terça-feira, 18 de agosto de 2026

Carta aberta a uma mulher conservadora

 

Imagem retirada do Pixabay

Esta é uma carta aberta. Está aberta, provavelmente, porque o teu marido a abriu assim que chegou. Nada temas! Não vou dizer nada que ponha em causa a tua integridade. Sei bem os valores que defendes, todos tão religiosos e familiares. Sempre gostaste do bafiento aroma a anteontem com flor de laranjeira, que a mim nada me diz. E está tudo bem! Não podemos todos perfumar a casa com cravos vermelhos.

 

É engraçado que tenhamos crescido a escutar a mesma História. Engraçado que tenhamos desenhado, no mesmo quadro de ardósia, os mesmos números. Engraçado que tenhamos obtido somas tão diferentes dos números da História.

 

Mas não devia espantar-me. Quando eu sonhei com ser livre, tu sonhaste com o casamento. Quando eu me debati com as dificuldades da vida, já tinhas um diamante no dedo. Subiste de branco ao altar, quando eu vesti negro pelas ruas. Tiveste três filhos antes que eu tivesse a coragem de adotar um gato. Tivemos a nossa fase dos cosméticos e da maquilhagem em simultâneo. Eu, para ir a eventos. Tu, para esconder as negras. Tivemos o mesmo vício de correr para o banho mal chegávamos a casa. Eu, para enfiar o pijama. Tu, para que o teu homem não sujasse as mãos quando te batesse. Tive as minhas noites de amor e de insónia, onde tiveste noites de agressão e desmaio. Falei mais das minhas aventuras do que tu falaste das desventuras. Menina boa, sempre o soubemos, é a que cala.

 

Vi-te largar o silêncio. Fiquei tão feliz. Pensei que tivesses encontrado a voz debaixo da cama. Que a tivesses agarrado e erguido, no cansaço. (Foi idiotice minha essa alegria. Perdoa-me se vejo o mundo pelo meu filtro e acredito saber o que te faria feliz. Não precisas de me julgar... Eu própria me julguei pelo julgamento, dizendo a mim mesma que tens todo o direito de manter o teu conservadorismo, essa raiz antiga, servil de escravidão cor-de-rosa. Tens razão, não tenho o direito de te julgar!) Só que, ao ergueres a voz, uniste-a à de gente igual a ti. Fizeste um grito antifeminista, benzendo-te. E da tua boca saíram sentenças que condenavam as outras. E, entre as outras, estava eu.

 

Os valores bíblicos que voaram dos teus lábios – quando abriram pela última vez? Quando sangraram, esmurrados, no chão da esperança? – falavam da mulher-mãe, da mulher-esposa, da mulher que o feminismo tentou matar. E sabes o que ouvi? A Liberdade...

 

Os meus cravos voaram da tua boca, como pombas brancas. Os meus cravos voaram da tua boca, como palavras. E as tuas pombas tapavam o meu sol. As tuas palavras abalavam os meus direitos. E, ainda assim, eram pombas e palavras que só existiam porque, um dia, mulheres como eu defenderam a tua boca e a tua garganta e a tua voz e o teu espírito.

 

Esta noite, quando chegares a esta carta aberta e antes que sejas violada como o envelope que envolvia o manuscrito, gostava que soubesses que defendo o teu direito de seres a mulher que queres ser.

 

Eu fiz as contas à História. Sei que não posso vencer uma batalha contra o ciclo. Já me entra nos olhos a poeira dos sacudidos lençóis que se tinham guardado no baú. Ainda bem. Servirão de mortalha para mim e outras como eu. E perguntarás porquê. Por que razão precisaremos de mortalha se não podemos vencer o ciclo. Minha querida, entende. Mulheres como eu lutam, mesmo por causas perdidas. E sabes para quê?

 

Sabes para quê?

 

Entendes para quê?

 

Para que possas decidir tomar o teu banho antes de..., cuidar dos teus filhos, fazer o teu jantar, dar prazer ao teu homem e sair às ruas de voz erguida num alegado-Deus para tentares roubar-me o direito de escolher outra coisa.

 

 Assinado,

Uma mulher feminista


Marina Ferraz



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