terça-feira, 4 de junho de 2013

Porquê


Não é como se alguém me quisesse. Porque é que ninguém me quer? Não tenho olhos azuis nem cabelos louros. Mas sou um menino. Tenho boas notas. Uma vez uma senhora disse-me que tinha um sorriso de super-herói. Não é como se alguém me quisesse. Mas expliquem-me... porque é que ninguém me quer?

A vida não me quis. Começou por aí, por um abandono do mundo. No dia em que nasci, sob o sol inebriante de uma Primavera tardia, a vida não me quis. Nasci, é claro. Nasci chorando a morte da minha mãe. Um choro que duraria anos, até me explicarem que a mãe está no céu. Mas que céu? O céu não me quis. Quando falo com ele não me responde, embora as estrelas me pisquem o olho e a lua se parta como o meu coração.

Talvez a minha mãe me quisesse. Nunca vou saber. A vida não me quis. O mundo não me quis. E, indignados com o meu nascimento, vingaram-se nela. Ela também não tinha cabelos louros. Também não tinha olhos azuis. Mas era bonita. Vejo-a a sorrir na fotografia. Era bonita.

Não é como se alguém me quisesse. O meu pai, esse pai que as histórias dizem que amou a minha mãe, nunca me amou. Lembro-lhe, qual miragem, o rosto embaciado. Memória fugaz, de um desaparecimento eterno. Lembro-o com a dureza do rosto e das mãos, com um copo na mão, a gritar ao telefone. Ou com as paredes, quando já ninguém ligava. Um dia, o rosto foi-se. A casa ficou vazia. Eu fiquei só.

Achou-me ali, sentado no degrau da casa, uma senhora sem nome. O rosto dela, enrugado. As mãos queimadas do sol. Estendeu-mas, agarrou-me junto ao peito com ternura. Julguei que me quisesse porque me disse que sorrisse porque tinha o sorriso de um super-herói. Mas ela também não me quis. Levou-me para uma casa com outros meninos. Disse-me que eles eram como eu. Que também não tinham mãe nem pai. Mas eu tenho mãe e pai. A mãe está no céu e o pai está algures com um copo na mão a gritar com as paredes.

Não é como se alguém me quisesse. As outras crianças disseram que eu era esquisito. As famílias de acolhimento levaram-nas, uma a uma, entravam e iam, iam indo. Eu fiquei. Ninguém me quis.
Eu sei. Não tenho olhos azuis nem cabelos louros. Mas som bom aluno. Entrei para a escola e a professora dá-me boas notas. Já sei ler mais ou menos e sou bom com as contas. Porque é que ninguém me quer?

Ontem fizemos uma prenda para o pai. Pintámos uma imagem. E eu pintei. Pintei como me lembro. Lembro-me mal. O meu pai é gritos e um copo meio vazio. Não sei bem os traços do seu rosto nem as cores da sua face. Sei-lhe as palavras chutadas, como se tudo fosse vermelho.

Assustaram-se com o vermelho. O rosto vermelho. Os olhos vermelhos. Porque é que se assustaram com a imagem vermelha do meu pai? Foi por isso que me disseram para vir aqui, ao seu gabinete, não foi? Pelo vermelho.

Entenda, não é como se alguém me quisesse. Mas o senhor diz que pode ajudar-me. Diz que posso falar consigo. É assim, não é? Então, diga-me...eu só quero saber... porque é que ninguém me quer?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 28 de maio de 2013

Contrato


A cláusula número um do meu contrato para contigo é que não te vou fazer-te nenhuma promessa. A segunda é que a primeira poderá ser quebrada quando os meus sentidos ficarem dormentes pela tua presença ou os meus sentimentos por ti forem demasiado fortes para me travar as palavras. Eu odeio fazer promessas porque as levo demasiado a peito e as carrego a vida toda. Não sou de falar sem sentir mas falo muito sem pensar. E odeio fazer promessas porque, depois de ditas, elas não são só minhas. E, não sendo já minhas para as cuidar da forma que acho melhor, trato-as por nossas. Tens de entender que não quero carregar sozinha o peso de uma promessa atirada ao ar. Então, entre a primeira e a segunda cláusula, ponho uma alínea pequenina, em letrinhas minúsculas, apenas para te dizer o seguinte: se algum dia te fizer uma promessa, terás de saber respeitá-la para que eu a saiba cumprir.
No nosso contrato constará o seguinte: não te prendo e não te limito mas não quero que vás. Esta é uma verdade que começou ontem e vai até "para sempre". Nunca vou querer que vás. Independentemente do número de sorrisos, de acenos, de lágrimas ou de gritos. Mesmo nas piores discussões e nas maiores alegrias. Nem se, num momento impensado, apontar para as portas do mundo e te ordenar que saias. Eu nunca vou querer que vás. Mas não te prendo e não te limito. Se fores, hei-de entender.
Uma quarta cláusula dirá: não esperes que mude porque há algo que não gostas em mim. Nunca te mostrei mais nem menos do que sou. Sempre fui eu, nua de alma e coração, para que pudesses vislumbrar até as mais pequenas cicatrizes de defeito. Sabes-me tola e sentimental. Sabes-me emotiva e chata. Sabes-me explosiva e sonhadora. Não esperes que mude porque decides, num momento, que eu podia ser mais calma ou mais terra-a-terra. Não esperes que mude por julgares que há todo um potencial de feminilidade a ser cultivado no meu peito. Eu não nasci para ser a pessoa ideal para ti. Nasci para ser quem sou.
Haverá várias alíneas a determinar o que é meu e o que é teu, tornando-o nosso. Porque não quero ver-nos cair no ridículo de não partilharmos os sonhos, os medos, os desejos, os problemas, os pensamentos. Porque não quero ser a pessoa que vive contigo e não te vive. Que te ama e não te ouve. Porque não quero que sejas a pessoa que não sabe o que eu quero ou que não sabe que eu quero algo além de uma vida linear e vazia. Não vou fazer alíneas sobre os senãos desta partilha porque, se não a houver, não selarei contrato algum. Entende: meias vivências e meios amores não foram feitos para pessoas inteiras. E eu recuso-me a ser metade de mim apenas para estar contigo.
O meu contrato para contigo seria selado, por fim, num olhar. Um olhar onde lerias até as entrelinhas. Um olhar onde decorarias sem problemas todos os traços e vínculos deste contrato imaginário que se fez caminhando de mãos dadas pelas ruas. E seria selado, lacrado, autenticado num beijo, para que nunca te esqueças que, em pequenos gestos, por entre a simplicidade, se encontram as coisas mais importantes do mundo.
Quando assinarmos esse contrato, tu e eu, saberemos de cor as suas regras sem nunca termos falado disto. E vamos sabê-las apenas por um motivo, um só... porque não precisaremos de contrato algum para sabermos o quanto nos amamos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 21 de maio de 2013

Em Paris



Vamos ser infelizes em Paris. Dizem que é melhor lá. Que o Sena acalma as mágoas e elas saem pintadas em sorrisos de Monalisa. Vamos ser tristes junto ao triunfo alheio dos arcos de pedra e caminhar por entre as iluminações amareladas que se fundem com o negro da noite e da nossa alma. Paris. Vamos ser infelizes em Paris?
O sol brilha de forma diferente pelas ruas azuis e brancas de Paris. Como se a cidade se prendesse em nós e reflectisse apenas o que de melhor existe dentro dos corações quebrados. A alegria é um reflexo na nossa pele, ecoa e escorre. Permanece. Assusta. E a mágoa, tão presente, faz-se de esquecida nos recantos da nossa mente e revive em espasmos sem sentido, de volta em vez, em frente aos campos e jardins floridos que se estendem junto ao rio.
A arte vive em Paris. E tem telas e cores. Tem um sem-fim de formas e de desejos. Mora nas roupas, nas pinturas, nos teatros e nas óperas. Vamos ser tristes lá, por entre a arte triste que mói e entra nas veias, correndo, parando, correndo de novo. Vamos ser miseráveis na pulsação de uma cidade que acorda de noite e que festeja o desespero da escrita, do teatro, da música...
Vamos ser infelizes em Paris. Paris esbate a tristeza com um toque de superioridade imortal. E o amor faz-se em luxúria junto aos moinhos de mundos escarlates e lembra-se novamente que é amor no topo das torres férreas de onde se vê até ao infinito.
Se somos infelizes aqui, por entre o negro e o sujo, por entre a podridão e as trevas, porque não ser infeliz lá, onde o céu é azul e o rio corre livremente, espelho de milhares de luzinhas encantadas?
Vamos ser infelizes antes lá. Lá, em Paris. Se não podemos decidir quando se dará o fadado encontro fortuito com a felicidade, se não podemos apressar o momento em que a dor atenua e esbate e desaparece. Se não podemos arrancar um sorriso dos confins da nossa alma. Se somos tão impotentes, possamos ao menos ser tristes noutro lugar.
Escolho Paris. Lá a tristeza soa a contentamento e artistas cheios de mágoas dizem-se taciturnos com um sorriso. Anda. Vamos. Sigamos passo a passo, tristemente, rumo a essa cidade de luz.  Se é para ser triste, que seja em Paris...

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 14 de maio de 2013

A tua beleza



Tu és bonita. Aliás, tu és lindíssima. A tua beleza, de pés descalços e rosto puro, embate contra os olhares de uma forma tão brusca que é preciso olhar duas vezes. As pessoas são encadeadas pelo teu brilho. E quando sorris. Quando sorris, dessa forma inocente e meiga, fazes brilhar os olhos do sol e o dia estende-se por mais horas, sem permitir o avanço da escuridão.
Caminhas levemente. Como se deslizasses. E fazes com que estranhos olhem para ti e se agarrem à memória vã da tua passagem, como se isso lhes melhorasse o dia. Mas tu andas, pé ante pé, com uma simplicidade tão pura que nem o notas.
Tu és bonita. Mesmo sem saltos altos. Mesmo sem maquilhagem. Mesmo sem te esforçares por combinares roupas e malas e sapatos. És bonita justamente porque, quando passas, lembram-te a essência e não o pormenor.
Ao chegarem a casa, as pessoas dirão que se cruzaram contigo. Daqui a cinquenta anos perguntarão onde andarás. Ninguém saberá dizer com precisão o que vestias ou se te tinhas maquilhado naquela manhã. Dirão "cruzei-me com a mais bonita de todas as meninas e o seu rosto ficou gravado, da mesma forma que se gravou um sorriso na face da lua". E dirão isto com a imagem incerta de ti. Daqui a mil anos ainda contarão lendas sobre a tua beleza intemporal.
A tua beleza não mora no artifício mas antes na leveza do sonho. Mora na simplicidade. Não está no que vestes porque tornarias moda o que quer que vestisses. Não mora no estilo porque ninguém se incomoda se saíres de casa com a primeira roupa que apanhaste à mão. A tua beleza derrete no olhar, escorre na pele, sorri nos lábios de cereja. E envolve o teu corpo, sublinha-te os traços e imortaliza-te nesta era de efemeridades.
Tu és bonita. Aliás, tu és linda. Dirão por aí o que quiserem. Poderão atirar-te pedras e palavras de ódio e inveja. Poderão macular a perfeição pura do teu rosto com lágrimas. Mas, olha para mim, ouve o que te digo. Tu és linda, meu amor. Não ligues ao mundo. Haverá sempre sombras a tentar quebrar as estrelas. Porque elas têm luz própria e essa luz, a mesma luz que se espelha e arranca sorrisos pelo universo, cega quem não sabe ver além da sua própria escuridão.

Marina Ferraz
Imagem retirada da Internet

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sorriso



O meu sorriso é a melhor das minhas mentiras. Visto-o de manhã, com as roupas quentes e maquilhagem leve. Interiorizo-o num olhar ao espelho. E saio à rua com ele, dizendo "olá" aos ventos e às marés porque apenas eles sabem que o sorriso é mentira.
Caminho pelas ruas na desilusão de mim. Só e torturada pela vida. Dorida e magoada pelo tempo que passa, dia a dia, sem curar as feridas do que ficou rasgado em mim. Mas sorrindo. Sempre sorrindo. Com sorrisos ora alegres, ora marotos, ora tímidos. Com sorrisos de olhar, sorrisos de boca, sorrisos... E é sorrindo que palmilho as ruas da mágoa porque é sorrindo que escondo as lágrimas, que as engulo, que encontro a força para caminhar.
Se alguém me encontra, perdida nos recantos dos meus pensamentos tristes, faz um cumprimento simples, natural. E segue. Segue sorrindo também e sem saber que a dor alastra nessa solidão cortante de pessoas que passam e não se amarram à realidade das lágrimas por verter. Se alguém me encontra, sairá por aí dizendo que eu sorrio. Sorrisos tão abertos como a vida. Sorrisos tão eternos como o vento.
Eu visto o meu sorriso de manhã, juntamente com a roupa e pelo mesmo motivo. Não quero expor-me lá fora. Não quero que saibam o que está por detrás da muralha. Não quero que me olhem firmemente. Quero passar despercebida e a alegria engana. Emagrece as dores e as desilusões. Esconde o sofrimento.
O meu sorriso é a melhor das minhas mentiras. Uma mentira tão grande que me esqueço dela. Sorrio, sem o notar, sem o saber. Sorrio, até, ao espelho, para eu mesma pensar que sou feliz. E, tristemente, o espelho devolve-me o sorriso, juntamente com as marcas da tristeza que me enegrecem os olhos e me empalidecem a tez.
 O meu sorriso é a melhor das minhas mentiras. E, mesmo quando me deixo levar, eu sei-o. Sei que é mentira. Uma mentira doce e leve que me transporta pelo mundo. Mas nem sempre é assim. De volta em vez, vezes demais, por entre a mágoa e a dor e a solidão, cruzas o meu pensamento e, subitamente, de alguma maneira, o meu sorriso é a melhor das minhas verdades.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 30 de abril de 2013

