terça-feira, 25 de março de 2014

Casa da Sorte

Foto de Roberta Avillez


Toquei o azar às portas da casa da sorte. Mas as pessoas não ouviram. Passaram por aí, como passa o tempo. Passando. Na inevitabilidade infalível de quem pensa que não existe outra forma de passar. Com a indiferença de olhos postos no asfalto ou nas pedras sujas do chão.

Toquei. Toquei mas a música não encheu as ruas, demasiado atulhadas de coisa nenhuma. Por isso, embora tocasse, não tocava. Não toquei ninguém nem coisa alguma. Não havia espaço nas ruas para outro som que não o da apatia.

Toquei o azar às portas da casa da sorte. Alguns passaram. Alguns entraram. Alguns chocalharam nos bolsos uma pobreza igual à minha. Alguns iam vazios. Alguns iam cheios de nada. Outros cheios de si. Mas ninguém me ouviu. Eu era da cor das paredes, da cor do chão. E, embora tocasse, eu soava a nada porque ninguém parava para ouvir. Para me ouvir. Para se ouvir. As pessoas simplesmente passavam. Assim... passando. Haverá outra forma?

Toquei. E, embora os olhares de soslaio optasse por ser cegos, eu continuei a tocar. Chamaram-me mendigo, pedinte. Ouvi o rumor: "devia arranjar trabalho". Toquei. Apesar dos rumores e da indiferença e da surdez. Toquei para as pedras da calçada. Chamei-lhes irmãs. Toquei para elas porque apenas elas me conheciam a música e o destino de não ser mais do que pisado pela multidão alheia.

Toquei. Toquei o azar às portas da casa da sorte. As mãos dormentes do frio. A alma dormente da indiferença. As pessoas dormentes, não sei porquê. E, nas ruas cheias, pessoas vazias passavam, deixando-me aos pés o estojo vazio e o coração quebrado.

Olhando para as pessoas, senti o ímpeto de tocar para sempre. De tocar até que me ouvissem. De ficar ali até os dedos congelarem, entre sopros e o meu olhar vítreo virar pedra, calcificar.

E toquei. Toquei a dor e a amargura e o desespero nas ruas onde só passava, passando, quem não podia ouvir ou entender o que não ouvia. Toquei enquanto a música ecoava no  vazio de tanta gente. Toquei enquanto a rua se enchia de vazio e se esvaziava de novo.

Era noite. Toquei para as estrelas. Toquei para a lua. Toquei o azar às portas da casa da sorte.
As ruas vazias, onde pessoas vazias já não estavam. O estojo vazio. O estômago vazio. O sonho vazio de mim.

Arrumei as minhas coisas. Arrumei o sonho. Arrumei a esperança. Arrumei as gentes que povoavam as ruas. Tinha tocado o azar às portas da casa da sorte.

De meu, levava agora a música. E o estojo vazio, os bolsos vazios, o estômago vazio. Mas sorri. Não tenho a alma vazia, nem os olhos cegos, nem vou como o tempo, andando. Há estrelas no alto. E elas ouvem até quem toca o azar às portas da casa da sorte.

