretor queixa-se do seu comportamento e ameaça suspensão, mas bully que é, o G. nega e acrescenta com algum escárnio que o diretor não deve fazer-lhe frente, até porque é nomeado. Não é, é eleito... mas vamos esperar destes tiranos que saibam a diferença? Não! Falta-lhes tanto de vocabulário quanto de sensatez. Então, partem para a ameaça e ficam na sua.

 

Entretanto, o Zé, de pernas partidas, assume as novas orelhas, mas vai para casa porque é a final da copa. O G. também vai ver o jogo. Nisto, burros e bullies concordam. Se o mundo é uma bola, que gire no campo.

 

De futuro hipotecado, o Zé critica o mau perder da Argentina. Os senhores doutores não ligam tanto. Querem é ver porrada. A porrada distrai o Zé e, quando der conta, já acha que é culpado da má sorte que o acompanhará num futuro de coxeio. Mesmo manco, lembrar-se-á antes das camisolas rasgadas e das taças erguidas e das costas voltadas. Assim, o Zé resigna-se. Mais depressa a Argentina aplaude a vitória da Espanha do que o G. admite os seus erros.  

 

O Zé está cansado. O Zé quer dormir. As orelhas não assentam bem na almofada. Quer tirar as orelhas. Mas já estão pregadas. Criam raízes para dentro e vão comendo o cérebro como se fosse terra. O Zé não consegue dormir. Não tem futuro. Não tem esperança.

 

O Zé levanta-se. Olha ao espelho. Reconhece-se no reflexo. Aceita o aspeto de jumento. Na verdade, não é um semblante novo. Já tinha aquele aspeto no começo do ano, quando votou no bully para delegado de turma.

 


P.S.: Na sala, há outros Zés. Não votaram em G. Ou votaram, mas queriam não ter votado. Alguns detestam G. Mas quase todos têm medo de levar uma sova no intervalo. E ninguém faz nada.


Marina Ferraz



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terça-feira, 14 de julho de 2026

Simulação

 

Imagem retirada do Pixabay

 O sol nasce. O calor vem. A merda acontece. O jornal anuncia. Saúde, cultura, habitação e economia. Falta de médicos, de professores, de notas, de futuro, de casas, de saídas, de água, de empatia, de noção...

 

Mas o capitalismo está feliz. É o funcionário do mês. Todos os meses. Em todos os lugares. Senhorios, magnatas, empresários que nunca contaram tostão... esses esfregam as mãos. Contentes. As contas estão recheadas e têm lugar à frente para assistir à detonação. Das almas. Dos bairros da lata. Das vidas dos operários do mundano... Haja fertilidade. Mais se façam para os próximos anos...

 

No palco, o artista brilha nos cinco minutos de alegria que só sonhou ter. Roídos de inveja, os que ficam a ver, condenam. Mais fácil é condenar a felicidade do que o Estado que a tira. Mais fácil é condenar a verdade do que aquele que vive de mentira. E vem a ira. As fações. Quem defende e quem ataca, com iguais interjeições. Ódio. Gratuito. Tudo o resto é a pagar...

 

Haja Deus no altar. Até ele despido e desvirtuado. Passar um pano no passado e salpicá-lo com gotas de culpa alheia. O inimigo que esteve e o mal que fez. O remediar desses erros, outra vez. Dizer esculpido em pedra o que foi escrito a giz. E, desmascarado, o devoto: foi Deus que assim quis.

 

Onde vai este país? Já não consigo, não quero ver o que se passa. Mas não consigo, não quero ignorar. É um sentir misturado com a maldição de pensar.

 

O sol põe-se. Vem a noite. Três disparos. Dois feridos. O som acorda os sentidos... mas vamos tão adormecidos, que nem o sono acomete. E amanhã? Acorda e repete...

 

É grave. Entrave. Tão grave que se torna agudo. Um tudo que não é nada. Um nada que se faz tudo. E um pensamento mudo nesta grande salganhada. Querer acordar e ouvir: Simulação terminada.


Marina Ferraz



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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Fingimento compassivo

 


– Tudo bem?

– Tudo bem!

 

Ontem, falava com a Cláudia sobre isto, mas sobre muito mais do que isto. Não sobre o tudo bem de circunstância, dito na rua e em andamento. Sobre aquele que é perguntado e respondido – mesmas palavras, pontuação diferente – entre pessoas que profundamente se amam.

 

Idosos com as suas dores, pessoas com maleitas que atacam o corpo, a mente ou o espírito, gente que tem as contas bancárias perdidas nos sinais de menos. Cuidadores, amigos, parceiros destas pessoas. É desses que falo.

 

– Avó, estás com dores?

– Não, filha, hoje até estou bem...

Palavras ditas, encolhendo-se porque os ossos dão de si e ferem como facas em cada movimento.

– Fico feliz.

 

Julgue-se esta pessoa, se tiver de ser. Esta pessoa que eu fui. Que eu seria ainda hoje, sabendo as razões que a faziam fingir e as que me faziam fingir que acreditava no fingimento.

 

Há muita compaixão em quem sofre, querendo poupar o outro do sofrimento. Há muita compaixão em quem faz de conta que não sabe a verdade depois de ouvir essa mentira dita a custo. Cada pessoa carrega esse fingimento compassivo numa redoma de amor. É dizer fico feliz, mas ir buscar mais uma manta porque o frio acentua as dores que a pessoa diz que não tem. Ou ir fazer um chá porque eu também quero para mim. Mesmo sem precisar de chá, ou mesmo que nem apeteça.

 

Sim, eu sei. Mentir é errado. Eu também acho. Por defeito (literalmente) tendo a dizer a verdade. A sociedade em geral parece nem gostar muito, mas faz-me bem.

 

No entanto, não consigo deixar de pensar que, nestes cenários de mentira, quando ela serve para apaziguar o outro, não estamos a olhar apenas para uma sala cheia de fingimento. Estamos a olhar para sentimentos bastante puros e sadios.

 

 

É muito diferente, por exemplo, dos debates políticos. Onde também toda a gente está a fingir. Onde também toda a gente está a mentir. Mas ninguém quer saber de rigorosamente nada além do seu próprio umbigo.


Marina Ferraz



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