terça-feira, 5 de março de 2019

O último pôr-do-sol



Ontem vi o pôr-do-sol e, depois, caiu a noite. Ontem foi há mil anos atrás.

Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. Vimo-lo antes de anoitecermos também, de mãos dadas em frente à televisão, onde se atravessavam pedras para lugares distantes no tempo.

Das inveteradas lutas, algures na Escócia, sacámos risos latentes, que plantados debaixo dos olhos taciturnos, de pouco valiam. Deixámo-nos inebriar pelo romantismo verde, de capas vermelhas que se digladiavam e amores eternos que se deixavam prometer, em campo de batalha.

Talvez tenhamos identificado, ali, o nosso amor, depois do sol posto. Esse campo de batalha, tão deserto de oportunidades, onde ainda se acreditava no amor. E talvez por isso, esquecemos que a televisão estava ligada. Libertámos os corpos de roupa tão depressa que não houve tempo para que nos apercebêssemos da nudez.

Pensámos em ir para o quarto. Mas nunca chegaríamos ao quarto, porque o desejo queimava. As tuas mãos na minha pele e o sabor dos teus beijos nos meus lábios. O sol tinha voltado a nascer, depois de adormecido no mar. E, de resto, ali, éramos nós o sol. Um calor estridente de afagos que se comprometiam, aos poucos, com carícias mais e menos bruscas.

Olhava para nós o futuro, com um riso na voz carente. E os Deuses tinham tapado os olhos para não ver. À medida que fazíamos amor no sofá, ignorando todos os princípios toscos que nos tinham ensinado em casa e no colégio católico, deixámo-nos estar tão perto um do outro como um ser humano pode estar.

Depois do pôr-do-sol, esse foi o nosso pôr-de-lua. Suor e saliva trocados, juntamente com palavras de amor e de prazer. Sem pudores toscos. Sem medo de nada. Com os Deuses a olharem para nós, desaprovando a ideia. Hoje, é quase como se conseguisse recordar-lhes o sussurro aos meus ouvidos. Pobre coitada, que mal sabe o que a espera. Mas, naquele dia, não ouvi. Os Deuses não! Ouvi-te a ti a dizeres que me amavas. Loucamente encantado pelo meu jeito de mulher. Sem pena de nada e com fome de tudo. Porque a vida tinha tanto para dar.

A luminescência intermitente da televisão nos teus olhos dava-lhes uma tonalidade de mar. Lembrando as horas antes, quando o sol nele se punha. E quase vislumbrei o fantasma da felicidade ali, saltando, de esperança, querendo devolver o fogo que nós tínhamos perdido.

Sim… perdido. Mas naquela noite não. Houve algo no pôr-do-sol e na luta antiga entre povos que me fez acreditar. Pela última vez. Sem eu saber que era a última vez que acreditava.

É verdade. Foi o último pôr-do-sol sem mágoa. A última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz. E, embora me sobrassem dias para te sentir o calor, eu sabia: Todos os dias seriam sol posto, na contagem decrescente para um adeus sem retorno. O sol pusera-se para dar sombra à minha sepultura, talhada de dor sob as pedras da solidão.

Acordei para a desolação e o desalento. Disse que sabia que ias, olhando para os olhos onde já não havia sombra nem fantasma de felicidade. Aceitei, porque só isso pode fazer-se, a decisão da partida. E, mesmo depois, com prazo de validade estipulado, deixei que o meu corpo fosse teu outra vez, muitas vezes… e não as suficientes.

Morri.

Foste e eu morri. Respiro e ainda estou morta. Vou estar sempre morta. E tenho saudades tuas. Mas muito mais saudades desse último pôr-do-sol. Porque foi última vez em que acreditei que, no dia a seguir, haveria luz.






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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A história do degrau



O movimento é ascendente mas o chão escorrega. E aqui estamos, os dois, felizes. Como se a história tivesse terminado. Como se os teus dedos palmilhando linhas inócuas sobre a minha pele despida fossem fiéis. E queremos envelhecer juntos. Uma imbecilidade que dizemos em voz alta, como se alguém quisesse realmente ser velho. Falhou-me, aqui, perceber. Que eu queria. Ser velha.

Talvez fosse sobejamente óbvio. Mas falhou-me a perceção. Ser velha significava morrer em breve. E essa era a única maneira de ficarmos juntos para sempre. Se o sempre fosse um espaço curto e algo ambíguo, feito das nossas juventudes. O mundo está todo ao contrário.

Subimos um degrau. O degrau era de mármore. Antigo. Suportando a cruz de um olhar sobre a imensidão. E, subindo o degrau, subíamos também o sonho incauto. Fomos demasiado imprudentes. Mas tentei dar-te a mão para que não caísses. Ou para que caíssemos juntos. Mas o mundo está todo ao contrário.

Era uma diferença incontornável entre nós. Tu querias estar vivo. A mim, sempre me importou pouco se estava viva ou morta… só não queria estar triste outra vez. E achei que, subindo o degrau, ainda que caíssemos e nos finássemos ali, haveria felicidade nas horas poentes da vida.

Então, segurei-te. Era a história do degrau que me dava inspiração e esperança. Porque o via, apoio e amparo, de pés que queriam ir lá: ao lugar onde o tudo é o todo que se faz inteiro. À torre mágica dos castelos encantados de contos de fadas que começam com “era uma vez”. Mas o mundo está todo ao contrário.

Subo sozinha o degrau. Porque não quiseste ser velho, como eu queria ser velha. Juntos. E o degrau ficou vazio dos teus pés, à medida que largando a minha mão te apoiavas noutra e continuavas a escalar, rumo ao céu.

A minha torre é o mundo. E talvez a história do degrau seja também a minha. Pisada e repisada. Suporte e sustento. Servindo apenas para levar ao topo quem só lá se dispõe a parar. O mundo está todo ao contrário.

Ainda quero ser velha contigo e já estou velha sozinha. As rugas inusitadas da minha alma põem o sol da vida três vezes num dia. Na hora do silêncio, na hora da memória e na hora do cansaço. A velhice sabe a água com gelo. É fria e insípida… e cerca de 70% do meu corpo. Dizem-me que tenho a vida toda e apetece-me gritar. Teria. Mas o mundo está todo ao contrário.

Vou condescendentemente atrás de explicações que não existem. No degrau de mármore. Na vida e no desespero. Em ti. Descubro que sou ou fui vida. Descubro que a história do degrau é também a minha. Respiro no vidro que embacia e escrevo nele mais um poema que se apaga da história do mundo.

E talvez nem seja o mundo… Talvez, na vida real, seja simplesmente tudo ao contrário. Talvez seja por isso que, aqui, os contos de fadas começam com “viveram felizes para sempre”. E, quando dás conta, já “era uma vez”.

A história do degrau é também a minha. Sento-me nele, para virar costas à subida. Estou cansada. Olho a escadaria marmórea que inunda com o sangue e o suor que dediquei ao sonho para o qual, afinal, ia sozinha. Lanço o olhar sobre esse passado e sei que valeu a pena. Tenho este texto e todos os seus irmãos. Sou mãe de poemas. Estou morta e ainda fértil. Agarro-me à ideia de que, a mim, sempre me importou pouco se estava viva ou morta… mas sei que não queria estar triste outra vez. Enfim… a história do degrau é também a minha. E o mundo está todo ao contrário.

A história do degrau é também a minha. Somos só o meio para outro fim. Está na hora do cansaço. Sinto-me triste e sei que sou velha. Sento-me no degrau. Tudo o que não dói adormece. O resto de mim sofre de insónias. E aproveita para entrar na hora do silêncio, colhendo memórias como flores sem história. Fazendo um bouquet de solidão. Sentindo que o mundo está todo ao contrário.





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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Luz




Nem a luz direta entra nos olhos vazios, conquistados pelas sombras e os abismos do mundo. Ser poeta não é ser luz. É justamente ser sombra e abismo. Morar nos olhos que vertem. Para que outros olhos se iluminem.

Pedaços fragmentados de gente. Que passam pelas ruas, como gente. Mas sem que ninguém veja. Que são gente. Fragmentos inusitados e gestos que são sombra. Encontrando nos murais da rua mensagens. Também elas fragmentos com vida própria. Trazendo negrume à luz das avenidas.

Colocamos sal nas feridas. E pedras sobre os olhos cansados da insónia. A culpa é da tinta – pensamos. Do caixão. Da ideia que permanece rota e sentada sobre o sono. Acutilante. Constantemente chamando. Constantemente querendo saber se falta muito para chegar lá. À luz. A essa que não temos.

Recordo a água nos teus olhos. Um mergulho veraneante, numa espécie de sol que tu tens e eu nunca tive. Pergunto se fui o espaço onde a tua luz se acendeu ou o local onde ela se foi. Terei sido o abismo e a sombra de ti? Preocupa-me que eu seja escuridão. Mas preocupa-me mais que queiras que eu seja apenas a luz lisa do sol alto do meio-dia. E se eu estiver condenada a ser sombra e abismo? E se for isso – já pensaste?! – a fazer brilhar o sol que julgas ser teu, enquanto me julgas por roubá-lo ao céu, todos os dias, para que possas tê-lo?

Não! Tens razão. Eu não sou luz. E não brilho sob o toque luminoso do sol que trazes contigo. Não gero alegrias no meu ventre podre e infértil. Em vez disso, arranco do peito o fino fio de cristal que me fazia gente no olhar alheio. Afio-o noite dentro. Faço um punhal que me rasgue a pele. Faço do sangue, tinta. Anoiteço. Escrevo-te uma constelação de alegrias para que possas, no dia seguinte, ser novamente um espetro dissidente da minha dor e viver a tua vida em paz.

Drena-me a tua presença porque te dediquei a minha. Sobra pouco do sal nas minhas entranhas quando tudo o que quero proteger em mim és tu. E dói. E, porque dói, escrevo. E, porque escrevo, sinto a luz esmorecer, como um dia que anoitece. Nem a luz direta entra nos olhos vazios, conquistados pelas sombras e os abismos do mundo.

Não, meu amor, eu não sou como toda a gente. Eu nem sei se sou gente. E, por certeza, trago a noção de que só amo os verões porque sou gelo à espera de derreter novamente no sol dos teus olhos.

Mas ser poeta não é ser gente. Ser poeta não é ser luz. É justamente ser sombra e abismo. Morar nos olhos que vertem. Para que outros olhos se iluminem. Para que os teus se iluminem.

Não há luz direta que me entre nos olhos. E talvez seja melhor assim. Para que não vejas que eles choram. E nunca saibas que o fazem para que os teus possam sorrir.






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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Por outra pessoa

Autor da foto: Miguel Pião



Desculpa. Não quero ser indelicada nem ferir os teus sentimentos. Eu sei que ainda acreditas que te amo. E, em alguma medida, sei que tens razão. Eu nunca deixei de amar ninguém. Mas, e é esta a honestidade tosca que já não consigo calar – desculpa – estou apaixonada por outra pessoa.

A pessoa por quem eu estou apaixonada faz de mim, indubitavelmente, alguém melhor. É ele que me anima quando tenho um dia mau por causa do trabalho e, se as minhas inseguranças me pesam ao final do dia, é ele que me diz que eu sou especial e que tudo vai ficar bem.

As suas palavras irritam-me e comovem-me na mesma medida. Fazem de mim algo melhor do que eu e acreditam em mim mais do que eu consigo. Levanto-me das palavras que ele diz e abraço-as. Ele acolhe o abraço. Quer o abraço. Às vezes pede-o e diz que o faz sentir-se em casa.

A pessoa por quem estou apaixonada tem sempre assunto de conversa. Sobre o dia recheado ou sobre a pacatez das horas, onde nada se passou. Mas não se torna silêncio nem me abandona com a solidão, sabendo-me escrava de memórias. Na verdade, ele mesmo é memórias. Algumas felizes e algumas tristes, todas cheias de alma, porque ele não sabe ser metade de si. Há um todo no tudo que ele cultiva. E, por isso mesmo, quando fala em eternidade, eu não sinto que ele vá. Ainda que os medos me façam pensá-lo e até dizê-lo. Não. Não sinto que ele vá.

Estou apaixonada por outra pessoa. Tu achas que é por ti. Mas não. Já não. É que, quando te foste embora, eu comprei a tua caixa. Lá dentro, basicamente, não há nada que seja teu. Mas está tudo o que me deste. E algumas fotos, que pendiam pela casa. Descobri, em dois minutos, que teria bastado uma caixa com metade do tamanho. Acho que fui mesmo assim. Acreditei que eras mais. Que me davas mais. Mas os espaços são feitos de ar. E sufoco. Com saudades dessa versão de ti que, pura e simplesmente, não existe. Descobrindo que estou apaixonada por outra pessoa.

Tu achas que és tu. Talvez pudesses ser tu. Será que podes ser tu? Hoje, eu já não sei. Mas, neste momento, não és. Estou apaixonada por outra pessoa. Aquela que tu, de tanto defenderes, passaste a crer que eras. Mas não és. Porque essa pessoa não mentia, prometendo horas que não dá, braços que não estende e carinho que não dedica. Essa pessoa, preferiria a verdade dura: o tempo passou e fui. E eu choraria, talvez. E doeria, talvez. Mas pela partida. Não pela mentira, onde pende a promessa da presença no lugar do silêncio que se planta.

Não quero ser indelicada nem ferir os teus sentimentos. Eu sei que ainda acreditas que te amo. Amo. Nunca deixei de amar ninguém. Mas estou apaixonada por outra pessoa. E olhando para ti o que mais magoa é isso mesmo: ver-lhe a casca e já não conseguir vê-la. A ela. A essa pessoa por quem estive, estou e estarei apaixonada para sempre. Essa pessoa que mora na metade vazia da caixa.






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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

As leis da física




O meu pai ensinou-me. Por isso, provavelmente, não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi. O mundo é física. Tudo é física. Tudo se rege pelas leis inevitáveis e incontornáveis. Dela. Da física. Não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi.



Pedi-te. Tenho este amor. Sou toda amor. E o amor que sou e tenho é todo teu. Por isso, para que ele não me pese. Para que ele não deixe marcas vincadas na pele da minha alma. Por favor. Guarda-o. Coloca-o nesse coração dourado.

Pedi-te. E anuíste.

O sentido das coisas que não se vêem reside nas coisas que se sentem. Vi-te, atabalhoadamente, atirar o meu amor para dentro do peito. E vi sempre que ele te vertia. E notei-te o esforço intemporal para colocares dentro de ti os seus tentáculos de sonho.

Não notaste o peso de imediato. Primeiro, carregares o meu amor, meio por dentro, meio de arrasto, foi simples. Sorrias. Mas depressa começaste a perceber que o meu amor, dentro e fora de ti, era uma espécie de sombra. E escureceu-te o olhar. Escureceram-te as mãos. Essas, com as quais tentavas agarrar os excessos do amor e colocá-lo de volta no peito.

Eu pedia. Tenho este amor. Sou toda amor. E o amor que tenho e sou é todo teu. E tu tentavas, desesperado, colocar dentro de ti esse pedaço inusitado de mim. Também tu gostavas de acreditar que ele era teu.

O amor pesa. Desculpa. A diferença subtil entre leveza e leviandade tomou forma nos espaços tentaculares do meu amor. Talvez ele se tenha agarrado à tua pele. Tolhendo-te os movimentos. Prendendo-te. O meu amor, esse opressor, não queria impedir-te. Queria apenas evitar cair no chão como, naquele tempo, tinham já caído tantas e tantas promessas.

És a minha pessoa. E tu a minha. Para sempre. Sempre e para sempre. Porque nunca deixei de amar ninguém. Nem eu.

Foste arrancando os ramos secos, penetrantes, desse amor que se agarrava a ti para não cair, criando raízes dentro do teu peito e proliferando, qual erva silvestre, pelo resto do teu sistema, pela tua pele, pela sala que te acolhia.

E eu, que te abraçava, sentia o amor. E pensava que ele era teu. Não imaginava que abraçasse, nos teus braços, o meu amor por ti.

Mas tu percebeste. E libertaste-te do amor. Do meu amor. Não é culpa de ninguém. Senão minha. Que não aprendi as leis da física.



Em tempos quis. Muito. Que guardasses o meu amor dentro do teu coração. Desculpa. Sempre fui mais de emoções do que de racionalidades. Não entendia as leis da física. Não podes. Hoje sei. Tiveste de procurar um amor mais pequeno. De o colocar nesse coração dourado. Porque o meu amor, pela sua dimensão infindável, não cabia.






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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O jogo




Joga-se assim. Quando há paixão. Amor. Um diz: “amo-te”. O outro responde: “amo-te mais”. E começa. Uma rotina feita de apego. Um jogo de consolo. Onde cada um insiste. Nisso mesmo. Que ama mais.

