terça-feira, 5 de maio de 2026

Terapias

 

Luar na lágrima - Marina Ferraz

Canso-me de estar cansada. E a folha branca, de repente, não quer frases e poemas e histórias. Raios! Raios para ela... agora deu em ter vontade própria! Seja feita a sua vontade...

 

 Frases. Poemas. Histórias. Tudo isso me ocupa a mente. Uma mente, diga-se de passagem, já bem ocupada pelos livros, os problemas, o trabalho e o mundo. Sinto-me quase sempre numa espiral de cansaço. Freneticamente passando de uma tarefa para outra – diz a Isabel que leu algures que “descansar não é só não fazer nada, mas também mudar de atividade” – mas passo de trabalhar em textos alheios para clientes para a escrita das minhas coisas; dessa escrita para a leitura; da leitura para as aulas; das aulas para as notícias. E... estou exausta. Às vezes só noto que estou exausta quando me deito. Porque não me lembro de me deitar. O corpo que aterra no colchão já vai adormecido... Acorda-o, na manhã seguinte, o despertador. Eu não sinto que carregue no “desligar”, nem no “snooze”. Carrego num terceiro botão, inexistente, que diz “repeat”. E saio para cumprir o mesmo dia, qual atleta de ginástica acrobática mental, treinando os mesmos saltos de tarefa em tarefa em tarefa. A última é esta. Sento-me em frente ao computador e abro o Word. A folha branca, de repente, não quer frases e poemas e histórias. E, lá longe, no esquecido cavalete, outra me chama.

 

Apresento-vos alguns dos meus terapeutas. Papel, tinta, pincéis. O cavalete não. Ele é uma espécie de secretário que atende chamadas e anota as datas das consultas. Só serve mesmo de ornamento. Agarro as folhas no colo. As folhas e as tintas são o fundamental. Os pincéis ajudam, claro, mas são rapidamente substituídos pela ancestral tecnologia dos dedos. Atiro-me à arte de pintar sem fazer da pintura arte. Tenho zero técnica e zero empenho. Gosto assim! Sou a miúda da creche a fazer experiências com tinta de óleo comprada na loja dos chineses. Faço borrões na folha e saio daí para uma imaginação livre de referências e com uma falta de critério que arrepiaria qualquer artista plástico. Nunca tenho ideia do que quero pintar e nunca acabo uma pintura sem ser, eu própria, uma pintura. Quando eu pinto há tinta no papel, nas mãos, na roupa... e se a gata, o sofá e as paredes estiverem livres de tinta, é por sorte.

 

Lembro-me de ter gostado da praxe académica – ou parte dela, pelo menos – por me permitir ser criança quando já não o era. Porque era fácil não pensar. Hoje, a minha terapia são as tintas. Este fazer sem querer fazer bem, sem me importar com perfeições, sem ter ideias claras sobre o que quero construir ou o que quero ver no final. É como estar acordada com o cansaço a dormir. É pôr a vida no dito “snooze”.

 

Depois, duas ou três almas caridosas olham para os meus borrões e elogiam-nos. E eu agradeço, mas recuso as maravilhas que dizem encontrar nas imagens. Porque as imagens são só o reflexo da minha necessidade de reclamar um pouco de vazio num mundo que está demasiado cheio de pensamentos e estímulos. Se um dia fizer a exposição que a minha mãe tanto quer, não poderei pendurar o que de mais bonito fica desta terapia: o vazio mental. Mas, se o fizer, para compensar, prometo as unhas encardidas de tinta e quadros muito imperfeitos, feitos ao colo.


 Marina Ferraz



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