Marina Ferraz

segunda-feira, 17 de março de 2014

Deixa-me



Deixa-me ser feliz. Não digas, por aí, que as minhas paixões são loucura. Se não te serviu o meu amor, deixa ao menos que o viva da minha forma e em paz. Não me faças entristecer por entre palavras duras que não fiz por merecer. Se não te importas, deixa-me ser feliz.
Se a minha forma de ser feliz for de lágrimas nos olhos, não me combatas as lágrimas. E, se sou feliz por entre o verde de uma Natureza viva, não critiques o facto de eu falar com as árvores. Se sou feliz em textos que falam de amores perdidos e pessoas cruéis, não me peças que escreva sobre as maravilhas da humanidade. Se sou feliz entre monstros e fantasmas do passado, deixa-me ser... deixa-me ser feliz.
Eu não nasci para ser feliz como os outros. Não nasci para diálogos de imortalidade nem para desejar contas cheias e alma vazia. Eu não nasci para me colar às paredes da normalidade. Nasci para dançar livre, sobre soalhos de loucura. Deixa-me ser como sou. Deixa-me ser triste à minha maneira. Sou mais feliz assim.
Não te acuso da minha infelicidade. Fui feliz contigo. Ser feliz sem ti foi uma batalha de sensações e de sentidos, na qual a escuridão ganhou. Sem ver mais do que o negrume da noite e o império das trevas, deixei-me afundar nos abismos. Mas, acredita: é possível amar a noite e as trevas e os abismos. Talvez seja loucura amá-los. Mas, se não entendes, ao menos deixa-me ser feliz dentro de mim. Prefiro a minha escuridão à luz dos outros. Na minha escuridão brilho o bastante.
Se não me entendes, se não concordas comigo, se não achas que o meu caminho esteja certo, guarda para ti as palavras. Não estás aqui para me fazer feliz mas deixa-me... deixa-me ser feliz.
Preciso que compreendas. O abandono deixa marcas. A saudade deixa marcas. A mentira deixa marcas. E é difícil celebrar a vida de uma forma comum e leviana quando já nos abandonaram. Mas há outras formas de ser feliz. Esta é a minha. Não me atires palavras duras ao rosto e olhares reprovadores às costas. Se não te importares, deixa-me ser feliz...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 10 de março de 2014

Poetas (por aí)



"É querer abraçar-te, não podendo com os braços, com palavras." (Helder Godinho)

Andam por aí poetas. Passam por nós nas ruas. Frequentam os nossos cafés. Lêem os mesmos jornais. Têm empregos, como nós. E carregam as palavras às costas, invisíveis, qual saco de memórias fragmentadas, à procura de lugar para viver.
Andam por aí poetas. Passam à nossa porta. Às vezes batem. Às vezes convidamo-los a entrar. Têm mentes despertas e conturbadas. Têm sede de saber e pensam em rimas soltas de versos que nem o são. E, às vezes, dizem em voz alta poemas inteiros que tomamos por conversas naturais. Mas não o são. Nunca o são.
Caminhando pelas ruas onde nos fazemos gente, os poetas enlouquecem no devaneio das horas. Não sabem se alguém os ouve. Não sabem se alguém poderia alguma vez ouvi-los. Mas vão cantando as suas estrofes de ferro, inquebráveis e cheias de mágoa. Às vezes, nem as escrevem. Às vezes nem as dizem. Apenas as pensam. E ninguém lhes rasga o corpo em busca dessa loucura inconstante que fica além da barreira.
Andam por aí poetas. Aparentemente, não são diferentes de nenhuma das outras pessoas. Parecem normais. Sãos. Pessoas. Mas, na verdade, são os mendigos da arte. São os estudiosos do medo. São os indigentes do tempo. E, dentro das suas cabeças, há mais do que listas de compras e problemas quotidianos. Preocupam-se com os sentimentos, com os sentidos, com as emoções. Listam soluções. Tentam salvar os mundos. O nosso e os deles, tão maiores, tão mais cheios, tão mais completos.
Andam por aí poetas. Não os vemos, de os olhar. Não os entendemos, de os ouvir. Mas eles andam aí. E apaixonam-se, facilmente, por outros poetas, cujos corações, igualmente quebrados pela mágoa dos pensamentos dispersos, se quebram a tempo de se emendarem em conjunto.
Andam por aí poetas. Não os sabemos poetas. Muitas vezes, eles não se sabem poetas. Escrevem poesia sem rima nem verso. Escrevem poesia que não se escreve. Dizem a coisa certa, no momento certo ou no errado, porque não têm medo das palavras... E ouvimos, (quantas vezes em silêncio?!) sem sabermos que a poesia que cantam é a mesma que ecoa dentro de nós.
Andam por aí poetas. E, às vezes, não podendo abraçar os corpos, eles abraçam as almas, dão as palavras, os sentidos, as razões... Não os vemos e não sabemos quem eles são. Têm forma de gente e vidas iguais à nossa.... Não os notamos. Mas, quem por eles é tocado sabe: sabe que andam por aí poetas... e que é por isso que o mundo ainda tem algo de bom.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet


segunda-feira, 3 de março de 2014

Fada


Ergui os braços aos céus e rodopiei, com os pés assentes na areia húmida e fria. No céu cintilava um universo de estrelas e a lua reflectia, incompleta e crescente, no alvoroço de um oceano feito em lágrimas.
Não fiz caso das pessoas que passavam na rua, de sobrolho franzido, amaldiçoando o Inverno. E, talvez por isso, de alguma forma, elas também não perderam tempo a olhar para mim: criança adulta ou mulher inocente, dançando ao som das ondas. Feliz, completa. Tão, tão feliz.
A memória inconstante chegava e partia como as ondas, firmes e difusas, em marés de saudade. E o vento, vindo desse Norte agreste, veio dançar comigo, trazendo o aroma adocicado de terras distantes.
Um dia disseste-me para abrir as asas. Para as abrir com a simplicidade de ser eu. E isso significava que sabias que eu podia voar. Hoje danço, porque compreendi a verdade. Tive sempre as asas abertas, da mesma forma que te tive sempre, qual corrente de aço, agarrada aos pés. Com o tempo deixei de precisar de voar. Acorrentada à saudade, à solidão, ao medo, à dor… a todos esses sentimentos que deixam de ser tristes e me acolheram nos braços.
Antes, fiz da dor o meu Abrigo. Mas hoje danço. Ergo os braços aos céus e mergulho os pés na água fria do oceano. Danço. Danço de asas abertas e sem temor. Já não te tenho, qual grilhetas pesando. Tenho apenas as memórias sólidas e concretas. Distantes... desertas de ti.
E, rodopiando, de asas abertas, dou por mim a subir aos céus de possibilidades que nem sabia que havia em mim. Descubro que há uma beleza subtil na alma que julgava que não tinha. Descubro que o lugar vazio de onde arranquei o coração foi de súbito preenchido pela certeza de que poderei sempre amar. Talvez não ame da mesma forma. Mas posso amar com a mesma força, o mesmo alento, a mesma paixão. Posso amar tanto quanto o amor diz.
Fada de Inverno num conto misterioso chamado vida, descubro voando que viverei sempre na paz de ter cumprido todas as promessas que te fiz. Na paz de saber que não espero nem desejo que cumpras a tua.
De asas abertas, e sem olhar o chão distante, descubro que vale a pena ser a pessoa que ama, apesar da mágoa. Mesmo que não resulte. Mesmo que magoe. Vale a pena ser a pessoa cujo coração bate, cuja alma permanece intacta, cujos sentidos permanecem sólidos.
Esperei. Julguei que era por ti. Não era. Esperei pelas asas. Esperei por abrir as asas. E hoje sei que valeu o medo, o sofrimento, a mágoa. O mundo é mais bonito visto do alto... e só pode ter asas quem tem coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet




Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14, cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP. 
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Chora


Chora. Chora mas chora baixinho como quem finge que não tem lágrimas. Chora para dentro para que ninguém veja, para que ninguém saiba, para não fazeres mais ninguém chorar.
Chora. Mas chora como se sorrisses. Chora como se, dentro da alma, houvesse apenas o riso perdido de uma criança contente. Chora. Mas chora para ti. Não chores para o mundo. Não chores de forma a que mais alguém o veja.
Chora. Chora baixinho, em surdina, em silêncio. Chora de olhos secos. Não deixes que caia a muralha nessa chuva de olhar insensata e imatura. Chora. Mas chora sem ninguém saber.
Chora no teu cantinho da cama. Sem estremecer. Sem te deixares arrepiar ou gemer na queda insensata das lágrimas. Chora para ti, como se cada lágrima fosse uma página de diário secreta, selada, intransmissível. E não deixes que ninguém leia em ti essas folhas secas e impressas na tinta magoada da alma.
O teu choro tem algo de dor, algo de mágoa, algo de solidão. Mas a dor é tua. Guarda-a para ti. Chora onde não te roubem o orgulho, já que tudo o resto foi levado e te dá vontade de chorar. Guarda as tuas lágrimas, pequeninas, transparentes e brilhantes. Guarda-as no lugar secreto e sagrado onde ninguém imagina que existam.
E limpa os olhos, seca o rosto, ergue-o. Sai à rua de saltos, caminha de costas direitas e põe um sorriso maquilhado no rosto. Chora. Mas chora apenas dentro das paredes do teu mundo. Não deixes que vejam além dessa muralha fictícia que te leva pela vida, sorrindo.
Chora. Mas chora onde não te julguem fraca. Chora onde não precises de explicar a força que é precisa para se poder chorar. Chora sozinha, onde te podes confortar no teu tempo e à tua maneira.
Um dia vais entender. A tua dor importa. Mas essas lágrimas que mostras, descaradas, pelas ruas onde a vida se faz inferno, não são de amor, se as mostrares. Amar é querer ver bem até quem nos rasga a superfície incauta do coração. E, por isso, se fores chorar, chora baixinho, chora para ti, chora com os olhos secos. Se for por amor, chora assim.
Acredita em mim. É, talvez, a coisa mais importante sobre os sentidos da vida. Mais vale chorar em silêncio. Mais vale ser feliz em silêncio. Mais vale o silêncio. Há tanta gente vazia neste tempo sem contos de fadas que até a dor é roubada, na esperança de se encontrar algo.
Estás triste. Isso significa que sentes. Que há algo dentro de ti. E, por isso, sim: chora. Chora mas chora baixinho, como quem finge que não tem lágrimas. Chora de lágrimas secas. Chora baixinho, em surdina. Assim saberás quem te ama a ponto de ver as lágrimas que trazes no teu sorriso.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet







Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14,cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP.
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Mares da lua


Os teus defeitos são como os mares da lua. Não se escondem nem se anulam. Ficam à vista, aos poucos, por entre a luz que carregas no sorriso. Não se iluminam com facilidade e fazem formas inventadas sobre realidades indistintas entre algo e coisa nenhuma.
Ficam-te na face iluminada, espelhados a contraste. Mas vêem-se apenas porque não os escondes. Porque queres que, no centro da luz que emanas, se veja o negrume das coisas que julgas erradas ou imperfeitas em ti.
Os teus defeitos não são defeitos. São apenas cicatrizes provocadas pelo embate súbito das contrariedades da vida. Barreiras que ergueste. Medos que cultivaste. Sentidos que ficaram gastos e desbotados por entre o sofrimento dos dias. E são formas definidas e estáticas dentro do teu eu sem definições. São formas que se dizem e se conhecem mas não importam. São cicatrizes de segredo que se estendem e te marcam e não se dizem a ninguém. Mas não precisas de contar a ninguém. Não precisas de me contar. Os teus defeitos são como os mares da lua.
Há luz nos recantos de ti onde embate o sol. E esse brilho reflete o sol na felicidade constante do que resta no fim de tudo o que são os nossos dias. Tal como a lua. E, tal como ela não esconde os mares mas apenas os deixa dormir no negrume de não terem luz, assim deixas esses medos, barreiras e sentidos na penumbra do ser, sem os esconderes nem realçares, buscando apenas ser a luz que há em ti.
E, olhando, mesmo que olhe com atenção e ao pormenor, eu vejo-te o quarto crescente de luz e não o escuro do que fica nos recantos das trevas de ti. Sei dos medos e das barreiras e dos sentidos dormentes que ficam no lado escuro da tua perfeição. Mas não me importa. Não importa porque a luz do que fica atrás das barreiras, por entre os medos e na emoção dos sentidos partilhados, é demasiado forte para se deixar esbater pela escuridão das cicatrizes que carregas.
Há perfeição em ti. Não porque não haja defeitos. Não porque escondas os defeitos. Não porque a realidade fique oculta atrás de um véu de fantasias loucas e insensatas. Há perfeição em ti porque deixas que te veja. Deixas que te veja a luz e a escuridão. Deixas que os teus defeitos sejam como os mares dessa lua distante onde, em formas indistintas de negro, se anunciam por entre o brilho constante, cortante, infinito.
Sim! Há perfeição em ti. Mesmo que, de permeio, exista a sombra do defeito. É uma perfeição lunar de brilho e treva. Uma perfeição que se estende e me arrebata de tal forma que me faz dizer, sem medos nem dúvidas, que eu também amo os mares da lua...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet




Aproveito para deixar uma nota sobre a minha participação, enquanto autora, no Festival da Canção '14,cuja semi-final, a 8 de Março, será transmitida pela RTP.
Sou a autora da letra da canção nº 4, "Mais para dar" (composta por Helder Godinho e interpretada por Carla Ribeiro). Não deixem de ver, ouvir e de votar em nós! Qualquer voto é fundamental para nos ajudar a chegar à final de 15 de Março. Uma só chamada pode fazer a diferença! :) 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Adormece-me


Adormece-me nos teus braços, meu amor. Canta baixinho essa canção de embalar. Essa que escreves com as pontas dos dedos, passadas ao de leve pelo meu cabelo desalinhado e revolto. Adormece-me nos teus braços, como a lua adormece no oceano. Estende-me o canto de ti onde os horizontes dos meus sonhos se cruzam com a realidade e a tornam onírica. Adormece-me no teu calor. Adormece-me na simplicidade. Adormece-me nos teus braços.
A noite caiu e as estrelas despediram-se da lua. Talvez chova. Talvez os cobertores nevoentos venham cobrir as estrelas ensonadas, para que ninguém as espie durante o seu sono. Sob as mantas, eu sou uma estrela escondida a pedir pelo teu abraço. Sob as mantas, eu sou novamente menina, desejando uma história encantada de amores que jamais terminem. Uma menina a sonhar o para sempre.
Quero ouvir a história. A nossa história. A nossa história também é um conto de fadas e uma canção de embalar. Ouço-a, palavra a palavra e nota a nota, nas respirações insensatas do meu "eu" cansado e no bater sadio do teu coração, compassado com o meu. Ouço-a, enquanto me encosto a ti e me (re)faço tua, para poder dormir sem medos nem ansiedades.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. Abraça-me o corpo frio. Abraça-me a alma macerada. Cura-me assim, noite após noite, enquanto me adormeces com ternura. E canta para mim, mesmo que seja em silêncio, mesmo que toques apenas notas e acordes invisíveis sobre as teclas do meu corpo despido. Adormece-me nos teus braços. Como se adormecem as crianças assustadas e as mulheres guerreiras. Adormece-me como se adormecem as feiticeiras e as fadas. Adormece-me com o encanto quente do teu corpo contra o meu.
Acalma-me os medos, meu amor. Não tenho medo de dormir. Não tenho medo de acordar. Não temo os sonhos nem os pesadelos. Temo que a noite caia e os teus braços não estejam à distância de um toque. Temo a saudade. Temo que as estrelas digam boa noite e as lágrimas me preencham os olhos por não estares aqui.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. É nos teus braços que quero dormir. É neles que quero acordar. É neles que quero o aconchego dos dias que chegam, na rotina de não haver rotina que canse quando estamos juntos.
Adormece-me nos teus braços, meu amor. Adormece-me neles, todas as noites. Deixa-me acordar neles todas as manhãs. É nos teus braços que eu quero viver porque é neles que encontro o aconchego da felicidade. Adormece-me nos teus braços. É neles que quero adormecer esta noite. É neles que quero adormecer todas as noites. Quando o tempo vier, é neles que quero adormecer pela derradeira vez...

