Todo o romance começa com uma decisão!
Claro. Há a ideia. O ímpeto. A vontade. Mas, para que o romance comece a ser escrito, é preciso que se decida fazê-lo. A decisão é o compromisso. O vínculo. O momento crucial que garante a ação e tudo o que vem depois.
E se, ao pensarem em escrever um romance pensaram em romance... está na hora de dar uma má notícia. No campo dos relacionamentos, o romance está menos para amor e mais para casamento. E nem é um casamento muito bem-sucedido. É um daqueles casamentos padrão, que muitos de nós vimos mil vezes (e que dissuadiram alguns de nós de alguma vez vir a ceder ao ritual socialmente aceite, justamente porque não pareceu uma prisão muito saudável para se viver).
Quem sou eu para falar sobre escrever um romance? Bem... sou alguém que acompanha muitas pessoas que avançam gloriosamente na tarefa e que, saiba-se lá como ou porquê, achou que seria boa ideia tentar (ênfase no tentar!) escrever um também.
Por uma espécie de confidencialidade doutor-paciente (neste caso mentor-aluno) abstenho-me completamente de contar como são os desafios dos autores com quem trabalho. Mais! Garanto, desde já, que se alguma destas criaturas magníficas se identificar com o que se segue é apenas e só porque, quando dispo a docência e caio na condição de escritora, os desafios que encontro não são diferentes. E, bem diz a cultura portuguesa, casa de ferreiro, espeto de pau. Não sei seguir os meus próprios conselhos...
Ora, encontro no romance um parceiro complicado e um bocadinho tóxico. Em alguns dias, fica a olhar para mim com ar de gozo, como se tivesse uma nódoa na camisola ou uma borbulha na ponta do nariz. Não diz nada. Fica ali, a piscar os olhos (ou o cursor). Não anda nem desanda. Completamente inútil. Irrito-me. Estou para me levantar. E eis senão que... decide-se. A ideia. O jorro. Prisão magnética de dedos às teclas. Pensamento demasiado rápido para a velocidade das mãos, comendo sílabas às palavras. Que se dane! Depois corrijo. E, quando olho o relógio, estou atrasada.
Exausta, chego a casa e ali
está ele. Nem me pergunta se quero jantar, se preciso de tomar banho primeiro.
Nada. Faz-se notar. Arrasta-me para o seu assunto. Nem que seja para dizer o
mesmo que já disse. Está a dizê-lo de outra maneira, pelo que lhe devo atenção.
De repente, é um fora de horas muito fora de horas. Tenho de ir dormir. Digo-lhe. E ri-se. A sério, tenho mesmo. Hoje não dá, estou cansada e dói-me a cabeça.
Ele não quer saber das minhas desculpas. Não me obriga a que o escreva, mas
também não me deixa dormir. Discorre. Discursos intermináveis. E perguntas que,
mesmo quando ele adormece, me deixam acordada. Será que estamos bem? Será que ele está bem? E se não estiver?
Perco a noite a pensar sobre isto. Mas é tarde. Não lhe dei a resposta que queria. Não lhe dei a resposta quando queria. Amuou. Agora não quer nada comigo. Bem que posso estar à frente do raio da folha de texto o tempo que me apetecer. Nem um pontito. Faço um dedilhar de teclas só para me iludir, com o som. Sai algo digno de Nobel, tipo kjadshukafhladhli qdohudh ukhfe dedkiqui. Há muita filosofia ali. Pena que vocês não falem esta língua... e eu também não.
A casa está suja porque só eu é que limpo. Há pouca comida no frigorífico porque só eu é que vou às compras. As olheiras afundam-se nos olhos. Dou por mim a ter uma conversa com o romance.
– Meu querido, nós temos que acabar-te um dia... – noto que se assusta.
– Nós temos que acabar?
– Não, idiota, nós temos que acabar-te...
Mas ele não é muito cooperativo.
Por exemplo, no documento word ao lado daquele em que escrevo este texto, tenho o simbolozinho – este | , o do cursor – a piscar. E estou aqui, a fazer o que vejo outras pessoas a fazerem quando o marido é um inútil que não faz nada, não as deixa fazer nada e não as deixa dormir: queixar-me.
Em suma, acho muito corajoso quando uma pessoa toma a decisão de sair da sua rotina para escrever um romance. Porque escrever um romance é muito pouco romântico. Damos por nós a viver duas vidas e a não descansar em nenhuma delas. Tudo porque houve a ideia. O ímpeto. A vontade. Sabíamos de antemão que ia ser duro! Mas abrimos um documento e deixámos que o romance nos escrevesse a nós...
E, agora, vou deixar isto no blog e abrir o documento vizinho, que provavelmente estará amuado com a interrupção e, por isso, não me dirá nada até sabe-se lá quando...
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