quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Carrossel

Então a vida girou e eu chorei.
Podia não ter chorado, é verdade. Alheia aos movimentos e às mudanças deste mundo que piso, poderia apenas ter-me curvado em serventia e sorrido secamente.
Mas a vida girou e eu chorei.
Chorei sobre a promessa que já não conseguia cumprir. A mesma promessa que cumpri durante tempo demais, sem me importar com as raízes de mágoa que penetravam cada vez mais fundo em mim.
Primeiro a solidão. Depois a dor. Por fim, a vergonha. Todas elas vieram fazer-me companhia… Tapei os olhos com as mãos para que não vissem que eu chorava. Não tardou, no entanto, para que as lágrimas escorressem pelas minhas mãos e manchassem a madeira no sitio onde caíam.
Chorei sobre a minha rectidão. Sobre a promessa mais importante que fiz na vida inteira. A culpa foi de quem me criou com todas as fraquezas de um ser humano, de quem me elevou a divindade e me tornou um monstro.
A vida girou e eu chorei.
Antes que pudesse evitá-lo, as minhas lágrimas cristalinas ganharam nuances escarlates. A solidão perfurou-me o coração, a dor rasgou-me a alma, a vergonha entranhou-se na pele. Morri.
Quando renasci, os meus olhos viam claramente o que antes parecera tão incerto. O céu, quase azul, estava carregado de nuvens. O arco-íris era na verdade uma prisão. O príncipe encantado era apenas uma sombra… nada daquilo era real.
E, então, a vida girou e eu continuei a chorar.
Era tempo de quebrar uma promessa… era tempo de prometer a mim mesma que nunca mais tentaria sair do carrossel para caminhar sobre um arco-íris de pedra.
A vida girou e eu chorei. A promessa tombou. Quebrou como cristal no chão rugoso. As grilhetas caíram.
A vida girou e eu estou livre…

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Último dia

Hoje é o último dia. O último dia antes de amanhã. O último dia em que fecho os olhos demasiado cansados de hoje. O último dia em que a nostálgica dor me remete para o mar infinito da saudade.
Pode não ser muito. Questiono-me se tem alguma importância este facto solto numa vida feita de momentos dispares. Mas hoje eu sei que te amei como nunca ninguém te amou. Tanto, que me custa a crer que uma pessoa, qualquer pessoa deste mundo, tenha amado outra com a mesma intensidade com que eu te amo.

