terça-feira, 28 de agosto de 2018

A temperança




As mãos. Olho para as minhas mãos. Segurando copos e jarras. De onde se vertem agruras e amenidades. Traços de frio. Traços de calor. Sensações. Sentimentos. Sentidos. As mãos. Olho para as minhas mãos. Nuas. Segurando entre os dedos o que é invisível aos olhos.

Cuida de mim – pedem essas mãos – e acreditam que sim. O futuro parece todo a seu favor. Excepto pelos dedos. Onde só há o vazio de copos e jarras. Temperando, aos poucos a solidão de dedos nus e solitários.

Gosto das minhas mãos, embora as ache feias. Com os dedos curtos, roliços, anafados, que lembram a preguiça e o desajuste. Gosto delas porque, da mesma forma que seguram canetas e mexem tachos de comida, elas fazem amor com a vida. Ou, melhor dizendo, enquanto seguram canetas e mexem tachos de comida, elas fazem amor com a vida.

São amantes exímias, as minhas mãos. Colocam um pouco de amor em todas as suas ações. Temperam, frequentemente, todos os momentos com um pouco de carinho e de tolerância. E procuram trazer ao mundo apenas o melhor.

Gosto delas, não só porque conhecem os caminhos da beleza dos sentidos, mas também porque conhecem o limite onde a aceitação termina e não temem o voo altivo pelo ar, na direção de rostos cujos lábios não conheçam os traços do respeito. As minhas mãos são assim. Trazem um copo de violência e uma jarra de amor. E vão temperando, aos poucos - seja com essa violência ou esse amor - o carinho, a rudeza e o desacato. Até haver equilíbrio outra vez.

Olho para as minhas mãos. Numa mão trago o meu desassossego e na outra a certeza de que tudo passa com o tempo. Imagino que uma terceira mão segure essa ampulheta. A do tempo que passa. E que sara. Mas nas mãos. Nas duas que trago em frente aos olhos e que limpam lágrimas. Nessas, trago essencialmente o desassossego e a esperança. Vou temperando a vida assim. E nenhuma delas se importa com o resultado efetivo do momento que ainda não chegou. Porque se ocupam do presente e tentam transformá-lo, modelá-lo, torná-lo melhor.

As mãos. Olho para as minhas mãos. Essas que, de percorrerem rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços mágicos de paixão; essas que, de embaterem em rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços de força; essas que, de trabalharem em prol de rostos e corpos alheios guardaram, em si, traços de aptidão. Numa, seguro a jarra da ousadia. Na outra, o copo de insegurança. E existe um traço de audácia no verter destemperado do orgulho líquido de um recipiente para o outro. Vai ficar tudo certo – diz esse movimento.

É o leite, o sangue e a seiva de mim que verte de um lado para o outro, temperando-me a vida com a ideia da concretização. E há o jarro. E há o copo. E há a temperança. Mas olho. Olho para as minhas mãos. Segurando copos e jarras. De onde se vertem agruras e amenidades. Traços de frio. Traços de calor. Sensações. Sentimentos. Sentidos. Olhando para elas – para as mãos – sei que elas são donas de uma tolerância feliz, de uma praticidade profícua, de uma paciência sã.

Tempero. Com elas. Com as mãos. A minha vida. Os dedos - curtos, roliços, anafados - têm espaços vazios entre si. Mas tocam com ternura o universo onírico do mundo. E sabem que precisam de segurá-la: a esperança. E sabem que precisam de usá-la para minorar o desassossego. Os espaços vazios preenchem-se. Um dia, quem sabe, talvez o façam com outras mãos que entendam. E que temperem o meu amor com mais amor. No sentido mais amplo da temperança.




Sigam também o meu instagram, aqui. 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

A lista IV



Eu fiz uma lista. Duas. Três. Gosto de fazer listas. E pus-te nelas.


