terça-feira, 6 de março de 2018

Overdose




A dualidade da vida é, talvez, um pouco mais simples do que as linhas pardas com as quais tentam pintá-la. Pisando as pedras do chão, em desenhos brancos e negros, sinto-me criança outra vez. Saltando, de desenho em desenho. “E quem pisar as brancas, morre.”.
“A miúda vai cair”.
Ainda soam as palavras. De alguém. Que, indo atrás de mim ou à minha frente, não saltava as pedras. Morria. Nas brancas. Sem arriscar os saltos. Julgando-me, talvez, infantil e idiota por insistir numa brincadeira de quilómetros. E julgando sempre que acabaria ferida, de rojo no chão, com os joelhos esfolados. Por não andar. De uma forma normal. Como os outros.
Mas andar como os outros sempre me pareceu pouco. Porque os passos que dão são sisudos e fechados em si mesmos. Não contam. Assentam-se no desejo do destino. E a meta é só lá à frente. Por vezes nem chega. Anda, também em passos “normais”, ao mesmo ritmo daqueles que acham que o caminho importa pouco.
A dualidade da vida é bastante simples: molda-se entre a falta e o excesso. E nas críticas daqueles que têm falta sobre aqueles que têm excesso. E nas críticas daqueles que têm excesso sobre aqueles que têm falta. E todos somos falta e excesso. Uns mais. Uns menos. Uns numas coisas. Outros noutras. Somos todos dualidade, embora nem todos sejamos vida.
Àqueles a quem falta o desejo de imaginar fossos no sítio das pedras brancas, falta geralmente visão sobre o que acontece no mundo e fora de si mesmos. E falta-lhes motivação para acordar. Razões para sorrir. Esperança num universo mais justo. Falta-lhes um sorriso que se dê, vadio, nas mesmas ruas onde caminham. Falta-lhes a loucura da decisão inesperada e do “é agora ou nunca”. Falta-lhes a capacidade de esquecer o risco que se prende à ação. Falta-lhes a vida que devia haver entre o berço e a sepultura.
Salto. De um desenho para o outro. Entre um desenho e o outro há pedras brancas. Mas imagino falésias que levam ao nada. E rodopio sobre as pedras escuras, dançando o jogo da ilusão. Tenho, talvez, excessos. De imaginação e sonhos e ilusões. Tardias e cândidas, fazendo de mim criança mesmo quando os anos passam. Tenho excesso da menina que fui. Excesso dos seus cabelos encaracolados e da sua timidez morta em cânticos à lua pelas ruas da cidade. Excesso de palavras presas, que criam mundos na minha cabeça, meio loucos, meio díspares, todos feitos de uma alucinação presente.
E sei que vou morrer. Tenho excesso desta certeza. E, talvez porque a tenho, em excesso, não me assusta a ideia da morte. É apenas pisar as pedras brancas do caminho. E a meta é essa.
Não tenho medo da morte, nem dos excessos. Sinto que posso viver nessa overdose de sentimentos e sonhos, de forma segura e eterna. Serei sempre princesa no meu tempo que não envelhece, de asas fechadas sobre as costas onde nascem luas e elementos feitos a tinta. Salto.
Quem pisar as brancas morre. Toda a gente morre. Mas alguns morrem de falta. Pisando as pedras brancas.
Eu não. Eu piso as pretas. Vou. Vou de excessos e rumo aos excessos. Também vou morrer. Quero morrer. A eternidade assusta-me. Mas, quando morrer, quero que seja de overdose de vida.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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