terça-feira, 27 de abril de 2021

Prazo de validade

 



Sabemos o quê e não o quando. E há um motivo para que assim seja.

 

Quando caímos no mundo somos mais um lugar-comum. Gente que dizem perfeita, se calha ter todos os dedos nos pés e nas mãos, como se a falta de um mindinho interessasse para definir a essência do eu. Gente que dizem viva porque chora e que incentivam a chorar, naquele primeiro minuto, para, depois, tentarem silenciar o choro durante o tempo de uma vida. Somos expelidos do corpo alheio. Nunca rasgaremos outro corpo com igual violência e nunca alguém nos amará com maior intensidade do que o ser residente nessa casca rasgada por nós. E informam-nos que somos perfeitos. Não somos. Dizem-nos o nosso nome. Que não escolhemos. O mundo embala e sussurra. Vais morrer, um dia.

 

Nascemos sem memória de nascer e crescemos sem memória de crescer. O confronto com morte é uma das primeiras realidades recordadas pelos olhos que assistem ao desaparecimento das gentes, numa cadeia que pode ou não ser ciclo. Que pode ou não ser linear. Sabemos o quê e não o quando. Mesmo antes de compreendermos a diferença entre os quês e os quandos. Mesmo quando ainda estamos a tentar perceber certos e errados que alguém estipulou, enquanto escrevia obras de ficção religiosa.

 

Às vezes, olho as fotografias dos idos e esqueço-me que não sou um deles. Porque os imagino no meu ouvido, a quererem dizer que me amam. Outra vez. A quererem dizer que eu sou digna de amor. Outra vez. E condenados ao silêncio. E penso. Amo-te. Mas não digo. E penso. Serei digna do teu amor? Mas não pergunto.

 

O prazo de validade encurta. Gasto as respirações que me sobram, sabendo que as subtraio da lista do eu. A imagem, cada vez mais certa, do dia em que a palavra presa na garganta emudeça torna-se mais cancerígena em cada respiração. Talvez vire tumor. Talvez me mate. Talvez me coma as entranhas e me faça una com o Universo, para que me olhes nas noites de nuvens altas.

 

Sabemos o quê e não o quando. E há um motivo para que assim seja. Para que saibamos que vamos desaparecer e não saibamos o dia, a hora, o minuto e o segundo do nosso desaparecimento. Para que tenhamos a morte destinada mas não possamos organizar os nossos afazeres, dizer adeus, marcar antecipadamente o velório do nosso corpo perecido. Foi, talvez, a única dádiva ofertada pelos Deuses.

 

Daqui a algumas horas. Daqui a alguns dias. Daqui a alguns anos. Quando o eu que sou não for e o eu que posso vir a ser tiver esgotado as possibilidades, não importará que tenha feito tudo certo. Os ventos soprarão nas mesmas direções e a noite seguirá o dia. E a palavra calada na minha garganta será mudez. E o silêncio perpétuo será entrecortado pela poluição sonora que fazem as cidades e pela canção entoada pelo mar.

 

O prazo de validade é curto. Sejam horas. Ou dias. Ou anos. O prazo de validade é curto. Sabemos o quê e não o quando. E há um motivo para que assim seja. Há um motivo para que assim seja. Por favor. Deixa-me dizer-te que te amo.


 Marina Ferraz






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terça-feira, 20 de abril de 2021

Um imóvel à venda

 


 

PARTE I – O anúncio

 

Excelente vivenda T4 com vista para a Serra da Boa Viagem e o Mar.

A vivenda conta com boas áreas, traduzidas em espaços amplos e funcionais.

 

Inclui piscina, terraço, churrasqueira, jardim, garagem para 2 carros e lavandaria/arrumo.

 

Tem ainda:

4 Quartos (um dos quais suite e 3 deles com armário)

1 Cozinha ampla com despensa

2 Salas

3 Wc’s

2 Varandas na parte superior (vista mar e vista serra)

 

Certificado energético D

 

  

PARTE II – A Carta

 

Marina,

 

Talvez não te recordes de mim nos melhores termos. É coisa de humano, lembrar o pior e esquecer o bom. Mas eu recordo-me de ti. Lembro-me de te ver entrar, com olhos cheios de sonhos. Trauteando uma música qualquer da rádio. Magicando um poema qualquer. Subiste as escadas e olhaste pela janela do quarto que viria a ser teu. Pousaste o olhar na linha do horizonte, sobre a listra azul do mar. Suspiraste. Apaixonaste-te por mim. E eu por ti.

 

Nenhuma de nós estava interessada no zumzum da agente imobiliária. Nenhuma de nós estava interessada nos olhares que os teus pais trocavam, discutindo em silêncio, no permeio da conversa interminável da vendedora, como eu não era nada do que eles queriam. Sim, eu ouvia aqueles pensamentos sobre a moradia isolada e térrea e branca e com portadas castanhas. E sabia que eu era geminada, com três pisos, amarela e com persianas verdes. Mas tu? Tu olhaste a janela da frente e viste mar. Olhaste a janela de trás e viste serra. Poemas vertiam-te do sorriso. Apaixonei-me por ti. E pedi. Por favor, que esta seja a minha pessoa. Por favor, deixa-me ser a casa dela.

 

Quando te conheci, ainda não estava completa e, quando vieste, ainda não era a tua casa. Trazias areia nos pés e risos pendurados no canto da boca durante o verão. Cabelo sempre desgrenhado e alegria na fuga da cidade. Foi por isso que me senti triste quando vieste, desalentada, chamar-me casa. Com lágrimas nos olhos que queriam estar longe.

 

Visitam-me. Mas não sabem que te sentavas no escuro sobre o parapeito e que as lágrimas manchavam a pedra, até secarem outra vez. Não viram o teu quarto virar parque de campismo, montado com mantas, para agradar à tua sobrinha mais velha. Não entendem que sentiste literais e figurativos formigueiros dentro daquelas quatro paredes com vista mar.

 

Hoje, olharam o escritório e disseram que era “acolhedor”. Mas eles não sabem do riso preso nas malhas das carpetes, nas noites de piza, que só aconteciam nos dias bons, nos dias maus e nos outros dias. Depois do teste de matemática. No dia em que deste o primeiro beijo. Quando ganhaste um concurso nacional sobre Saramago.

 

Magníficas as vistas sobre a serra. Dizem. Apaixonados pelo pátio amplo e pelo verde da encosta. Mas sabem lá que estão a pousar o olhar na história do teu primeiro amor, trocado e vertido em seiva no lugar que convida a que te tornes quem és. E sabem lá que, ainda humana, voaste para a piscina anualmente, em todos os solstícios de verão, vestida e sem voto na matéria! E sabem lá que te sentavas no banco com a tua avó, aproveitando beijos de sol e festinhas no cabelo agreste.

 

Detesto as visitas. Talvez um pouco mais as tuas porque não gostas de mim. Mas todas. Porque eu te vi entrar e apaixonares-te por mim uma vez. Porque fui o teu abrigo quando o mundo lá fora foi o teu inferno e me associas ao inferno que não te fui. Porque nenhuma das pessoas tem o brilho dos sonhos pendurado no canto de lábios que sorriem.

 

Dos sonhos – quase todos - que te ajudei a concretizar, trazes sempre a memória do esforço. Quase esqueces que estas paredes e estes tetos foram a fortaleza imemorial que sempre albergará as tuas histórias de sucesso, seja na escrita, no trabalho ou no amor.

 

Eu sei. Quem olha, vê um imóvel. Tenho quatro quartos, um deles transformado em sala de leitura, três casas-de-banho, uma das quais pertencente à suite. E tenho duas varandas no piso superior, uma com vistas sobre a serra verdejante e outra com vistas sobre o oceano e o melhor pôr-do-sol da região. E tenho pátio amplo com piscina e jardim e churrasqueira. E uma cozinha grande e uma sala grande e um piso inferior que pode ser transformado em qualquer coisa, mas que a tua mãe idealizou como lavandaria, garrafeira, sala e garagem.

 

Do meu semblante impecavelmente limpo, ninguém diz que sou uma espécie de passagem para a Nárnia que é a vida. Mas para ti fui. Recebi uma sonhadora que queria escrever e pari uma escritora para o mundo. Fui a fábrica dos teus concretos.

 

Preciso que me deixes ir. Porque, em breve, uma família vai entrar e trazer os filhos. E eles trarão olhos cheios de sonhos. E eles vão olhar pela janela onde plantaste as lágrimas e sonhar. Não importa se os pais querem uma casa isolada e térrea e branca e com portadas castanhas. Os mais pequenos vão apaixonar-se por mim. E eu por eles. Havemos de agarrar também aqueles sonhos para os tornar reais.

 

Tenho raízes de ferro cravadas na terra mas alma estendida nos limites das minhas paisagens de serra e mar.

 

Por favor. Larga o tom formal. Vende-se moradia T4 com piscina, churrasqueira e garagem para 2 carros na Figueira da Foz. Sê realista. Mereço isso.

 

Por ora tua,

A casa da Figueira

 

 




 

PARTE III – A Resposta

 

Cara casa,

 

Tens razão. Desculpa. Vou escrever outro anúncio.

 

Por ora tua,

Marina

 

 


 

PARTE IV – O Anúncio Final


Temos, para adoção responsável, uma amiga de longa data, sob o formato de imóvel geminado de 3 pisos. Tem uma piscina adequada a voos de solstício, uma churrasqueira ideal para apanhar banhos de sol no Inverno e duas varandas impulsionadoras de sonhos que se tornam reais, com estímulos de maresia e ar serrano. Conta com parapeitos confidentes em qualquer um dos quatro quartos, sendo que o da frente é particularmente bom ouvinte nas noites de lua cheia e na hora do ocaso. A sala é perfeita para convívios de estilo italiano e propensa a batota durante jogos de Monopólio. Lugar ideal para famílias com filhos sonhadores que precisem de uma fortaleza para construir o futuro e de um “armário mágico” para o mundo dos sonhos. Ideal também para adultos que queiram redescobrir os prazeres da vida e rir até que a barriga doa.

 

Se vos parecer que se coaduna com os vossos gostos e estilo de vida e quiserem adotar este ser especial, por favor enviem mensagem privada. 



 Marina Ferraz






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terça-feira, 13 de abril de 2021

Uma luz acesa

 

 Fotografia de Analua Zoé




Para a minha avó


Dizias. Descansa, a luz fica acesa.

 

Conforto. A imagem do conforto acesa nessa luz que não apagavas. O teu toque de afago no meu rosto. Iluminado. Pela luz acesa. E o meu semblante doente, contrariando o sono. Um trejeito de enjoo que parecia eterno aos olhos infantis de um tempo moroso. E tu. A aliviares a dor e o desânimo. Consolando-me com as mãos enrugadas e pintalgadas de pontinhos mais escuros por entre a palidez. Com a luz acesa.

 

Menina-escuridão, de saúde frágil, quase sempre apaixonada pela sombra, eu deixava-me seguir o ritual pagão que os teus lábios católicos entoavam. Não é dormir. Só descansar. A luz fica acesa. E acesa estava, quando adormecia, sentindo o calor das têmporas febris na almofada.

 

Acordava, por vezes, com as tuas mãos trocando-me a roupa molhada por outra. Ou com o seu toque frio na minha testa, para me medires a temperatura à moda antiga, antes de enfiares na minha axila aqueles velhos termómetros de mercúrio que já ninguém usa. Água fria com açúcar para o enjoo. Xarope de cenoura caseiro para a tosse. E a luz acesa para acalmar a alma.

 

Dizias. Descansa, a luz fica acesa.

 

Acesa ficava, também, a minha fé no placebo. Esse que provinha da chama quente da luz da mesinha de cabeceira, pequeno sol errante que se alongava pelas paredes brancas do teu quarto, cortado pela figura roliça do teu corpo idoso, sonolentamente alerta a todos os meus pequenos trejeitos.

 

Eras o curativo das indisposições meninas que vinham com os vírus e bactérias do mundo. Tanto que, à medida que a criança enferma dava lugar à adulta sadia, me habituei a que ponteasses também, com suturas de afago, os males da minha alma.

 

Dizias. Descansa, a luz fica acesa.

 

Já não era porque houvesse uma lâmpada na mesa do teu quarto a iluminar as paredes. Já não era porque me deitasse na tua cama, com as tuas mãos pousando ocasionalmente na minha testa. Era porque sabias que a luz brilhava e oravas. E acreditavas nas orações que me dedicavas com um fervor só teu.

 

Habituei-me, na solidão dos dias, a deixar a luz acesa nos dias de indisposição. Mais tarde, habituei-me a deixá-la acesa nos dias em que o tempo ruía, deixando-me pequenos pontos de nada por entre as ameias do torreão da vida. A luz acesa era-me conforto, iluminando o escuro dos sentidos, dos sentimentos, dos pensamentos mais negros.

 

Gostava que ainda dissesses. Descansa, a luz fica acesa.

 

Mas, quando a tua luz se apagou, descobri depressa que a iluminação aclara os vazios da ausência.

 

Acontece que a luz-conforto não vinha da lâmpada mas de ti.

 

Deito-me e apago as luzes.

 

É mais fácil, assim, imaginar o teu afago no meu rosto.

 

É mais fácil, assim, deixar que sejas a minha luz.

 

É mais fácil assim.

 

 Marina Ferraz






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terça-feira, 6 de abril de 2021

Melhor

 


Tu achas-te melhor, não achas?

 

Acho. Por acaso é verdade. Acho mesmo. Há dias em que, ainda sem abrir os olhos, já o pensei dez vezes. E o confirmo quando olho o espelho, ainda sem maquilhagem e com remelas no canto dos olhos, ponteando o negro da maquilhagem que não consegui remover na véspera. Com o cabelo desgrenhado, a querer fugir do liso e a ganhar um toque selvagem nos nós e ondas ocasionais. Olheiras estendidas até à clavícula e uma borbulha a nascer na testa. Diretamente antes de vestir o fato de treino para fazer uma aula de ginásio qualquer. Olho para dentro de mim e para o meu reflexo, atiro-me um beijo com a mão e pisco o olho ao eu-refletido. Digo-lhe: tu és melhor.

 

Ser melhor não é ser melhor do que ninguém. Ser melhor é ser-se humano em construção. Ter a força de pôr cinco despertadores e levantar-me no toque do quarto. Aprender a gostar de uma imagem sem filtros. Ter coragem de treinar sete meses seguidos, com 15 dias de pausa intervalados e muito ocasionais e continuar a insistir que “hoje” é dia de fazer 31 flexões de braços porque ontem fiz 30 e, há sete meses atrás, não fazia duas sem sentir dores.

 

Ser melhor é chorar de cansaço, quando termino o trabalho às 3 da manhã, mas estar a pé às 9 horas do dia a seguir, preparada para continuar a lutar pelo meu sonho. E ir. Independentemente do cansaço. Fazer a jornada do dia com igual rigor, sem me permitir o espaço do queixume, que nada faz além de moer e acentuar os traços da fadiga. Dizer: força, só mais um esforço. Mesmo quando sei que não há um “só” na frase e que o esforço é perpétuo porque existem caminhos sem retorno e esta foi a vida que eu escolhi.

 

Ser melhor é ir ao supermercado num dia de mau humor, mas ter aprendido a cumprimentar os funcionários e tratá-los com simpatia, deixando uma piada que lhes cultive riso nos lábios e lembrando, no nosso âmago, que os outros não são culpados das nossas frustrações. É dar uma palavra de alento se, mesmo sem tempo, um amigo precisa de nós a meio do dia, para rever um texto, para um desabafo breve ou para um abraço virtual. É não esquecer que nós somos uma por entre sete mil milhões de pessoas e saber o nosso lugar no mundo. Não esquecer que, enquanto nos deliciamos com o sabor rico do nosso prato favorito, algures alguém colhe migalhas do solo infértil e se encolhe para morrer de fome. Falar sobre o privilégio de se tomar banho com água potável com meio mundo a morrer de sede. Ou simplesmente ter a noção de um espaço que termina nos limites do corpo para respeitar o espaço de alguém.

 

Ser melhor é ser-se melhor hoje do que se foi ontem. Tentar arduamente ser melhor profissional, melhor atleta, melhor artista. Ou outros melhores, noutras situações que não a minha. Tentar arduamente, em qualquer circunstância, ser melhor pessoa. Melhor ser. Melhor humano. Melhor ser humano, sempre que possível. Construir o eu que se quer ser, a pouco e pouco. Assumir que o trabalho jamais estará completo, por muito que se faça, por muito que se tente. E estar bem com o caminho. E aceitar que não há destino de chegada mas apenas caminho para andar. E melhorar o passo, a passo e passo.

 

Ir dormir. De cabeça leve e sem peso no peito, depois de desmaquilhar mal o rosto, para começar de novo amanhã. Sair à rua de cabeça erguida no dia a seguir. Saber que estamos no caminho certo… mas ainda não estamos lá!

 

E ouvir. Tu achas-te melhor, não achas?

 

Acho. Nem imaginas como acho!

 

E acho por isto mesmo. Porque sei quem eu era ontem. E, hoje, sou melhor.