A sete chaves




Guarda o meu coração a sete chaves. Ele está quebrado e já não serve para nada mas ainda é um coração. Guarda-o bem, onde não possam usá-lo e torturá-lo mais. Nunca te pedi nada em troca do meu amor. Mas peço-te hoje isto: fecha o meu coração a sete chaves no canto mais poeirento do lugar mais inóspito de ti.
O meu coração já não vale os batimentos. Já não vale as tentativas de reparo. O meu coração está irremediavelmente estragado. Mas, mesmo quebrado e sem valor, o meu coração ainda é um coração e, independentemente do número de cacos em que se divida, o meu coração ainda é teu.
Guarda-o a sete chaves. Não o carregues por aí, nas mãos, à vista de todos. Mesmo sem verem, eles sabem. Eles sabem que eu desisti e sabem que cada sorriso que me aflora o rosto é uma lágrima caída nas profundezas da minha alma. Já não há nada que eu possa fazer para provar a mentira de que estou bem. Mas tu podes guardar os pedaços do meu coração a sete chaves e vender, por aí, a notícia de que já não os tens.
Fechado nos confins do segredo, o meu coração estará quebrado mas seguro. E dirão por aí, já não que estou a sofrer mas que não tenho coração. E está tudo bem. Talvez não tenha. Talvez seja melhor fingir que os cacos do coração que eu tive viraram poeira e se arrastaram pelos ventos até outro lugar que não o teu.
Guarda o meu coração a sete chaves. Mesmo que, olhando para ele, não vejas o reflexo do que um dia ele foi. Mesmo que, segurando-o, não lhe notes a alegria de viver em ti. Guarda-o a sete chaves e não tentes curá-lo com regressos temporários e palavras doces. Guarda-o simplesmente. Fechado onde ninguém veja as suas feridas. Enterrado onde não te pese nem te fira. Onde te esqueças dele e não sintas dó de mim.
Depois de tudo ficam só estes pedidos, gritados na mudez de um pensamento: Guarda o meu coração a sete chaves e sê feliz como ele não pode ser.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de abril de 2013

Tu, eu e o mar




Senta-te comigo. É fabuloso, não é? O mar. Parece que esteve sempre ali. Vivo. Movimentado. Indo e voltando em ondas e marés. É fabuloso, não é? Ele não se cansa. Eterno e descompassado, embate contra as mesmas rochas há milhares de anos. Luta contra elas, perdendo guerras e vencendo batalhas. Talvez por isso seja salgado. O sal de tantas e tantas lágrimas vertidas nesse confronto eterno com a terra.
Talvez, olhando, não vejas o que eu vejo. Talvez não vejas as cicatrizes do mar, feitas em espuma ou o seu grito no rebentar das ondas. Talvez não entendas a voz rouca com a qual ele brinda o mundo. Mas senta-te comigo e olha-o. Mesmo que não compreendas as formas sombrias com as quais ele conta as histórias do que foi e do que há-de ser.
O mar não se cansa. Não sei como nem porquê. Mas ele não se cansa de ir e de voltar e de lutar por causas perdidas. Procuro e encontro nele lições de vida pois ele sabe ser imortal. E, nas marés do meu pensamento, aprendo que o cansaço é uma forma crua e fria de levar os dias, em ondas de desilusão.
A aprendizagem não é fácil mas está certa. Sei que, se olhares com atenção, vais ver mais do que um infinito de azul e verde. E é por isso que quero que te sentes comigo e olhes o mar. Que respires da calma que ele transmite enquanto guerreia contra as dunas e as paredes escarpadas da montanha. Que recebas no peito a emoção constante dos sons que se seguem e ecoam pela praia deserta das nossas almas.
Senta-te comigo. É fabuloso, não é? O mar. Parece que sabe que vais partir. Parece que sabe que eu vou continuar à espera. Triste. Sozinha. É fabuloso, não é? Ele não se cansou ainda de lutar e eu estou tão cansada! Ele é eterno e eu não quero a eternidade. Não queria sequer a sensação deste amor perpétuo. Cansada. Tão cansada. Mas o mar continua. Contra as rochas e a terra, onda após onda, eternamente. E vai beijando os destroços da guerra, feitos em areia, com uma simplicidade límpida e brilhante.
Aqui sentados... É fabuloso não é? O mar. Ele viu onde começámos. Assistiu ao nosso fim. E continua a lutar, enquanto as minhas lágrimas correm e se juntam a ele, numa luta desleal contra a vontade do destino. Eu sei. Tu levantas-te e vais. Mas eu fico... e o mar também.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet

terça-feira, 16 de abril de 2013

A porta das promessas quebradas




"O último a sair que feche a porta, por favor."
Agora é assim. Cansei-me. Cansei-me de pedir, com os olhos cheios de lágrimas: "não sejas como todos os outros, não vás!". Já perdi amigos. Já perdi amantes. Já perdi amores. Todos eles, voltando costas, como se não houvesse amizade, paixão ou amor. E cansei-me das lágrimas. Cansei-me dos pedidos. Cansei-me de deixar o orgulho cair e estilhaçar. Cansei-me de me ajoelhar para apanhar os cacos do meu coração. Se quiseres ir, vai...
Promessas irrealistas e surreais, ouvi-as. Ouvi tantas que começaram a amontoar-se, qual torre sem alicerces,  na inevitabilidade da queda. Já me prometeram o "para sempre". Já me disseram que a minha amizade valia mundos e que nada nem ninguém podia substituir-me. Já disseram que eu era única. A vida ensinou-me a não deixar o ego elevar-se nas palavras. Como todas as outras pessoas, para muitos fui mais uma no caminho, tão usável e substituível como outra qualquer. E, para muitos, se fui a melhor amiga, a melhor amante, o melhor amor, fui-o na sala de espera de algo melhor. De tantas, tantas pessoas fui a sala de espera que, na tua promessa, não julguei ser destino.
Não vou pedir-te para ficares. Não vou atirar-te ao rosto a forma como me iludiste com a ideia de que fosses diferente dos demais. Podes ir. O caminho impera e a meta aguarda. Vai. E não penses que fico para trás a chorar-te ou a lançar maldições ao ar. Vai e sê feliz. Tão feliz como me fizeste enquanto a promessa soou real.
Cansei-me. Cansei-me de ser sempre a passagem. Cansei-me de olhar para a estrada à espera que alguma das pessoas que me abandonaram volte atrás para me reencontrar. E deixei de dizer que perco as pessoas porque compreendi que nunca perdi ninguém. Todas as pessoas que foram, foram pelo próprio pé, num virar de costas derradeiro e frio, como se eu nunca tivesse importado. Eu não as perdi porque soube sempre onde elas estavam. Elas é que, por algum motivo, me perderam dentro dos recantos tristes do coração.
"O último a sair que feche a porta, por favor." -  É apenas isso que peço, por entre as desilusões gélidas e a saudade cortante dos meus dias. Eu sei que as pessoas vêm e vão. Que chegam e me abandonam. E está tudo bem. Não vou argumentar contra as vontades do destino. Mas, por favor, o último a sair da minha vida que feche a porta, para eu não morrer nas correntes de ar da solidão...

Marina Ferraz
Imagem retirada da Internet (Evanescence)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Hoje não



Existe felicidade no mundo. Sorrisos, gritos de histeria, corridas de desejo em estradas de amor. Existem contos de fadas. Princesas de alma, sapatinhos de cristal perdidos e encontrados em bailes sem máscaras nem intrigas. Existem sonhos. Suspiros contentes, risos abafados por uma mensagem ou um olhar trocado por duas almas que se completam. Sim. Eu acredito no amor e na felicidade. Sei que eles existem. Mas hoje não.
Hoje não há felicidade. Hoje não há sorrisos. Hoje não há sonhos. Eles existem... mas hoje não! Hoje o coração chora. Não preciso de explicar porquê. Toda a gente tem dias maus e pesadelos acordados. E hoje, para mim, ainda que mil contos de fadas esvoacem em meu redor, não os verei. A felicidade é algo que só se vê quando se sente.
Hoje não há manhã. Não há céus azuis nem lua cheia. Hoje não há marés que tragam sereias até à margem deserta do meu pensamento. Hoje não há esperança. Não há fadas nem princesas ruivas a rodopiar por florestas de sonho. Hoje o amor não existe e, sem ele, os rios não correm, as nuvens não desaparecem, o sol não brilha. Sem ele, o tempo pára numa dimensão de irrealidades onde tudo o que pode ser visto é feito de trevas e tudo o que pode ser tocado gela.
Existe felicidade no mundo. Risos contentes e chamas acesas. Velas a arder numa súplica eterna pela eternidade de um segundo. Existem reinos de magia e gargalhadas sem fim, ao redor das fogueiras do contentamento. E há danças, teatros, movimentos cruzados e palavras ditas. Gentes sem maldade. Crianças felizes. Adultos com esperança de que a alma não envelheça. Mas hoje não.
Hoje não há riso nem vela que arda. Não há adulto ou criança que guarde em si a mais remota poeira de esperança. E o cansaço adensa, na saudade eterna do que nunca foi, pelo medo de que nunca seja.
Hoje há trevas e saudade. Hoje há dor e desassossego. Hoje há frio e maldições. E vou dormir com a incerteza de um amanhã melhor. Porque há felicidade no mundo mas hoje, sei lá eu porquê, ela não existe dentro de mim. 

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 2 de abril de 2013

Obrigada



Os relógios batem as badaladas nas conversas de coração. Aquelas em que se fala de amor. Aquelas em que se fala de amizade. Aquelas em que se fala de companheirismo. As horas passam em ternurentas palavras de paixão e felicidade ou na nostálgica memória de dor de quem passou e partiu mas deixou em nós a saudade profunda de um coração partido.
As palavras dedicam-se aos que nos marcaram. Aos que nos tocaram a alma. Aos que nos melhoraram os dias. Mas fica por dizer o que devia ser dito aos outros. Fica por dizer o que nem sempre se pensa.
Hoje, eu quero dedicar as badaladas da minha voz às pessoas que me feriram. Às pessoas que se impuseram, qual barreira, no caminho. Às pessoas que falaram de mim nas minhas costas para falar apenas do pior, real ou irreal.
Quero dedicar estas palavras às pessoas que passaram deixando no caminho, não a saudade, mas o alívio. Às pessoas de quem me despedi com o pensamento calado do "espero não te ver mais". E quero dedicar este pensamento às pessoas más, às pessoas mesquinhas, àquelas que procuraram trazer-me a dor como se isso as tornasse melhores ou mais felizes. A essas pessoas quero agradecer. Agradecer por me terem provado que o mundo não é justo nem bom. Agradecer por me terem feito lutar mais, por me terem ajudado a aprender como trabalhar para conquistar tudo o que não me foi dado. Agradecer por me provarem que algumas pessoas não valem a pena. Que algumas pessoas se cruzam connosco apenas para sabermos exactamente tudo o que não queremos ser.
Hoje, dedico as batidas do meu coração às pessoas que tentaram ferir-mo, de forma cruel e propositada. E agradeço-lhes por me terem ensinado o valor que têm aqueles que estão presentes e me amam. Aqueles que foram embora e me deixaram saudade. Agradeço-lhes por serem o exemplo base de tudo o que eu procurarei não ser ao longo da vida.
Ninguém está certo a tempo inteiro. Toda a gente erra. Mas agradeço a essas pessoas por me ensinarem a ver o erro. Por me ensinarem que, para algumas pessoas, o erro e maldade são rotina.
Há pessoas que não valem o tempo. Há pessoas que não valem o esforço. Há pessoas que não merecem sequer as palavras. Mas, como eu aprendi com elas, a dor do desprezo, hoje eu perco com elas o meu tempo e oferto-lhes estas palavras de agradecimento. Obrigada por serem o exemplo base de tudo aquilo que eu não quero ser e por me terem ensinado que, no mundo, devemos dar valor a quem tem valor e seguir ao lado dos trilhos onde não há nada além de uma inveja calada que se disfarça de amizade e se transforma em mesquinhez na primeira oportunidade.

Marina Ferraz
* Imagem retirada da Internet