Avançando juntos, nessa espécie de dança, leva-se a discussão nos lábios que se beijam. E, porque se beijam, depressa se esquecem que discutem. Seja sobre quem ama mais ou sobre qualquer outra coisa.

Há nas pontas dos dedos memória sensorial da pele do outro. Enrolados sob os lençóis palatinos do casebre da vida, partilham-se desejos e sonhos com igual pudor. Nenhum. A nudez é um estado de espírito selvagem, onde se elevam os pedaços invertebrados das almas e se sente o nascer alado das possibilidades do amanhã.

Este é um jogo de promessas. Promete-se o “para sempre”. Promete-se que os cabelos brancos ainda terão as mãos enrugadas do outro para um carinho poente. Promete-se que se ama. Promete-se que se ama mais. E discute-se novamente a ideia.

No tabuleiro da vida, quando há paixão, amor, somos as peças enfiadas na mesma casa, sonhando a glória vindoura de se vencer, em conjunto, a vida. Mas a vida está programada como os computadores, para ser imbatível e sempre dona de verdades e mentiras que ninguém quer conhecer. E a vida ganha, frequentemente, lançando-nos para casas distintas, onde se moem possibilidades toscas.

É um constante lançar de dados. Jogos e jogos inusitados sempre sobre a mesma ideia. Essa. A de que se ama mais. Tento dar mil onde deste cem. E logo me caem um milhão de ações nos braços, como rosas, mas sem espinhos.

As flores murcham e os amores têm folha caduca. Um dia, alguém que insiste que ama mais, diz que não sente. Um dia, alguém já não diz que ama mais. Arruma o tabuleiro na mala e vai, não para outra casa mas para outro universo. Regressa de vez em quando, tão vazio de si, que é como se nem entrasse pela porta. E acabou. Apenas para um. Acabou.

Lá longe, novos amores nascem. Discute-se, por lá, quem ama mais. E insiste-se que nunca houve sentimento igual ou mais puro, nesse jogo que se inicia e se leva a cabo.

O coração quebrado que ficou é uma bola de futebol, pontapeada até ao limite e deixada no canto depois de 90 minutos que poderão ser 90 anos, sem que ninguém se importe. No cantinho desse campo minado, a pessoa que ficou ganhou a discussão. Ama mais. Ama provavelmente para sempre. Ganhou o jogo.

O amor é uma merda. Porque é um jogo que só se ganha quando se perde tudo.







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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Bem-vindos ao século XXI




Conversas sem tom partem de pessoas sem noção. Cada vez mais desinformadas pelo acesso a notícias falsas. Escritas por dedos oprimidos e censurados. Não pela política. Pela economia, essa que também rege governos e os leva a falar. Com tom e para as massas. Mas sem dizer nada.

Bem-vindos ao século XXI.

Relações interpessoais. Que começam com a troca de fotografias das partes porque os piropos foram proibidos. Ou em sites de namoro onde se escolhem encontros, deslizando dedos para a direita e para a esquerda, numa montra que transforma os telemóveis em verdadeiras Red Light Districts internacionais. E que se fazem na cama, correndo bem até alguém ganhar coragem de abrir a boca. Usualmente para revelar conhecimentos ao nível da pré-primária e vazios emocionais dignos de uma jarra de mesa.

Bem-vindos ao século XXI.

Pratos que se fotografam. Com meia dúzia de folhas de alface. #healthylife. Enquanto se rói um hambúrguer de uma cadeia internacional e se abocanham batatas fitas. Escravos de aparências. Mas mais das aparências públicas do que das privadas. Que carece a nossa nudez de pudores quando não há olhos. Medo dos juízos. Criadores de tendências falsas. Como as pestanas das modelos que fazem anúncios de máscaras que custam mais do que a conta da luz. E a conta da luz que sobe, o IMI que sobe, o IVA que sobe. Mas os toureiros não pagam. Emprego de risco. Como o dos professores que sempre sobem ao estrado imaginário sentido que entram para o caixão. E até a morte está cara.

Bem-vindos ao século XXI.

Famílias que se reúnem para as fotografias e se afundam no silêncio dos smartphones à mesa. Partilham com estranhos toda a alegria do silêncio que se faz. Conversam com essa solidão feita de likes. Não se conhecem. Até alguém se suicidar. Aí, “era tão boa pessoa”. Pessoa mas objeto, que logo se atiram às heranças como se fossem a alma do falecido. E, de repente, zangas. Porque estar vivo é isso.

Bem-vindos ao século XXI.

Pessoas que ainda escrevem. Músicas ou canções ou quadros. E que são apreciadas na medida em que os influencers gostem. De que as rádios passem. De que as empresas internacionais divulguem. Ou que se perdem aos bocadinhos. Monstros. Vejam lá bem.

Bem-vindos ao século XXI.

Copos de droga e veneno que se vertem. Ardem na pele. Antes adormecessem os sentidos que se forçam a respirar no sufoco da suposta liberdade. Antes dissessem assim: vou deitar um pouquinho. Acordem-me quando acabar.






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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A estrela cadente




Um dia, viste uma estrela cadente. À medida que os teus passos te levavam das nossas palavras para os braços que te embalavam, já sem toque de carinho, apenas com a memória. Afastavas-te de mim e viste uma estrela cadente. E soubeste, se não o sabias antes, que havia algo no firmamento que o dizia. Que o ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

Olhando para o mesmo céu, numa distância que nos doía, demos por nós a sentir o que não se diz. Que é tão errado cobiçar o que já tem braços em redor. E tão errado querer viver o carinho que fica além dos braços que nos embalam. Mas o errado só o é quando o firmamento não quer que seja certo. E havia a estrela cadente. A que viste. E te disse. Eu era tua. Tu eras meu.

Lutando contra tudo. Contra nós mesmos. Achámos o lugar onde a estrela tinha caído e chamámos-lhe casa. Nela, fizemos rituais de café na cama. Nela, fizemos do amor um verbo que se sente e se faz. De mãos dadas, demos por nós a embater contra o mundo. Primeiro. E, depois, um contra o outro. Éramos o mundo um do outro. Imprimimos tanta força nessa demanda pela plenitude, que erodimos a rocha que nos ligava. E perdemos, estou certa, muitas estrelas cadentes, enquanto deixávamos cair tudo o que nos tornava certos um para o outro.

Até que os braços que te enrolavam, com o toque de um carinho que não sentias, eram os meus. E a distância te chamava, como sopro na distância, era a voz feminina da liberdade. Fingiste que esse murmúrio era estrela e que o universo dizia outra coisa. E foste. Primeiro para o abraço libertador da solidão; depois para quem, numa solidão igual à tua, te fez sentir menos só. E são esses braços que te envolvem, com o toque do carinho que eu quero dar-te e não posso.

Desejo-te esses braços e esse carinho, com uma honestidade tão pura que me tolda os olhos e me deixa cega. Mas ainda olho o céu, à procura da permissão egoísta que me deixe sonhar com a ideia de poder envolver-te mais uma vez. Olho o céu. E lá está ela. A estrela cadente. Para recordar que as pessoas mudam depressa, mas os astros não. O firmamento dizia. Ditava. Eu era tua. Tu eras meu. Isto era certo.

A estrela passou. Ficou a mágoa em mim. E uma ausência difícil de engolir. Porque quero ardentemente a tua felicidade e não pude dar-ta, parece errado agora senti-lo. Mas há a estrela cadente. E o destino é o que é.






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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Mais um dia




Olha, amor. Nasceu mais um dia sem ti. E o sol não sabe. Tento manter a verdade dentro dos limites frios das paredes. Para que ele brilhe.


Não é mentira, entende. Omito apenas a mágoa das verdades que me povoam o peito, para que possas sair e dançar. Mão na mão sem a minha mão. Sorriso no rosto sem o meu sorriso. Passos moles sobre areias rijas do tempo que eu já não tenho.

Não é mentira. É apenas vontade. Vontade de que o sol te beije o rosto que eu não agarro. Te pouse nos lábios que não beijo. Te aqueça as mãos despidas de mim e que se revoltam na ideia do regresso. Vontade que o sol te abençoe os amores e as escolhas. Vontade de que ele não saiba das minhas asas dilaceradas e feitas em pó, que se acumulam no fundo das fogueiras de Inverno.

Mas olha, amor. Nasceu mais um dia sem ti. E o sol não sabe. Às vezes noto que alguém avança, intempestivo, feito nuvem, para o céu onde ele brilha. Faço feitiços. De sal e de sálvia, gastando saliva e tempo e segredos só meus. E impeço que essa nuvem te chova com o turbilhão de arrependimentos toscos que trago no peito. Um aviso deserto de brandura. Ninguém se atreva a dizer ao sol que nasceu mais um dia sem ti!

Caminhando no morno abraço dos raios que se quedam do céu, imagino-te feliz. Nasce um sorriso molhado no meu rosto de pedra. Desapareço nos lábios que nem sabem sorrir. Mergulho neles, como quem mergulha na mágoa. Uma ideia demorada no espaço onde o nunca e o nada procriam. E nasço eu, na posição fetal de uma dor que não se explica. Sorrindo. Porque, algures, sob o sol, também sorris. E tens quem sorria de volta. Nessa bênção que eu peço e dou todos os dias. Esses dias em que não digo – e não deixo que ninguém diga – a verdade ao sol. Essa de que nasceu mais um dia sem ti.

O sol cresce, ergue-se, ponteia o céu em todas as posições. Engraçado como gira a Terra que eu piso e a minha mente, de formas tão similares, sem que ninguém se aperceba. E também o sol não se apercebe. Nem do movimento terreno, nem da minha dor, nem que nasceu mais um dia sem ti.

Calo palavras alheias de revelação. O sol não sabe nem se quer que saiba. Shhhh… deixa-o ser feliz.

Aos poucos, ele adormece. Raio a raio. Anoitece e o sol, que sorri no horizonte, fervilha e não sabe. Uma pequena vitória num dia vazio. Ninguém disse ao sol que foi mais um dia sem ti.






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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Nunca mais




Nunca mais te vou dizer que te amo. Às vezes, não o direi por me lembrar, no último segundo, que não posso dizê-lo. Mas não vou dizer. Não o direi por respeito. Não o direi porque não faz sentido. Nunca mais te vou dizer que te amo. Mas não será porque não te amo.

Um dia, talvez o diga a outra pessoa. Num momento pleno de intimidade, sentindo paixão vibrante no corpo que se cansa da solidão. Sim! Um dia talvez diga a outra pessoa que a amo. Mas nunca mais vou amar. E não vou dizê-lo de propósito. Apenas porque me escapa a memória para o desejo de dizer-to. Apenas porque os lábios, desertos de ti, ainda decoram essas palavras e as murmuram, sem som, no quedar das noites. Alguém lhes dará som. Às palavras. Mas nunca mais vou dizê-las a quem, de direito, as cultiva.

Claro que as palavras ditas têm peso. E temo ouvir, de volta, um “também te amo”. Não farei por cativar amores no meu deserto. Tentarei explicar que sou a chama que aquece as mãos nas noites de Inverno, mas não o sol que ilumina os dias. E talvez, só eu sei como o espero, as mãos aquecidas saibam que eu não passo disso mesmo. Do calor notívago de uma paixão que esmorece, com prazo de validade estipulado e dezenas de senãos colados à sola do pé. Mas, se alguém o disser - “também te amo” – talvez eu sinta vontade de corrigir o teor frio das palavras que disse. Porque nunca mais vou querer ser dona das culpas completas de todos os erros do mundo.

Vendo-te passar, as minhas mãos agarradas a essas mãos desiludidas, talvez se libertem. Porque a extensão do meu corpo me dói. Peça mal encaixada num puzzle qualquer. Que não me preenche e não me define. Que me deixa mais vazia de mim do que alguma vez estive, mesmo nas noites sós. E talvez te cumprimente com dois beijos no rosto e um cumprimento alegre à mão que estende a tua. E talvez finja que não há, no meu peito, um lugar cativo que é teu. Mais uma vez, talvez sinta o desejo de dizer as palavras que nunca mais vou dizer. Mas não temas. Não as direi. Nunca mais as direi. Quero que vivas em paz. Vou sorrir apenas.

Sorrindo. Avançarei pelos dias sorrindo. Descobri o segredo da felicidade. Essa escolha inusitada que as pessoas teimam em não fazer. E escolho ser feliz todas as manhãs. Afastando a tristeza com um gesto: “hoje não, amanhã!”. Mas parece-me que todos os dias são amanhãs. Achas que estou à tua espera. Mas nunca mais vou estar à tua espera. Tal como nunca mais te direi que te amo. Estou só à espera da morte. Avanço para ela, um dia de cada vez. Um segundo de cada vez. Um pensamento de cada vez. Cada vez que me lembro que nunca mais te vou dizer que te amo.






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