terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O (falso) herói

 

Imagem retirada do jornal Expresso

Há uma frase que me acompanha desde menina. De tanto a escutar, não sei a origem. Sei que se me entranhou nos poros. Nada atrapalha mais quem faz do que aquele que nada faz. Expressão que toma também outras formas, que passo a citar para que não existam erros de interpretação, tão frequentes quando a verdade não convém: se não podes ajudar, não atrapalhes.

 

Bem-vindos à campanha eleitoral em tempo de destruição. É um bocadinho tipo amar em tempos de cólera, mas menos literário e mais corrosivo. Filme de comédia triste que ninguém pediu. Sequela de outros filmes. Quase se ouve o genérico: Dos mesmos produtores de “vou ali bater com um raminho num fogo extinto”, chega agora o emocionante “vou ali entregar três garrafinhas de água no meio dos escombros”. Corramos para o cinema, a sessão passa às 13h e às 20 nos canais nacionais e tem seguimento permanente nos canais incluídos nos serviços das principais operadoras de subscrição de TV.

 

Ali está, o herói. Rosto lívido, olheiras fundas. Nem dormiu a pensar que teria de usar a força braçal para transportar itens de primeira necessidade. E não pensemos que seja fácil ou leve. Não são garrafinhas de 250 ou 300 centilitros, nem de meio litro sequer! São de litro e meio, está bem? Tenham tento na língua antes de criticar! Agora sua, descendo escadas com o peso atroz dos produtos. Benze-se, porque todos sabemos que água benta hidrata mais. Aplauda-se o herói. Mas ele nega que o seja. Só um homem, sendo homem. E que importa isso da campanha? Aplauda-se o homem a ser homem, então. O salvador, descido pelos degraus de pedra como Cristo dos céus, ou assim se imagina que possa ser, para cumprir a missão divina que em outras ocasiões já revelou ao mundo. Deus lhe confiou uma missão. Palavras antigas, mas que assim se confirmam com o milagre da conceção de produtos potáveis à desgraçada gentinha.

 

As câmaras viradas para o herói ignoram temporariamente as aldeias remotas às quais nenhuma ajuda chega. E a cidade destruída. E a ausência de luz. E de rede. E de geradores. Voltará lá, porque dá audiências. Mas pára tudo! É preciso mostrar o heroísmo político das gentes da nossa raça. Exultar a gente da nossa raça. Que sabemos todos que se esta tempestade fosse uma Maria em vez de uma Kristin, estaria tudo em pé, como a azinheira de Fátima... mas vêm esses estrangeiros e já se sabe... pobres que são, tudo estragam. Eis a prova!

 

Largando o herói, que não direi quixotesco para não ofender D. Quixote, deixem-me focar os heróis reais. Gente saída à rua para ajudar. Voluntários. Bombeiros. Escuteiros. Pessoas que, mesmo com pouco, dão o que têm, nem que seja o corpo ao manifesto. Não haverá filme sobre eles, nem atenção na hora nobre da TV. Anónimos chegam e partem, fazendo o que podem: tanto, com tão pouco. Aceitando, com um simples revirar de olhos (ou nem isso) que a atenção do país seja voltada para o herói máximo, esse divino, das garrafinhas. Aceitando que os pedidos de ajuda sejam interrompidos para ouvir a sua retórica.

 

Comenta-se. Uns gritam, outros sussurram. Toda a gente consegue transportar duas garrafinhas de água e acenar para a câmera. Qualquer pessoa! Até uma criança de 3 anos!

 

Ouçamos esses gritos e sussurros.

Caríssimos salvadores divinos, rostos magnânimos da política portuguesa, transportadores de meia dúzia de mantimentos e palavras ocas.... por favor, se não forem para realmente ajudar, fiquem em casa, onde não atrapalham. Quem realmente quer trabalhar, agradece.


Marina Ferraz



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