segunda-feira, 16 de março de 2015

Como o céu e o mar


A alegria é azul. Azul como o céu e o mar, que são os mesmos há milhares de anos, sem que ninguém lhes diga que a forma como são está errada.
O mar vem em ondas, embater nas mesmas rochas, fazendo o mesmo som. O som do mar é triste e faz chorar as gaivotas. Mas as pessoas sorriem a olhar o mar. Não dizem que ele devia ter encontrado outra canção nem que se devia libertar de sereias, secar o choro. E, por isso, o mar, esse mar que é o mesmo há milhares de anos, é alegria.
O céu bebeu das lágrimas do mar e chora-as. Inverno após inverno, deixa cair as lágrimas sobre o mundo. E é soturno, às vezes, com as suas nuvens pesadas e cinzentas. Anoitece, faz-se em trevas e deixa cair estrelas, qual diamantes de desejo, as mesmas estrelas há milhares de anos... Mas as pessoas sorriem a olhar o céu. Não dizem que ele devia encontrar estrelas que não caíssem ou estar sempre limpo da angústia escura das nuvens.  E por isso, o céu, esse céu que é o mesmo há milhares de anos, é alegria.
O mar e o céu não são crianças por terem sereias imaginárias e Deuses. Têm seres fantásticos e divindades porque têm a idade do tempo e são respeitados na sua condição anciã. Ninguém chama o mar de criança por ele estar calmo, por ele estar bravo, por ele resmungar no rebentar violento de uma onda. Ninguém olha para a jovialidade do céu porque ele resolve provocar dilúvios ou secas. Não há, na idade infinita do céu e do mar uma juventude de acusações. Ninguém lê a tristeza do mar como extenuante. Ninguém lê as lágrimas do céu como excessivas. Olhando para eles, lê-se alegria. A alegria de uma constância que permanece, década após década, século após século.
Então o mar e o céu são alegria azul e o azul é a alegria do mundo. Sem mudanças, sem o silêncio das tempestades, sem o desanuvio dos tormentos. O mar e o céu são alegria, apesar de continuarem aí, a chorar, a gritar, a embater violentamente contra praias e prados.
São Natureza, diriam, na justificação fugaz dos sorrisos com os quais brindam as atitudes ferozes desse céu e desse oceano. E são. São Natureza. Mas eu também sou. Também sou Natureza. Também sou alegria. E também continuarei por aí a chorar, a gritar, a embater violentamente contra o mundo, não em água, não em ar, mas em palavras. Há uma serenidade azul na minha alma. E sou feliz. Feliz como o mar, feliz como o céu. Feliz como esses que vivem intempestivamente há milhares de anos, sem abandonarem o que os torna imortais.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

1 comentário:

Jennyfer Aguillar disse...

Que perfeito Ma,eu adoro os seus textos por todo o sentimento que tenho quando leio o que tu escreves,cada palavra é um pedacinho da minha alma,e " Há uma serenidade azul na minha alma. E sou feliz. Feliz como o mar, feliz como o céu. Feliz como esses que vivem intempestivamente há milhares de anos, sem abandonarem o que os torna imortais." Minha parte preferida :)
Parabéns querida :D
Beijinhos Jenny ^.^