quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A dor que senti



A dor que senti lá atrás
Serviu-me de emenda
Aprendi a tratar a mágoa
Com respeito:
Abro-lhe as portas do peito,
Sorrio ao vê-la chegar.
Não sei quanto vai ficar
E, porque não sei, aceito.
Dou-lhe mesa, dou-lhe leito
No aconchego perfeito
De quem não a quer expulsar.

A dor serviu-me de emenda:
Aprendi que sou capaz
De andar com o peso alheio,
Arrastando as coisas más.
Trato a mágoa com respeito
E até lhe quero bem:
Foi nela que adormeci
Chorando em noites sem fim
Quando não estava ninguém.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Acho que prefiro a solidão



Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser crua, mas não é cruel.
Dar a mão ao vento ou dá-la a alguém que a aperta, que a larga. Que a recebe e a usa como guia na cegueira. Só. Sem que outro motivo se encontre nesse ato. O de dar as mãos. Seguir o vento. Antes o vento. Até ao abismo que leva ao mar. Até ao mar que não fere a alma.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ferir mas não infeta.
Sentir o corte. O frio cortante da água desse mar. E dar o corpo à sensação. Do toque das águas. Ou dá-lo na cama. Ao calor. De abraços que viram correntes e nos arrastam para baixo. Sempre. Afogar no fogo e morrer quando a perda de fôlego se transforma em sufoco e nos impede a vida. Uma dor que é oceano.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode doer mas não massacra.
O olhar do sol que nos faz rasgos argilosos na alma. Sentir o moldar do tempo, feito de barro, nos nós dos dedos que se apertam no vazio. Ou o olhar de alguém que um dia nos vê mundo e, no outro, nos vê no mundo. E depois nem nos cantos concretos do nada ou nas ilusões da plenitude.
Acho.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode matar, mas não tortura.
Sonhos cadentes nas estrelas que se alinham pelos traços da mão onde a sina cigana se leu. Eternidades de incontável desespero, que é galáxia sempre em torno de nós. Um desapego que se faz universo. Ou universos nas mãos do amor que se torna sonho maior. Alfa. E destrói o que fica fora dos meandros do seu controlo afetivo. Efetivo. Um medo que não se diz e que tem pernas e braços e lugares que nunca serão visitados. Além dos limites da vida. Além dos limites do tempo.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser triste, mas não é miserável.
Ela pode ser mácula mas não é rasgão.
Ela pode ser linha, mas não é rasura.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser sozinha. Mas não é só.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(A)mar


Mar. Como a-mar. Um gelo que se desfaz e que tolhe sentidos. Que olha nos olhos e os mareja. De mágoa. E sal. De maresia.
São olhos marejados. De mar. Como a-mar. Um esmorecer do tempo e dos sentidos. Como vento. Como sombra. Como sobra.
Olhos magoados. Mágoa que se faz dor e mata. Mar. Maré. De ilusão poente, sob os raios do final da vida.
Mar. Como a-mar. Há mares no teu nome. E identidades frouxas entre os teus dedos por não os dares a ninguém. Como se os traços das mãos fossem desenhos criados pelos depojos do tempo e quisesses lê-los de trás para a frente, numa demanda por ouro e especiarias.
Mar. Como a-mar. Só que com ondas que se fazem espuma em vez de ansiedade. E agruras que dispersam. E algas em vez de alguéns. Algures. Além. Uma espécie de céu que se reflete e é só chuva e que se liberta apenas para se prender de novo nos enleios de insanidade.
Mar. Como a-mar. Uma infinitude desfeita. Que embate contra margens de concreto e nelas causa desgaste. O erodir da alma sob correntes frias de desolação. E nelas nadam promessas que não serão cumpridas, boatos que não serão verdade e opiniões que ninguém pediu. São corais secos, empetrecidos e cinzentos, que abrigam memórias e desalentos de tempos e histórias e tempos sem história e histórias sem tempo.
Mar. Como a-mar. Olho. Pergunto quem é. Mas não sei quem sou. E, como não há resposta, fico-me a perguntar se, lá no fundo do mar, há um espaço para mim. Para a-mar. Como em mar. Mas feliz.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Em nome da nossa Mãe




