quarta-feira, 14 de março de 2018

Leva tudo




“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.” (William Shakespeare)

Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Não quero olhares complacentes nem penas atiradas ao ar. Nem mesmo nuances gastas entoando o tanto que te dei. Porque a vida não é sobre as coisas que são dadas. É sobre aquelas que se roubam, apesar do muito oferecido, numa ganância sentimental que só culmina no exagero do vazio.
Se vais procurar um espaço mais cheio, onde caibas, inteiro, acho que deves ir. Mas, por favor, não me deixes os monos da tua passagem. Não me deixes nada que possa lembrar-me das noites de riso, dos corpos dançando sem som, ao ritmo de um amor eterno que, afinal, tinha prazo de validade.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva tudo contigo.
Já basta que se tenha agarrado às paredes a memória do que ninguém sabe. Das melhores sensações, às discussões mais abruptas. Onde tanto foi feito, onde tanto foi dito. Basta que se tenha agarrado às minhas paredes o rancor e a solidão, entre os quais vou viver, tentando construir com o tempo algo de mais firme e mais meu. Não quero as tuas mesas nem os teus filmes, nem as tuas bugigangas. Não quero o teu sofá nem as tuas toalhas. Nem as tuas chávenas, nem as tuas velas. Hei-de encontrar outra forma de alumiar as noites frias. Hei-de encontrar outra forma de as aquecer.
Leva tudo contigo. Deixa-me, por favor, prateleiras sem nada, gavetas vazias e divisões onde o eco preenche espaços desalentados. E, de resto leva tudo. Por favor. O que já tinhas. O que compraste. As coisas que te dei. Principalmente essas. Leva-as. Se não as quiseres, podes deitá-las fora. Queimá-las. Mas leva-as. E, com elas, também este inútil coração – que não é mais do que cacos, outra vez. Leva-o, porque to dei e não o quero mais. Nunca mais. Queima-o com os livros e os poemas. Queima-o com os elefantes e as garrafas. Queima-o. Outra vez.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Já basta que o chão tenha os teus passos. E que o teu cheiro seja uma memória de manhãs de sol. Já me basta sentir-te os beijos no café e o toque no cair da água sobre o corpo despido. Já me basta recordar-te os pedidos dos dias quentes. Não quero que te fiquem as memórias rasteiras, feito hera, a proliferar nas minhas paredes, nas minhas gavetas, na minha esperança. Leva. Leva também a esperança. Leva tudo contigo.
Com o vazio, reaprenderei a lição. Perceberei novamente a sina de se ser monstro, entre humanos. Espelho eterno do que nunca se sabe. E estarei mais próxima do que me fez ser eu, antes de me roubares de mim, para me prometeres algo que, afinal, não podias dar-me. Ou que podias… e eu não deixei. Ou que deixei… mas não conseguiste. Deixa-me reaprender, dando as mãos à solidão que, antes de ti, sempre me assinou os livros de visita.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Não os deixes aqui, a fazer-me lembrar do que podia ter sido e não foi. Leva tudo contigo. Para eu me esquecer. Para eu fingir que me vou esquecer. Como se pudesse esquecer… logo eu, que sei de cor cada detalhe de ti.






*Imagem retirada da Internet


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