terça-feira, 15 de abril de 2014

Primeiro encontro



Hoje o sol escondeu-se. Envergonhado e sem jeito, puxou as nuvens, inocentemente, da mesma forma que eu puxo as mantas e escondeu-se sob elas, com um meio sorriso e um brilhozinho no olhar.
Espreitou somente uma vez ou duas, para nos beijar o rosto que sorria. Espreitou para nos fitar as mãos dadas e nos ouvir as conversas e os silêncios e as esperanças para amanhã. Mas voltou a esconder-se, sempre, como se se sentisse a mais. E as nuvens que o cobriam firmaram-se mais e mais no céu, tentando ocultar o meio sorriso do sol, que troçava da forma como olhávamos um para o outro. Os nossos olhares tinham um sol só seu, que fazia aquecer as almas com a subtileza de um verão só nosso.
E, à medida que as mãos se davam e as palavras se tornavam eternas por um segundo, as nuvens alinharam-se com as vontades do universo e permaneceram imóveis, cinzentas, sobre as nossas cabeças, cheias de sonhos de eternidade.
O sol estava escondido atrás das mantas cinzentas. E eu escondi-me atrás de um sorriso e olhei para ti. Olhando para ti, dei-me conta de que o sol não me faz saudades quando estás por perto. Tens nos olhos um céu maior do que o céu. Tens em ti um brilho que se espalha e aquece e demora na pele. E os dedos entrelaçaram-se e dançaram em abraços, enquanto o sol se escondia de nós e nós nos esquecíamos dele.
De mãos dadas, sob um céu cinzento, fomos um universo de cores e emoções. E senti, no bater descompassado dos nossos corações, que as estrelas se alinhavam com um sol amuado e esquecido e cochichavam, atrás das nuvens, sobre uma sina que nos unisse mais do que as mãos e as almas. Sobre uma sina que nos realizasse a plenitude dos sonhos e nos tornasse mais do que dois vultos sob um céu cinzento.
Mas, olhando dentro dos teus olhos, eu esqueci-me que o céu estava cinzento. Esqueci-me que havia céu. Que o céu tinha cor. Que havia alguma coisa além dos nossos olhares perdidos e das nossas mãos dadas.  Esqueci-me. Como se esquece uma lição há muito aprendida, esqueci que o sol se esconde sob a mantas para dar lugar a amarguras. Esqueci-me das amarguras. Sorri.
O sol escondeu-se atrás das nuvens. Eu escondi-me atrás do meu sorriso e mergulhei no teu.
O meu coração estava cheio de sol e as nuvens olharam para nós, ali perdidos em sorrisos, por entre as maldições do mundo.
Então, as nuvens ignoraram o sol que se escondera envergonhadamente sob elas e, como não tinham lábios que se curvassem num sorriso, choraram lágrimas de felicidade...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O meu país



O meu país está de luto. As pessoas já não se cumprimentam rua. Ninguém sorri. Os olhares sisudos e cinzentos perdem-se no sujo do passeio e os pensamentos vagueiam, em fossas tão profundas que se quedam nos olhares e trespassam as pedras da calçada.

O meu país de está de luto. Crianças pedem esmola perante os olhares indiferentes dos mendigos de classe média. E os ricos ficam em casa, na escravidão metálica do dinheiro porque é mais seguro assim.

O meu país está de luto. O meu povo vestiu as faces de negro e a alma de trevas. E não há cor nas expressões pesadas de quem se cruza connosco nas ruas da amargura.

Olhando para o meu país não vejo chegar Abril nem vejo cor nem cravos. Não vejo vontade. Mas também não vejo aceitação, esforço, solidariedade. Olhando para o meu país vejo apenas o negro de pessoas com olheiras negras a caminharem em ruas de iluminações cortadas por falta de verbas.

O meu país está de luto. Aprendeu a viver com os rostos fechados e as mãos abertas e vazias. Aprendeu a viver sem esperança e sem consolo. O meu país está de luto porque morreu a alegria de acordar de manhã. Porque morreram os sorrisos das crianças. Porque morreu a liberdade de escolha. Porque morreram os sonhos. Então, o meu país cinzento deixa pessoas cinzentas viver no negro de não saber o que vem depois.