Caro Senhor Presidente,

Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. E afaga-me o rosto com a mão do vento, assegurando-me de que vai ficar tudo bem. Na sua suavidade primaveril, ela vai dizendo que nos ama. A mim e a si. E a todos os outros filhos, de forma igual.
Na noite, ela ainda me embala com a mesma canção lunar que também a si chega, sem cobranças nem palavras de ódio, nem ressentimentos. E, nos dias de sol, ela ainda nos beija a pele, dando-nos a dádiva dourada da felicidade estival.
A nossa mãe não deixou de o amar. Ainda é dela a respiração que lhe permite subir aos tronos onde se cultivam guindastes e se semeia betão. Ainda é dela o ar que faz vibrar as cordas vocais, permitindo que chovam torrentes de detrito orgânico que não servem nem os fins da fertilização dos campos agrícolas.
Ela não deixou de o amar. Mas eu disse-lhe: «Mãe, este homem que te ofende e te destrói não é meu irmão e não o amo». Pacientemente, ela fez-me olhar a distância. Perder as contas das estrelas e dos rasgos de luz no mar. Esquecer a mágoa nas clareiras das árvores. Aprender a cantar juntamente com as cotovias simplesmente porque amanhece. E, abrindo-me os olhos com uma suavidade só sua, respondeu. «Não semeies ódio, esperando que te cresça amor». E eu aprendi, aos pouquinhos, com uma paciência muito menor do que a da nossa mãe, a não o odiar.
Não lhe vou pedir que saia da sua mansão de pedra branca para visitar esta mãe que tanto o ama… porque sei que, provavelmente, lhe veria apenas o potencial rentável na destruição, qual filho que não quer mais do que herança que vem depois da morte. Mas escrevo, ainda assim. E faço-o porque a minha geração terá filhos, e os seus filhos terão filhos que serão também pais, mais tarde. E nesta história de nascimentos e vidas, a nossa mãe poderá começar a sentir a revolta que as suas mãos plantam – com ódio – esperando, não amor, mas lucro.
Não vou dizer para abrir os olhos. Não. Para quê? De olhos abertos, ainda será cego, no encadeamento desse ouro que não vai levar para a cova. Mas vou dizer que sei que, no final, no derradeiro final, vai cumprir o desejo da nossa mãe.
Senhor presidente. A terra que governa, têm-a por sua. Mas não o é. Não é a Terra que nos pertence. Somos nós que pertencemos à Terra. E a mãe que nos dá vida e nos abarca, recebe-nos num abraço que nos torna, também a nós Terra. Havemos de a fertilizar, com a nossa carne e os nossos ossos. Havemos ser unos com ela e uns com os outros.
Senhor presidente. Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. E gostaria de dizer que ela o condena. Mas não. Ela não precisa de si, nem do seu esforço, nem da sua redenção. Por mais que lhe tire, de forma abrupta e sem consideração, ela continuará a dar, sem pedir nada em troca.
Senhor presidente. Hoje planto palavras onde não quero silêncios. E falo em nome de uma mãe cuja voz soará muito depois de não se ouvirem os seus gritos no púlpito. Escute. Está em todo o lado. No sopro do vento. No toque da terra. No nascer do sol. E cada dia que nasce é uma vitória. Porque ela, que só lhe quer bem, fica um passo mais perto do abraço que, em medidas ilógicas, hoje não pode dar. Aquele abraço final que se dá na terra, à medida que nos arrefece o corpo e nos vinga alma. Aquele abraço que se dá quando nós próprios retornamos à origem e nos tornamos mais ricos do que a ganância humana.
Senhor presidente. Escrevo em nome da mãe. Da Natureza. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. Mas sei que anseia por o encontrar, para esse abraço final que vos tornará unos. Anseia. E todos nós, senhor presidente, talvez com um pouquinho mais de rancor no coração, ansiamos o mesmo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O umbigo



Quando eu era pequena, os meus pais diziam-me, às vezes “não tens umbigo”. E eu, muito aborrecida, lá puxava para cima as camisolas interiores, exteriores, casacos e mais o que houvesse para puxar, apenas para provar que, no centro da minha barriga, estava esse buraquinho que eles diziam que não tinha.

Ser criança tem destas coisas.

De alguma forma, nessa fase, eu não dizia que tinha umbigo. Mostrava-o. Talvez porque a inteligência infantil nos faça saber que os adultos não acreditam em nada que não vejam. E, ao mostrá-lo, vinham risos e cócegas e mais risos. Que me distraíam daquela frase que me perturbava. “Não tens umbigo”.

Ser criança tem destas coisas.

Cresci a saber que o tinha – o umbigo. De alguma forma, assumi que, como eu, toda a gente tinha um, embora não fizesse muito caso disso. Era natural e pouco importante. Como quase tudo, na fase em que os sonhos – tão reais como o umbigo – se manifestam e traduzem em momentos de ilusão, fomentados pela televisão e aniquilados pelas escolas.

Ser criança tem destas coisas.

Talvez por não pensar muito nele, o umbigo nunca me incomodou. Até começar a perceber que ele podia, muito bem, ser o centro. Não o meu centro. O centro do mundo. E que, da mesma maneira, o umbigo dos outros podia ser, para eles, a mesma coisa.

Descobri com facilidade que, para muita gente, é mesmo assim. Nunca ninguém lhes tinha dito que não tinham umbigo. E, talvez por isso, exibiam com frequência e por necessidade demente essa parte de si.

Algumas pessoas que conheci passavam tanto tempo a olhar para o próprio umbigo que se esqueciam de tudo o resto. Até de quem estava perto. Até dos sonhos que deviam ter cultivado. Esqueciam. Olhavam apenas o próprio umbigo, com uma fascinação tão grande que era como se não soubessem antes que ele estava ali.

Encontrei dessas pessoas nas escolas, é verdade. Mas também no trabalho. Também nas filas dos supermercados. Até mesmo na tela da televisão, principalmente nos canais de discussão política.
Um verdadeiro programa do reino animal, com programação alargada e espetáculo ao vivo em cada recanto da rua. As pessoas fazem um reality show dos seus umbigos e é para eles que olham a tempo inteiro. Às vezes, sem mesmo precisarem de levantar as camisolas interiores e exteriores e os casacos. Descobrem-no e fascinam-se com ele. Torna-se um vício. Olhar para ele. E só.

Incapazes de viverem sem esse amor profundo que desenvolvem pelo próprio umbigo. Que, provavelmente, antes nem sabiam que tinham, as pessoas dedicam todos os seus passos ao mesmo. E todas as justificações são feitas em torno dele. Do umbigo.

Ser adulto tem destas coisas.

Fico feliz que me tenham dito que eu não tinha umbigo. Tornou-me consciente de que o tinha e livrou-me da necessidade de olhar constantemente para ele. Às vezes olho. E, num ou outro momento, também faço dele o centro do mundo. Mas não é sempre. Porque aprendi, em criança, que, provavelmente, não era só eu que tinha umbigo. E que o umbigo dos outros devia ser como o meu.

No olhar que às vezes lanço sobre o meu umbigo, sinto que perco paisagens do mundo e oportunidades. Então, faço por não olhar muitas vezes só para ele. Mas, quando os olhos me largam esse ponto epicêntrico da barriga, o cenário é simples: está toda a gente a olhar para o próprio umbigo.

Um fascínio que não se quebra com a constatação de que ele existe. O umbigo. E que move as pessoas. E que toma decisões pelas pessoas. E que faz as pessoas viver em torno de uma coisa só. O seu próprio umbigo.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Passos retos


Ele deu passos retos. Como lhe haviam ensinado os pais que, sendo gente sem posses, eram ainda assim exemplo nas teceduras da honestidade. Acreditara nas palavras que tinham ensinado, sempre em sotaques campestres e meio perdidos na formulação das ideias. "Faz o bem e bem te virá".

Ele deu passos retos. No dia de pagar as contas, o recibo sobre a mesa indicava que tudo se saldara. Mesmo no café usual, se acaso esquecia a carteira, nunca pedia fiado. Fazia os quilómetros que o separavam da casa, fizesse chuva ou sol, a pé, para ir buscar os cêntimos que lhe tinham faltado e, no regresso, deixava ainda a gorjeta em agradecimento pela compreensão demonstrada pela demora.

Ele deu passos retos. Nas caixas dos supermercados cedia passagem, não só a idosos, grávidas e deficientes. Cedia passagem à senhora que olhava para o relógio com medo de perder os transportes e à adolescente que levava apenas um snack para o lanche da manhã. E, chegando junto do funcionário desagradável, perguntava como ia a vida, esperava resposta e deixava, juntamente com o pagamento, duas palavras de alento para o dia.

Ele deu passos retos. Se ao passar na rua via no chão um papel, logo se curvava para o apanhar e o depositar no balde do lixo e, se acaso sabia que alguns metros mais à frente havia um contentor de reciclagem, avançava para ele, colocando com cuidado cada despojo no lugar que lhe cabia.