 Marina Ferraz






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terça-feira, 30 de março de 2021

Ohana

 


“Ohana means family and family means nobody gets left behind.”

- Lilo e Stitch

 

 

Dou-te a mão. Dás-me o mundo. Agarras o mundo e partes.

 

Olho-te nos olhos. Mesmo se os trouxeres fechados. És-me fruto e ventre. Pareces frágil. Já foste o meu exército inteiro. Tens um riso pendurado nos lábios. Neles, pendem lágrimas.

 

Seguras as gotas da chuva nas nuvens. Tens um semblante espectral, todo feito do concreto da vida. Dou-te um sorriso. Dás-me a Força. Agarras a Força. Defendes-me com a Força. E és bondade. E és abnegação. E és raiz.

 

És a noção que eu tenho quando não tenho noção. A palavra que sobra quando se agita o dicionário e se chocalham os conceitos. Não há discussão, guerra, pandemia ou evento celeste que te arranque da página onde também eu estou. Sou criança. Tenho medo. Sou adulta. Tenho medo. Estás. Agarro-te. Com ambas as mãos. Solto-te. E ficas à mesma.

 

Tens canções de embalar sem som. Tens poemas sem rima. Tens amargos muito doces, vertidos no melaço que nos cola aos tempos do Eterno. Somos a resistência. Nós contra os outros. Nós contra o mundo. Nós contra o que vier.

 

Enchemos a mesa e somos um. Trazemos os invisíveis. Celebramos na mesa cheia onde se saboreia o passado e o presente. Trincamos um gomo de um futuro imutável. Todas as nossas mesas têm o mesmo número de pratos. Usamos o serviço inteiro. Nunca sobram lugares vazios na nossa mesa. Quem nela se sentou, sempre se senta. Quem nela se sentou, sempre se sentará. Cabem mais fantasmas do que intrusos no nosso âmago. Não lamentamos.

 

Somos gang. Somos seita. Somos coven. Somos espaço impenetrável. Indestrutível. Incontornável.

 

Dou-te a mão. Dás-me o mundo. Agarras o mundo e partes. Mas, mesmo indo, nunca me largas a mão. Mesmo indo, nunca vais. Estás sempre. Vais estar sempre. Vais estar para sempre. E, um dia, quando não estiveres, mesmo assim estarás.

 

Porque família é isso.

 

Um sinónimo de amor, um sinónimo de sempre, um sinónimo de para sempre... onde o abandono não cabe.


Marina Ferraz






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terça-feira, 23 de março de 2021

Turfa

 


Terra e turfa. Crescemos assim. Entre a seiva do que a vida é e a decomposição lenta do que a vida foi. Entre o substrato efetivo do que é a essência humana e a sua corrupção. Entre a base e a essência do que é bom e puro, e a putrefação dos espíritos.

 

As pessoas deterioram-se e alimentam a mágoa. Com ela, os boatos, a extorsão, a perversidade. Almas degeneram nesta turfa social. Gente podre, com ideias putrefactas, absorvendo para si os nutrientes da terra, drenando a Terra, com ideias a decompor-se em amargura e conflito. Poderiam ser somente fragmentos nebulosos de nada. Mas não são. À medida que se decompõem na pior versão de si mesmas, as sociedades transformam-se, a pouco e pouco, na sobra triste do que a essência do humano pode ser.

 

Deus não devia estar muito feliz com o seu jardim. Abandonando-o, deixou crescer as silvas e as ervas daninhas, juntamente com a morte e os destinos piores do que a morte. As flores que sobram sentem-se sós. O abandono pesa-lhes. Choram. As lágrimas que vertem criam ambientes pantanosos e húmidos onde a turfa cresce e adensa, no deteriorar de troncos e raízes e ventres carnudos de seres mais ou menos indignos.

 

Olho com pesar para uma sociedade decadente nas ideias e nos jeitos. Questiono se o amor morreu com esse deus ou se, vivo noutra dimensão, ele o tomou a si, para servir nos banquetes divinos onde o humano jamais se sentará.

 

E os humanos. Essa turfa social que se amontoa em cidades, desperdiçando recursos da Terra e ignorando o mundo alheio. Enriquecendo ambiciosamente onde gente morre de pobreza. Comendo em demasia vendo na televisão os que morrem de fome. Tomando longos banhos de água potável com crianças a morrer de sede… Essa turfa social…

 

Perguntaram-me. Um dia. Não serve para nada? Serve! Rica em nutrientes, mesmo que pútridos, essa realidade triste alimenta e aduba os meus poemas. Nutre-os de uma sabedoria que eu dispensaria ter.

 

Algures, alguém me lê e diz. São bonitos. Os teus poemas. Leio-os. Guerra. Desapego. Desamor. Desesperança. Morte. Traição. Mentira. Abandono. Despojos. Direitos perdidos. Fascismos. Desencontros. Desilusões. Perdas. Violência. Lágrima. São bonitos. Os teus poemas. E eu leio-os novamente, à procura de algo que não seja triste. De algo que não seja mágoa. De algo que não seja estorvo. E ecoam as palavras. São bonitos. Os teus poemas.

 

Tento estender as minhas raízes. Levá-las ao centro da Terra. Ser una com as ideias e valores que tomo por certos. Agradeço. Com sinceridade. A simpatia das palavras. São bonitos. Os teus poemas. Mas a minha alma chora. Sabe. Mais bonito seria que não fosse preciso escrevê-los.


Marina Ferraz






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terça-feira, 16 de março de 2021

As aves do Rio Pranto

 



Pousaram.

 

Quando pousaram, queriam descansar. As asas pesam. Mesmo se ar as preenche. As asas pesam.

 

A liberdade tem um sabor agridoce nas línguas dos pássaros que pousam.

 

Ter asas é ter responsabilidade sobre o céu que se povoa e o ninho que se habita. Ser dono das migrações e senhor das rotas. O destino é memória e o caminho é instinto. O preço do insensato é a morte.

 

Ter asas é ser presa e predador. Destino escravo. Intérprete de línguas mortas. Escrivão de passados etéreos. Ter asas cansa.

 

Pousaram.

 

Quando pousaram, queriam descansar. Colocar sobre as pernas débeis um pouco do peso das asas. Libertar o ar para que fosse espuma e beber das águas do rio.

 

Livremente, pousaram no Pranto. Um bando de independência exortada, cheia de penas que rimavam com o pranto das margens.

 

A água do rio não era pena e a água do rio não era água. A salubridade das lágrimas choradas pelas nuvens tinha uma tonalidade de espelho na tarde que caía.

 

Viram o seu reflexo cansado nas vertiginosas ondas circulares dos seus passos. Anjos caídos no cansaço do voo. Senhores de muitos desertos.

 

Pousaram.

 

Pés frágeis sobre o espelho-Pranto do rio-agrura. O seu reflexo era peixe e queriam ir na corrente. Dormir.

 

Invejaram a liberdade dos peixes. O vazio mental dos peixes. O esquecimento dos peixes.

 

Afogaram-se nesse pensamento e voaram mais leves, abandonando a ideia nos lodos ribeirinhos.

 

Voaram.

 

Quando pousaram, queriam descansar. Mas não há descanso para quem tem asas. Há muitos encargos na senda de se ser livre.


Voaram.

 

Atrás deles o Rio Pranto era só Pranto e o rio não era rio.

 

Voaram.

 

As aves do Rio Pranto eram peixes acordados numa corrente de ar. Sopro. Fôlego. Respiração. À procura do amenizar de um cansaço eterno.

 

É difícil voar. E muito mais difícil ser ave. E muito mais difícil ser livre.


Marina Ferraz






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terça-feira, 9 de março de 2021

O resumo

 


Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles.

 

 

Era coisa de menina. Cabeça no mundo dos sonhos. Universos de fantasia na cabeça. Lápis e caderno. Um Jardim Secreto. Umas férias grandes. Um trabalho de casa. Se o livro tinha 110 páginas, o meu resumo tinha 20. E a professora lá escrevia, debaixo da resma de papel, ativa representante da floresta que eu tinha acabado de destruir: Falta de espírito de síntese. À qual acrescentaria a jocosa nota. Ao menos já não preciso de ler o livro.

 

Era uma coisa de menina. Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles. Mas também era uma coisa do eu. E que cresceria comigo. E que tomaria o seu lugar nos patamares da minha realidade.

 

Não sou de reduzir nada a uma palavra só. Uma lista de compras – tarefa alegadamente simples – complexifica-se. Em frente ao nome dos artigos, lá se encontra a nota do local onde estão em promoção ou a justificação da necessidade da compra, ou outra nota qualquer, só porque sim. Salmão (está em promoção na superfície comercial X), detergente da roupa (mas só se estiver com um bom preço porque ainda tenho para duas lavagens), uvas (ver se há das brancas e se estão decentes).

 

O mesmo se passa com questões simples. Não há conversa sobre notícia de jornal que não gere conversa sobre o jornalismo, sobre o estado do mundo, sobre os antecedentes históricos que nos trouxeram aqui ou sobre o potencial de mudança. Análises simples sobre o rio que transborda com a chuva transformam-se em cáusticas observações sobre as alterações climáticas, o degelo dos glaciares, a globalização do conhecimento, as lógicas do capitalismo e a forma como – real e metaforicamente – é quem está na “baixa” que se afoga.

 

A minha professora tinha razão. Tenho falta de espírito de síntese. Ou talvez só de síntese, por excesso de espírito.

 

Nunca fui muito boa a resumir numa palavra o que quero dizer. Seja para o ato mais simples do quotidiano ou para o mais complexo. Sempre achei que as palavras deviam vir em conjunto, numa verdadeira celebração discursiva, que as misture e encadeie, em lógicas e semânticas e demagogias. E nunca tive medo delas, pelo que as usei sempre, em abundância, para tudo e nada. Mesmo quando, sozinha, divago apenas com as paredes sobre assuntos diversos, que tanto podem ser sobre Física Quântica como sobre como a melhor estratégia para encaixar as minhas 30 horas de tarefas nas 24 horas do dia e ainda dormir um pouco.

 

Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles.

 

Falei sempre pelos cotovelos. Escrevi sempre até me doerem as mãos. Criei um calo de escrever no dedo que frequentemente me apetece mostrar aos políticos nacionais. Nasci e continuei sempre a ser uma pessoa que prefere pecar pelo excesso do que pela falta.

 

E, depois, penso na Morte. Como não sou sintética, pinto sempre uma história extensa em torno da forma como ela há-de vir até à minha cama, sentar-se ao meu lado e falar comigo, antes de me levar. Também essa conversa é desenvolvida e longa, até porque caraterizo a Morte com muitas palavras, que lhe definem o semblante e a voz e a extensão da mágoa, antes que se inicie o diálogo. Mas, quando o diálogo vem, uma das questões – entre as muitas outras que idealizo – pede-me síntese.

 

Imagino que a Morte - senhora de negro, perpetuamente escrava da sua condição de eternidade e dona de uma empatia muito rara – me pergunta assim: Se tivesses de dizer o que definiu a tua existência, o que te levou pelos anos, o que te deu sentido, para que nasceste e viveste neste mundo, o que dirias?

 

Imagino que a Morte tenha pressa. Imagino que tenha mais onde ir. Mais sopros para cessar. E, claro! Sumários, resumos, sínteses e breviários. Nunca tive jeito para eles. Mas imagino-me a ter!

 

Imagino que, com simplicidade, resumo tudo atabalhoadamente e sem medo. Confiante e firme. Imagino que, erguendo a mão para agarrar a dela e ir, deixo o sopro voar com as asas da eternidade, numa resposta breve.

 

Para amar.


Marina Ferraz






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terça-feira, 2 de março de 2021

Fénix

 

Fotografia de Astro Photography



Anoitece-me o olhar. Quando o céu olha os meus olhos, as suas nuvens são gás e poeira. Cor. Nesse escrutínio morro e renasço. Vivo. Sejam bem-vindos ao Caos.

 

 

Saio pelas ruas procurando ervas e vigas. Há tons de canela e mirra, de sálvia e de osso. Preparo a pira. Sobre ela me deito. Paixão a paixão, a história vira embarque e ninho. Desapareço nas labaredas da crónica que ninguém escreveu. Consumida pelo gelo cálido das injustiças da Terra.

 

A luz das madrugadas infelizes dita-me dois destinos indulgentes. Força e imortalidade, de mãos dadas com o vazio, transfiguram-se em pó. As penas soltas. Um futuro que ondeia na insensatez da queda. E eu voo para o oculto.

 

Observo o céu aberto onde os pirilampos moram. E ele olha para os meus olhos, que inevitavelmente são mar. Sódio e pranto. Olhos que ardem. Sangram. Neles se reflete toda a imagem do corpo que já não sobra sobre a pira que acendi, regada de amargor e com acendalhas ocas.

 

Palavras e gestos. Ausências. Espaços brancos entre a ode e o ferro. Lâminas de gadolínio. Tóxicas. Com um número atómico indefinido de questões que descrevam o rumo da História.

 

Incendeio-me na aurora e renasço na penumbra do pensamento, quando anoiteço. Os olhos interessados do céu, focando-se em mim como se fosse braço estrelar de uma constelação qualquer.

 

Imploro ao céu que não olhe. Mas cada um dos seus astros é olho, impregnado de interesse e indiscrição, tentando mergulhar no mar nebuloso dos meus versos para encontrar portais para o Reino dos Sonhos.

 

À medida que me arde a carne carcomida pelos demónios mundanos a que chamam gente, eu percebo que o calor emana um aroma de violetas e flor de macieira. Faço amor com a simplicidade nua das cinzas. E o céu aplaude. Aplaude quando me anoitece o olhar. Quando ardo. Quando sorrio. Quando morro. Quando renasço.

 

De repente, por entre a cinza, novos olhos e novas cores. Olhos abertos de espanto na novidade do eu que se renova. E o céu olha novamente os meus olhos. Neles, encontra sobrevivência e engenho. Amor e morte. Medidas certas de incerteza.

 

 

Anoitece-me o olhar. O Caos, plantado a 1500 anos-luz de distância, é parto e berço das minhas estrelas. Verte-se dela a água da Vida que eu bebo. Há lágrimas rosadas e azuis nos olhos que me fixam. Espelho inconcreto destes meus olhos que choram com as suas nuvens de gás e poeira.

 






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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Encontro

 


Marquei encontro comigo. Combinei que seria pelo cair da noite. Quando a luz da tarde começa a enrubescer, criando traços corados junto ao horizonte.

 

Havia de me deitar sobre o aconchego de mantas e de privar comigo por alguns momentos. Neles, reveria um pouco da história dos meus muitos passados, onde a falha se misturou sempre com a força de novas tentativas, ainda que a luta fosse contra os ventos que o destino predefinira e que nunca me eram favoráveis.

 

Marquei encontro comigo. Estipulei que, desta vez, ia ouvir mais do que ia falar. Ouviria. Ainda que nenhuma das palavras se verbalizasse. O silêncio dos lábios é favorável ao cantar do pensamento. Escutaria essa canção. Mais uma vez.

 

Marquei encontro comigo. Sabia muito bem que também os demónios nos acompanhariam e, por isso, convidei-os para que também fossem, com o aviso – talvez improfícuo – de que deveriam manter a compostura.

 

Era um rito entorpecido no ocaso. Um sopro suspirado e eterno. Para que pudesse ir. Para que pudesse dar voz a mim mesma. Para que pudesse dar a mão a mim mesma. Para que eu pudesse ser, ao menos por uma vez, tanto para mim quanto fui para os outros.

 

Marquei encontro comigo.

 

Mas – ironia - vieste. Distraíste-me. Esqueci-me de mim. Os ponteiros continuaram a dançar no som da vibração do teu riso e do meu. Valsas de giros e giros badalados, constantes.

 

O céu enrubesceu. O céu enegreceu. O céu clareou. E a minha voz entorpecida pela ânsia dos sabores da vida, esqueceu-se de cantar. E eu esqueci-me de que lhe devia os ouvidos e o tempo.

 

Marquei encontro comigo e não fui.

 

Só me apercebi depois, quando o riso virou distância. E a palavra virou silêncio. E a amargura era o mel que temperava os meus passos.

 

A ausência de mim pesou. A solidão instalou-se novamente na tua cadeira, que lhe é trono. E as vozes, silenciadas no meu peito, puniram-me pelas decisões inesperadas e tomadas de improviso. Veio a dor. Uma dor aguda como o silvar do vento nas janelas. Rasgou-me a garganta. Emudeceu-me. Mas eu também já não tinha nada para dizer…

 

No silêncio, comprometi-me novamente. Prometi. Se algum dia tornasse a marcar encontro comigo, havia de ir e de me deitar sobre as mantas, de ouvir mais do que falar, de entrar nesse rito expiado, feito de sopros e libertações. E aproveitaria o ocaso e a noite e a alvorada nessa companhia feita de mim, com os fantasmas e os demónios e a insanidade.

 

Talvez um dia venhas e me abraces. E, caindo nos enclaves de um corpo sem alma, talvez não me encontres em mim e estranhes.

 

As promessas são sagradas e eu já falhei demais.

 

Um dia, marco encontro comigo… e vou.


 Marina Ferraz




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