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Segunda Oportunidade



"Eu só queria uma segunda oportunidade.", disse ela. E talvez fosse verdade. Mas, olhando-a nos olhos, eu não via alguém em busca de uma segunda oportunidade. Via apenas alguém empenhado em aprofundar o vazio, em alimentar a dor. Talvez por isso, olhando para ela, para os olhos tristes e o rosto magro e pálido, eu não lhe acreditava nas palavras. Mas ela repetia, claro, sempre da mesma forma insensata: "Eu só queria uma segunda oportunidade".
No rosto dela havia o peso do passado, misturado nas linhas velhas e severas de uma mocidade perdida na espera de um amanhã que ficou num anteontem distante. As rugas da alma firmavam-se nos lábios que enrijeciam sem sorrir e nos olhos que ostentavam o brilho das lágrimas gastas que, de tanto terem caído, se mantinham agora presas no interior verde amendoado do seu olhar, enquanto proferia essas palavras: "Eu só queria uma segunda oportunidade."
Vi-lhe a amargura espelhada em cada fragmento do corpo. Vi-lha nas mãos, que se davam uma na outra, pelo medo de nunca mais se darem a outras mãos. Vi-lha na postura cabisbaixa, de ombros caídos. Vi-lha nos pés balouçantes que iam e voltavam, sem parar, aguçando a agitação do coração caótico. Mas vi-a mais no fervor com o qual repetia, neuroticamente aquelas palavras: "Eu só queria uma segunda oportunidade." E, mesmo vendo a amargura em cada recanto de si, eu não acreditava no que ouvia. Não acreditava que ela quisesse, de facto, uma segunda oportunidade.
Pensei, claro, num silêncio só meu que talvez, mais tarde, ela quisesse o que agora pedia, de forma mentida e leviana. Talvez um dia, quando a sensatez desse lugar e espaço para ela pensar além das barreiras da mágoa. Talvez aí... Mas foi um pensamento grosseiro e rude, porque eu sabia que o futuro dela tardaria um pouco, tal como o presente tardava. Ela ainda estava lá, no passado... onde desejava, não uma segunda oportunidade, mas a primeira que nunca tivera de facto.
Podia ter-lhe dito isto. Podia ter-lhe dito que ela não queria uma nova oportunidade, que as coisas que ela fantasiava ter vivido não eram realidades mas antes memórias embelezadas e polvilhadas com pó da ficção. Mas, por mais que as suas palavras não fossem reais, a mágoa era, então, não lhe disse nada.
Então, ela dizia, sempre da mesma forma insensata: "Eu só queria uma segunda oportunidade". Mas ela não sabia, como também eu, em tempos, não soube e como tantas, tantas pessoas não souberam antes de nós. Ela não sabia que era ela quem tinha de dar a si mesma uma segunda oportunidade. Uma que dependia apenas dela. E então, como não sabia, ela repetiu, vez após vez: "Eu só queria uma segunda oportunidade". 

