terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma última carta



Eu escrevi-te uma última carta. À mão, como sempre achei que deviam escrever-se cartas de amor. O papel era todo branco. E escrevi a caneta, porque sabia que não quereria apagar uma única palavra.
Quando comecei a escrever a tua carta, questionei quais as razões de o fazer. Tu, com um pé fora da porta e eu, depois de me ter sido arrancado até a mais ínfima centelha de esperança. Parecia-me que se esgotavam as razões. Não haver razões pareceu-me uma boa razão. E, então, escrevi.
A primeira página da minha carta falava de nós e de elefantes. E da lua aqui ao lado. E da fogueira. E do fogo. Falava do olhar sobre um horizonte feito do teu passado todo. E de uma queda de água que nos roubou uma palavra de amor… a mim, pela primeira vez. Ler tudo isto fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te recordar do que foi. Mas eu não acho que te esqueceste. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do que correu mal. Da forma como nos dávamos, de raiva, a emoções que nem deviam ter existido, desejando, de alguma maneira, que a paixão do toque embriagado nos libertasse da falta de entendimento. E falei dos olhos na tela preta e branca. Dos cacos no chão e dentro de mim. Dentro de ti. Falei da poeira acumulada na madeira e do frio da noite onde palavras me sufocavam e não achavam forma de sair. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer a mim mesma que tinha de ser assim. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do futuro. Da forma como ainda te desejo cafés e paixões entregues na cama. De como te quero com olhos e céus azuis e soalheiros. Dizia, algures, que queria ser eu a entregar-te cafés e paixões. Um dia. Quando o teu relógio e o meu tivessem chegado a consenso. E o teu coração e o meu tivessem aprendido a lição. Acrescentei que há futuros feitos de passados que não se repetem E pedi que não tivesses medo de dar a volta. De voltar. Pedi que a honestidade do teu coração fosse mais forte do que o teu orgulho ou do que qualquer grau de intransigência virginiana. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te pedir que voltasses, fosse quando fosse. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Não a parei. Disse que te desejava o melhor do mundo e da vida. E que sabia que, dos teus pés de galinha até ao teu coração de diamante, não havia nada errado em ti. Desejei que encontrasses o que procuras e que te encontrasses. Que mantivesses a força e que a vida te tratasse com respeito. Desejei sorte para acompanhar o teu esforço, que é sempre tanto. E sol no rosto. E motivos para sorrires. Disse que nada do que foi e nada do que vem te mudaria aos meus olhos. Que eras das melhores pessoas que conheci e que há mares mais pequenos do que o teu coração. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer que te amo. E pareceu-me um excelente motivo para te escrever uma carta.
Então, peguei nela, dobrei-a em dois, rasguei-a e deitei-a fora.
Porque me apercebi de que não importa quão bom é o motivo nem quão puro é o amor. Continuava a ser uma folha. Já não estava em branco. Tinha palavras a caneta e pensamentos. A contar uma história que já não tinha mais páginas para escrever.
Não era uma carta. Era uma lágrima pendente. À espera da resposta que, se não viesse, seria para me ferir e, se chegasse, seria para me torturar.
Eu escrevi-te uma última carta. Escrevi-a com o coração rasgado. E rasguei-a também. Deitei-a fora. Sozinha. Mas só porque não sei aonde se reciclam corações.





*Imagem retirada da Internet


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1 comentário:

Unknown disse...

Acabei de virar seu fã, sua escrita é linda, passa o sentimento pra quem lê.