terça-feira, 1 de maio de 2018

Três idosos e um ananás




Do outro lado do vidro, eles são invisíveis. E as pessoas passam. Eles ficam. Todos na mesma mesa. E todos sozinhos. Conhecendo-se. Mas é como se não se conhecessem, nos olhares vazios e vagos, que oscilam entre os pedaços de poeira no ar e as próprias mãos.
Estão numa mesa redonda. Ninguém é mais do que ninguém. Porque não há cabeceiras nem vontade de ser, nesta fase da vida, mais do que uma criatura sem hierarquia. Permanecem. E são invisíveis. Afogam-se no anonimato da mesa branca. Vazia. Ou quase vazia. No seu centro, uma coroa. A do ananás, pouco maduro e inteiro. Terão, talvez, ido às compras antes de se sentar. Ou talvez o ananás sirva de centro de mesa às suas angústias. Não sei.
De tão tristes os olhos que lhes pintam cenários nos rostos enrugados e ausentes, imagino-lhes histórias. Por preguiça, pinto em todos eles a mesma história. Um dia amaram alguém. E era para a vida toda. Até não ser. Talvez tenham morrido ali mesmo, quando não foi. Mas agarravam-se às memórias. E isso fazia passar os dias, que não tinham sabor. Um de cada vez, levando-os da juventude à velhice, onde se sentavam juntos, com o ananás, apenas para partilharem a solidão.
Do outro lado do vidro, eles são solidão. Ninguém ri. Ninguém fala. São esqueletos à espera das carnes comidas sob a terra. Não têm mais nada além do vazio. E do pó no ar. E das mãos. O único reino que governaram foi a própria casa. A única guerra que travaram foi a do coração. Imagino que um deles se ofende. Não senhora! Esteve no ultramar. Não é bem assim! Esteve lá, onde tudo era saudade e vontade de voltar. Voltara. Para cá. Onde tudo é solidão e vontade de morrer.
O ananás no centro da mesa. Memória doce e imatura do amor que foi. Do amor que não foi. Enfim, do amor. E mil explicações colocadas nessa memória do tempo em que o palato lhes permitia sentir com exímia eficácia todos os travos agridoces da fruta rainha… e o toque lhes permitia explorar o desejo carnudo de alguém que devia ter ficado e partiu.
Sentam-se, incrivelmente sós, na mesma mesa. E são invisíveis. Ninguém parece vê-los. Ninguém parece ver o ananás. E as palavras que se trocam em redor, criando aquela algazarra típica de murmurinhe, não lhes passa pelos lábios. Eles contemplam. Porque acordaram de manhã. E ainda estavam vivos. Então, partilharam mesa. E no seu centro puseram o ananás, como poderiam ter posto o vácuo que transportam no peito.
Sinto-lhes a solidão. Do outro lado do vidro, sou eu que ocupo aquela quarta cadeira. Sinto-me velha e sinto-me só. Não me apetece falar. Apetece-me olhar para o ananás no centro da mesa. Travando a minha própria guerra. Tu gostavas de ananás. É só isso que eu sei.




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