terça-feira, 24 de março de 2015

Coisas da idade



São coisas da idade. Quando eu era menina, o Tempo espreitava-me pela janela, quando eu me despia. Ficava a olhar para o meu corpo, com deslumbramento. O meu corpo de criança, com a pele lisa e clara, onde as brincadeiras imprimiam, de volta em vez, uma cicatriz ou um arranhão. Ele não parecia ver as mazelas. Via o meu corpo de menina, espreitando pela janela. E dizia, sussurrando, achando que eu não ouvia: um dia vou chegar a ti, um dia.
O meu corpo de menina não era perfeito. Misturava os traços da minha preguiça com a minha paixão pelo chocolate. Tinha formas redondinhas, que se enfatizavam no cabelo desalinhado, cheio de caracóis rebeldes que se desfaziam e espetavam numa amálgama volumosa de caos. Mas o Tempo não se importava com o meu corpo imperfeito nem com o meu cabelo desengraçado. Não era isso que via quando olhava para mim. Via apenas a juventude. A juventude inerente à facilidade com a qual, antes do banho, ficava nua, de pés descalços. Olhava para mim, quando eu me despia, perdido em pensamentos e emoções mais fortes que a vida. E dizia, sussurrando, achando que eu não ouvia: um dia vou chegar a ti, um dia.
São coisas da idade. Fui mulher. Tornar-me mulher significou importar-me com o tempo que olhava para mim e dizer-lhe que, se ia continuar a olhar, eu tinha de despir, não só a roupa, mas a vergonha, o desconforto, o complexo. E fiz do meu corpo algo que, tal como o Tempo, eu gostava de olhar. E, olhando ao espelho, para cada uma das imperfeições atenuadas, para o cabelo controlado com mais produtos do que o orgulho deixa admitir, descobri que os traços mais bonitos que trago são ainda as cicatrizes que ficaram da infância.
As linhas brancas e acastanhadas do meu corpo, essas cicatrizes que nunca desapareceram, fazem parte de uma história que nem sempre se pôde contar em voz alta. Contam como, antes de ser uma pessoa confiante, fui atacada, diminuída, troçada. Contam como fui ferida, no embalo da ilusão de que não merecia melhor. Mas nem todas as histórias são tristes. Também contam como brinquei com os meus irmãos na praia, como rebolei descuidadamente na relva fresca, como trabalhei nos jardins e nas vindimas e na construção de amanhãs. Amo essas cicatrizes com uma devoção tão profunda que as mostro ao Tempo, apontando-lhas. "Vês? É a tua marca!", digo-lhe. Mas ele abana a cabeça. E murmura: um dia vou chegar a ti, um dia.
São coisas da idade. Um dia, serei anciã. O Tempo espreitará pela janela. Vai sorrir e troçar, como, antes dele, fizeram tantos. Terei cabelos brancos. O corpo marcado pelo sol, pela vida, pelos anos que correram. E dirá, sussurrando, na consciência de que o ouço: hoje é o dia, cheguei a ti.
Mas é a coisa mais bonita do mundo: a idade. Essa que atravessa corpo e alma. Que nos faz envelhecer, crescer, ganhar traços de maturidade. Essa que nos aproxima da morte, esbatendo perfeições e imperfeições. E, mesmo sem saber, espreitando pela janela, não é para o corpo que o Tempo olha mas antes para o que fica além dele, nessa alteração sublime que, dia após dia, nos diz que tudo é efémero. A idade é o renascer da sabedoria a cada dia que passa. E, com o Tempo, aprendemos isto: não querer o ontem nem o amanhã, viver... é esse o segredo da felicidade. 

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

 Página Oficial de Facebook de Marina Ferraz

4 comentários:

MIDTCLA disse...

Parabens,pelo aniversario e por dividir com todos alem do carinho nos fazer viajar em teus sonhos misturado com ilusoes e verdades, que nos presenteia sempre este trem de ilusoes...muito bom chegar em teus sonhos e acredito que se espanda a todas idades pois faço parte das secsagenarias...

Jennyfer Aguillar disse...

Como sempre um texto perfeito,acho mesmo que a idade não é de todo mal,afinal ganhamos sabedoria,amadurecimento e cultivamos valores que ninguém pode comprar,a idade é uma questão de sentir.
Como já lhe disse Parabéns e que venham muitos mais aninhos e que eu possa acompanhar de perto cada um que se seguir.
Querida mais linda :D
Beijinhos Jenny ^.^

Analu disse...

Adorei o texto,a idade nos faz melhores intelectual e sentimentalmente,aprendemos lições valiosas.
Beijos

Anónimo disse...

Muito bom o texto,gostei das palavras,do sentimento expresso,meus parabéns.