Ele deu passos retos. Quando chegava ao prédio, se acaso a empregada tinha acabado de passar esfregona, aguardava um pouco que o chão secasse. E nunca lhe dizia que era por isso. “Pode entrar, senhor Eduardo!”, mas ele não entrava. Dizia que aproveitar o sol lhe fazia bem aos ossos e aproveitava por perguntar à Dona Lurdes pelos filhos e os netos que moravam longe, na Alemanha. E ela sorria com os olhos e mostrava fotografias mal tiradas e amarrotadas que trazia no bolso do avental.

Ele deu passos retos. Um dia, andando na rua, encontrou um anel de diamante. Pensou que alguém estaria triste por ter perdido um anel de aspeto singelamente valioso. Desviou-se do seu caminho para passar na esquadra. Entregou o anel. O agente pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o chefe. O chefe pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o superior do chefe. Pediu que aguardasse. Aguardou. O anel tinha sido roubado. Disseram. Pediram que contasse a história. Contou. Uma vez. Duas. Três vezes. Acusaram-no de roubo. Disseram que deveria pagar uma coima ou que o tomariam em custódia. Não tinha dinheiro para a coima. Encarceraram-no.

Sentado na cela de paredes lisas, ele contou os dias. Traços retos. Quatro a quatro, cortados. Muitos. À espera da justiça. Cada um dos seus passos era agora um traço. E mais um, que fez sobre as palavras dos seus pais: "Faz o bem e bem te virá".

Era uma frase sábia mas fora de tempo.

E não havia mais tempo.

Esgotaram-se os passos.

Esgotaram-se os traços.

Esgotaram-se os dias.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 18 de julho de 2017

Número e medida



Tenho mãos. Elas são garras. Tenho feito, com elas, poemas e cicatrizes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou gente e não digam que sou monstro. Mas, olhando para as minhas mãos, quase todos viram o monstro. Tu não. Tu viste gente.
Tenho olhos. Eles são balas. Tenho feito, com eles, apreciações do mundo e indignação. Pousando-o sempre no concreto das coisas e fechando-os sempre para sonhar. Faço-o para que não pensem que sou toda fantasia e não digam que finco no chão os pés que pisam gentia. Mas, olhando para os meus olhos, quase todos viram a mágoa. Tu não. Tu viste o Reino dos Sonhos, Quimera, pedras com feridas e fadas.
Tenho lábios. Eles são pedra. Tenho feito, com eles, frases de apreciação e críticas vorazes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou doce e não digam que sou ácida. Mas, olhando para os meus lábios, quase todos viram o azedume. Tu não. Tu viste o nascer de um beijo, frutado e untado a mel.
Tenho pés. Eles são vento. Tenho feito, com eles, viagem que me levam às pessoas e corridas que me levam para longe delas. Em igual número, é verdade, para que não digam que vou sempre e não pensem que me quedo, estática, num lugar só. Mas, olhando para os meus pés, quase todos viram a partida. Tu não. Tu viste raízes e asas.
No centro de tudo o que és, dou por mim a querer fugir. Dos teus olhos. Desses que vêem o melhor de mim e não se assustam com o pior. Tentei fugir da loucura dos teus olhos. Que me olham. E me amam. E me acolhem. Ainda que as mãos sejam garras, e os olhos sejam balas, e os lábios sejam pedra e os pés sejam vento. Tentei ir. Mas batalhaste. Lutaste. Por mim. E bateu forte no peito, como a saudade, mas em forma de gente. Em forma de monstro. Em forma de nós.
Tenho coração. Ele é espada. Tenho feito, com ele, cortes irreversíveis e nomeações reais. Não em igual número. Não em igual medida. Matei muitos. Distingui um. Tu. Porque nunca ninguém me viu o coração. Mas tu viste. Porque os outros me fizeram rir ou chorar, mas nunca ambas. E porque és o único que consegue arruinar-me a maquilhagem com beijos e lágrimas e, ainda assim, fazer-me sentir a mulher mais bonita do mundo.
Tenho coração. Tinha coração. Tive coração. Ele era espada.
Hoje é teu.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 11 de julho de 2017

