terça-feira, 8 de março de 2016

Noite ausente



A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. A solidão da cama vazia. A solidão do eu vazio. E o espaço deserto onde, de outra forma, noutro dia, talvez estivesse o teu corpo para preencher os nossos vazios.
Lágrimas nos olhos. Raiva, medo, dor. E os ouvidos atentos à cidade. O coração acelerado sempre que um carro pára ou hesita junto à nossa porta. Ainda é a nossa porta? Ou será agora só a minha? E se for, por entre o vazio, apenas uma porta, sem possessivo que a torne a entrada para um lar? Lágrimas nos olhos. Orações para que sejas tu. Orações para que não sejas. Não sei o que dizer. Não sei se quero ouvir-te. Sei que não quero este vazio de estrelas e lua nova.
A aflição. Vazia. Não saber onde estás. Não saber se estás bem. Não saber se ainda guardo o direito de querer saber. E a cama. Vazia. Eu. Vazia. O espaço deserto. A noite ausente que permeia todos os meus medos e os preenche nas razões descontroladas da falta de vontade. A memória que vai. Que vem. Assola. Atormenta. Não me deixa dormir. Não me deixa mexer. Perco-me de mim no vazio da cama . Os lençóis pesam como pedras. Amarram-me como cordas feitas de aço. Apertam-me o peito contra o colchão e sinto que a respiração me falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. E, por entre o choro compulsivo, sei que não são palavras ocas. A cama vazia. Eu, vazia. As palavra não. As palavras cheias de sentidos e vontades e significado. "Antes falhasse o coração.".
Percebo que o mundo me assusta. Mas a morte não. Percebo que as pessoas me assustam. Mas a morte não. E sinto que poderia despedir-me da vida e das pessoas, sem vislumbrar, sequer, o mais pequeno indício de medo. E lembro-me de ti. Como da morte. Talvez te tenha amado por isso mesmo. Porque não me assustava a ideia de te amar, embora me assustasse a ideia do amor.
Raiva. Medo. Superstição tonta e desajustada que me impede de fechar os olhos e dizer "até amanhã" à dor. E os carros que passam e param lá fora, sem que se abra a porta fechada, batida, iluminada pela luz das estrelas que não querem saber de nós. "Antes falhasse o coração", repito para mim, enquanto sinto, no peito, doer a respiração doentia. E imagino que ele falha e tu regressas. Penso na justiça do mundo que te faria sofrer mais do que eu. E percebo que, embora não tenha medo de morrer, tenho medo da morte. Dos efeitos da morte. Da justiça sempre injusta deste mundo que não faz mais do que intercalar a dor e o sofrimento de um peito para o outro, sem nunca a deixar desvanecer.
"Volta", penso para mim. Vazia. "Volta a entrar pela porta e diz que é a nossa porta. Volta a deitar-te na cama e diz que é a nossa cama. Volta a dizer que me amas e que é o nosso amor." A noite ausente vai passando. A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. Vazia de tudo. E desenrolam-se pensamentos pouco nítidos na prisão dos lençóis que não sabem que, independentemente do que façam, eu não me deixarei dormir enquanto não te ouvir chegar.
A aflição. Vazia. É por entre a aflição vazia que a porta se abre. É por entre o seu vazio que ela se fecha atrás de ti. Tens muitas coisas para dizer. E eu ouço. Mas não digo nada. Afasto os lençóis. Liberto-me da sua prisão. Encosto-me a ti. O teu cheiro. O teu calor. E ouço-te falar das falhas do eu. Das falhas do nós. Falhámos em cada passo. Prevês que vamos falhar de novo e de novo, até não haver outra coisa que não a falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. Mas não o digo. Perdoas-me. Perdoo-te. A esperança que escasseia é melhor do que o vazio.
A cama completa. Quente de ti, que chegaste. Feliz de mim, que me deito no teu aconchego. E o espaço perfeito onde o teu corpo permanece e preenche os nossos vazios. Outra vez. Até voltarmos a falhar. E a oração, breve e cheia de sentidos: "antes falhe o coração".

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

Sigam também o meu instagram, aqui.

2 comentários:

Jennyfer Aguillar disse...

Como seu texto mexeu comigo hehe,de modo positivo,claro.Refleti sobre todas as pessoas que sentem o mesmo toda noite sem terem a oportunidade de ver seu amado voltar,para continuar falhando juntos.Senti as sensações da personagem,quis chorar com ela,quis sentar-me com ela e consolá-la,gosto de textos assim,que incluem o leitor no cenário,na história,que o fazem sentir.
Não sei mais o que falar além de que é um texto incrível,atordoante e mágico,fiquei sem ar ao ler e retomei a leitura com lágrimas aos olhos.Muito bom mesmo :D
Parabéns minha querida <3
Beijinhos Jenny ^.^

Paulo disse...

Gostei imenso,palavras sábias,tenho muitos amigos assim e eles tem bem mais respeito que muitos outros.
Belíssimo!!