quarta-feira, 21 de março de 2018

A cor das minhas paredes




Às vezes, o teu vazio pinta-me as paredes. E, ainda que me não chovam os olhos, é como se houvesse invernos e grades em meu redor. Prendem-me a mim mesma e fazem-me perceber bem as razões pelas quais não estás. Por um segundo, eu também quero ir. Não sinto que sou um bom lugar para edificar amanhãs.
A cor das minhas paredes é o teu cheiro. Lavado com lixívia e detergente. Esfregado com panos e unhas. Mas impregnado. Imutável. Na memória sensorial que te torna eterno nos meus segundos de desespero.
Digo que não te amo. Assim. Simples. Não te amo. Grito. Em silêncio. O grito mais desenfreado de todos. E o mais pacato. Ninguém o ouve. Queima a ferros na pele. E dói. Mas não deixa marca. Tal e qual como esse passado que se finge que já foi. E nunca passa.
Sou filha do mar e das descobertas que um povo nele fez. Tenho sal na pele e especiarias na língua. Tento fazer o meu fado. Fiel. Mas a verdade é que, na pele, eu queria as tuas mãos. Na língua, eu queria a dança dos nossos beijos. E este país fadista é hoje todo saudade e mortos a boiar nas águas negras ao largo do Cabo das Tormentas.
Amas-me?
Faço a pergunta ao vazio das paredes. E as paredes desonram o passado. Dizem-me que pare. Que seque as perguntas como sequei os olhos. Que te deixe ser feliz. Que me esqueça de perguntar. Tudo. Isso. Também isso. Se me amas. E calo-me. Obedeço. Percebo que pouco mais tenho feito além de obedecer. O mundo é todo meu dono. E eu sou escrava dessas vontades que me não são. Vergo-me às chibatadas do tempo. E dou as costas, feitas de asas. Para que me arranquem as penas. Essas que consomem o espírito.
Eu sou muitas coisas. Eu não sou ninguém. E hoje sinto.
Pouco há no chão além de pedras. E corpos que apodrecem. Invejo, de ambos, a sorte da inércia. Invejo-lhes o sono pesado. E a forma como não vêem o vazio que hoje me pinta as paredes.






*Imagem retirada da Internet


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3 comentários:

Chellot disse...

"Eu sou muitas coisas. Eu não sou ninguém."
A cor de suas paredes é profunda e bela, mesmo que pareça não ser pintada ou ser coberta de trevas.

Gostei de ler-te.
Beijos doces.

Lejla disse...

Love your blog, hope you'll follow back:)

Anónimo disse...

Me transporto a cada texto,lindo♡