Les étoiles



Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. E queria ser astrónomo, para poder olhar as estrelas eternamente. Essas dos meus olhos, aos quais chamava “Les étoiles”.
Passei muitas noites com as minhas estrelas presas no céu, ao lado dele. E apontávamos, rindo, as imagens imaginárias que as outras estrelas – as que não eram olhos - formavam, em pontos picotados no centro das noites sem luar.
O meu universo virava-se do avesso. E dava por mim inebriada pela incandescência solar de um desejo que ali nascia, mesmo debaixo do véu negro do céu, à medida que “Les étoiles” se fechavam para nos beijarmos.
Amanhecíamos. Eu e ele. E a rua. Algures, no centro da cidade poluída, encontrávamos carreiros de noite, onde idealizávamos um planeta sem pessoas, uma galáxia sem medos, um mundo só nosso. E ele falava do brilho dos meus olhos, nesses planos de utopia, tecidos finamente numa tela de irrealidades. “Les étoiles”. Uma exclamação que virava vento, partia e regressava com beijos nos lábios mornos do Verão.
Cada passo foi um ano. Mas poucos passos demos, nesta demanda de olhos postos no céu. Porque criávamos raízes no solo infértil de um mundo que gira em torno de uma única estrela, onde as pessoas olham muito mais em frente do que para cima e onde o brilho do sonho se troca com facilidade pelo concreto baço e pardacento. “Les étoiles”.
Continuei a olhar os céus. Nas noites sem lua. E a apontar desenhos nas estrelas. Eu dizia ver castelos e borboletas. Ele já não as via. Olhando o céu e esquecendo os meus olhos, ele dizia ver somente uma coisa. “Les étoiles”. E, com o tempo, deixou de se deitar ao meu lado para as ver. E, com o tempo, deixou de me olhar nos olhos. E, com o tempo, deixou de aparecer.
Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. Quando foi, deixou-me o olhar negro. Levou “les étoiles”.
Hoje, as estrelas não cintilam.
As estrelas choram.


Marina Ferraz


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terça-feira, 4 de julho de 2017

No metro



A mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor.

Manhã. Aquela hora de sol erguendo no horizonte e claridade a doer nos olhos que querem dormir. Avançamos todos para o subterrâneo. Como autómatos coordenados. Os nossos passos ganham um ritmo frenético, à medida que rugem os motores lá fora. E entramos na carruagem, onde se espremem e entalam pessoas, numa proximidade que, de tão indesejada, se torna doentia, repulsiva.
Lá nos encontramos todos, os desconhecidos. Tentamos olhar para um lugar qualquer onde não exista o risco de olhos encontrarem olhos. Não queremos ver, não queremos ouvir. Fica mal olhar. Então, enquanto metade se prende nos ecrãs do telemóvel ou faz chamadas desnecessárias à família inteira, a outra metade, de auriculares nos ouvidos, ouve música e agita levemente os cabelos mais ou menos penteados.
Ele entra. Devagar. Com a cadelinha simpática, que dá chicotadas leves nas pernas dos viajantes. Deixa-se guiar por ela. Fica ao meu lado, agarrando a barra de metal. Simpaticamente, a cadela cumprimenta-me. Noto que parece sorrir, à medida que me cheira de alto a baixo, tentando perceber qual a percentagem de humana e qual a percentagem de gato. Chega à conclusão de que sou um híbrido. Aceita-me assim e lambe-me a mão.
A senhora da frente olha para mim e ri-se do interesse da cadelinha no meu cheiro. Sorrio de volta e deposito no focinho da cadela uma festa de saudação. Só ela me cumprimenta, no metro cheio de gente. Cumprimentar é um ato irracional, como todos sabemos, aparentemente. E, de súbito, com olhos vagos e perdidos no infinito invisual, ele pergunta “aqui ninguém a pisa?”. Asseguro-o de que não. “Está segura entre nós”, ele sorri em resposta.
Como não vê, não precisa de se preocupar com o local onde lhe cai o olhar. Mas noto que os outros evitam olhá-lo, ali de pé, no metro, ao meu lado. Talvez tenham medo de que o olhar lhes fira a culpa de não se erguerem para ceder um lugar a quem, de direito, deveria tê-lo. E eu vou fazendo festinhas à simpática acompanhante de quatro patas, até que, num pedido meigo do dono, ela se deita aos nossos pés e ali permanece, sossegada, com um rabo dançante.
O metro travou numa estação. Quando o fez, a mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor. Ele soltou um “peço desculpa”. Envergonhado e simpático. De olhar laço e perdido. Ela moveu a mão, como se o toque fosse um choque elétrico. Tinha auriculares nos ouvidos. Não deverá ter escutado. Se ouviu, não respondeu. Não o olhou. Limitou-se a afastar do toque.
Questionei se ela seria tão surda como ele era cego. Se seria tão cega como ele. Mas o metro parou de novo, sem confirmações.
Saímos na mesma estação. Ele foi, com a sua melhor amiga a abrir caminho e comigo atrás, em passos que não tentaram acompanhar a minha pressa. Subiu pelas escadas e fui com ele, em silêncio, até o ver passar as portinhas automáticas para a rua. Não sabia, sequer, se ele notava que eu o fazia. Não importava. No final, a cadelinha olhou para mim mais uma vez. Parecia sorrir. Ele também sorria. E eu. Mas não trocámos mais palavras.
A cegueira dele parecia-me ver-me melhor do que a multidão. E, pelo menos, não éramos surdos. Talvez por isso, nada havia que precisasse de ser dito.
Além disso, no centro do cinzento silencioso do asco humano, tínhamos o cumprimento mais simpático do metro. Talvez do mundo. Seguro entre nós. Para que ninguém o pise.



Marina Ferraz


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terça-feira, 27 de junho de 2017

Não te deixo morrer



Não te deixo morrer. Porque te amo. Calar a voz que me une a ti seria cortar os laços. Não os corto. Por mais que digam que é largando a imagem que se faz futuro. Não te deixo morrer. Porque te amo.
Dou o teu nome às estrelas. E às flores. E aos poemas. E sigo, passo após passo, nas pedras cinzentas das ruas que também te têm. Dou o teu nome a essas ruas e a essas pedras. Pouco importam os governadores e heróis que lhes marcam morada. Pouco fizeram pelo mundo. Nada fizeram por mim. Amo-te. E, por isso, não. Não te deixo morrer.

Fico a imaginar que o teu próprio conselho me diria: “vai, deixa-me e sê feliz.”. Mas eu sempre fui teimosa, irreverente, cheia de mim. Não vou! Ou, se for, levo-te comigo e dou o teu nome a outras ruas e outras pedras. Não te deixo. Não posso deixar-te e ser feliz.

Há cânticos na voz dos monges etéreos que regem o tempo. E o meu é cada vez mais escasso. O teu é eterno. E, juntos, somos ponteiros dissidentes, que insistem em andar de frente e para trás, sem cuidado, conforme lhes aprouver.

Tenho malte nos lábios que sequei de ideologias e conselhos dados sem que ninguém pedisse. Fiz mais mal do que bem na vida e a alma é mácula e sopro e descoberta. Fiz muito mal na vida. Matei e esqueci muita gente. Alguns, matei-os ao esquecê-los. Outros, matei-os porque os esqueci. O esquecimento é morte. Pior que a morte, talvez.

Ouve. Tu não. Tu és a luz que me faz livre e me sustenta. Não te deixarei morrer. Porque te amo. Não hoje. Não amanhã. Não até que seja eu a ser esquecida nos meandros do pensamento de alguém.
Mas enquanto houver uma folha, ela vai ter-te em memória, sejas fantasma de caligrafia ou impressão. Preto no branco. Branco no preto. Declarações que te façam sobreviver no centro da efemeridade deste mundo cada vez mais débil e insolente.

Dou o teu nome à tinta e ao papel. E à mão que escreve fora de mim, sem que eu pense no que faço. Dou o teu nome aos olhos de quem lê. E às suas lágrimas. E aos seus sorrisos.

Não te deixo morrer. Porque te amo. E é porque te amo que acontece o tecer da imortalidade. Ser eternamente jovem é criar laços que perdurem nos lábios alheios. Ser eternamente jovem é ter alguém que nos conte a história e nos faça estrela, rua, pedra da calçada.

A memória é a forma mais peculiar de manter alguém vivo. Frequentemente mantendo vivo apenas o melhor. E é ela que diz: Não te deixo morrer. Porque te amo.

A declaração mais pura de amor nasce na semente que repele o esquecimento. E, porque não esquecemos, sabemos que é amor. E como não podemos dizê-lo, damos nomes às estrelas e às ruas.

Insistimos.

Não.

Não te deixo morrer.

Porque te amo.

E, de repente, dizemos. As palavras proibidas, sem querer.

Porque te amei. Porque te amava.

E recomeça tudo… outra vez.


Marina Ferraz


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