terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O cubículo

 


O voto é livre e livres vamos. É esta a ideia, não é? A da liberdade. A da liberdade que levamos ao opressivo cubículo da cabine eleitoral, escondendo o rosto e pegando na caneta para exercer um direito, um dever. Agentes secretos expondo o enigmático X. As nossas ideias. Ou as ideias que nos impingem. Uma delas.

 

Ali, no cubículo, escondidos da realidade triste da vida, somos os heróis e os vilões. Talvez por isso ocultos atrás da massa opaca, para que não nos vejam os intérpretes dessas subjetividades. Ali, no cubículo, compomos versáteis narrativas de alguns segundos. Somos observados, mas só pelos candidatos. Esses olham-nos. Todos sorrisos. Atiram-nos falsa felicidade a partir dos seus quadradinhos. Sorriem como fizeram nas fotos dos seus casamentos. Forçadamente e a questionar, no seu íntimo, se não estariam melhor noutro lugar. Mas impera sorrir. Sorrisos cativam votos. X marca o lugar. Era assim com os mapas do tesouro. E eles querem ser o tesouro. Só assim podem lucrar com o tesouro.

 

Candidatos que o são e candidatos que não o são sorriem-me. Têm narrativas nos olhos. Alguns dizem que querem salazares e outros que querem um jornalismo mais manso. Alguns dizem que querem salvar o mundo. E há quem seja mais lúcido e diga que quer putas e vinho verde. Abençoados sejam os honestos, que para eles sempre haverá uma adega.

 

Ali, no cubículo, eu talvez devesse ouvir o que dizem esses caçadores de voto. Antes que lancem os cães, achando que o engodo vertido não basta. Mas envolvem-me as estruturas metálicas do verbo desdito e a caneta fala mais alto, enforcando-se no fio que a amarra. São as suas súplicas que ouço, enquanto tiranamente a sufoco com os meus dedos para que cumpra a minha vontade. Essa de oferecer o dito X a algo que se aproxima mais do sonho que eu tenho para o meu país. Essa de fazer parte do legado-dádiva que os meus avós me deram, tentando honrar-lhes a memória e seguir a minha própria voz.

 

Saio. O opressor cubículo é de liberdade e, por isso, dobrando em quatro o boletim, saio.  Saio como quem vai respirar o ar que faltava. Como se o sufoco arrastasse. A cabine de voto é uma divisão onde os tetos são de fragilidade e as margens são ansiosas.

 

O voto é livre e livres vamos. Mas até a caneta está presa por um fio. Quem é queremos enganar? O X marca o lugar do nosso enforcamento. Estamos a escolher a corda.


 Marina Ferraz



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2 comentários:

  1. Pois, Marina querida, tens imensa razão como sempre. Apesar dos laivos poéticos que sempre emprestas aos teu textos, este tema para mim é dos mais repelentes pelas muitas razões que apontaste e tb por outras mais. Deixo apenas mais um aforismo, um curioso writing on the wall: "nas próximas eleições, seja quem for que ganhe TU perdes!" Beijo grande

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  2. Ai o cubículo, ai a liberdade, ai a desgraça... O que eu me pergunto, Marina querida, é como querem que eu vote num bacano que nem sabe se é de esquerda ou de direita, ou se é ou não socialista (claro que ele sabe muitíssimo bem que não é nada, mas não convém confessar)? Como votar em quem vai deixar passar o pacote laboral, eufemismo para a declaração de guerra do capital ao trabalho? Como votar em quem adora a Corina que não contente por oferecer a sua medalha ao rei do mundo, ainda o incita a invadir o seu próprio país? Como apoiar a mentira travestida de verdade dizendo querer unir todos em torno do mesmo lamaçal de sempre? Sinceramente, não tenho já paciência para continuar a engolir mais elefantes bem falantes, nulidades de onde escorre, como escorre o muco, o pús da defesa do que é mais ignóbil? Desculpa esta minha linguagem ácida, mas é como me sinto. Beijo grande.

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