Caminhando pelas ruas, é isso que vejo. Pessoas a afundarem-se no negro de si para não verem a escuridão alheia. Pessoas de sorrisos gastos que deixam os lábios desaparecer em linhas severas. Pessoas que já não sabem que são gente. E caminham todos no seu luto transparente de olhos no chão. O sol que brilha acima não os aquece. O horizonte ficou esquecido. O meu povo fundiu-se com o negro das ruas mal iluminadas. E o meu país?!... o meu país está de luto!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet



terça-feira, 1 de abril de 2014

À espera


Tu estás à espera do tempo. Como se o tempo fosse construir as pontes certas ou determinar um ponto na linha de começo de uma nova história. Estás à espera do momento em que as estrelas se alinhem e os planetas se cruzem, para o mapa ser certeiro e a hora exacta. Estás à espera que os ponteiros se alinhem com as vontades divinas e o horóscopo pendente de um jornal qualquer.

Tu estás à espera do tempo. À espera que a fortuna te bata à porta e que o sucesso te defina. À espera de te encontrares nas estradas do mundo e de esgotares todas as formas de divertimento. À espera de teres experimentado mais do que a vida tem, de teres conhecido mais pessoas e mais universos. Tu estás à espera que as marés te arrastem e os ventos te puxem numa direcção. E vives no medo de que os portos em que ancoras sejam na verdade as ilhas do naufrágio.

Tu estás à espera do tempo certo para parar. Como se a viagem não pudesse ser feita senão na solidão de companhias fúteis e descartáveis. Como se os teus passos se atrasassem no desejo de encontrar algo diferente do que aquilo que idealizaste. Tu estás à espera das vontades que superem a tua. Como se a tua vontade fosse sobre-humana mas não bastasse. Como se precisasses de umas mãos invisíveis que te pusessem no caminho do teu destino.

Mas eu vou contar-te uma coisa que ainda ninguém te contou: o destino é teu. O único lugar onde ele te vai levar, se estiveres à sua espera, é até ao ponto de partida de onde nunca saíste. Tu estás à espera do tempo. Eu estou à tua espera. E o tempo certo não existe. Algures, por entre esta confusão de esperas e desesperos, estamos os dois parados em lados opostos da estação, a ver passar a vida e o mundo.

Tu estás à espera do tempo e eu não tenho tempo para esperar nada da vida. Algures, entre palavras e tarefas, eu vivo no limiar entre a vida e outra coisa qualquer, que não é vida mas finge ser.

Tu estás à espera do tempo. Eu estou à espera de ti. E, enquanto o tempo não vem, vivemos neste compasso sem sentido, à espera do impossível. Quando dermos conta de nós, teremos os rostos marcados pelas linhas do Outono e as mãos cansadas de agarrar a esperança. Quando dermos por nós, estarás à espera que o tempo volte atrás e eu estarei à espera da morte.

Entre a espera e o desespero, neste Universo de sentidos que não fazem sentido, a guerra é ganha pelos ponteiros do relógio. Porque eles avançam. Não estão à espera de nada. Não estão à espera de ninguém. Eles sabem melhor do que nós que mais vale andar em círculos eternamente do que nunca ir a lado nenhum.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 25 de março de 2014

Casa da Sorte

Foto de Roberta Avillez


Toquei o azar às portas da casa da sorte. Mas as pessoas não ouviram. Passaram por aí, como passa o tempo. Passando. Na inevitabilidade infalível de quem pensa que não existe outra forma de passar. Com a indiferença de olhos postos no asfalto ou nas pedras sujas do chão.

Toquei. Toquei mas a música não encheu as ruas, demasiado atulhadas de coisa nenhuma. Por isso, embora tocasse, não tocava. Não toquei ninguém nem coisa alguma. Não havia espaço nas ruas para outro som que não o da apatia.

Toquei o azar às portas da casa da sorte. Alguns passaram. Alguns entraram. Alguns chocalharam nos bolsos uma pobreza igual à minha. Alguns iam vazios. Alguns iam cheios de nada. Outros cheios de si. Mas ninguém me ouviu. Eu era da cor das paredes, da cor do chão. E, embora tocasse, eu soava a nada porque ninguém parava para ouvir. Para me ouvir. Para se ouvir. As pessoas simplesmente passavam. Assim... passando. Haverá outra forma?

Toquei. E, embora os olhares de soslaio optasse por ser cegos, eu continuei a tocar. Chamaram-me mendigo, pedinte. Ouvi o rumor: "devia arranjar trabalho". Toquei. Apesar dos rumores e da indiferença e da surdez. Toquei para as pedras da calçada. Chamei-lhes irmãs. Toquei para elas porque apenas elas me conheciam a música e o destino de não ser mais do que pisado pela multidão alheia.

Toquei. Toquei o azar às portas da casa da sorte. As mãos dormentes do frio. A alma dormente da indiferença. As pessoas dormentes, não sei porquê. E, nas ruas cheias, pessoas vazias passavam, deixando-me aos pés o estojo vazio e o coração quebrado.

Olhando para as pessoas, senti o ímpeto de tocar para sempre. De tocar até que me ouvissem. De ficar ali até os dedos congelarem, entre sopros e o meu olhar vítreo virar pedra, calcificar.

E toquei. Toquei a dor e a amargura e o desespero nas ruas onde só passava, passando, quem não podia ouvir ou entender o que não ouvia. Toquei enquanto a música ecoava no  vazio de tanta gente. Toquei enquanto a rua se enchia de vazio e se esvaziava de novo.

Era noite. Toquei para as estrelas. Toquei para a lua. Toquei o azar às portas da casa da sorte.
As ruas vazias, onde pessoas vazias já não estavam. O estojo vazio. O estômago vazio. O sonho vazio de mim.

Arrumei as minhas coisas. Arrumei o sonho. Arrumei a esperança. Arrumei as gentes que povoavam as ruas. Tinha tocado o azar às portas da casa da sorte.

De meu, levava agora a música. E o estojo vazio, os bolsos vazios, o estômago vazio. Mas sorri. Não tenho a alma vazia, nem os olhos cegos, nem vou como o tempo, andando. Há estrelas no alto. E elas ouvem até quem toca o azar às portas da casa da sorte.

Marina Ferraz

segunda-feira, 17 de março de 2014

Deixa-me



Deixa-me ser feliz. Não digas, por aí, que as minhas paixões são loucura. Se não te serviu o meu amor, deixa ao menos que o viva da minha forma e em paz. Não me faças entristecer por entre palavras duras que não fiz por merecer. Se não te importas, deixa-me ser feliz.
Se a minha forma de ser feliz for de lágrimas nos olhos, não me combatas as lágrimas. E, se sou feliz por entre o verde de uma Natureza viva, não critiques o facto de eu falar com as árvores. Se sou feliz em textos que falam de amores perdidos e pessoas cruéis, não me peças que escreva sobre as maravilhas da humanidade. Se sou feliz entre monstros e fantasmas do passado, deixa-me ser... deixa-me ser feliz.
Eu não nasci para ser feliz como os outros. Não nasci para diálogos de imortalidade nem para desejar contas cheias e alma vazia. Eu não nasci para me colar às paredes da normalidade. Nasci para dançar livre, sobre soalhos de loucura. Deixa-me ser como sou. Deixa-me ser triste à minha maneira. Sou mais feliz assim.
Não te acuso da minha infelicidade. Fui feliz contigo. Ser feliz sem ti foi uma batalha de sensações e de sentidos, na qual a escuridão ganhou. Sem ver mais do que o negrume da noite e o império das trevas, deixei-me afundar nos abismos. Mas, acredita: é possível amar a noite e as trevas e os abismos. Talvez seja loucura amá-los. Mas, se não entendes, ao menos deixa-me ser feliz dentro de mim. Prefiro a minha escuridão à luz dos outros. Na minha escuridão brilho o bastante.
Se não me entendes, se não concordas comigo, se não achas que o meu caminho esteja certo, guarda para ti as palavras. Não estás aqui para me fazer feliz mas deixa-me... deixa-me ser feliz.
Preciso que compreendas. O abandono deixa marcas. A saudade deixa marcas. A mentira deixa marcas. E é difícil celebrar a vida de uma forma comum e leviana quando já nos abandonaram. Mas há outras formas de ser feliz. Esta é a minha. Não me atires palavras duras ao rosto e olhares reprovadores às costas. Se não te importares, deixa-me ser feliz...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 10 de março de 2014

Poetas (por aí)



"É querer abraçar-te, não podendo com os braços, com palavras." (Helder Godinho)

Andam por aí poetas. Passam por nós nas ruas. Frequentam os nossos cafés. Lêem os mesmos jornais. Têm empregos, como nós. E carregam as palavras às costas, invisíveis, qual saco de memórias fragmentadas, à procura de lugar para viver.
Andam por aí poetas. Passam à nossa porta. Às vezes batem. Às vezes convidamo-los a entrar. Têm mentes despertas e conturbadas. Têm sede de saber e pensam em rimas soltas de versos que nem o são. E, às vezes, dizem em voz alta poemas inteiros que tomamos por conversas naturais. Mas não o são. Nunca o são.
Caminhando pelas ruas onde nos fazemos gente, os poetas enlouquecem no devaneio das horas. Não sabem se alguém os ouve. Não sabem se alguém poderia alguma vez ouvi-los. Mas vão cantando as suas estrofes de ferro, inquebráveis e cheias de mágoa. Às vezes, nem as escrevem. Às vezes nem as dizem. Apenas as pensam. E ninguém lhes rasga o corpo em busca dessa loucura inconstante que fica além da barreira.
Andam por aí poetas. Aparentemente, não são diferentes de nenhuma das outras pessoas. Parecem normais. Sãos. Pessoas. Mas, na verdade, são os mendigos da arte. São os estudiosos do medo. São os indigentes do tempo. E, dentro das suas cabeças, há mais do que listas de compras e problemas quotidianos. Preocupam-se com os sentimentos, com os sentidos, com as emoções. Listam soluções. Tentam salvar os mundos. O nosso e os deles, tão maiores, tão mais cheios, tão mais completos.
Andam por aí poetas. Não os vemos, de os olhar. Não os entendemos, de os ouvir. Mas eles andam aí. E apaixonam-se, facilmente, por outros poetas, cujos corações, igualmente quebrados pela mágoa dos pensamentos dispersos, se quebram a tempo de se emendarem em conjunto.
Andam por aí poetas. Não os sabemos poetas. Muitas vezes, eles não se sabem poetas. Escrevem poesia sem rima nem verso. Escrevem poesia que não se escreve. Dizem a coisa certa, no momento certo ou no errado, porque não têm medo das palavras... E ouvimos, (quantas vezes em silêncio?!) sem sabermos que a poesia que cantam é a mesma que ecoa dentro de nós.
Andam por aí poetas. E, às vezes, não podendo abraçar os corpos, eles abraçam as almas, dão as palavras, os sentidos, as razões... Não os vemos e não sabemos quem eles são. Têm forma de gente e vidas iguais à nossa.... Não os notamos. Mas, quem por eles é tocado sabe: sabe que andam por aí poetas... e que é por isso que o mundo ainda tem algo de bom.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet


segunda-feira, 3 de março de 2014

Fada


Ergui os braços aos céus e rodopiei, com os pés assentes na areia húmida e fria. No céu cintilava um universo de estrelas e a lua reflectia, incompleta e crescente, no alvoroço de um oceano feito em lágrimas.
Não fiz caso das pessoas que passavam na rua, de sobrolho franzido, amaldiçoando o Inverno. E, talvez por isso, de alguma forma, elas também não perderam tempo a olhar para mim: criança adulta ou mulher inocente, dançando ao som das ondas. Feliz, completa. Tão, tão feliz.
A memória inconstante chegava e partia como as ondas, firmes e difusas, em marés de saudade. E o vento, vindo desse Norte agreste, veio dançar comigo, trazendo o aroma adocicado de terras distantes.
Um dia disseste-me para abrir as asas. Para as abrir com a simplicidade de ser eu. E isso significava que sabias que eu podia voar. Hoje danço, porque compreendi a verdade. Tive sempre as asas abertas, da mesma forma que te tive sempre, qual corrente de aço, agarrada aos pés. Com o tempo deixei de precisar de voar. Acorrentada à saudade, à solidão, ao medo, à dor… a todos esses sentimentos que deixam de ser tristes e me acolheram nos braços.
Antes, fiz da dor o meu Abrigo. Mas hoje danço. Ergo os braços aos céus e mergulho os pés na água fria do oceano. Danço. Danço de asas abertas e sem temor. Já não te tenho, qual grilhetas pesando. Tenho apenas as memórias sólidas e concretas. Distantes... desertas de ti.
E, rodopiando, de asas abertas, dou por mim a subir aos céus de possibilidades que nem sabia que havia em mim. Descubro que há uma beleza subtil na alma que julgava que não tinha. Descubro que o lugar vazio de onde arranquei o coração foi de súbito preenchido pela certeza de que poderei sempre amar. Talvez não ame da mesma forma. Mas posso amar com a mesma força, o mesmo alento, a mesma paixão. Posso amar tanto quanto o amor diz.
Fada de Inverno num conto misterioso chamado vida, descubro voando que viverei sempre na paz de ter cumprido todas as promessas que te fiz. Na paz de saber que não espero nem desejo que cumpras a tua.
De asas abertas, e sem olhar o chão distante, descubro que vale a pena ser a pessoa que ama, apesar da mágoa. Mesmo que não resulte. Mesmo que magoe. Vale a pena ser a pessoa cujo coração bate, cuja alma permanece intacta, cujos sentidos permanecem sólidos.
Esperei. Julguei que era por ti. Não era. Esperei pelas asas. Esperei por abrir as asas. E hoje sei que valeu o medo, o sofrimento, a mágoa. O mundo é mais bonito visto do alto... e só pode ter asas quem tem coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet




Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14, cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP. 
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Chora


Chora. Chora mas chora baixinho como quem finge que não tem lágrimas. Chora para dentro para que ninguém veja, para que ninguém saiba, para não fazeres mais ninguém chorar.
Chora. Mas chora como se sorrisses. Chora como se, dentro da alma, houvesse apenas o riso perdido de uma criança contente. Chora. Mas chora para ti. Não chores para o mundo. Não chores de forma a que mais alguém o veja.
Chora. Chora baixinho, em surdina, em silêncio. Chora de olhos secos. Não deixes que caia a muralha nessa chuva de olhar insensata e imatura. Chora. Mas chora sem ninguém saber.
Chora no teu cantinho da cama. Sem estremecer. Sem te deixares arrepiar ou gemer na queda insensata das lágrimas. Chora para ti, como se cada lágrima fosse uma página de diário secreta, selada, intransmissível. E não deixes que ninguém leia em ti essas folhas secas e impressas na tinta magoada da alma.
O teu choro tem algo de dor, algo de mágoa, algo de solidão. Mas a dor é tua. Guarda-a para ti. Chora onde não te roubem o orgulho, já que tudo o resto foi levado e te dá vontade de chorar. Guarda as tuas lágrimas, pequeninas, transparentes e brilhantes. Guarda-as no lugar secreto e sagrado onde ninguém imagina que existam.
E limpa os olhos, seca o rosto, ergue-o. Sai à rua de saltos, caminha de costas direitas e põe um sorriso maquilhado no rosto. Chora. Mas chora apenas dentro das paredes do teu mundo. Não deixes que vejam além dessa muralha fictícia que te leva pela vida, sorrindo.
Chora. Mas chora onde não te julguem fraca. Chora onde não precises de explicar a força que é precisa para se poder chorar. Chora sozinha, onde te podes confortar no teu tempo e à tua maneira.
Um dia vais entender. A tua dor importa. Mas essas lágrimas que mostras, descaradas, pelas ruas onde a vida se faz inferno, não são de amor, se as mostrares. Amar é querer ver bem até quem nos rasga a superfície incauta do coração. E, por isso, se fores chorar, chora baixinho, chora para ti, chora com os olhos secos. Se for por amor, chora assim.
Acredita em mim. É, talvez, a coisa mais importante sobre os sentidos da vida. Mais vale chorar em silêncio. Mais vale ser feliz em silêncio. Mais vale o silêncio. Há tanta gente vazia neste tempo sem contos de fadas que até a dor é roubada, na esperança de se encontrar algo.
Estás triste. Isso significa que sentes. Que há algo dentro de ti. E, por isso, sim: chora. Chora mas chora baixinho, como quem finge que não tem lágrimas. Chora de lágrimas secas. Chora baixinho, em surdina. Assim saberás quem te ama a ponto de ver as lágrimas que trazes no teu sorriso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet







Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14,cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP.
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Mares da lua