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Simples assim


Foi simples assim. Dor, medo, desilusão. Mentiras sem começo nem fim, caladas em silêncios, mortas em atitudes, sob capas de desprezo.
Foi simples assim. O usar e o deitar fora. Ter o coração espezinhado, a vida rasgada, os olhos repletos de lágrimas e a alma dorida, contrafeita e maltratada, ferida pelas mãos de quem nem faz ideia que depois da doçura fica o amargo da solidão.
Foi simples assim. A saudade a apertar o corpo, o desengano das horas, a mágoa de esperar um amanhã que já ficou num anteontem distante. E a amargura dos sentidos, mortos no inóspito sentimento que ficou inteiro porque alguém não quis metade.
De braço dado com a tristeza foi simples como desistir de tudo, simples como aprender a viver meia vida, com meias vitórias e meios sentidos. E caminhar descalça por pisos de sofrimento, beijando a esperança nas esquinas apenas para a ver morta em becos de desengano.
Trazer a tortura ao colo, aceitar que não há no mundo lugar para o vazio de nós. E caminhar, passo a passo, nos caminhos errados das florestas de pesadelos reais, que se envolvem nas névoas dos boatos e da mesquinhez alheia.
Foi simples assim. Como desistir de tudo. Como não esperar nada além da morte. Como não desejar nada além do que ficou atrás das cortinas negras do passado. Como não sentir nada além da taciturna dor de um amor que foi e já não é.
Foi dor e medo e desilusão. Foi abandono e luta e mágoas sem fim. Foi morte e desassossego, nos recantos de uma mente onde proliferam os espinhos da vida. Foi a espera inusitada do que nunca veio, o cultivar do vazio, o aceitar do fim.
Foi simples assim amar alguém. Simples como respirar o desespero das horas. Simples como dormir sobre o chão rugoso do  medo. E diriam, alguns, que foi como nunca mais vai ser, porque não vale a pena.
Foi simples assim. Simples como a complexidade do mundo. E sim, foi dor e medo e desilusão, todas juntas, ancoradas em feridas e sentidos que não passaram de mágoas disfarçadas. Mas faria tudo outra vez. Porque o meu amor é maior do que tudo o que, afinal, não foi simples.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nunca te dei nada



"Nunca te dei nada", disseste. Mas disseste-o sem saberes o que dizias. Sem sonhares, sequer, que me dás mais do que eu alguma vez tive. E eu sorri, quando o disseste, não porque concordasse com as tuas palavras mas porque sabia a verdade e a verdade era, para ti, uma desconhecida a passar nas ruas do desassossego.

"Nunca te dei nada". Como é possível?! Deste-me, para começar, o brilho aos olhos que permaneciam baços, presos à moldura desfocada de um passado que não o merecia. Deste-me as palavras, quando a caneta que passava no papel desenhava apenas riscos e desenhos sem sentido, na busca da inspiração. Deste-me uma oportunidade. Uma segunda oportunidade. Uma terceira... deste-me mil oportunidades, por entre as desventuras das separações do mundo. E voltaste sempre. Deste-me a presença. E nunca ninguém ma tinha dado.

Deste-me um pedaço de ti. Primeiro, deste-mo em amizade, depois em paixão, depois em amor. E, de forma inconsciente, deste-mos todos ao mesmo tempo, fazendo desse pedaço de ti um pedaço meu.
Deste-me a felicidade. A felicidade que eu não sabia se existia, aonde estava ou, sequer, se era real. Deste-ma. Deste-ma, enquanto me davas a certeza de que as coisas boas também são tangíveis. Deste-ma no ensinamento das premissas mais sensatas do mundo, enquanto me ensinavas que tudo o que não nos faz sorrir não merece o parco tempo da nossa existência efémera no mundo. Deste-me um sorriso nessa partilha constante e sábia. Deste-me um sorriso e a capacidade de olhar melhor para as mesmas coisas.

Deste-me a segurança de saber que existe um amanhã melhor, depois de um hoje perfeito e deste-me algo por que vale a pena viver e morrer. Deste-me o alento de lutar em batalhas, a sabedoria para escolher as guerras e a consciência de que posso vencer sempre, desde que o meu coração comande tudo o resto.

Deste-me a força de mil homens e a sensibilidade da Natureza, em abraços que prometiam que eu podia ser sempre eu, sem ter medo nem barreiras. Deste-me a mão e aceitaste-me a alma, à qual deste alento para acreditar que, além das estrelas do céu, existe um Universo que só encontra par no teu coração infinito.

"Nunca te dei nada". Deste-me estas palavras. Mas eu não as aceitei. Não as aceitei porque, quando as disseste, tinhas dado a tua mão à minha e o teu olhar ao meu. E tinhas-me dado o calor do amor, o brilho ao olhar e a esperança do futuro... Disseste "nunca te dei nada" mas eu não aceitei. Não aceitei e não aceito. Porque me dás mais do que alguma vez sonhei vir a ter... e estou a usar o sorriso que me deste.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet