quarta-feira, 9 de maio de 2018

No mesmo dia




Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que conquisto o mundo, me esqueço de como se enlaçam os atacadores das sapatilhas. Venço desafios, com os cordões enrolados e metidos para dentro delas. E aceno com sorrisos, sentindo o desconforto de eles ficarem sob os meus pés.
E, no mesmo dia, passo ao lado das desgraças noticiadas sem lançar um segundo olhar à televisão e ajudo a idosa a tirar o garrafão de água da prateleira do supermercado.
Tenho sorrisos e lágrimas. No mesmo dia. Tal como tenho ódios e amores. E a sensação de que tudo é perfeito. E uma vontade depressiva de morrer.
Quem sou eu? Sei lá!
Sei que acordo e adormeço depois de mil estações do ano passarem por mim, no mesmo dia. E que todos os meus outonos e primaveras, amenos e complacentes, chocam com o extremismo frio e escaldante das minhas ansiedades, sentimentos e decisões.
Dou um passo em frente e um atrás. Uma dança que acontece. Mil vezes. Duas mil vezes. No mesmo dia. E procuro no céu (ou debaixo da cama) uma centelha de esperança que me ajude a lidar com os meus medos, eternamente vincados; e a minha coragem, eternamente louca.
No mesmo dia em que levanto do chão os olhos de quem nele os posou há tanto tempo, com discursos que enunciam otimismo e confiança; eu pouso os meus no chão, com a sensação de que nada existe no mundo capaz de me fazer sorrir. E, no mesmo dia em que ataco, com frases duras, impensadas (e quantas vezes injustas?) aqueles que me cruzam o caminho, eu ensino os meus sobrinhos que as palavras são como as setas e têm um toque sagrado, devendo ser cuidadas e modeladas com amor, antes de se darem aos outros.
Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que me sinto princesa de contos de fadas, conto os trocos do bolso para saber se posso ir beber um café. E relembro as sombras de olhos que se fecharam no açúcar assente no fundo. E recuso a ideia da morte. Morro. E digo que sou imortal.
No mesmo dia em que agarro o urso de peluche junto ao peito e deixo que as lágrimas lhe deixem o pêlo sintético húmido, levanto-me e luto contra as tempestades da vida, como se nas costas, em vez de cicatrizes, tivesse asas e capas de super-herói.
E voo. E rastejo. E grito. E rio. Faço cambalhotas no ar. E queixo-me das dores nas articulações. Sinto-me entravada. Sinto-me enérgica. Viva. Descontente. Alheia. Atenta a tudo.
Agora sou um ser que vibra. Agora já não.
Sou tudo. Não sou nada.
No mesmo dia.
Quem sou eu? Sei lá!
Sou curiosa. Não quero saber.
No mesmo dia em que tento descobrir esta resposta, sei que não importa a resposta ou sequer que existam respostas.
Ainda estou viva. Celebro isso. E sou quem sou. Seja eu quem for.





*Imagem retirada da Internet


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