Não quero, não vou... já me falta a paciência, entendam, para os juízos de valor. Não sou ninguém para definir o que é a liberdade de expressão ou o sentido de responsabilidade dos outros, que certamente serão crescidinhos e munidos de um cérebro. Mas o algoritmo tem sido um bocadinho chato e, mesmo contra a minha vontade, vou dando de chapa com os vídeos, os comentários, as opiniões...
Queria dizer que não quero saber. Posso fazer isso. Não quero saber. Mas é mentira! Incomoda-me. O quanto me incomoda não é problema de quem diz o que diz e faz o que faz, mas meu. Meu, porque ainda vou permitindo que algumas palavras permeiem a capa-de-aço que visto diariamente para me proteger de imbecilidade (e do mundo, caso ainda não sejam sinónimos). A minha mãe bem me dizia que devia comprar capas-muralha de melhor qualidade... mas as verbas da escrita são ralas e o que sobra depois de pagos os astronómicos impostos ao Estado e os embolsos mensais das carecentes grandes empresas nem sempre chega para defesas dessas.
Não querendo fazer o disparate de julgar alguém, vou ficar-me pelo apanhado das problemáticas-tendência da semana, incluindo algumas conclusões superficiais, meramente expositivas. Portanto... na mesma semana em que ficamos a saber que gordos não podem ser felizes, descobrimos também que falar dos desconfortos quotidianos do autismo em entrevistas invalida todo o diagnóstico. Na sequência disto, descobrimos ainda que entrevistadores-de-alto-gabarito não sabem a diferença entre a palavra “normalizar” e a palavra “romantizar” e que os “psiquiatras de Facebook” não sabem a diferença entre uma “doença” e uma “divergência” (que é para não correr o risco de a palavra “deficiência” ofender alguém...).
Sacudo as palavras dos outros, o ódio gratuito e até a defesa dos que vêm criticar, mas também sem saberem do que falam. Deixo o telemóvel noutra divisão, para que não haja tentações. Interiormente, tenho opiniões, como toda a gente... e revolta que baste para me nascer este texto, em que tento não soar tão crítica... e falho como os estúpidos. (Deixo aqui uma informação relevante: a estupidez não é sintomática do autismo. Sim, o meu cérebro é autista porque eu nasci assim... é a vida... mas a estupidez não faz parte de uma disfunção cerebral. Veio depois. Talvez da socialização e dos esforços para ser/parecer normal? Nem eu sei!)
Seja como for, minha gente, vou de arrecuo para um beco do qual pensei que tinha saído e tentar ser só invisível outra vez. Falar de quem sou estava a tornar-se mais fácil, mas... deixem! Vou ali para o meu beco, ok? No meu canto, acho que não me sinto tão profundamente exausta.
É um mau momento para não fazer parte da norma.
É um mau momento para não ser os outros.
É um mau momento para existir.
Mas, por favor, continuem... desculpem a interrupção.
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Sim, Marina querida, claro que tens carradas de razão e como te compreendo. Tb eu sinto o mesmo, a ponto de já sequer me restar um nico de paciência para engrupir as catadupas de paleio oco de tantos e tantos comentadeiros de serviço ao poder, de tantos rebanhos de serviçais da narrativa única. Já quase desisti de os ouvir e de os invectivar como costumava fazer. Mas enfim, temos sempre de tentar refazer a nossa existência, procurando impedir que essa lodosa e fétida maré contamine a nossa precisosa paz de espírito que, ela sim, é infinitamente mais fundamental que a abundante produção nacional da verborreia reinante. Fica bem, minha querida. Beijo Zé
ResponderEliminarClaro que tens razão e te compreendo (tu sabes), mas é altura para ir á luta ...Neste momento em que a anti ciência está a atacar ,ajudada por todos os seus algozes e meios disponíveis ,em relação à neurodivergência ,. capacitismo, inclusão..Sei que estás a desabafar mas não, não podemos ficar invisíveis É altura para se ser inteligente e mostrar união, defender ganhos e lutar...A teoria de todos contra todos, tem que ser confrontada! Sabemos que as portas se estão fechando mas desistir, nunca! Nos momentos de desilusão, penso na Inês ... minha guia,. meu farol. A vida de muita gente e seu sofrimento não pode ter sido e vão. Beijinhos. Helena Almeida
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