Marina Ferraz

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A morte da fera


A penúltima pétala de rosa caiu naquela madrugada e o Monstro não tinha dormido. Os olhos fitavam-na com desapego. Esperara anos pelo amor, esperar mais umas horas pela morte não podia ser difícil…
Viu a pétala cair, fixando o seu movimento ondulante até esta tocar o chão, a seus pés. Pensou em pegar-lhe, agradecendo-lhe por lhe anunciar o fim antes da última pétala o condenar ao esquecimento. Não o fez. Não o fez porque sabia que as suas garras a transformariam em poeira se tentasse.
Então, o Monstro recostou-se na poltrona e fechou os olhos para, de seguida, os abrir. Não temia a morte mas não queria adormecer. Restava-lhe aquele dia, talvez menos…
A última pétala da rosa agitou-se mas não caiu, ameaçou-o apenas, fazendo-o uivar de temor.
O uivo, que podia ser uma lágrima ou um grito, percorreu o palácio, ecoando pelos corredores vazios e assustando os seres encantados que, tal como o Monstro, estavam agora condenados à morte.
Ouviu um barulho lá fora e forçou-se a levantar-se. Seria imperceptível a qualquer outro mas ele ouvia claramente o som doce da neve a cair no solo, formando uma camada gélida sobre a relva seca do jardim.
Estendeu a mão mas nenhum floco a tocou. Era como se a sua aparência repelisse até o gelo que caía sob a forma de algodão frio.
Fechou os olhos novamente, respirando fundo. Também queria recordar os cheiros e os sons. Agora que a morte estava tão perto, era fácil amar tudo em redor.
Entrou e voltou a deixar-se cair na poltrona, fazendo-a ranger sob o peso do seu monstruoso corpo.
Agarrou o espelho mágico mas não lhe perguntou coisa alguma, limitou-se a fixar o seu reflexo, procurando nele qualquer réstia de humanidade. Não a encontrou. Já não era um homem! Questionava-se agora se algum dia o fora…
A voz da feiticeira estava ainda gravada na sua mente. Amor… como podia ela pedir que ele aprendesse a amar ou fosse amado? O amor estava em vias de extinção e ninguém se havia de apaixonar por alguém com o seu aspecto. “Por um monstro!”, acrescentou para si.
Com uma raiva desmedida, atirou o espelho contra a parede, fazendo-o partir-se em mil pedaços.
Pela primeira vez desde que se lembrava, sentia um ardor estranho no nariz e apetecia-lhe chorar. Cerrou os dentes, forçando-se a parar de ser racional. Era uma besta, não uma pessoa. Não era altura de se reger pelos sentimentos em detrimento dos instintos.
A última pétala caiu. Demorou mais do que a outra. Ondeou pelo ar, dançando como se troçasse da dor que dava àquela fera. Ele respirou fundo pela última vez e depois caiu. Uma gota de água salgada percorreu-lhe o pêlo e caiu consigo. Todos os objectos encantados do palácio se imobilizaram. Um segundo depois, todos eles desapareceram juntamente com o Monstro, deixando no ar apenas pó, iluminado pelo sol nascente daquele dia.
O palácio mergulhara em silêncio e cheirava a morte, apesar de nenhum ser vivo ter sensibilidade bastante para o detectar. A fera morrera e a rosa murchara.
Foi então que o portão chiou. Não era aberto há mais de cem anos.
Uma rapariguinha do campo entrou, destapando a cabeça. Era de uma beleza estonteante. Tez pálida, lábios cor de cereja, olhos castanhos e abertos, esperançosos. Fitou o palácio com curiosidade e entrou a medo.
Estava totalmente deserto…
Imaginou-se num conto de fadas. “Princesa Bela”, murmurou para si mesma, sorrindo. Era fácil imaginar-se assim, era uma sonhadora presa a histórias irreais de livros de fantasia.
Rodopiou sobre si mesma e depois tornou a sair, sabendo como era ridículo imaginar que aquele velho palácio abandonado e a cair aos bocados podia, alguma vez, ser parte de uma história de encantar, como as dos seus livros.
Era o seu conto de fadas… mas ela chegara tarde demais.
É sempre assim! Toda a gente chega tarde demais. Toda a gente parte demasiado cedo. E os homens morrem como monstros. Sozinhos. Sem amor. Totalmente sozinhos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

domingo, 28 de junho de 2009

Saudade

Abri a porta e a janela, depois sentei-me no chão com a cabeça entre os joelhos. Precisava de ar. Sentia a garganta apertada. O desejo demasiado profundo de me enterrar na minha própria dor para a transformar noutra coisa qualquer parecia queimar-me a pele.
Respirei fundo, sentindo o meu coração ripostar. “A culpa não é minha” – gritavam os meus olhos fechados sem que uma lágrima os preenchesse. E foi então que a senti entrar. Sorrateiramente, como se tivesse medo de acordar os meus sentidos dormentes ou de atiçar simplesmente a minha fúria. Entrou lentamente, pé ante pé, demorando dois segundos a compreender que eu sabia que ela estava ali.
“Estás atrasada” – rosnei-lhe. E ela baixou a cabeça, sem contestar as minhas palavras. O vazio da sua resposta era o silêncio de sempre. Senti o ódio percorrer-me as veias, como se pudesse chegar a todo o lado e preencher cada célula do meu corpo.
Então, suavemente, ela aproximou-se sem que eu a detivesse e fundiu-se em mim. A dor que senti quando o fez foi excruciante, como se um ferro em brasa me marcasse vez após vez, como se me baleassem repetidamente e me arrastassem por um chão de pedras afiadas. Como se a vergonha viesse juntar-se à sensação de estar a ser torturada e se misturasse ainda com a impotência de não poder gritar.
“A culpa não é minha” – repetia em pensamento. Não compreendia porque é que a saudade tinha saído da minha vida, por que motivo decidira voltar agora, só agora…
Percorreu-me a expressão o grito mudo de saber que aquela dor podia ser ainda maior e, nesse lapso de sanidade, ela piorou. A saudade queimava-me, a dor tolhia-me os sentidos e ainda podia ser pior porque a minha consciência procurava focar-se na única coisa boa que sobrava na minha vida: amar-te.
E amar-te aumentava a saudade e ela queimava mais e mais, como se não fosse o suficiente. A corrente de ar que passava por mim não ajudava. Já não conseguia lutar mais. Já não conseguia respirar.
“A culpa não é minha!” – gritei por fim para que ela me ouvisse. Os olhos secos contrastavam com a tez pálida da minha dor que não parava nem abrandava um pouco. A saudade, no entanto, já se tinha alojado em mim, tomado de assalto o meu corpo… e ela queria que eu chorasse. Abanei a cabeça a custo, respondendo aos seus desejos. “Estás atrasada… a culpa não é minha!”
A porta bateu violentamente quando o vento soprou mais intenso. Por mais forte que fosse a saudade ela não era mais forte que o meu amor. Não era mais forte que as minhas promessas e não era mais forte que as minhas palavras quando um dia, há muito tempo atrás, os meus lábios, ávidos dos teus beijos, deixaram escapar a frase “Eu prometo que não choro…”