Os teus defeitos são como os mares da lua. Não se escondem nem se anulam. Ficam à vista, aos poucos, por entre a luz que carregas no sorriso. Não se iluminam com facilidade e fazem formas inventadas sobre realidades indistintas entre algo e coisa nenhuma.
Ficam-te na face iluminada, espelhados a contraste. Mas vêem-se apenas porque não os escondes. Porque queres que, no centro da luz que emanas, se veja o negrume das coisas que julgas erradas ou imperfeitas em ti.
Os teus defeitos não são defeitos. São apenas cicatrizes provocadas pelo embate súbito das contrariedades da vida. Barreiras que ergueste. Medos que cultivaste. Sentidos que ficaram gastos e desbotados por entre o sofrimento dos dias. E são formas definidas e estáticas dentro do teu eu sem definições. São formas que se dizem e se conhecem mas não importam. São cicatrizes de segredo que se estendem e te marcam e não se dizem a ninguém. Mas não precisas de contar a ninguém. Não precisas de me contar. Os teus defeitos são como os mares da lua.
Há luz nos recantos de ti onde embate o sol. E esse brilho reflete o sol na felicidade constante do que resta no fim de tudo o que são os nossos dias. Tal como a lua. E, tal como ela não esconde os mares mas apenas os deixa dormir no negrume de não terem luz, assim deixas esses medos, barreiras e sentidos na penumbra do ser, sem os esconderes nem realçares, buscando apenas ser a luz que há em ti.
E, olhando, mesmo que olhe com atenção e ao pormenor, eu vejo-te o quarto crescente de luz e não o escuro do que fica nos recantos das trevas de ti. Sei dos medos e das barreiras e dos sentidos dormentes que ficam no lado escuro da tua perfeição. Mas não me importa. Não importa porque a luz do que fica atrás das barreiras, por entre os medos e na emoção dos sentidos partilhados, é demasiado forte para se deixar esbater pela escuridão das cicatrizes que carregas.
Há perfeição em ti. Não porque não haja defeitos. Não porque escondas os defeitos. Não porque a realidade fique oculta atrás de um véu de fantasias loucas e insensatas. Há perfeição em ti porque deixas que te veja. Deixas que te veja a luz e a escuridão. Deixas que os teus defeitos sejam como os mares dessa lua distante onde, em formas indistintas de negro, se anunciam por entre o brilho constante, cortante, infinito.
Sim! Há perfeição em ti. Mesmo que, de permeio, exista a sombra do defeito. É uma perfeição lunar de brilho e treva. Uma perfeição que se estende e me arrebata de tal forma que me faz dizer, sem medos nem dúvidas, que eu também amo os mares da lua...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet




Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14,cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP.
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Adormece-me


Adormece-me nos teus braços, meu amor. Canta baixinho essa canção de embalar. Essa que escreves com as pontas dos dedos, passadas ao de leve pelo meu cabelo desalinhado e revolto. Adormece-me nos teus braços, como a lua adormece no oceano. Estende-me o canto de ti onde os horizontes dos meus sonhos se cruzam com a realidade e a tornam onírica. Adormece-me no teu calor. Adormece-me na simplicidade. Adormece-me nos teus braços.
A noite caiu e as estrelas despediram-se da lua. Talvez chova. Talvez os cobertores nevoentos venham cobrir as estrelas ensonadas, para que ninguém as espie durante o seu sono. Sob as mantas, eu sou uma estrela escondida a pedir pelo teu abraço. Sob as mantas, eu sou novamente menina, desejando uma história encantada de amores que jamais terminem. Uma menina a sonhar o para sempre.
Quero ouvir a história. A nossa história. A nossa história também é um conto de fadas e uma canção de embalar. Ouço-a, palavra a palavra e nota a nota, nas respirações insensatas do meu "eu" cansado e no bater sadio do teu coração, compassado com o meu. Ouço-a, enquanto me encosto a ti e me (re)faço tua, para poder dormir sem medos nem ansiedades.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. Abraça-me o corpo frio. Abraça-me a alma macerada. Cura-me assim, noite após noite, enquanto me adormeces com ternura. E canta para mim, mesmo que seja em silêncio, mesmo que toques apenas notas e acordes invisíveis sobre as teclas do meu corpo despido. Adormece-me nos teus braços. Como se adormecem as crianças assustadas e as mulheres guerreiras. Adormece-me como se adormecem as feiticeiras e as fadas. Adormece-me com o encanto quente do teu corpo contra o meu.
Acalma-me os medos, meu amor. Não tenho medo de dormir. Não tenho medo de acordar. Não temo os sonhos nem os pesadelos. Temo que a noite caia e os teus braços não estejam à distância de um toque. Temo a saudade. Temo que as estrelas digam boa noite e as lágrimas me preencham os olhos por não estares aqui.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. É nos teus braços que quero dormir. É neles que quero acordar. É neles que quero o aconchego dos dias que chegam, na rotina de não haver rotina que canse quando estamos juntos.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. Adormece-me neles, todas as noites. Deixa-me acordar neles todas as manhãs. É nos teus braços que eu quero viver porque é neles que encontro o aconchego da felicidade. Adormece-me nos teus braços. É neles que quero adormecer esta noite. É neles que quero adormecer todas as noites. Quando o tempo vier, é neles que quero adormecer pela derradeira vez...

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet