terça-feira, 25 de agosto de 2015

Dói



Dói. Como uma ferida aberta no centro da alma. Carcomida pelo tempo que tenta atingir a memória. Dói. Mãos dadas, perdidas, de dedos desenlaçados, arrancados, esgotados na demora dos pensamentos. Primaveras e Verões. Outonos e Invernos. Dói. A vida segue, o mundo avança, tudo muda. Nós não. Ficamos. O mesmo lugar. A mesma memória. A mesma mágoa. Dói. É ferida que alastra. Permanece. E o tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Foi ontem. Ou há mil anos. Beijo de fogo nos lábios. Risos prontos. Mãos fechadas noutras mãos. O toque por entre a noite. O desejo. A partilha incandescente dos corpos suados. O aroma a café, semeado na preguiça das manhãs de sol. Dói. A memória do sorriso dói. A felicidade dói. Tudo fere quando já foi e não retorna. A saudade. Medo. Medo de ter apenas saudade, onde antes se tinha o mundo inteiro. Dói. Como uma ferida aberta no coração pulsante.
A tua sobriedade. A tua sobriedade inebriada e louca, bebida de copos vazios. O som seco das promessas feitas nos brindes desajustados. O silêncio dos corpos dados. O grito da vontade carpida de viver. Dói. Perplexidade. Abandono. O ontem que se somou ao passado plural das minhas mil vidas. Dói. A ferida vai corroendo o tecido saudável do eu. Eu sou. Eu fui. Eu era. Quem? Dói. O desvanecer das ilusões. Da realidade. Do sentido. Dói. O tempo. Diz. Repete. Intitula. Enlouquece. O tempo passa. Tic-tac. Dói.
Linhas. Linhas traçadas sobre a mesa. Sobre a cama. Linhas no céu. Linhas nas mãos. Linhas. Linhas passando o fino espaço da agulha, tentando remendar o que não tem arranjo. Eternidade. Falha. A falha da linha. O toque ritmado do outro lado. Do adeus à ausência. Desistência pura. Dói. O teu toque que me falta, misturado no toque intermitente e compassado que insiste sem resposta. Dói. Linha desenhada. Palavra. Texto. Poema. Dói.
Inacabado. Este. Esse. O outro. Todos eles. Inacabado como nós. Assino. Data. Hora. Descrição. Não sei quem sou. Qual é o dia. Que números apontam os ponteiros. Dói. Dóis-me. O tempo passa. O tempo mói. O tempo não cura.
Dói. Chávena de café vazia. Ao sol. Sem o abraço da mão. Sem beijo tecido. Só com memória. Memória de café. Memória de sol. Memória. Saudade. Dói. Quero beber um copo de morte. Perder a tua sobriedade. A memória louca do que o tempo não pode curar. Leva. Leva-me. Basta. O tempo. Pergunta. Resposta. O tempo.
O tempo não é um poema. A dor é. E dói. Poema. Ilusão. Saudade. Olhos abertos. Semicerrados. Fechados. O suspiro. Último. Fumaça de anteontens. Despedida. Dói. Doeu. Doía. Agora já não...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A morte anunciada do amor



Escreveram nos jornais. Eu não sabia. O amor vai morrer.

Era o que dizia, em letras graúdas, na capa de todos os jornais. Abri um ao acaso. Logo à noite, dizia. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer.

Senti-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

A morte do amor virou manchete. Comenta-se por aí, à boca cheia. Ouço a notícia na voz de idosos que largam a mão da vida e na voz de crianças que sonham com contos de fadas. Ouço-a na voz de quem jura ter amado mil vezes e de quem acredita que o amor só acontece uma vez.

Houve quem marcasse uma vigília e, aleatoriamente, veem-se mantas negras nas janelas e lamparinas acesas à espera do cair da noite.

O conformismo apoderou-se da humanidade. O amor vai morrer. Dizem-no, como se falassem do tempo que faz lá fora. Do dia que avança. Da última novidade das revistas cor-de-rosa. O amor vai morrer. Organizou o seus afazeres. Assinou os documentos. Decidiu que não queria viver mais consigo próprio. Não explicou porquê. Há quem diga que é porque anda sempre de mãos dadas com o sofrimento. Há quem diga que tem mazelas impressas na alma, doenças de foro emocional e físico, crónicas e sem alívio possível. Mas ainda é o amor. Como pode o amor morrer? Como se mata um imortal?

Sinto-me defraudada na expectativa de encontrar o amor amanhã.

Onde quer que vá. Não há rua onde não se sinta o aroma pútrido da novidade. O amor vai morrer. Vê-se nos semáforos desligados e nas ruas despidas de carros e onde tão pouca gente caminha. O amor vai morrer. Fizeram cartazes de despedida. Eles gritam nas estruturas de metal. Adeus, amado amor. O cinismo do mundo. O amor não foi amado. Foi odiado, espezinhado, mal falado, mal tratado, usurpado e arrastado por aí como um trapo. Durante milénios, foi assim que trataram o amor do qual se despedem com tanta leviandade.

Todas as ruas têm o toque da morte do amor. Mas mais a tua. E caminho por ela, apenas para interiorizar o que já sei. O amor vai morrer. Logo à noite. Logo à noite o amor vai morrer. Organizou os seus afazeres. Assinou os documentos. Vai morrer.

Da tua janela pende um trapo negro. Dizes adeus ao amor. Talvez ao que me deste e que eu não quis devolver, na ânsia de chegar primeiro ao que era concreto e somente meu. Sinto as lágrimas penduradas nos recantos do olhar que se vidra. Sinto a saudade carregada no peito que acelera. Não vou encontrar o amor amanhã.

Escreveram nos jornais. Eu não sabia. Logo à noite, o amor vai morrer.

Devia ter-te amado ontem.


Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Podes ser



Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Imagino que verei, no teu rosto, menos lágrimas do que aquelas que limpei a mim mesma. Podes ser. Compreendo. Podes ser como todos eles. Como todas elas. Como todos esses. Gente. Plural singularizado. Podes ser. Dói menos.

Essas pessoas estão menos sós. Vão à frente. Vivem as suas vidas. Morrem as suas mortes. Ninguém se importa de sobremaneira. E não faz mal. Talvez estejam mais certas, essas gentes que se imitam e se regem pelas regras insatisfatórias que os tempos ditaram, sem outra razão que não a de não haver razões. Podes ser assim. Os Deuses sabem que, se pudesse, eu também teria sido. Mas nunca soube encaixar no espaço destinado. Nunca soube integrar a norma. Erro meu. Erro que veio, como marca de nascença, impresso na pele. Visível. Notório. Não sou igual aos outros. Nasci com um defeito de fabrico. Sempre fui uma peça fora do conjunto perfeitamente oleado da sociedade. E não é algo que se possa combater. O cheiro nauseabundo da diferença repele os que amam a marcha imperial das igualdades. Das desigualdades, diria eu. Mas quem sou eu para dizer? Sou só a peça que nunca encaixou em lugar nenhum.

Faço dos teus desejos a minha motivação. Desejo-te sorte. Sorte nessa demanda por seres espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Gente. Sim. Gente. Talvez te tratem como gente. Talvez te convidem a entrar nos jardins onde todos os canteiros têm as flores da mesma cor e todos os arbustos crescem à mesma altura. Talvez te cedam o espaço necessário para poderes, também tu, plantar a tua flor e regar o teu arbusto. E talvez seja verdadeiramente melhor essa versão comprimida e modelada de sanidade. Melhor do que a loucura que me faz caminhar no meio do mato, entre flores silvestres e flores do campo e flores venenosas. Melhor do que a loucura que me faz falar com as árvores que, numa loucura só sua, crescem cada uma à sua altura e se atropelam na busca do sol. Melhor do que com a loucura que me faz afastar, passo a passo, dos olhares reprovadores das pessoas que, por serem sãs, não compreendem. Sim. Fica com a sanidade. Talvez um dia, tal como os outros, olhes para mim de lado e não compreendas. Espero que sim. Que encaixes. Eu nunca encaixei.

Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Frase feita. Cliché. Eu não pude. Mas tu podes. Não te noto, nos jeitos, o desequilíbrio que denunciou os meus defeitos. Acho que vão abrir-te as portas das salas, ceder-te o horário meticuloso dos dias, a ementa semanal, sempre preparada com minúcia. Quando eu tentei entrar, deram-me a porta fechada. Mas não vai ser assim para ti. Eu transpirava a diferença. Uma diferença que era, apesar de tudo, subtil. Maneiras de olhar, de estar, de acreditar. Mas fazia deles "a gente" e de mim "a outra". A diferença enojava-os. Fiquei do lado de fora, a vê-los, através do vidro baço e impermeável, dividida entre o "eu" que não podia ser como eles e o desejo incoerente de ser, tal como tu queres: Espelho. Reflexo. Cópia. Cliché.

Tu podes ser. Eu nunca pude. Porque eu sou espelho das águas que correm, sem barragens. Reflexo das florestas que crescem, sem barreiras. Cópia dos pássaros que voam, sem grilhetas. Cliché das minhas próprias frases feitas. Não sou, talvez, gente. Esse plural singularizado. Mas sou pessoa. E, do lado de fora do vidro, aprendi a olhar para dentro. Dentro de mim nada é organizado. Não há canteiros com flores nem arbustos com tamanho definido. Não há esquemas, nem agendas, nem ementas. Não sou um peão. Não irei, certamente, à frente de ninguém. Mas, no meu caminho, viverei mil vidas. Morrerei mil mortes.

Podes ser espelho. Reflexo. Cópia. Podes ser o que já há. Frase feita. Cliché. É, talvez, mais simples ser assim. Eu não pude. Hoje não quero. Há florestas além dos jardins. Mundos além das salas. E, felizmente, outros loucos como eu.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.



O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

A manhã nasceu cinzenta. Era o primeiro dia de Verão. O céu não parecia sabê-lo. Os solstícios, por vezes, são mesmo assim. Parecem importar mais às pessoas. Naquele dia, não importava ao próprio Sol, que se escondera sob um manto impenetrável de nuvens e smog. Mas importava-me a mim, por impulso ou teimosia. A manhã estava cinzenta. As ruas, igualmente cinzentas, mantinham a sua usual tonalidade suja. Mas insisti. Insisti que era Verão. E, no Verão, querem-se vestidos leves e floridos, frescos, esvoaçantes. Foi o que usei na manhã daquele naquele primeiro dia de Verão, cinzento e frio.
São coisas pequenas. Detalhes. Tão despidos de importância que facilmente se esquecem. Mas recordarei para sempre o que usei naquele primeiro dia de Verão. Tal como lembrarei a mesa de café onde me sentei. As ruas que percorri, de seguida. Os passos que ouvi atrás de mim. A respiração ofegante que me fez acelerar o passo. O toque leve no ombro junto à passadeira. As palavras...
"Desculpa... não quero assustar-te." - O olhar, azul num rosto lívido. - "É só que pensei para mim..." - A hesitação. - "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu." O sorriso. O começo. O primeiro dia de Verão. Cinzento. O primeiro amor. Tão cheio das cores do arco-íris.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

No primeiro dia, o amor viu o meu vestido. O meu vestido florido e leve, fresco, que em tanto se afastava do Verão, que nascera cinzento. Acho que o Verão não sabia as nuances do meu amor. Se as soubesse, o Sol teria feito mais do que esconder-se sob as nuvens. Ter-lhes-ia dito que chorassem. Imagino que, por entre murmúrios, teria dito assim: "acaba de nascer um amor condenado à saudade...".  E as nuvens teriam chorado. E o Verão teria começado sob o som constante da chuva. Mas eu acho que, tal como eu, no primeiro dia, o Verão não sabia. O Sol não sabia. O único a saber era o portador daqueles olhos azuis. O dono daquela mão que me tocara o ombro. O senhor daquela voz que me conquistara com as mais belas palavras.
De pequenina, o meu pai tinha feito destas palavras lição: "só dois tipos de homem têm a coragem de dizer o que pensam, sem temor: aqueles que não têm sanidade mental e aqueles que, por alguma razão, já nada têm a perder". O meu pai, que era um homem velho e sem estudos - e do qual não me recordo de outra forma que não sendo velho, com o cabelo ralo e grisalho e um cigarro entre os dedos - era também o homem mais sábio que conheci. Era um homem com medos, claro. Medo das guerras nas quais combatera sem se fazer herói, medo de ter sobrevivido com memórias que não conseguia apagar, medo de morrer sem deixar memória de si. E era um homem com medo justamente porque a sua mente era sã e ainda tinha muito a perder.
Esse amor que conheci junto às linhas brancas da passadeira era detentor de uma coragem como eu nunca tinha visto. É preciso coragem para dizer a alguém "Se morresse amanhã, hoje o Verão terias sido tu.". Até àquele dia, eu só tinha amado um homem cobarde - o meu pai - nesse dia, aprendi a amar a coragem. Mas, talvez porque o meu pai conhecesse da vida mais do que se aprende por entre as letras e os números, as suas lições rasgavam a pedra que lhe cobria o túmulo e vinham a meu encontro, lembrando-me: só existiam dois tipos de homens com coragem. E assim era. A coragem dele era uma coragem feita na cobardia. E, se era loucura, posto que todo o amor é louco, não era ela que o fazia falar. Não tinha nada a perder. E eu, no meu vestido de Verão, num dia cinzento, não o sabia ainda.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Encheu-me o corpo de mimos. A casa de flores. A vida de amores maiores do que o tempo. Afagou-me a alma e o coração. E levou-me, nos braços, ao encontro de lugares onde eu nunca tinha estado e de lugares que aprendi a ver de forma diferente, porque nunca os tinha visitado com ele. Lembro que me beijou, pela primeira vez, em frente ao mar. E disse-me "Se morresse amanhã, hoje terias sido a minha vida inteira".
 Por muito tempo, falou do passado. Do presente. Evitou falar do futuro, deixando-me dúvidas e reticências sobre a validade do amor que cultivávamos. Mas matava-me sempre as dúvidas confessando, "Se morresse amanhã, poderia dizer que, pelo menos, amei".
Construímos juntos essa realidade feita de tudos e nadas. Dia após dia. Semana após semana. Até àquele dia, o dia do encontro. Mesa posta. Com os melhores pratos. Os melhores copos. Os melhores talheres. Velas. Perfume. Roupa passada a ferro. E a campainha que não tocava. O telemóvel que não tocava. A ausência de som que arrancasse dos meus ouvidos o desconforto do batimento cardíaco, pulsante e arrítmico. Não soube dele. Por dias. E foram lágrimas. Foram desassossegos. O meu homem de coragem pareceu-me, por fim, o maior cobarde de todos. E disse, para mim mesma, "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Bateu-me à porta de casa a meio da noite, uma semana mais tarde. Numa mão segurava dois balões com forma de coração. Na outra, um ramo de rosas rubras, grandes e aromáticas. Depositou-me nas mãos os presentes e nos lábios um beijo. No peito, depositou o medo. "Tenho uma coisa para te contar".
Contou. Desejei, muitas vezes, que não o tivesse feito. Mas fez. Contou-me a verdade sobre o homem que me tinha tocado no ombro, atraído pela leveza fresca do meu vestido de Verão. "Estou a morrer.". Não disse que estava doente. Disse-o assim. De forma directa e crua, como se tivesse medo que eu não entendesse as implicações das suas palavras. Talvez estivesse cansado de eufemismos. Talvez estivesse simplesmente cansado.
Foi nesse dia que soube que a coragem dele nascia onde, geralmente, as pessoas depositavam o maior dos medos. A morte, a mesma que assustou exércitos e os afugentou, levava aquele homem nos braços, rumo ao amanhã, se houvesse amanhã.
Agarrei-o junto ao peito. Agarrá-lo significou beber a coragem. Saber que amaria alguém que estava condenada a perder. E mais uma vez, pensei: "o amor é cego".

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Levou-me, certo dia, até um bairro degradado da cidade. "Quero mostrar-te uma coisa", disse. Segui-o. Por entre as ruas sujas e gentes que se debruçavam sobre os caixotes do lixo, regozijando-se quando encontravam um pedaço de pão. Por entre mendigos que mantinham a mão aberta, fechando os olhos, como se não esperassem que alguém pudesse prestar-lhes realmente auxílio. Por entre casas degradadas, com as portas abertas e as janelas partidas. Entrou numa dessas casas, arrastando-me pela mão. Tirou dos bolsos um maço de notas e depositou-o na mão de uma senhora idosa, beijando-lhe a mão de seguida. A senhora agarrou a mão dele contra o peito. Agradeceu-lhe, com lágrimas nos olhos. Fitou-me. Por largos momentos, não fez mais do que procurar nos recantos dos meus olhos algo que eu não sabia o que era. Depois, sorriu levemente. O sorriso enfatizou-lhe as rugas. "É um bom homem, não arranjas melhor... não, não... devias casar com ele."
Saímos. E, na saída, ele deixou uma moeda na mão de um mendigo. Não me disse nada, até estarmos longe. "Aquela mulher, que nada tem, alimenta quem pode. Não nega um prato de sopa a ninguém. Aquele mendigo, abandonou-o ali a família antes de se mudar para o estrangeiro. Não veem, o raio dos políticos. As campanhas passam ao largo destes bairros por medo que se pegue...". Parei, puxei-o para mim. Beijei-o. E, depois, dei razão à senhora velha. "Casa comigo", pedi-lhe. E ele sorriu, olhando para mim como se eu fosse a pessoa mais bonita do mundo e sem ver que a melhor pessoa era, na verdade, ele mesmo. "O amor é cego", tornei a pensar.

Mas não. O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Casámos. Foi uma cerimónia simples, no cartório. Eu, ele e uma testemunha. Não precisávamos da aprovação de nenhuma pessoa. Não precisávamos da aprovação de nenhum Deus. Fosse por quanto tempo fosse, deixámos o voto: "Serei teu até ao último suspiro e além dele, se houver memória", disse ele. Eu disse o mesmo. Mas sabia. Seria dele muito depois da morte o tomar nos braços. Talvez para sempre.
Dos dias, fizemos uma batalha contra o que se vê nos cantos das ruas. Aprendi a ver. A ver o que não se vê mesmo quando está em frente aos nossos olhos. A pobreza. A fome. O frio. A falta da dignidade que prometem que é para todos. Aprendi que os direitos iguais são um pregão tradicional que não se adequa à realidade das ruas. Para quem vive sem nada, os direitos não passam de um conto de fadas escrito pelos ricos. Ele não tinha muito dinheiro. Mas dizia com frequência: "O que tenho, para o túmulo não levo.". Dava. Sem fazer contas ao amanhã, porque sabia que a incerteza do amanhã começava hoje para muitos. E eu, ao lado dele, aprendi a riqueza que é não ter nada quando se dá aos outros o melhor de nós.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Foi no Inverno que aconteceu. E nem me lembro bem como. É uma nuvem dispersa de memórias sob o som odioso da sirene da ambulância e o cheiro do desinfectante do hospital. Lágrimas nos olhos. Uma mancha de sentidos e sentimentos e mágoas.
"Tens medo da morte?" perguntei-lhe. Deitado, na luz azulada do quarto, com o bip constante dos monitores, ele abanou levemente a cabeça. "Tinha medo, antes de ti."
"Eu tenho medo", confessei. "Medo de nunca mais ser feliz"
Olhou-me. O olhar mais cheio do mundo.
"É como o dia em que nos conhecemos, disse, estava frio mas tiveste fé no Verão e aconteceu este amor... eu sei que vai ser triste mas, se tiveres fé na felicidade, algo de bom virá."
Virá, talvez, mas ainda não veio. Tenho a saudade e a mágoa. Uma mágoa sem nome nem data de validade. E dói.
A igreja encheu-se de gente que não o conhece. Gente que o conheceu, em tempos, mas não o conhece agora.  Dizem sobre ele coisas vulgares, clichés, lugares comuns. Coisas que se dizem sobre homens cobardes. Mas ele, porque nada tinha a perder, era feito de coragem.
Andando pela rua, vejo traços da sua bondade em cada esquina. E tento dar de mim, como ele dava. Porque é essa a única forma que tenho de o amar. Ver. Ver o mundo como ele é. Sem eufemismos. E tentar fazer melhor.
É este homem que recordo. É este homem que amo. Talvez o digam... mas não é porque estou cega de amor que o vejo assim. Vejo-o assim porque ele abriu os meus olhos.

O Mundo é cego. O amor não. O amor vê tudo.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


Nota:  Este texto foi, também, a minha participação no 5º Concurso Literário da Editora Papel de Arroz, "Quando o amor é cego", tendo alcançado o terceiro lugar.
Deixo, mais uma vez, uma nota de agradecimento aos responsáveis da editora, por continuarem a desafiar e incentivar os seus autores. Aproveito, ainda, para dar os meus parabéns a todos os participantes do concurso. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

Homenagem póstuma



Ela era assim: uma força bruta da natureza, enfiada pelo destino num corpo esguio e frágil. Ninguém a entendia e ela não entendia ninguém. Mas quando falava sobre a vida... ah... quando falava sobre a vida parecia que não havia nada que não entendesse. As pessoas podiam beber da sua sabedoria ancestral, que vinha sabe-se lá de onde, permear a idade que ela não tinha.

O seu sorriso abria-se por poucas coisas, embora toda a gente a conhecesse a sorrir. É que os sorrisos, na sua maioria, eram mentiras ensaiadas ao espelho. Viveu a maior parte da vida triste. E, quem o sabia, habituou-se, por força da necessidade, a fingir que não o notava.

Se aqui estivesse diria: deixa as palavras bonitas para o meu elogio fúnebre. Não acreditava em louvores. Passou a vida a achar que não valia o tecto sob o qual se deitava nem as pedras sobre as quais caminhava. Mas reivindicava para si mesma o direito ao sonho. Esse, achava que merecia. Foi por ele que viveu. Foi nele que morreu. O sonho que se estendia pelas ramificações da arte, do amor, da família. O sonho que lhe marcou, sob os olhos, o negro das noites que passou acordada, fosse a escrever ou a chorar.

Ela foi uma boa pessoa. Uma boa amiga. Crente inabalável num panteísmo velho e que ela não julgava gasto. Reduzia a religião aos princípios da bondade. Reduzia as normas sociais aos princípios da liberdade. Reduzia tudo ao mínimo denominador comum. Não queria ser igual aos outros mas também não queria destacar-se. Cumpria o necessário para ser diferente... mas não demais. Parecia um elefante numa loja de cristais, tentando desesperadamente não causar dano. E, por entre a falta de jeito para se enquadrar e o desastre completo que causava ao passar brevemente, feito furacão, nas vidas dos outros, ela deixava uma aura de imperfeição que obrigava a sorrir. Era isso que a tornava perfeita.

Se aqui estivesse e me ouvisse falar, ela diria que as minhas palavras eram um exagero. Que nunca foi perfeita. Que não queria ser perfeita. Mas eu posso dizê-lo. Ela já não ouve. E, por alguma razão, sei que não se importa de não ouvir.

Era, de entre todas as coisas, a mais peculiar: ela não tinha medo da morte. Foi a única pessoa que conheci que não tinha medo da morte. Sempre me pareceu que tinha mais medo da vida. E das pessoas. E até de si mesma. Da morte não. Imaginei, ao longo de muitos anos, que ela tinha feito um qualquer pacto de irmandade com a velha ceifeira ao longo das muitas vidas que a sua alma velha certamente experienciou. Imaginei que se tinham tornado amigas. Que ansiavam por se ver. Da morte, falava com paixão e encantamento. Chamava-lhe irmã. Dizia que iria com ela, em qualquer momento, num piscar de olhos.

Cumpriu a promessa. Foi. Mas não tem a ver com a ida. Não tem a ver com o que foi levado, roubado, usurpado. Tem a ver com o que ficou. Para trás não deixou a tristeza, a estranheza, a desolação. Deixou antes o que havia de mais belo em si. Sabedoria. Poemas. Textos. Coisas das quais nem mesmo ela conhecia o valor.

No mundo, deixou um pedaço de si.

Em mim, deixou a saudade.

Voou com os pássaros. E imagino que agora, finalmente, está feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 21 de julho de 2015

A esmola



Abriu a mão. Entendeu-a. O olhar, quase vazio. O rosto sujo. As roupas sujas. A calçada suja. As rugas vincadas do rosto, sob a barba áspera. A cruz, lá no alto. A condenação doentia que o prendia ao chão. As pessoas passavam. Abriu a mão. Estendeu-a. Mas ninguém o viu.

Raramente alguém o via. Fazia parte da paisagem. Tal como as estátuas. Por vezes ouvia o som metálico de uma moeda a cair na caixinha das esmolas. "Para os pobres", dizia a gravação a negro. E ele abria a mão. Estendia-a. Olhar cheio de preces. Rosto magoado. Roupa gasta. A calçada fria. As rugas, cada vez mais vincadas. A cruz, lá no alto. A idade que o atava ao solo.

Era temente a Deus. Não aquele Deus. Qualquer um, na verdade. Acreditar na divindade era, agora, apenas a força do hábito. Acreditar era apenas uma forma de justificar o injustificável. De aguentar as torturas do mundo e das pessoas que entravam na igreja, ignorando a sua mão estendida e avançando para a redenção, para o céu, deixando para trás a rua e o seu inferno, feito de fome e frio. Conhecia de cor as missas que se diziam dentro do espaço da igreja onde sempre o impediam de entrar. Às vezes mimava uma ou outra passagem, movendo os lábios dos quais, havia muito tempo, nenhum som saía. E, quando a missa terminava, estendia de novo a mão e aguardava pela corrente purificada de almas que deixava cair moedas na caixinha das esmolas mas continuava a não o ver.

Os olhos vazios fechavam-se para não se encherem de lágrimas. E, no desespero do dia que passava, tecia orações só suas, com palavras sentidas e choradas. Desejava que chegasse depressa o Natal para ter duas noites de sopa quente e tecto, promovidas pelos canais de televisão. Desejava que não tardassem as próximas eleições para receber, no tempo das campanhas, atenção à debilidade da vida que vivia. Desejava que chegasse a morte, para que a vida parecesse um Natal em tempo de campanha política. E desejava, acima de tudo, que ninguém tivesse de fechar os olhos para pedir as coisas que ele pedia.

Abriu a mão. Estendeu-a. Ninguém o olhou. Mas a mão continuou estendida, esperando um segundo de caridade. Sobre ela, caiu, sem som ou aviso, uma gota de água. Seguiu-se outra. E outra.  O rosto sujo, sorriu. As pessoas desapareceram. A cruz permanecia no alto. Ele permanecia no chão. A tristeza adensou, mas ele sorriu. Talvez, lá no alto, uma divindade entendesse. Talvez por isso chorasse. E, agora, ele também podia. Podia chorar sem vergonha à porta da casa de Deus. Era essa a esmola do céu.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 14 de julho de 2015

A tua droga

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Escolhe a tua droga.
A mais comum é a apatia. Há quem a misture com antidepressivos e quem a prefira simples. Uns bebem-na de copos sem fundo. Outros mexem-na, olhando o vazio, até o gelo derreter. Sim... a apatia é a mais tradicional. Mas podes escolher outra.
Ouvi dizer que se vende bem, pelas esquinas dos bairros jovens, a euforia desusada e inconstante. Esta é uma droga mais perigosa porque causa estranheza em todos os que seguiram a corrente apática e se formaram nas universidades da letargia. A euforia também pode ser tomada simples mas há quem a misture com festas que duram a noite inteira, tomando-a com álcool e bebidas energéticas até raiar o sol da depressão na alvorada. Alguns tomam-na com o suor dos corpos partilhados na noite. Alguns tomam-na com as tintas que desfeiam as paredes das cidades. Mas também há quem a tome mais pura, com comprimidos e ervas e seringas.
Escolhe a tua droga.
É comum, nas ruas movimentadas, a mentira. A mentira é uma droga que virou moda complementando outra, também frequente nos tempos que correm: o desejo de acreditar, seja lá no que for. A mentira tem variantes. Há quem goste dela pura e quem a prefira com um toque de ironia ou sarcasmo. Dizem que, se for tomada ocasionalmente, não provoca dano. Não seria a droga que eu recomendaria, ainda assim. Causa uma habituação profunda. Vício. Na toma da primeira mentira, que se julga única e só para experimentar, abre-se a porta a uma corrente infindável. A mentira é a droga que se toma como tratamento dela mesma. É um ciclo vicioso e impossível de quebrar sem provocar dano.
Talvez por isso, a droga de muitos é a verdade. O problema da verdade é que, se não for tomada também com relativa moderação, leva ao exílio. A verdade tem limites estranhos e indetectáveis. É quase impossível saber qual a dosagem certa e qual aquela que nos levará a uma overdose social. Mas não seria a pior escolha, posso garantir. Eu própria enveredei por esses caminhos antes de optar por inalar antes os silêncios.
Escolhe a tua droga.
É incomum alguém escolher a censura. É uma droga cara e que exige um estatuto superior. Mas, quem a toma, costuma tomá-la em copos de orgulho, com uma rodela de abuso de poder. É uma droga curiosa porque causa mais dano a quem não a toma. É dela que, muitas vezes, se extrai a apatia e o silêncio que se vende às gentes do povo.
Escolhe a tua droga.
Para sobreviveres aos dias vais precisar dela! A minha? A minha é  outra... há quem lhe chame sonho, há quem lhe chame ilusão, há quem lhe chame esperança. Mas, acredita em mim... não queres escolher a minha. São os que tomam o sonho que mais vezes caem na realidade. A ilusão fere. Afecta o coração de uma forma tão profunda que, por vezes, parece sobriedade.

 Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 7 de julho de 2015

Devia ter-te dito


Deste-me um beijo antes de partir. Plantaste-o no meu rosto, casual como a noite que se punha agreste. E viraste costas. E foste. E eu fiquei. Fiquei com um beijo dado no rosto. Uma promessa esquecida que nunca foi dita. E apercebi-me, quando desapareceste, que me tinha esquecido, também eu, de dizer muitas coisas. Tantas coisas.
No desaparecimento metálico e branco das suas costas por entre as arcadas, eu descobri o peso do silêncio.  Descobri que só existem tempos irregulares nos verbos que não se conjugam. Espaços em branco por entre linhas pardacentas onde nada pode ser construído. No desaparecimento do teu eu por entre um nós que quebrara, eu soube que o sangue era fogo. Senti-o queimar nas veias. Nos olhos. Na alma. Devia ter-te dito.
Devia ter-te dito que te odeio. Naquele momento. Olhos nos olhos. Mala na mão. Avião à espera. Pois que esperasse. Devia ter-te dito. Devia ter-te explicado, de forma detalhada e irrevogável, o quanto te odeio. Não disse. Talvez nunca diga. Mas é verdade.
Odeio a maneira como te conheci. No metro. Por entre a sujidade que as pessoas fazem e a sujidade que elas trazem. Nas mãos. No olhar. Nos silêncios. Odeio ter-te conhecido por entre a sujidade do metro. Odeio que a tua primeira frase tenha sido "com licença". Odeio tenhas esbarrado em mim e entornado metade do café morno em cima do meu vestido, logo pela manhã. Odeio que te tenhas rido enquanto pedias desculpa e que tenhas deixado o teu nome e número de telefone no verso de um talão de mercearia com a desculpa de que pagarias a lavandaria. Odeio-te.
Odeio a maneira como me encontraste na rua e reclamaste por nunca te ter ligado, como se tivesse obrigação de o ter feito. Odeio a forma como me obrigaste a faltar a um exame da faculdade para ir beber café contigo e como, no final, te apercebeste que não tinhas a carteira e me fizeste pagar do meu bolso. Odeio que tenhas ficado com o meu número e que me tenhas prometido que ias ligar. Odeio que tenhas cumprido a promessa passado dez minutos. Odeio-te.
Odeio que me tenhas levado a um concerto de Free Jazz no nosso primeiro encontro oficial. E a maneira como, olhando para o meu nariz torcido, me disseste que os melhores gostos não são inatos. Odeio que me tenhas tratado como uma criança a noite toda, impedindo-me de beber álcool, enquanto fazias deslizar cerveja pela garganta como se fosse água. Odeio que não me tenhas apresentado a nenhum dos teus amigos com a pretensa desculpa do ciúme mas que, mesmo assim, me tenhas desfilado pelas ruas, orgulhoso, como se fosse um troféu. Odeio que me tenhas beijado pela primeira vez ao lado de um caixote do lixo, depois de teres roubado uma flor a um dos senhores marroquinos que deambulava por ali. Odeio-te.
Odeio que tenhas publicado nas redes sociais que estávamos numa relação antes de teres falado comigo. E que tenhas dito aos teus pais que tinhas conhecido "a tal", antes de eu sequer saber se te amava. Odeio que te importasses com detalhes e que corrigisses constantemente aquela madeixa do meu cabelo que cai para o lado errado. Odeio que percebesses a minha irritação, mesmo quando a escondia e que a acalmasses com um beijo na ponta do nariz. Odeio que me desses as mãos em todo o lado. Odeio que as tenhas notado vazias e que nelas tenhas depositado um anel e um pedido cheio de palavras de amor. Odeio que me tenhas feito sentir vontade de te dizer que sim. Odeio-te.
Odeio que me tenhas feito deixar a casa dos meus pais para ir viver contigo. A maneira como insistias em levantar-te da cama sem eu dar conta para me fazeres o pequeno-almoço e mo levares pela alvorada. Odeio a maneira como olhavas para mim, sem maquilhagem e com o cabelo todo desgrenhado e enfatizavas o quão bonita eu estava. E a forma deitavas a cabeça no meu colo e me dizias que era dia de ficar doente e faltar ao trabalho porque querias fazer amor comigo o dia todo. Odeio-te.
Odeio que tenhas recebido um telefonema. Odeio que tenhas ouvido o que te disseram. Odeio que não tenhas decidido sozinho e que tenhas feito passar por mim essa deliberação que te levou. Odeio que tenhas dito que preferias ficar e que me tenhas obrigado a dizer-te que não. Odeio as palavras que me fizeste dizer: "é o teu sonho e é só por uns anos... vai!". Odeio que me tenhas dado ouvidos, como sempre. Odeio que tenhas ido.
Devia ter-te dito! Devia ter-te dito como odeio cada uma destas coisas. Mas, acima de tudo, devia ter-te dito que te odeio por me teres beijado o rosto. Por teres virado costas. Por teres ido embora. Por não me teres dito para ir. Por teres respeitado os meus projectos e sonhos. Por me teres deixado para trás.
Odeio-te porque te amo. E dói tudo em mim. O ódio e o amor...
Devia ter-te dito. Não disse. Ainda não disse. Por favor volta, meu amor. Esqueci-me de te dizer que te odeio.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da internet


terça-feira, 30 de junho de 2015

Sou loucamente só



Sou loucamente só:
Acordo de silêncio
E durmo desgarrada.
Não tenho amor, não tenho nada,
Sou loucura e digo que sou ninguém.

Tenho sonhos: toda a gente tem!
Mas calo os meus ao vento
Não lhos digo!
Da tormenta faço mãe,

Dos dias faço castigo.

Sou loucamente só,
Ando entre a gente
E desconheço a vida.
Não tenho nem começo nem partida,
Sou poeta e digo que sou demente.

Tenho a poesia:
Ela canta no silêncio da casa,
Afasta-me a tristeza, a agonia.
Cada rima é um som, é uma asa,
Nela voo e digo ser alegria.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

Este poema integra, também, a colectânea "Som de Poetas" da Papel de Arroz Editora

terça-feira, 23 de junho de 2015

De mim para comigo



Deixo esta carta à pessoa que fui.
O mundo soube ser odioso para ti. Não tiveste culpa disso. Não tiveste culpa que, pelos corredores, fizessem troça dos teus caracóis, dos teus vestidos, dos laçarotes no teu cabelo. Não tiveste culpa que te levantassem as saias, que te atirassem ao chão, que se rissem de ti. O mundo soube ser odioso. As pessoas foram cruéis. A culpa não foi tua.
Escola e casa eram portos seguros que nunca o foram. De um lado, essas gentes sem traço de humanidade. Do outro, a tristeza, os problemas. Não falavas desses problemas, eu sei. Mas viste-os todos. Viste lágrimas e histerias e momentos infindáveis de mágoa. Nos tempos em que devias ter conhecido uma felicidade inigualável, fizeste as pazes com a dor, aceitaste-a, abraçaste-a. Não conheceste outra coisa.
Havia, claro, sorrisos. Momentos bons. Mas, se a vida é feita na balança infinita do bom e mau, admite-o: não foste feliz. Não te deixaram ser. Mas tu não conhecias mais nada. É natural que te deixasses levar.
Apagaste-te. Se não tiveste culpa do ódio invejoso do mundo, disso tiveste. Podias ter ripostado. Mas querias demasiado ser aceite. Para quê? Para que querias tu fazer parte daquele grupo que não fazia mais do que plantar no teu peito o sofrimento? Não sei porque querias. Mas querias e não conseguiste. Então, apagaste-te. Viraste do avesso o que havia de bom em ti. Criaste o teu mundo. Nunca deixaste ninguém entrar.
Algumas pessoas chegaram à muralha e ponderaste erguer o portão. Mas as pessoas desiludiam-te antes de o fazeres. Não era simples. Não era simples acreditares que alguém seria melhor do que aqueles que te feriram. Então, encafuaste-te. Alguns dirão que o fizeste dentro das quatro paredes do teu quarto. Mas tu sabes. Foi pior. Foi dentro de ti que te escondeste. E, presa nesse mundinho, que justificavas com trabalho, antipatia e resmunguice, deixaste de saber ser pessoa.  Deixaste de entender gostos que não os teus. Deixaste de saber falar sobre os teus gostos, sobre as tuas preferências, sobre o teu eu. Com o tempo, deixaste de saber falar do que quer que transplantasse a linha da formalidade ou do superficial. Eras tu contigo e com uma multidão ao redor da muralha que nunca ninguém transpôs. E, cada hipotético companheiro de mundo de fantasia, acentuou isso mesmo. As pessoas atiravam-te pedras. Tu erguias muralhas. E ficaste só. Construíste um monstro. Saibas ou não. Foi isso que fizeste dentro da superfície muralhada da tua pele.
Não tenho pena de ti, porque te respeito demasiado. Sobreviveste. Mas sei que erraste. Sei que devias ter ripostado mais vezes. Sei que devias ter-te escondido menos. Sei que devias ter vivido mais. Mas tu não sabias. E respeito, por isso, o que fizeste.


Deixo esta carta à pessoa que sou.
O mundo soube ser odioso para ti. Não tiveste culpa disso. Quando te fechaste, tornaste-te igual ao mundo. Disso sim... tens culpa!
Dentro da tua solidão, criaste padrões para tudo. Habituaste-te a eles. Deixaste de aceitar conselhos, incentivos, palavras de apoio, opiniões diferentes da tua. Diziam-te que não dava para falar contigo. Não entendias. Não querias saber. Devias ter entendido. Devias ter percebido que esse foi o principio que fez com que sofresses tanto: as pessoas não se importam umas com as outras... mas, sabendo disso, tu não devias ser uma delas!
Tornaste-te uma delas quando deixaste de ouvir. Sem ouvires, magoaste pessoas. Não quaisquer pessoas. As que te amavam mais. Deixa-me perguntar: Afinal, quem és tu? Dona e detentora de todo o saber e razão? Respondo, também: Não és! Sofreste muito... óptimo! Aprende com isso! Supera isso. Sê melhor do que o mundo foi para ti. Não tentes lutar sendo igual a tudo o que odeias...
Abriste o portão da muralha. Deixaste alguém entrar. E, desde então, ele tem tentado que derrubes a muralha. Não, ele não te quer ver vulnerável. Ele sabe que és forte. Sabe-o, mesmo quando tu não sabes. E quer que pares de te esconder, qual menininha desamparada. Quer que dês o salto. Que sejas a mulher que ele sabe que tens potencial para ser. Isso implica que ouças e que aprendas a falar numa linguagem comum. Já não és tu sozinha. Está na hora de abrires a alma, da mesma forma que abriste o portão.
É importante que deixes o passado lá atrás. Sofreste mas agora és feliz. Aprende a sorrir com o rosto, com os olhos, com os lábios. Aprende a deixar cair a máscara de indiferença. Não és indiferente. Ele merece ver-te sorrir. Então, sorri. Não é difícil. É só pores cá fora o que trazes dentro de ti.
Dirias que és quem és. É verdade. Mas aprende a lição que ninguém te ensinou no confinamento voluntário que operaste: Não és perfeita. Os teus gostos não são mais importantes do que os dos outros. As tuas opiniões não valem assim tanto. Há muito que não sabes sobre a vida. Assume-o! Deixa-te de tretas. Esquece as ideologias tontas. Não és, como não eras, perfeita. Talvez nunca sejas. Então, esquece os argumentos.
Neste momento, tens o mundo nas mãos. Tens quem te abrace e aconselhe. Ouve-os. Ouve-o. Sabes que ele tem razão. Para quê tanta teimosia?
És feliz porque o deixaste entrar na muralha. Serás mais feliz se deixares a muralha cair. O mundo de fantasia da criança que foste só poderá ser real se aprenderes a ser uma pessoa melhor, uma pessoa completa, uma pessoa feliz e uma mulher adulta. Já passou o tempo de te esconderes. Está na hora!


Deixo esta carta à pessoa que serei.
Não sei o que te aconteceu. Posso apenas desejar. Desejar que me tenhas ouvido. Desejar que tenhas feito as pazes com o passado e com o mundo que te magoou.
Guardo muitos desejos para ti! Primeiro, espero que sejas feliz. Feliz-feliz. Que sorrias todos os dias, pelo menos uma vez, mesmo quando o dia for mau. Que saibas parar para apreciar a vida. Que vivas!
Espero que ele ainda esteja aí. Espero que tenhas mudado o que devias e deixado intacto o que não valia a mudança. Havia muito em ti para mudar, no meu tempo. Mas também havia algo de subtil e belo nas entranhas do que escondias lá dentro. Espero que tenhas sabido a diferença. Espero que ele te tenha ensinado, aos poucos, o que, hoje em dia, eu ainda não vejo.
Espero que tenhas aprendido a ouvir os outros. A ser melhor com os outros. A dar o melhor de ti. Quanto a ele. Espero que, além de seres feliz, o faças feliz. Ele merece. Sempre mereceu. E é tão bonito vê-lo sorrir, com aquele sorriso completo que ilumina os olhos azuis. Espero não tenhas cometido os meus erros. Espero que tenhas aprendido. E, Deuses, espero que ele esteja aí. Quero que ele esteja, quando eu for tu! Não acho que possa ser feliz sem ele.
Não sei se alcançaste os sonhos pelos quais me digladio. Não faz mal, se não conseguiste. Eu tentei. Aposto que também tentaste. Isso é o que importa mais. Não tentes ser perfeita, está bem? Já tentámos isso... não deu bom resultado. Em vez disso, tenta ser correta contigo e com os outros. É só isso que importa. Mas, se estás aí, se ele está contigo, aposto que sabes isto melhor do que eu.
Não sei o que fazes. Não sei o que passaste entre hoje e esse futuro aí em frente. Mas sei que, se fores feliz, valeu a pena.
Lembra-te só disto: deixamos no mundo o que plantamos na nossa alma. Dá o melhor de ti. Sempre. Seja a quem for. Deixa o melhor de ti ganhar raízes neste mundo.
Deixa que isso aconteça como hoje eu deixo esta carta.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet


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