Começou por ser uma lista de sonhos para amanhã. Sobre as mãos que viríamos a dar, sobre o mar que veríamos em olhares de contentamento, sobre os dedos que enlaçaríamos, cheios de desejo pela vida. Uma vida que só seria plena se a lista nos incluísse aos dois.

Disseste que eu era a metade de ti que faltava e eu disse-te o mesmo. Sussurrámos. Enquanto enumerávamos as estrelas e lhes dávamos nomes. Uma delas – determinei eu, à revelia da NASA – era tua. Eternamente tua. Porque as estrelas são de todos e te dei a minha parte. Então, tinhas sobre ela poder de decisão.

Essa primeira lista que eu fiz, sobre tudo o que não éramos e podíamos vir a ser, foi uma espécie de trampolim do sonho para a realidade. E, então, fiz outra lista.


A minha segunda lista falava de perfeição. Em pontinhos muito concretos dizia que sabia que eu tinha chegado a um ponto de entendimento onde o próprio ato de fazer listas poderia não fazer sentido.

Não tínhamos espadas. Nem revólveres. Tínhamos as mãos dadas. Poemas nos olhos que sorriam. E éramos crianças a brincar ao faz de conta, acreditando ser mais fortes do que um exército e estar prontas para enfrentar, da vida, as agruras.

Rasguei essa lista. Rasguei-a porque acreditei que éramos donos do mundo e não nos faltava nada. Não fiz listas durante muito tempo.


O tempo. Foi o tempo que me levou de volta. “Apanha agora os cacos dessa folha de papel e os do teu coração!”. Uni-los era impossível. Então, escrevi outra lista. Nela, escrevi os meus motivos para ir embora e os meus motivos para ficar. O meu motivo para ficar. Tão forte, tão débil; tão certeiro, tão imaturo; tão quebrável.

Fiz essa lista para te dizer: eu sei que dói. Eu sei que custa. Eu sei que não é tão perfeito como a estrela que roubei do céu. Mas eu amo-te e pode ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Amo-te. Amo-te. Amo-te.


Não ficou tudo bem. E, hoje, sentada entre quatro paredes cheias de sombra, nas ameias recolhidas da persiana, sinto entrar o toque do vento morno do verão. Não vai ficar tudo bem.
Esta é uma lista que podia estender-se por folhas e dias e universos. Não faltarão palavras. Nem sentimentos. Talvez falte apenas a vontade que me move pelos dias e me faz capaz de as escrever.

Se esta é uma lista sobre o que falta, eu poderia usar esta vida e as próximas com ideias e pensamentos.

Mas existe muito mais espírito de síntese na dor do que na felicidade. Porque, quando falar magoa, evitam-se palavras e pensamentos. Procura-se outra coisa, ainda que ela própria seja dor. Para camuflar dor com dor, esperando que ela pare de doer; tal como fazem os sábios dos ventos nos incêndios, quando erradicam fogo com fogo, esperando que pare de arder.

E a minha lista de um é bastante simples, para dizer o que foi e o que é. Quando tu estavas, eu tinha tudo. Quando tu estavas, estragámos tudo. E, agora que não estás, falta tudo.


Enumeremos o meu coração. Que já foi um. Elogiemos o meu coração. Que já foi teu. Enumeremos agora. O coração. De cacos no soalho. E nem a madeira é real. Flutuando. No centro de uma casa que não é um lar. E de uma vida onde falta tudo.

Tu-do.
Tu.
Uma vida onde faltas tu.


Esta é a lista. É uma lista muito breve. De tudo o que eu preciso. E nunca mais vou ter.





Sigam também o meu instagram, aqui. 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A caixa




Têm tentado. Continuamente. Desde sempre. Rotular-me e pôr-me numa caixa. Limitada pelas suas paredes. Feitas de preconceito. Feitas de noções redutoras. Feitas das linhas do ar. E de betão.

Têm tentado. Justificar-me com ideias e frases feitas. Explicar-me com conceitos e limites. Como se um traço de mim aniquilasse o outro. Ou me definisse concretamente. Ou fizesse de mim uma coisa só.

Têm tentado. E têm descoberto que eu sou um ser sem filtro, com traços de luz e sombra. Com traços de riso. Com traços de depressão. E de alheamento. E de apreciação do mundo. Têm descoberto que eu sou beleza e feiura. Preguiça e tarefa e desporto. Escrita e silêncio e palavra dita. Têm descoberto que, sempre que me colocam numa caixa, eu intempestivamente a derrubo e salto para outra… e outra… e outra a seguir.

Irritam-se com os traços de mim. Que se colocam no espaço da menina e os seus livros, por um segundo. Para saltar para o espaço da futilidade e das roupas, por outro segundo. Para adentrar os universos da política e as discussões acesas do feminismo e da equidade, por mais um segundo. E para tocar nos nervosinhos que compõem a alma de cada um, por um segundo de eternidade que lhes baralha as ideias e os deixa sem saberem bem onde podem colocar-me.

Peço que não me coloquem numa caixa. Faço-o insistindo que não é esse o meu lugar. Mas insistem. Insistem em tentar fazer de mim objeto redutível à descomplexificação do eu. E a reduzir-me a uma das minhas partes. Porque será mais simples ver-me como um fragmento de mim. Ou simplesmente porque existem traços de inconsequência na divisão de parcelada de mim em milhares de fragmentos de poeira, que sejam catalogáveis e passíveis de colocar nas caixinhas mentais dos outros.

Não me coloquem numa caixa. Mesmo que cause estranheza que, pela manhã, eu seja atleta; pela tarde, artista; pelo crepúsculo, contestatária; e pela noite, bailarina de fogueiras nuas. Não me coloquem numa caixa. Tenho demasiada liberdade em mim para encaixar nos espaços determinados pelas mãos dos outros.

Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Antes não. Ou, se puserem, vão ver que as caixas não me seguram. Que salto de uma para a outra. E que me completo com um pé em cada uma. Com uma mão em cada uma. Com um olhar estendido sobre tantas quantas o olhar me abarca.

Sim. Podem colocar-me numa caixa. Quando eu morrer. Só quando eu morrer. Aí podem. Prometo ficar dentro dela, se nela me depositarem. Mas, mesmo aí, devo confessar. Preferia ir livre na respiração do vento. E ficar um pouquinho em toda a parte. Com os rios. E com as flores. E com as árvores. Para lhes contar que faço parte da terra. E que o meu mundo se fez fora da caixa. Para voar. Outra vez. Livre.




Sigam também o meu instagram, aqui. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Deitei fora a minha infância



No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Troquei-a pelos teus dedos na minha pele nua. Porque pensei que nua e no toque dos teus dedos o sonho também sobrevivesse.

Ser criança era querer fechar os olhos à realidade. Viver na imersão completa das minhas ilusões. Mergulhar na profundidade inóspita dos meus pensamentos e dançar com as cascatas e as flores, juntamente com as criaturas. Uma vinha e dava-me um medalhão. E ele permitia que respirasse sob as águas. E eu nadava. Lado a lado com as sereias do meu pensamento.

Ser criança era fazer jogos inocentes de apanhada. Correr com os ventos. Sentir a liberdade como um sopro e a adrenalina como uma dormência no nariz e um aperto no estômago. “Não me apanhas”. E fugir. Ser criança era fugir do tempo que me determinava os traços, cada vez mais patentes, de uma forma de estar construída em tudo o que ficava depois da fronteira de mim.

E as fadas perguntavam. Não queres amar? E as sereias perguntavam. Não queres amar. E as ninfas perguntavam. Não queres amar? E os faunos perguntavam. Não queres amar?
Ser criança era ser louca. Ser criança era responder-lhes que sim.

E tu vieste. Uma emoção feita de uma loucura maior do que a meninice dos meus jeitos. E as fadas sorriram. As sereias sorriram. As ninfas sorriram. Os faunos sorriram. Mas eu não os vi sorrir. Porque tu sorriste. E, subitamente, o teu sorriso era o único que iluminava os meus passos.

Todos os meus caminhos. Todas as minhas possibilidades. Todos os meus trilhos. Subitamente, tudo era uno e levava a ti. Senti o sopro do vento na tua direção. Senti o curso das águas na tua direção. Segui a corrente, despindo-me da infância no caminho para os teus braços. Neles, nua, achei que o toque dos teus dedos bastaria para manter vivos todos os meus sonhos.

Escolhi-te. Como te escolhi! Acima das selkies e das fadas e dos universos oníricos que, em tempos, tinham preenchido os meus dias. Fui tua como nunca fui deles. Fui tua como nunca fui minha. Fui tua como nunca julguei vir a ser de ninguém.

No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância. Orgulhei-me de ser mulher. Um orgulho vazio de quase tudo. Na esperança de que os teus dedos, na minha pele nua, mantivessem vivos os sonhos.

Cansados, talvez, da minha pele, os teus dedos acenaram em adeus. E fiquei só. Em meu redor, notei: não havia fada ou fauno que sorrisse. Havia vazio e descontentamento. E vontade de os afastar de mim. Ainda nua, percebi o frio dos dias. Ainda nua, percebi que cresci. Ainda nua, percebi que os teus dedos na minha pele não tinham servido para manter vivos os sonhos mas apenas para os roubar.

Escolhi-te. Deitei fora a minha infância. Quando te escolhi. Porque te escolhi. Não existe ser mágico que me pergunte. Não queres amar? Todos eles sabem que te amo. E nenhum deles está.

Estou sozinha. Sozinha e vazia da criança que sorria em mim. No dia em que te escolhi, deitei fora a minha infância.





Sigam também o meu instagram, aqui. 

terça-feira, 31 de julho de 2018

Tudo (menos o meu coração)




Se eu morrer, peço que levem das minhas entranhas tudo o que ainda tiver proveito.

Se me funcionarem os rins que já não uso, ou os pulmões com os quais já não respiro, tirem-nos da minha carne antes de me fazerem em cinza.
Parto sabendo que alguém respira por mim. Que alguém suplantou a dor e viverá na utilidade do que já não me servia.

Doem os meus olhos. Fragmentos de osso. Pedaços indignos de pele. Rapem-me o cabelo. Doem tudo. Deixando a carcaça vazia do que, um dia, foi o meu corpo.
Parto sabendo que alguém sorri por mim. Que alguém combate a doença e recupera, aos poucos, já sem medo dos anos vindouros.

Levem das minhas entranhas o que ainda tiver proveito. Mas, peço: apenas o que ainda tiver proveito. Não doem o meu coração!

Macerado, massacrado, dolorido, iludido, incapaz, incompetente e cheio de negrumes, o meu coração não serve as sístoles e as diástoles sem falhar, a cada segundo, alguma batida. E dói, quando bate. Tanto que é como se ameaçasse não bater mais.

Não doem o meu coração. Temo que, noutro peito, ele continue insistentemente a assumir a postura contundente e agressiva que sempre lhe modelou a ação. Temo que, mesmo noutro peito, ele continue tirano e ditador, insistindo em ideias loucas, sem amor-próprio. Temo que ele permaneça masoquista e pesado, arrastando para o abismo, entre batimentos, qualquer um que o receba.

E que termine por ser carrasco de quem tem esperança. Maldição de quem ora pela bênção. Castigo de quem já sofreu demais.

Se eu morrer, peço que levem das minhas entranhas tudo o que ainda tiver proveito. Levem-me. E reduzam-me ao mínimo fundamental antes de me fazerem poeira ao vento na Pedra da Ferida.

Levem tudo de mim. Doem tudo o que possa ser, para alguém, um sopro quente de vida e um aclamar de esperança à beira-morte.

Mas o meu coração? Deixem que o coração permaneça e vire também poeira!

Foi usado ao limite. Está roto, rasgado, incapaz de amar, recheado de dores que não podem ser descritas. Já não tem uso que se lhe dê. Já não tem proveito.

Se eu morrer, peço que levem tudo das minhas entranhas, menos o coração. Não tentem reabilitá-lo. Não tentem transplantá-lo para um peito mais ajustado. Peço que lhe guardem uma réstia de respeito.

Antes de ser inútil, ele foi um bom coração. Já chega de batimentos doloridos e de esperanças desajustadas. Se eu morrer, peço que deixem o meu coração descansar. Ao menos dessa vez. Finalmente. E pela eternidade.




Sigam também o meu instagram, aqui. 

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ode à agressão




Atentai, senhores. Dizemos todas. Preto no branco. Nas redes sociais. E nas sociais redes da vida. Atentai, senhores. Vede. Dizemos. Esta pessoa que me feriu. Esta pessoa que me diminuiu. Esta pessoa que me levou de rojo até que não me sentisse pessoa. Olhai. Eis aquele que amarei a vida toda.

Tenho trinta e duas mil imagens inspiradoras para o dizer. E mais alguns clichés para completar a ideia. Coloco-as em frases soltas, em cada uma das minhas fotografias. E faço partilhas ocasionais que falam sobre a intensidade desta vivência.

No caminho que nos levou da felicidade iludida ao desaparecimento súbito de tudo o que podia rotular-se como amor, eu guardei só o melhor. Vede. Atentai, senhores: ainda estou à espera. Dele. Daquele que me feriu até que sangrasse o lado esquerdo da alma macerada. Daquele que me fez dizer “desculpa” como ponto final, no final das frases. Aquele que me traiu e colocou, em cima dos meus ombros, a culpa de todas as suas traições. Atentai na sua perfeição e no meu desejo de o ver voltar. Atentai senhores.

Quando pára? Esta necessidade materna de ser eterna defensora da ideia desajustada que tivemos da vida com alguém? Esta vontade intensa de divinizar quem nos magoou? Onde acaba? Esta vitimização escusada? Este desejo de tudo, esbatido em espaços vazios e inconsequentes de neurose?

Dizemos todas. Numa partilha regular ou ocasional. Dói e é por isso que sei que te quero. Não sei quem sou desde que partiste. Chorei por ti e é por isso que te amo. Que se foda o amor, se o amor for choro e dor e desapego. Se o amor for isto, eu não quero amar.

Esta é para ti, menina. E para ti, mulher. E para ti, independentemente do teu género e orientação, que continuas a acarinhar e a honrar uma história que te queima as veias. Tu e eu somos iguais. Continuamente identificados com frases que alguém fez – e provavelmente nem sentiu. Apenas porque a ode à agressão é mais simples do que a verdade.

A verdade é esta. Um dia amámos alguém e essa pessoa fez-nos felizes. Primeiro fez-nos felizes. Mas depois não. Depois, tudo se transformou na miserável procura pela memória do que tinha sido. Um dia amámos alguém e o amor, que ardia, passou a queimar.

A melhor forma de honrar esse amor é seguir. Deixemos a ode à agressão para depois. Ainda estamos a tempo de viver.




Sigam também o meu instagram, aqui. 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Je suis perdu




Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.”
Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. Pela repetição. Como as crianças sempre aprendem. Mas e eu? Será que eu sabia o que elas significavam?


Dou por mim. Hoje. No seio do meu próprio país. Adulta – serei?! – e a pensar se domino palavras e emoções. Se compreendo, de facto, o que se esconde por detrás delas. O que as transforma em mais do que formas codificadas numa ilusão feita de papel.

Há, no meu peito, dimensões de inexplicável que são como uma língua estrangeira que eu não domino. E salta-me, nos ouvidos, novamente a expressão “Je suis perdu.”.

Compreendo hoje que não sabia, na altura, o que significava a frase que ensinei. Era só uma adulta a aprendê-la pela repetição, como se fosse criança, tentando ensiná-la para acautelar o medo do improvável.

Prevenir uma situação em aquelas crianças pudessem ficar em perigo tomou a forma de uma frase que eu não sabia entender. “Je suis portugaise”… eu sou portuguesa… “et je ne parle pas français”…  e eu não falo francês. Até aqui, eu entendia. Mas faltava-me a estrutura emocional para compreender o que significava o resto. Faltava-me o abalo que só a vida pode trazer para explicar verdadeiramente as palavras. Essas palavras. “Je suis perdu”.

Sinto-me, hoje, de pés postos no conhecimento dos dias, que me trespassa, qual idioma antigo e morto, um sentimento de alheamento a mim mesma. Como se os passos me afastassem de mim. De ti. Do sonho. Do que eu possa querer sonhar. Não sei bem de onde vim. Não faço ideia de como aqui cheguei. Sigo. E não sei para onde. Não sei porquê. Não sei por quem. Je suis perdu.

Pela primeira vez compreendo. Sem ninguém que me repita a frase, para que a decore. Intrinsecamente. Compreendo o que significa. Estar perdido. É como ser eu a criança nas ruas de Paris. Subitamente, não é como se não conhecesse a rua e não tivesse as mãos quentes dos meus pais. Subitamente, é como se não tivesse ruas. Como se Paris tivesse sido roubado debaixo dos meus pés e caminhasse na bruma etérea do Sena. Não falo esta língua. Não sei de onde sou. Peço ajuda. Je suis perdu. Je suis perdu. Mas ninguém ouve. Não há ninguém para ouvir.

Cada passo é uma queda no abismo. Je suis perdu. E cada abismo é um salto na esperança que se esgota. Je suis perdu. E cada palavra faz um sentido novo nesta senda de nada fazer sentido. Je suis perdu. Je suis perdu.


Foi há muitos anos atrás. No seio frio de um país estranho. Acompanhada por duas crianças que ainda mal dominavam o português, que eu insisti, pela primeira vez, numa ideia: “Je suis portugaise et je ne parle pas français. Je suis perdu.” Elas aprenderam as palavras, sem saberem bem o que significavam. E eu também não sabia. Não sabia o que significava. A frase. Essa frase. Je suis perdu. Agora sei. E quem me dera não saber.





Sigam também o meu instagram, aqui. 


terça-feira, 10 de julho de 2018

Neste frio




Um frio que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Sorrio. Sorris de volta. E eu sinto a alma gritar. Será que vai ser sempre assim? Pergunto e ninguém responde. E há o frio. Que me entorpece. Beijo de água na pele. Beijo de sal na pele. Para que nela não cresçam agruras e cicatrizes.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Apetece-me fazer tudo o que eu não faria. Para me esquecer de que eu sou eu. Porque esse “eu” que te ama tem de encontrar em si um “eu” que não te ame. E não é fácil. Descubro, nos trilhos que eu não trilharia, que não só amo o caminho como amo as tuas pegadas e as nuances de Natureza que me recordam de ti.

Estás em toda a parte. Assombrando as águas e as marés. E os caminhos de terra. E os caminhos de alcatrão. Fumegando na cidade recheada de barulhos metálicos. Ouço-te, feito canção, e odeio tudo o que escrevo. Porque saltas nas palavras, carnívoro e canibal, alimentando-te das pontas dos meus dedos. Sinto-me roubada nas palavras. E odeio as palavras porque todas são o teu nome. E todas soam ao eco imortal do amor quente da tua voz. Nesse último “agarro” que se sumiu nas minhas noites.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Em alguns dias, a solidão tem a tua forma. E noutros não tem forma que se descreva. Entre uns e os outros não existem dias. Apenas negrumes imaginados sobre o que o futuro podia ser e não é. Escrevo milhares de notas de despedida na minha cabeça. Passatempo imoral, aos pés de quem me quer bem. E, ainda que mentalmente, rasgo as notas e a ideia de partir. E vou ficando, como ficam os restos no canto do prato depois do banquete. Quando tudo é sujidade e trabalho, misturado com cansaço e melancolia. Vou ficando. E nunca é por mim.

Anseio pela partida que não reclamo. Imagino-a como o único dia feliz que terei de agora em diante. E sei que é irracional. Mas é difícil ser racional quando metade de nós é dor e a outra metade se foi. Ficou um frio que me entorpece. Até nas ondas dos lençóis da única metade da cama que se desfaz. Até nas ondas do mar. Amantes frias. Que me beijam a pele saudosa e infiel. Essa pele que me trai com a necessidade de ti. Contigo ao lado e do outro lado do mundo.

Tenho saudades tuas. Aqui ao lado. Haja quem entenda. Tenho saudades tuas.

Como quando não estás.

E quero agarrar-te num abraço. Desligar nele a humanidade tardia. E nunca mais ser.

Entorpecer neste frio. Pele de água e sal. Desaparecer neste frio. Deixar que me gele até o coração. Para não doer, ao menos por um bocadinho.

Para poder sorrir-te de volta. Quando me sinto morrer.




Sigam também o meu instagram, aqui. 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

O brilho dos teus olhos



Quem rouba o brilho dos teus olhos. Uma história de ódios sem nome, construídos na desonra do tempo que não passa e sempre retorna ao amanhã. Um sopro de dor. Que se veste de sonho. E se deixa cair na ilusão irregrada. Até não saberes. Até não veres. Até negares. Que o tens. Que alguma vez o tiveste. O brilho nos olhos.

Mas tu tiveste. Eu vi. Eu sei. Ainda que não vejas. Ainda que não saibas. E tenho medo. Por ti. Pelos teus olhos. Esses onde alguém insiste em beber luz. Drenando brilhos. Drenando sonhos. Transformando tudo em poeira. Baça. Macilenta. Cheia de nadas que se somam e se somem.

Dos espaços carregados entre dedos que se abraçam até embranquecerem. Com as lágrimas que se secam e se fazem chuva de verão. Com os poemas que se calam nos silêncios sossegados ou desassossegados do peito em chamas. Conceitos. Todos em forma de gente. Mas sem humanidade que reste. À medida que se alimentam, aos poucos, dos fragmentos desiludidos de ti e das tuas ilusões. Roubando. Tanto. Quase tudo. Juntamente com o brilho. Aquele que tinhas. E que trazias. Nos teus olhos.

Quem rouba o brilho dos teus olhos. Por falta de brilho; ou de brio; ou de coração. Uma história de morte que se dá nos batimentos de um coração. Que diz amar. Mas que ainda não aprendeu que o amor não existe senão numa partilha entre iguais. Que se querem. Que se completam. Que acendem o brilho nos olhos, em vez de o apagar.

Dói. Eu sei. É um entendimento que supera as palavras que nunca dizes. Um entendimento que só tem quem se espelha e reconhece, num rosto, outro rosto. Onde os olhos perderam o brilho.

Não tenho pena de ti. Nunca vou ter pena de ti, embora te saiba vítima de bestas e lanças de desamor. Porque te sei gente. Porque te sei forte. Porque sei que podes reacender o brilho dos teus olhos.

Não é hoje. Não é agora. O mundo peca mais por demoras do que por falta de ação. Mas virá. O dia. O dia no qual o brilho roubado será arma. Explosiva. Nuclear. Transformando as mãos que roubam num despojo ensanguentado e em cacos de carne pelo chão que pisas. E, delas, estrelas ascendentes serão luz. Voltando ao seu lugar. Na pureza de ti.

Preocupa-me que a hora tarde e os danos que a sua tardia prece deixa na mágoa de ti. E cria-se, por isso mesmo, um ódio muito simples por ela. Essa pessoa. Essa que rouba o brilho dos teus olhos.

Fico a pensar. E se os teus olhos, que eram todos brilho, não lembrarem mais? E se nunca mais seguirem a dança dos teus lábios? E se nunca mais sorrirem, feito pequenos sóis, no inverno das ruas sempre frias da humanidade? Mas não deixo que o medo me apague a fé da mesma forma que apagou o brilho. Esse. O dos teus olhos.

Levo em mim mil feitiços. Proteção desajustada de sal, sangue e sálvia. E prometo a minha alma ao sol, numa prece para que também os teus olhos o sejam. Abraço a honestidade das coisas frias e sei. Sei quem rouba o brilho dos teus olhos. E por isso sei que lhe hão-de queimar as mãos. Porque há coisas que não podem ser apagadas. Nem usadas. Nem manipuladas. Mesmo quando se roubam. É teu. Esteja onde estiver. O brilho. Esse dos teus olhos. Que alguém roubou.

Quando o quiseres, vai ser teu outra vez.

Até lá, meu amor, para que não te ensombrem os olhos que choram, fica com o meu.



*Imagem retirada da Internet




Sigam também o meu instagram, aqui. 


terça-feira, 26 de junho de 2018

Campo minado




As memórias são como minas terrestres.

E cada pegada é memória disso mesmo. Não eras o meu chão. Nem os meus pés. Talvez uma espécie da sapato.Com sola grossa e salto alto. Que me magoava e me torturava nos passos. Mas que, de alguma forma, também me engrandecia e fazia sentir mais bonita.

No campo minado de uma vida sem ti, meio deserta, meio arenosa, vou descobrindo que consigo andar. É verdade. Vou descobrindo que consigo correr. Vou descobrindo que consigo dançar. E é sempre num passo estável deste solo poeirento que descubro a força inevitável da decisão que é ser feliz.

Mas, de repente. Merda! De repente o pé assenta. Na memória. E explode tudo.

Pode ser pela agenda onde o teu nome ainda ondeia, em planos que não vão acontecer. Ou no estúpido do calendário que não sabe saltar do 5 para o 7. Ou no risotto de cogumelos e espargos que traz o teu sorriso pendurado no canto da panela.

De repente. O pé assenta na memória. Bang! Uma explosão que me arranca a alma e a dilacera. E uma nuvem de fumo que me deixa sem ar. Pedaços de mim por toda a parte. E vidro líquido, que escorre dos olhos e espelha passados.

As memórias são como minas terrestres.

Não existe passo que não seja incerto. Nem atalho que impeça os encontros. Está nas coisas mais pequenas. No elefante pousado no chão. No café matinal. No travo aveludado dos vinhos. No sabor do mar ao tocar a pele. Na posição adormecida que ainda entoa “agarra-me”. Na paisagem à porta de casa dos meus pais. “Não vás”.

O amor que acaba deixa de ser um campo florido e passa a ser um campo minado. Cada memória é uma mina terrestre. Quando se ama quem partiu, cada passo é risco de memória. É preciso ter cuidado com o local onde pomos os pés. Porque é a vida que nos pisa, quando tudo explode.

Não tenho medo de pensar em ti. Mas a recusa do sofrimento tem mais do que estradas de concreto. Assobiar melodias não apaga os perigos. E eles estão em todo o lado, porque, de alguma forma, durante muito tempo, reduzi os meus dias à ideia de nós. Esgotou-se o “nós” e fiquei eu. As memórias são como minas terrestres. E o caminho é longo.

Se podia parar? Podia. Mas eu nunca desisti de nada.
Não desisti de tentar.
Não desisti do amor.
Não desisti de ti.
E, certamente, não vou desistir de caminhar só porque a vida colocou no caminho recordações que se tornam explosivas com o som da tua desistência.

As memórias são como minas terrestres. O caminho é longo. Mas, se atrás deixo pegadas e sangue, faço-o pela possibilidade das memórias que ainda não criei.

Quem sabe. Talvez essas sejam flores.





*Imagem retirada da Internet



Sigam também o meu instagram, aqui.