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Peças Soltas

Vá lá… não tem mal nenhum! Vamos fazer de conta que somos crianças. Que não temos responsabilidades nem horários. Que tu não precisas de sair agora para ir trabalhar e eu não preciso de ir tratar das minhas coisas. Vamos fingir que não temos nada para fazer além de prestar atenção um ao outro, está bem?
Sentamo-nos no chão de pernas entrelaçadas uma na outra, frente a frente. Eu mexo desajeitadamente no cabelo, enrolando-o no dedo com a típica desatenção de quem pensa no que jogar a seguir e tu ris da minha incoerência sem sequer saberes que é isso que te leva a rir.
Então, fingimos que não sabemos nada um do outro. Pode ser? Eu conto-te um sonho meu e tu contas-me um teu, depois eu conto-te um segredo e tu fazes o mesmo. Podemos começar pelas coisas mais simples. A tua cor favorita, o que mais gostas de fazer, qual é o teu clube de futebol… mas tu sabes que são só dois segundos até eu saber quais são os teus medos, de que é que te arrependes mais na tua vida, o que gostavas de ter feito e não fizeste (e porque não fizeste!).
É verdade que também o saberás de mim. Fragmentos do meu passado juntos num puzzle indefinido de milhares de peças. E há aquelas que nunca encaixam, não há? Acontece-me o mesmo quando penso em ti.
Quando dermos por nós, esta corrida louca e ingénua ao passado terá sido o maior erro de sempre mas, ainda assim, prefiro arriscar. Quero saber quem és! Quero saber porque é que olho para ti com olhos-estrela, porque é que me fazes sentir tão feliz.
E eu vou-te pintar de negro e roxo, as minhas cores favoritas enquanto faço o que gosto mais e imagino um futuro para nós. Não entenderás os meus medos nem as coisas de que me arrependo mais porque não sabes que elas só poderão existir depois de ti.
Quando te levantares e acabar este jogo. Quando conheceres de mim mais do que toda a gente e eu conhecer de ti mais do que devia, vai ser aí que as minhas peças soltas te vão começar a incomodar e que as tuas peças soltas vão começar a encaixar erradamente em todo o lado.
Quando acabar o jogo e tu já não estiveres sequer para te sentares comigo e fingires que somos crianças, vai ser aí que eu vou compreender que cada uma dessas peças a que não dei importância faziam parte do teu puzzle e jamais poderiam fazer parte do meu.
Mas hoje eu quero entender porque é que te olho com olhos-estrela. Quero saber porque é que me sinto tão feliz quando olho para ti.
Vá lá! Conta-me um segredo que eu conto-te um meu e não digo a ninguém o que me contares… não tem mal nenhum sermos crianças uma vez mais neste mundo onde crescer é a única coisa que parece realmente errada.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sábado, 9 de maio de 2009

Lágrimas de Pedra II


Hoje, percorri ruas e vielas. Não era a mesma solidão. Já não era a solidão de não haver mais do que ilusões e desilusões na minha vida! Era a solidão deixada pela própria solidão, a ausência desse sentimento que sempre me fez odiar o ar que respirava.
Hoje, cheguei até ti vestida de enganos e de certezas, vestida de orgulho e de esperança. E levaste os meus medos para um qualquer lugar onde jamais poderia chegar sozinha.
Esta noite, ao contrário de tantas noites, tu olhaste para mim e fizeste-me uma vénia. Os teus olhos de pedra estiveram mais perto do que nunca, a tua mão tocou o chão para me cumprimentar. Amei-te mesmo depois de terem manchado a tua fachada. Descobri que te amaria ainda que fizessem contigo as maiores barbaridades e então sorri porque é bom ainda te amar depois de tudo o que se passou…
Calou-se a multidão a teus pés e cantou-se o fado. Cantou-se a beleza, o amor e saudade. As tuas lágrimas de pedra caíram, invisíveis para todas aquelas pessoas, mas eu vi-as. Vi-as quando as guitarras começaram a tocar e quando o meu orgulho e a minha esperança passaram o meu ombro esquerdo e a minha capa foi finalmente traçada.
Senti finalmente que uma era se acabava para outra começar. E ouvi a tua voz uma vez mais, dizendo que eu ia a tempo de mudar o rumo do mundo e que fechar os olhos por um tempo não significava que não pudesse abri-los para ver tudo de forma mais clara.
Então, de capa já traçada, olhei para ti e apercebi-me de que eu era muito pequena e que a vida era grande demais para a perder numa tristeza sem razão.
Não sei se foi pelas palavras finalmente ouvidas, pelos teus olhos pousados em mim ou se foi simplesmente pela minha capa negra finalmente traçada mas senti-me feliz. Realmente feliz. Aquela felicidade completa e única que é tão rara nesta vida.
Talvez o mundo me tenha levado por caminhos errados (tortuosos, até). Ou talvez não tenha sido o mundo. Admito: talvez tenha sido eu própria a culpada dos meus caminhos! Mas esses caminhos errados levaram-me justamente para o ponto de partida. Cheguei a casa. Não sei definir como gosto de voltar finalmente para casa! Gosto de sentir finalmente que sei onde está o meu lar. E se agora me sinto assim, não terão valido a pena todos os meus erros?
As tuas lágrimas de pedra nunca vão secar, da mesma forma que algumas partes de mim continuarão infinitamente maculadas. Tu e eu temos a eternidade. Temos a maravilhosa certeza de que é para sempre! - Tu tens os teus olhos de pedra, os teus abençoados olhos que ano após ano podem presenciar as reacções de pessoas que traçam a capa pela primeira vez, olhos que podem ter um vislumbre de paixão em mil gestos para depois verem num simples olhar o verdadeiro amor. E eu, eu terei sempre esse olhar, esse olhar agora livre de grandes gestos que não valem nada, mas repletos de sensatez e de maturidade.
Cheguei a ti, nua de tristeza e amargura. Foi a primeira vez que me olhaste e viste que eu sorria. Foi a primeira vez que acreditaste na minha expressão alegre. Foi a primeira vez que conseguiste acreditar quando afirmei não ser apenas tua.
E eu ouço a tua voz, como antes ouvia. Falas-me durante alguns minutos, fazendo-me corar um pouco com algumas expressões que, de tão reais, me fazem sentir embaraçada. De súbito a música pára e tu calas-te respeitosamente. Então, ergo o meu tricórnio no ar em vez de bater palmas (afinal, não se aplaude o fado), agito-o levemente num agradecimento mútuo ao fadista que me fez pensar, aos amigos que mataram a minha solidão, às palavras que acalmaram a minha saudade, à madrinha que traçou a capa negra do meu traje minhoto e a ti, meu abrigo, que estiveste aí uma vez mais, olhando para mim por entre a multidão e vendo-me vestida de orgulho e de alegria.
A lua estava cheia e ia alta no céu um pouco nublado. O fado recomeçou e eu vim embora, saciada. Silêncio… ouçam apenas o silêncio agora! Porque é música aos meus ouvidos o bater satisfeito do meu coração!

Marina Ferraz

8 de Maio de 2009
Serenata

quinta-feira, 30 de abril de 2009

As tuas ilusões


As tuas ilusões cansam-me. É como se ouvir as tuas palavras carregadas de sonhos e projectos me fizesse compreender quão superficiais são os meus próprios desejos.
Tu queres tanta coisa! Queres a casa grande no topo da montanha, com vista para um mar sem fim. Queres as viagens e os hotéis e os jantares em casa de familiares e amigos.
Tu queres acordar, olhar ao espelho e acreditar que o teu reflexo é o único reflexo nítido que há no mundo. Queres um elogio quando te arranjas um pouco mais antes de saíres de casa.
Queres ser o melhor entre os melhores, deixar para trás o brilho do teu sorriso e cativar milhões com um olhar ou uma palavra fugaz.
Tu queres o mundo, queres o Universo, queres o que está para além do Universo.
As tuas ilusões cansam-me porque a única coisa que quero é ter-te perto. Quero de volta a pessoa que apenas queria o que eu queria: o Tudo que era termos um do outro mais do que se pode comprar ou receber.
Tu queres as certezas e as incertezas. Queres as festas e os bailes e as pessoas. Queres ser mais do que tu e mais do que eu e até mais do que nós.
Não sei dizer-te como me magoa saber que queres ser mais do que nós… Eu daria a vida apenas para conseguirmos ser o que já fomos.
Falas-me dos teus sonhos e eu apoio-te. Apoio-te porque é a única coisa que posso fazer. Sei que estou a abrir-te a porta para ires embora da minha vida. Tu nem reparas…
As tuas ilusões cansam-me. Cansa-me tentar que me vejas e ser invisível ainda que me digas a cada dois segundos quão fantástico poderá ser o nosso futuro. Cansa-me ouvir-te falar de dias que nunca hão-de chegar. Cansa-me ter de esconder a sonhadora que sempre fui e pousar os pés na terra para que ao menos um de nós tente viver a realidade.
Cansa-me tanto! Cansa-me tanto sonhar apenas contigo, sonhar apenas em manter o pouco que tenho. Cansa-me tanto ouvir-te pedir demais e ter de ser tua aliada nessa guerra que travas com um destino que já nos foi favorável.
Cansam-me as tuas ilusões e ainda mais os meus medos. Assusta-me a ideia de te ver realizar tudo o que queres - não posso negá-lo! Já não mereço o que és agora, algum dia seria capaz de merecer-te se fosses tudo isso?
As tuas ilusões cansam-me. Cansam-me mais do que estou disposta a admitir, mais do que saberia dizer-te. Mas, por favor, não deixes de sonhar nem de me dizer que queres ser maior que tudo! Nunca pares de lutar para seres melhor. Eu sou a pequenina parte do Universo que já conquistaste. Não posso ansiar que sejas apenas meu! Voa. Eu ficarei aqui para te agarrar se um dia caíres… e, se não caíres, serei sempre a pessoa que ouviu os teus sonhos. Terei orgulho de ser essa pessoa ainda que, depois, não arranjes um espacinho para mim dentro do teu perfeito coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quinta-feira, 26 de março de 2009

“Fica para amanhã”

Hoje a agenda está cheia. Não tenho um minuto para te dizer o quanto gosto de ti. Hoje não posso amar-te, não tenho tempo para sentir. Tenta entender. Os dias repetem-se. Todos os anos. Seguidos naquela lógica infernal: mês, semana, dia, hora…
Tenho repletas as páginas da minha agenda. Compreende, amor. Hoje não posso, como ontem não pude e antes também não. Não tenho tempo para essas coisas…
Ontem, tinha posto na agenda que às dez horas e um minuto da manhã, naquele minutinho exacto, ia pensar em ti. Ia pensar que te amava. Se tivesse tempo suficiente, mandar uma mensagem só a dizer que te quero, que te amo, que és tudo na minha vida. Mas ontem, logo ontem, o relógio parou às dez horas e não te dei um pensamento. Nem me lembrei! Tenta entender!
Há quanto tempo adiámos o nosso almoço para “amanhã”? Já não me lembro! Uns meses? Uns anos? “Fica para amanhã, então” – lembro-me de dizer e tu suspiraste, o suspiro soou triste e replicaste apenas “Sim, amanhã…” Há quanto tempo foi isso?
Hoje a agenda está cheia. A agenda está cheia e eu estou cansada. Como um ser automático sigo as ordens que as palavras rabiscadas nas folhas numeradas me indicam. Como não tenho um minuto livre para pensar, o relógio avança, devagar é certo, mas avança…
O nosso almoço está marcado para “amanhã”. O amanhã é o dia que está depois do dia que é sempre o “hoje”. O amanhã está sempre a um dia de distância e nunca chega… Mas “amanhã” estarei contigo.
Às vezes questiono-me porque não entendes. Porque não vês que tem de ser assim? Se eu tivesse um minuto, ele seria teu. Amo-te tanto!
Tenho marcadas na minha agenda as seis horas que vou dormir. Já devia ter adormecido por agora! Não posso atrasar-me amanhã. Mas agora tenho a cabeça cheia e ninguém para me ouvir. Os olhos preenchem-se de lágrimas que não verto e adormeço assim.
Às seis em ponto o despertador toca. Levanto-me e olho a agenda. Hoje a agenda está cheia. Não tenho tempo para te ver, quanto mais para me sentar e almoçar contigo. Tenho saudades tuas mas tenta entender… não posso! Fica para amanhã… está bem?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Gostava

Gostava que aceitasses um bocadinho da minha alma porque o meu coração não me pertence e não tenho mais nada que possa dar-te.
Gostava que a aceitasses e a guardasses no bolso, juntamente com as memórias que atabalhoadamente fechaste, querendo esquecer e julgando ser possível fazê-lo.
Por entre as sombras do olvido, nos vales tenebrosos do silêncio, dou por mim a pensar. Penso que gostava que soubesses que a minha vida está vazia desde que não fazes parte dela e que aquele pedacinho da minha alma, o mesmo que queria dar-te, vagueia por aí, à espera que o encontres e o guardes no bolso.
Desejo que, cada vez que penso em ti, o sintas na pele e isso te faça feliz. Pouco me importa se essa felicidade vem de uma espécie de amor ou de um desejo de vingança. Porque, se te sentisses feliz cada vez que penso em ti, sentir-te-ias feliz a tempo inteiro. E que doce vingança seria ser triste sabendo-te feliz!
Não vou dizer que a tua felicidade seria o bastante para me tornar igualmente feliz mas não tenho medo de afirmar que ela me faria ser menos triste.
Por tudo isto, gostava que aceitasses um bocadinho da minha alma e a guardasses. Quem me dera poder dar-te também o meu coração e a minha vida…
Porque, estupidamente, não tenho medo de sofrer e isso faz-me feliz. Não precisei de fugir de ti nem de te evitar. Não precisei de falsos moralismos! Então, em vez de amar-te, pude viver-te. E se pudesses aceitar aquele pedacinho da minha alma, saberias que nem toda a felicidade do mundo seria melhor do que chegar ao momento em que te quis dar a minha alma, sabendo que o coração já tinha sido quebrado e esquecido no fundo de uma gaveta.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Segredo


Foi em segredo que escrevi o meu primeiro poema. Os meus primeiros versos eram feitos de um sorriso intemporal e quente a rasgar o meu rosto de criança. Tinha uma vida para viver. Mil desgostos à minha espera. Muitos mais poemas para me afogar.
Então, foi em segredo que segui a vida. E foi em segredo que compreendi que um poeta nunca aprende a ser verdadeiramente feliz.
Com um medo apenas superado por uma insanidade crescente, foi em segredo que guardei a minha suposta felicidade dentro de uma caixinha de jóias e foi em segredo que a selei para que os meus poucos momentos felizes não pudessem fugir de mim ou ser-me roubados.
Foi em segredo que me apaixonei e foi num segredo ainda maior que dei por mim a quebrar a minha caixinha e a oferecer-te a minha felicidade como se conhecer-te bastasse e já não precisasse de mais nada para poder sorrir. Nunca te apercebeste que ta oferecera porque foi em segredo que ta deixei no bolso, durante aquele abraço que nem te recordas de me teres dado mas que tinha mil promessas que apenas eu podia ouvir.
Foi em segredo que te vi virar costas e transformares o meu mundo num mundo que já não me pertencia, e foi o maior dos segredos a minha certeza de que, ainda que dissesses o contrário, não voltarias àquele lugar.
Imersa no silêncio dos murmúrios de um pensamento, foi sozinha e em segredo que compreendi e aceitei o que não tinha como ser compreendido ou aceite, e foi em segredo que limpei as lágrimas e ergui a cabeça.
Foi em segredo que rezei por ti, desejando que a minha felicidade ainda estivesse guardada no teu bolso e que nunca dele saísse. Foi em segredo que agradeci aos céus por te ter conhecido e que desejei que houvesse nos teus lábios um sorriso igual ao que ofereci ao espelho depois de escrever, em segredo, o meu primeiro poema.
Foi em segredo que adormeci sem vontade de acordar e foi em segredo que me entreguei a sonhos proibidos. E os meus olhos, sem lágrimas ou melancolia, fizeram-me acordar disposta a enfrentar um mundo onde eu já não queria estar.
Então, foi em segredo que encolhi os ombros, agarrei a caneta e escrevi um poema de amor. Foi um poema triste. Um poema sobre o silêncio e a saudade. Um poema sobre todos os segredos que a minha alma guarda e que jamais quebrará. E foi em segredo que continuei a respirar sem viver, pensando num breve sorriso que a única coisa realmente certa que fiz na vida foi deixar no teu bolso a parca felicidade que guardara e escrever um poema que, mais do que palavras, carrega todos os segredos do meu coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet