terça-feira, 8 de novembro de 2016

Antes de nascer o sol



Quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram parecia certo. Mais romântico do que casual. Era o fundo do copo, na noite que se fazia manhã. Sem clichés. Sem responsabilidades. Sem promessas. Era o amor, regado a cerveja e tequilla. Não deixava espaço para a vergonha nem para a inibição. Disseram palavras de afeto, rolando nos lençóis como quem dança a mais lasciva das danças. E, em seu redor, as paredes exalavam o odor do ópio e do desespero audaz. Inebriava-os com a noção intemporal dos corpos que lutavam, que embatiam, que se completavam. Sem clichés. Sem responsabilidades. Era melhor assim.
Estranhos na noite, fizeram-se conhecidos nos recantos suados, sob o olhar casual de olhos que não viam. Os deles encontraram-se. Por acaso. E os corações, que já não conheciam ritmo que não o do pulsar caótico e retumbante das colunas, julgaram, na ilusão dos graves, que talvez pudesse ser o destino. Não era destino. Era ocasião. E o fumo. E a erva. E as bebidas. Mas importa pouco, se pensarmos nas formas como também as bebidas e a erva e os fumos podem ser destino. Ele perguntou-lhe o nome. Ela perguntou o dele. Não ficaram a saber nada. No centro da agitação, a música era o nome completo das centenas de pessoas que ali se juntavam. E eles, que nem sabiam bem se tinham ouvido o nome um do outro, perderam-se de amores pela ilusão desse destino bêbedo e drogado que se fazia nascer, fruto do suor da noite.
Beberam as histórias da vida um do outro em copos de shot. Apagaram nas passas os vestígios da bagagem que arrastavam. Riram. Dançaram. E arrastaram-se para os braços um do outro, até o toque dos lábios lhes arder na língua e se fazer droga. Viciaram-se nesses beijos. E o destino que não era destino ajudou a fermentar aquele amor que não era amor, até que se arrancaram roupas do corpo e desejos da pele. Repetidamente.
Foi por isso que, quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram parecia tão certo. Tão mais romântico do que casual. Uma vibração tosca da sintonia dos homens com a Terra. Uma vibração tosca da sintonia das mulheres com o sonho. E das mulheres com a Terra. E dos homens com o sonho. Que despidos são todos pele e músculo e osso - só mudam os orifícios e as saliências. Sim. Terra e sonho. Era isso que tornava certa a obscenidade. A luxúria, após a noite quedar, não era mais pecado do que a comunhão. Era um ritual divino entre dois seres que se achavam, depois de perdidos e que se perdiam para se encontrarem. Um ritual algo cru. Algo áspero. Mas que, para eles, era todo feito em suavidade e alegria. Ainda bem para eles!
Toda uma imensidão. Sem clichés. Sem responsabilidades. Sem promessas. Só com o toque. Uma luta corpo a corpo. Desumana. Na batalha dos sentidos que terminaria, ao nascer do sol, com o caminho feito nas roupas da noite passada e os olhares de vergonha colados ao chão. E com asco colado na sola dos sapatos. E pó nas roupas. Porque, de súbito, as bagagens esquecidas caem na cama, estrondosamente. Lembrete da história que os faz pessoas. Lembrete da vida que ficou e da que segue. Então, o corpo nu não faz sentido. E o cliché assume-se. E a responsabilidade aparece, raramente só. A promessa que nunca se fez foi quebrada.
Eu sei. Não parece. Mas é uma história de amor. De comum, olvida-se (ou condena-se). Mas ainda é uma história de amor. Talvez não de um amor que se dá – ou recebe. Mas de um amor que se faz. Depois de meia dúzia de copos virados.
Para eles, parecia amor. Agora não parece. Mas parecia. Mais romântico do que casual. Antes de nascer o sol. Quando as roupas caíram no chão e os corpos se deram.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Dia de folga



Acordar. O grito do silêncio no lugar do despertador. Soando na cabeça como um sino de igreja. Infernal e sem abafo. Lembrando. Dizendo. A hora passou e é hora. Vem correr. O dia já corre e o relógio é inimigo.
Com o som desse silêncio, os pés pousam no chão. E as mãos comprometem-se com a tarefa acumulada dos dias passados. Apanham do chão a roupa. E levam-na ao encontro da água, dos pós, dos aromas. Ao encontro do sol. Ao encontro do que fica lá fora estendido. E aproveita-se a mais ténue brisa. O mais breve dos raios soalheiros. Até que, voltando ao interior, se traz calor e fumo e vapor. Se acresce e finaliza.
As mãos comprometem-se com a louça. Fazem jogos sonoros. E mergulham na água. Tilintando pratos e copos. Agitando panos. Uma dança. Uma coreografia. E avança, ao som desse silêncio, para uma dança de pares. Com a vassoura. Com a esfregona. É uma festa onde os intervenientes dançam pelo chão. Com ou sem vontade.
Até ser hora de pôr na mesa a refeição. Caseira. Com o ponto de tempero. Com o sabor edificado nas escalas do que se busca nos permeios insaborosos da vida. Uma refeição que se trabalha e engole sem provar.
O dia avança. Avança também. É hora!
Cama feita de lençóis limpos. Toalhas de rosto trocadas por aquelas cujos aromas evocam flores e frutos. Telefonemas trocados, marcando consultas e necessidades. E pés saindo de corrida, levando nas mãos a lista rabiscada de tudo o que vai faltando. Carrinhos que se enchem. Talões que se entregam. Cartões que se passam. Cifrões que passam de umas contas para as outras à medida que anoitece o dia.
Acumulam-se compras na dispensa. Reciclagem nos sacos. Cansaço nos ombros.
E a hora que corria chega. É hora. De dormir. A folga acabou. E amanhã é dia de trabalhar…



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet






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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Mergulho



Mergulho em mim mesma. E sufoco nos meandros do ser. Entre a pele e a muralha que a enrijece, como se temesse o agravo do que vem. Não sei se ela se ergue para te impedir de entrar ou para me impedir de sair.
Presa nos meandros de mim, percebo que só posso amar-me odiando o mundo. E que, se amar o mundo, o ódio se fará recuar até ao que fica dentro, no local onde sufoco.
Mergulho em mim. Há corais de todas as cores no fundo do oceano da minha alma. Mas muitos são negros como a noite. Ecoam a desgraça e o descontentamento. Libertam bolhas de mágoa e desespero. Cumprem as profecias do que nunca se fez ouvir entre os cantos inusitados das videntes.
Ouve-se a voz. Monstro. E mergulho. Tenho um fascínio fora de época por esse monstro que, preso nas profundezas de mim, vai fazendo a sua voz presente através da inusual compreensão do que me enrijece a muralha.
Não sei. Não sei se o muro é prisão. Talvez seja. Mas tão segura é esta prisão que não quero, não ambiciono, a liberdade.
Atrai-me a clausura independente que me afasta de tantos quantos ostentam mentiras nos rostos. Sorrisos. Ser triste é uma bênção. Ser só é uma bênção. A dor vem da expetativa da felicidade, do amor, de todas essas palavras que se despem e prostituem feito promessas.
Mergulho em mim. E sufoco no vislumbre do que trago dentro. Metade é cansaço e o resto é rarefeito. Reparto os sentidos em migalhas e sinto pouco mais do que apatia.
Há a muralha. Olhando para ela, há quem diga que não tenho nada. E agarro as palavras nas mãos como diamantes. Tenho isto. Sempre tive isto. E só.
Mergulho dentro de mim. É um sufoco que me agrada. Esse ódio que me mura a pele. Esse amor que não faz sentido.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet






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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Neuro B



São quatro paredes. E uma janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento. As árvores verdes. Todas menos uma. Vermelha. A anunciar o Outono. Chamando para si os olhos cansados das paredes e tetos. E dos sofrimentos. E das lágrimas que – como se quer – caem dentro da alma e não transparecem. Às vezes é preciso retardar o Outono em nós.

O suspiro nasce, entre os segundos de silêncio, sempre quebrados. Seja por um bip mecânico, por um grito ao longe, por uma conversa ocasional no corredor. E, lá ao fundo, orgulham-me os traços ciganos de dezenas de meninos e meninas, de senhores e senhoras, todos sentados à espera, com fé e sacos de comida. Nos olhos ciganos encontro algo de muito familiar. Como traços de uma mão que é minha. E sempre demoro a perceber porquê. É uma familiaridade reticente, de alguém que desviou o olhar. Mas sei. Sei onde vi aquele olhar cigano. Vi-o no espelho, pela manhã. Recheado da mesma preocupação, do mesmo medo, da mesma angústia. Cheio de rezas aos Deuses e de pedidos à Mãe. Cheios de desespero. Cheios de tudo o que me esvazia por dentro.

Encho-me de pontos finais. Para que, em vez de conclusos sejam apenas reticências, repetidas no limite louco da impaciência. E cada segundo é uma vitória. E cada vitória é um salto de fé. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Sempre ali.

Da comida levada aos lábios. Da mão nas costas. Do beijo no rosto. Da palavra. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. Acredita comigo. Monstro eu, que me debruço na cama, à procura de ver o que não se encontra senão no leito do amor que se deu toda a vida. E monstro a vida que me faz debruçar sobre os medos que me tingem o amor e o tornam dilacerante e atroz. O sumo pela palhinha. O lenço que pende. A voz que se arrasta num “ai”.

Ao lado, alguém que tem dores não tem família. Nem voz que diga mentiras alegres. Nem alguém que simplesmente se sente e olhe para as paredes e as árvores verdes e vermelhas. Ao lado, alguém morre só numa cama de hospital. Mas nunca importa verdadeiramente o quarto ao lado. Pois não? Os outros podem bem ser apenas o que não existe. Lembremos: para eles, os outros somos nós. Os fantasmas que povoam a assombração do quarto que não existe e no qual não fica deitada uma vida cheia de sentidos. Tão egoísta é o amor que nos perdemos a achar que o mundo começa e acaba na Sala 3, Cama 36. E, se não acaba o mundo inteiro, ao menos o meu permanece ali, deitado. Entre as paredes que me esmagam.

Sorrio. Por fora. Choro. Por dentro. Lá ao longe chamam-me as regras inusitadas e nauseabundas de um mundo que acha que as prioridades que me traçam a estrada não justificam os meios nem as causas. Também lá do longe quem olha vê “os outros”. A vida é mesmo assim. Querer que ela veja é querer que os olhos cegos das sepulturas mentais se abram ao mundo, libertando, não poeira, mas gotas de sanidade. Na sua falta, ficam os meus pés assentes. Entre quatro paredes. Junto à janela pequenina. Que dá para outra parede. E para o telhado. E para as árvores, lá ao longe, junto ao estacionamento.

E cada segundo é uma vitória. Cada colher de sopa é uma vitória. Cada palavra é uma vitória. Cada passo é uma vitória. Tenho visto a fé ganhar algumas batalhas. Saltos dados a custo. De um ponto para o outro. Sempre reticente. Não faz mal. Vamos devagar. Eu estou aqui. 


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 11 de outubro de 2016

A velha



Para a minha avó 

Disseste, e passo a citar: “ninguém gosta de passar tempo com uma velha!”. E eu, que nunca diria esta frase, fiquei a pensar sobre ela.
Eu era pequenina. Naquele tempo em que até a memória nos é escassa e o tempo parece uma eternidade. Dessa época guardo memórias esbatidas e imperfeitas, como se houvesse nevoeiro entre acontecimentos e vivências. O que lembro claramente? Lembro o calor, o colo, o carinho. As horas passadas ao redor de brincadeiras e canções e sonhos. Quem estava lá, nessas memórias, não era “a velha”. Era a minha segunda mãe, embalando-me, protegendo-me, acarinhando-me.
Mais tarde, veio a escola. E foram muitas as horas de estudo, em redor dos deveres, que se articulavam com ensinamentos de vida. Aprendi a somar, a subtrair, a multiplicar (e, mais ou menos, a dividir). Aprendi a escrever. Aprendi que não se deixa para amanhã o que se pode fazer hoje. Quem estava lá, nesses momentos, não era “a velha”. Era a minha educadora. A minha mentora. A professora paciente e incansável.
Com a escola, que avançava, viera as agruras da vida. Dos colegas que troçavam, dos rapazes que não me ligavam ou ligavam demais. E foram muitos os conselhos: “Isso é tudo por inveja!”; “Tens tempo para namorar, agora estuda para um dia seres alguém!”; “não há amigos para sempre!”; “não gosto de te ver triste!”. Tantas frases. Tantas palavras. Tantas certezas. Nessas horas, quem estava lá não era “a velha”, era a minha conselheira, o meu ombro, a minha força.
Depois da escola e de todas as suas – muitas – agruras, veio o trabalho. Com ele, a distância. Mas, todos os dias, há as palavras, as chamadas. Seja um dia bom ou mau, todos os dias, do outro lado da linha, encontro força e conforto. Cada chamada é como chegar a casa. Cada chamada é uma respiração profunda a aquecer a alma e a torná-la mais leve. Apenas com a voz de ternura e parcas palavras trocadas, sinto que o peso do mundo sai dos meus ombros e que o dia melhor está ali, na esquina, à minha espera. Cada chamada me acorda a criança que vive dentro com a história de encantar que mora num beijo de boa noite. Do outro lado da linha quem está não é “a velha”, é uma das minhas melhores amigas, a trazer-me força e a fazer-me sentir especial.
Talvez ninguém queira passar tempo com uma velha. Mas tu não és "uma velha". És um Universo de coisas, de momentos e de sentidos. E, contigo, se pudesse, eu passaria cada segundo da minha vida!

Marina Ferraz




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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Ficar



Fica no peito
Como a lua fica no céu
Dependente da luz
De um sol alheio…

Quero ser eu
Mas não sou minha
E permanece o anseio!

Se voar, sou andorinha…
Mas quem quer voar sozinha
Sem saber de onde veio?

Fico.
Ficar magoa e destrói
Um sentir de quem perdeu:
Permaneço e não sou eu…
Se é amor, por que é que dói?

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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sábado, 1 de outubro de 2016

O murinho


Para o meu avô


No murinho se sentava a minha muralha. Homem forte, embora a idade calejasse as mãos e arrastasse passos. Cada dia um pouco mais. Naquela nuance de invisibilidade cega que carregamos nos olhos. Mas íamos. Juntos. E trocávamos parcas palavras cheias de sentidos, à medida que ele se propunha a concretizar todos os meus desejos e eu lhe depositava nas mãos a irrealidade de sonhos que nunca viriam a ser. Íamos de mãos vazias. Dadas. E voltávamos com gelados. Sentávamo-nos. No murinho. Lá onde crescia o chorão. E onde se acumulavam as folhas, no final do Verão, quando o Outono batia à porta. Sentávamo-nos. E desfrutávamos do doce sentido da vida enquanto aproveitávamos os raios de sol poente. Depois de jantar. Depois do dia. Depois de não haver depois. No murinho. Este murinho. Tão cinzento que se esquece. Tão pequeno que nem se nota. Tão esquecível que as arestas lhe foram tomadas pelas ervas e as frestas lhe foram invadidas pelo musgo. Tão esquecível que os buracos alastraram sem que ninguém se lembre de o mandar arranjar.
No murinho se sentava a minha muralha. Sempre com um sorriso para dar, por entre as rugas que se formavam, simpáticas, nos limites dos olhos, e as manchas pequeninas, feito sardas, que lhe apareciam em pontos específicos do rosto. Tinha sempre um sorriso. Um sorriso que caía bem por entre a rijeza da postura idosa e idónea. E era bom sorrir de volta, semicerrando os olhos. Em criança, parecia-me sempre que havia uma juventude igual à minha no sorriso que lhe irradiava estrelas nos olhos. Companheiro de brincadeiras, de caminhadas, de sessões de cinema em casa. Companheiro do gelado que comíamos sentados no murinho.
Naquele murinho construímos a minha realidade. A que não existia. Aquela que vivia dentro da minha cabeça de menina, no topo das nuvens do meu coração. O sonho. Uma história ou outra sobre o dia na escola que se dizia de um fôlego e virava, com facilidade, mote para me encher a alma com a sensação plena do orgulho que ele tinha em mim. Naquele murinho, ao lado da minha muralha, construí muito do que me viria a tornar. E algo na postura suave e doce daquele homem, de cabelo ralo e branco, quase sempre com o típico boné tapando a careca, me dizia que, fizesse o que fizesse, ele havia de me proteger.
Eram conversas de chocolate quente. E gomos de maçã de conversa. E dedos mindinhos dentro do whisky forte e velho. E peças de dominó a chocar umas com as outras. E infinidades em segundos. E gelados. Gelados comidos no murinho. Nesse murinho. Aquele no qual, ao meu lado, se sentava a minha muralha.
Sobre o muro? Permanece lá. E, porque ninguém lhe liga, deteriora-se. E, porque ninguém nota, perde pedaços de cimento e apodrece. E, porque ninguém sabe, vai degradando aos poucos a ideia de que alguma muralha possa, um dia, ter encontrado momentos de repouso sobre si. Sobre ele? Não está aqui. Mas, porque ninguém liga, permanece. Mas, porque ninguém nota, ainda vive e sorri. Mas, porque ninguém sabe, toma nuances de eternidade e deixa no ar notas saudosas do tempo em que, no murinho, eu me sentava com o gelado ao lado da minha muralha.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Não vás



Não vás. Não queiras crescer demasiado depressa. Ainda tens os olhos recém-nascidos para o mundo. Acreditas que o podes mudar. E talvez possas. Mas não queiras ir mudá-lo já. Vais ter tempo. O tempo é o que menos falta num mundo onde falta quase tudo.
Sei que não parece. Sei que a fé abranda o tempo e que parece que não estás a fazer nada. Mas estás! Estás a preparar-te para mudar o mundo. Um dia. Outro dia. Mas espera. Antes de segurarem as armas, as tuas mãos precisam de segurar outras mãos. Antes de abrirem para as conversas formais e os gritos de guerra, os teus lábios precisam de conhecer a profundidade dos beijos do verdadeiro amor. Antes de te levarem à distância, os teus pés precisam de criar pegadas no centro do que te torna tu. Não queiras crescer demasiado depressa. Não vás.
Não vás. O chamamento é claro mas não é teu. Não queiras que seja. Não queiras crescer demasiado depressa.
Sei que te deram o sonho. Que o sonho virou semente. Que a semente ganhou raiz e que ela alastra dentro de ti. Sei que é ela que te brilha nos olhos. Esses que são recém-nascidos para o mundo e que eternamente desejam a hora de voar mais longe.
Não vás. Não queiras crescer demasiado depressa. Ainda há sonhos à espera de te encontrarem na inocência dos anos, enquanto as nuvens que chovem lá fora são incapazes de te resfriar o coração virgem e intocado. Esses sonhos esperam encontrar-te aqui, onde guardas a inocência dos anos e a pacatez da infância, a necessidade do afago.
Eu sei que queres ir. Como soa a promessa essa partida! O mundo já to pede – chamando, em tom de assombro, o teu nome, num sussurro. Ele chama. Eu ouço. Tu ouves. Queres ir. Não quero que vás. Por favor, ouve antes a minha voz. Não vás. Não queiras crescer demasiado depressa.
Eu sei que te falei de concretização. Que te disse que podias ser quem quisesses. Mas ainda tens muito a aprender. Ainda não te falei das vontades do mundo, de como elas se sobrepõe às tuas, nem de como se aprende, nas curvas mais sinuosas do caminho, a superar as decepções com um sorriso no rosto. Eu sei que queres ir. Lá, onde podes ser quem ainda não és e onde te podes tornar o concreto de todas as tuas irrealidades. Mas não vás depressa demais.
O horizonte tem uma tonalidade de ouro e diamante nos teus olhos de safira. E, nos teus olhos, esses olhos onde vibra a ilusão do que se transforma em desejo do amanhã, eu vejo a promessa retardada do amanhã que, para ti, nunca mais chega e que, para mim, se aproxima numa corrida desleal. Quero envolver-te no manto de pedra dos meus braços e impedir-te de crescer. Selar-te a vida neste tempo em que se saram os desgostos com um beijo e um pedido de desculpa. E tudo se esquece. E tudo recomeça, como se houvesse pequenas eternidades de mel no agridoce dos teus sentidos. Mas, nos teus olhos, reflecte-se o horizonte. E deles ecoa o chamado que te faz erguer e avançar. Cada passo mais perto da idade. Cada passo mais longe de mim.
Não vás. Não ouves. Não queiras crescer demasiado depressa. O sonho. Ali. Vais crescer. Quero dizer que não estás preparada. Duvido. Questiono. Decido. Quem não está preparada sou eu! Cresceste demasiado depressa. Vai. Precisas de ir. Vai mudar o mundo. Mas, por favor, Espera apenas mais dois segundos. Por mim. Eu vou contigo!


Marina Ferraz





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terça-feira, 20 de setembro de 2016

La Muerte



“La muerte, la muerte”. Era o que ouvia. Caía-lhe dos lábios. Com peso de pedra. Gritado. Um grito que parecia ter ficado preso na garganta. Entalado. Tempo demais. E a voz rouca e sofrida, com ecos desse anteontem engasgado. Inquietude. “La muerte”. Sabor acre do veneno sensaborão dos dias que passavam na boca onde havia dentes podres e estas palavras: “La muerte”.
Não tinha pernas. E agitava os braços. Não havia intento. Se alguém lhe lançava uma moeda, soava o grito. “La muerte”. Era só o que pedia. Não queria nem comida, nem dinheiro, nem palavra. Na sua esquina vendia-se apenas sujidade e não se pedia esmola. Os olhos, claros de cegos, prendiam-se ao céu como se o vissem. E furavam a multidão. Furavam as roupas, as peles e as carnes. Chegavam aos ossos, que roíam com as palavras: “La muerte!”.
E atravessavam as ruas pessoas em passo de fuga, não fosse o homem sem pernas persegui-las até ao infinito conforto dos seus lares. Temiam-lhe a imagem. Mas mais as palavras. “La muerte”. Ninguém quer ouvir falar da morte. Como se, a cada menção, o lembrete da efemeridade provocasse chagas pelos corpos. Uma queimadura constante na recordação passiva de que somos apenas carne à espera de apodrecer sob as camadas arenosas da terra movida.
“La muerte, la muerte”. Mesmo na rua vazia, a voz soava. Uma solidão que se fazia aviso. E um aviso que não passava de oração. Tinham-lhe tirado as gentes. As pernas. Os olhos. A dignidade. E, por tanto tempo, a voz. Naquela esquina da rua, invocava o direito à voz. E era a voz que elevava já para pedir a morte em vez de esmola.
Quando morreu, ficou a parede grafitada. E nela alguém escreveu “La vida”. Mas ainda se ouve na rua. Não tem olhos. Nem pernas. Nem braços que agite. Nem voz que erga. Mas ainda se ouve. Mais claro. Mais alto. “La muerte”.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Adoeço



Adoece-me o rosto no cansaço. Pálido e olheirento, ele toma tonalidades amareladas, gastas, pouco sadias. E vincam-se sob os olhos tapetes inchados onde há lágrimas por verter e negrume. Adoece-me o rosto. E há nele traços incontestáveis que se chamam de sintomas. O diagnóstico faz-se nas ruas. Parece doença. Mas é cansaço.

Adoece-me o coração na mágoa. Arrítmico, descompassado, toma ritmos seus, que diferem do mundo e dos restantes corações. Bate e, uníssono com o ritmo da cidade. Uma cidade de caos. E dói no peito, enquanto bate. Um aperto, um sopro. Pausa e retorna. Adoece-me o coração. E há no seu ritmo traços incontestáveis. Sintomas. O diagnóstico faz-se à mesa, sobre as refeições, acompanhado de vinho verde. Parece doença. Mas é mágoa.

Adoece-me o corpo na angústia. Seco. Escanzelado. Constantemente à procura do que não tem, seja sal ou amor. E a intercalar entre a dor severa e a moinha constante, permanente. Essa que não quebra mas verga. Essa que não mata mas mói. Adoece-me o corpo. E, nas suas arestas há traços incontestáveis do mal que me aflige. Sintomas. O diagnóstico faz-se nas conversas de ocasião. Parece doença. Mas é angústia.

Adoece-me a alma na solidão. Incauta, imunda, recheada de promessas não cumpridas e de palavras por escrever. Tem rasgões do tamanho de rios e crateras do tamanho do Universo. Faltam-lhe bocados. Permanece rasgada, dentro de mim. E os pedaços rasgados estão amarrotados e sujos. Já não sou eu. Adoece-me a alma. E transparece, projeta-se no mundo essa matéria que a aflige e a corrói. São os sintomas. E faz-se o diagnóstico nas avenidas dos sentidos. Dizem que é doença. Mas é solidão.

Adoece-me o sonho no tempo. Triste e pardacento, vai descolorando e tomando a transparência de tudo o que não lhe coube nos desejos. Vai desaparecendo. Também ele emagrece e se deixa decompor em mil pedaços de nada. Adoece-me o sonho. Fica moribundo, a lutar já sem forças nem razões. É esse o sintoma. E, no concílio, faz-se o diagnóstico. Dizem que deve ser doença. Mas é realidade.

Adoeço. Há mil sintomas. Parece tumor a alastrar. Arrastando as suas metástases até ao mais profundo de mim. Adoeço. Parece cancro. Mas é só tristeza.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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