terça-feira, 10 de março de 2015

A hora exacta


 "Se tu vens, por exemplo, as quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. 
Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. 
Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! 
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..."

- Antoine de Saint-Exupéry
  
A que hora chegas, meu amor? Diz-me a hora e o minuto exacto dessa chegada. O segundo no qual posso aproximar-me na janela e ver mais do que o vazio do asfalto corroído pelas sombras delineadas da tua ausência. Tardas. Tardas e o coração adormece. Não quero esperar mais. Preciso de ti.
A que hora chegas, meu amor? Diz-me porque dura, na ausência, o silêncio de ponteiros que andam, sem sentido, marcando sempre a hora da saudade. Eles andam em rodopio, numa busca incessante pela tua chegada. E eu, como eles, vagueio pela memória de ti, à procura do indicio que me conte qual o momento no qual o meu coração vai poder bater mais perto do teu.
A que hora chegas, meu amor? Marcámos a hora da partida. Cumprimos esse horário com a devoção tardia e matura de um ancião. Medimos até os entremeios dos segundos, com medo de que fosses tarde. Nessa constante de ter medo do atraso, esquecemos o futuro para viver o presente. Nunca soube a que horas tornarias a virar a esquina da rua. Nunca soube o momento no qual poderia aproximar-me das janelas sem medo de contemplar o vazio.
O relógio continua. A sua dança milenar a entoar cânticos mudos e desfeitos em promessas sobre uma hora que não chega. E olho para ele, desejando a hora. Mas que hora? Não sei dizer! Sei apenas que o relógio marca a hora da saudade e os minutos da minha solidão. Preciso que ponhas termo a esta inconstância, a esta loucura. A que hora chegas, meu amor?
Quero saber! Quero saber a hora, o minuto, o segundo concreto da tua chegada. Quero preparar a alma para a felicidade. Quero preparar o coração para o amor. No momento de te receber, não quero ser uma figura taciturna e cheia de vazios. Quero ter um sorriso no rosto e um beijo pronto. Quero ter passos que corram na direcção da porta e um abraço preparado. Sobre a mesa, quero ter uma vela acesa, seu fogo consumindo aos poucos a cera, aquecendo a sala e o Universo.
A que hora chegas, meu amor? Saíste à hora certa e com a promessa de voltar. Mas preciso que me digas quando. Como poderei viver as horas da tua ausência sem saber em que momento a ausência se desfaz?
Os ponteiros avançam. Foi a hora da partida. A hora da tristeza. A hora da saudade. A hora da solidão. Cada minuto feito com as nuances da espera. E fico a olhar para a medida sem sentido dos números que avançam sem que eu saiba qual desejar. Não sei qual é a hora do regresso. E, por isso, permaneço imóvel, nesta espera feita de impaciência e desespero. Não! Não deixes que assim seja. Não deixes nas mãos do acaso esse momento que desejo e sem o qual os ponteiros não fazem sentido. Por favor... Quero preparar o coração. A que hora chegas meu amor?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

4 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Que texto perfeito *-* a citação de O Pequeno Princípe se encaixou perfeitamente :D
Também quero saber a hora em que chegas hehe.
Parabéns querida :)
Beijinhos Jenny ^.^

Anónimo disse...

A hora exacta ajudará meu coração a acalmar-se,e ver o que espero chegar de mansinho...
Gostei bastante,há muita poeticidade em vosso jeito de escrever.

Analu disse...

Quando a Jê me mandou esse texto não pude acreditar como se encaixa perfeitamente ao momento que estou passando agora,essa ansiedade de saber a que horas meu amor chega para me fazer sorrir.
Você é muito talentosa :)

Anónimo disse...

Gostei demais,mandei até para minha noiva,ela adorou e disse que é incrível.
Abraços,Jonas