terça-feira, 8 de março de 2016

Noite ausente



A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. A solidão da cama vazia. A solidão do eu vazio. E o espaço deserto onde, de outra forma, noutro dia, talvez estivesse o teu corpo para preencher os nossos vazios.
Lágrimas nos olhos. Raiva, medo, dor. E os ouvidos atentos à cidade. O coração acelerado sempre que um carro pára ou hesita junto à nossa porta. Ainda é a nossa porta? Ou será agora só a minha? E se for, por entre o vazio, apenas uma porta, sem possessivo que a torne a entrada para um lar? Lágrimas nos olhos. Orações para que sejas tu. Orações para que não sejas. Não sei o que dizer. Não sei se quero ouvir-te. Sei que não quero este vazio de estrelas e lua nova.
A aflição. Vazia. Não saber onde estás. Não saber se estás bem. Não saber se ainda guardo o direito de querer saber. E a cama. Vazia. Eu. Vazia. O espaço deserto. A noite ausente que permeia todos os meus medos e os preenche nas razões descontroladas da falta de vontade. A memória que vai. Que vem. Assola. Atormenta. Não me deixa dormir. Não me deixa mexer. Perco-me de mim no vazio da cama . Os lençóis pesam como pedras. Amarram-me como cordas feitas de aço. Apertam-me o peito contra o colchão e sinto que a respiração me falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. E, por entre o choro compulsivo, sei que não são palavras ocas. A cama vazia. Eu, vazia. As palavra não. As palavras cheias de sentidos e vontades e significado. "Antes falhasse o coração.".
Percebo que o mundo me assusta. Mas a morte não. Percebo que as pessoas me assustam. Mas a morte não. E sinto que poderia despedir-me da vida e das pessoas, sem vislumbrar, sequer, o mais pequeno indício de medo. E lembro-me de ti. Como da morte. Talvez te tenha amado por isso mesmo. Porque não me assustava a ideia de te amar, embora me assustasse a ideia do amor.
Raiva. Medo. Superstição tonta e desajustada que me impede de fechar os olhos e dizer "até amanhã" à dor. E os carros que passam e param lá fora, sem que se abra a porta fechada, batida, iluminada pela luz das estrelas que não querem saber de nós. "Antes falhasse o coração", repito para mim, enquanto sinto, no peito, doer a respiração doentia. E imagino que ele falha e tu regressas. Penso na justiça do mundo que te faria sofrer mais do que eu. E percebo que, embora não tenha medo de morrer, tenho medo da morte. Dos efeitos da morte. Da justiça sempre injusta deste mundo que não faz mais do que intercalar a dor e o sofrimento de um peito para o outro, sem nunca a deixar desvanecer.
"Volta", penso para mim. Vazia. "Volta a entrar pela porta e diz que é a nossa porta. Volta a deitar-te na cama e diz que é a nossa cama. Volta a dizer que me amas e que é o nosso amor." A noite ausente vai passando. A cama vazia. Vazia de ti, que não estás. Vazia de mim, que nela me deito. Vazia de tudo. E desenrolam-se pensamentos pouco nítidos na prisão dos lençóis que não sabem que, independentemente do que façam, eu não me deixarei dormir enquanto não te ouvir chegar.
A aflição. Vazia. É por entre a aflição vazia que a porta se abre. É por entre o seu vazio que ela se fecha atrás de ti. Tens muitas coisas para dizer. E eu ouço. Mas não digo nada. Afasto os lençóis. Liberto-me da sua prisão. Encosto-me a ti. O teu cheiro. O teu calor. E ouço-te falar das falhas do eu. Das falhas do nós. Falhámos em cada passo. Prevês que vamos falhar de novo e de novo, até não haver outra coisa que não a falha. "Antes falhasse o coração", penso para mim. Mas não o digo. Perdoas-me. Perdoo-te. A esperança que escasseia é melhor do que o vazio.
A cama completa. Quente de ti, que chegaste. Feliz de mim, que me deito no teu aconchego. E o espaço perfeito onde o teu corpo permanece e preenche os nossos vazios. Outra vez. Até voltarmos a falhar. E a oração, breve e cheia de sentidos: "antes falhe o coração".

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 1 de março de 2016

Requerimento



Venho, por este meio, pedir autorização para ser eu própria.

Declaro que li os termos regulamentados pela sociedade e que conheço, de cor, as alíneas formatadas que definem os padrões desejáveis para uma correcta inserção e integração na amálgama semi-homogénea das gentes que permeiam as ruas. Não assino nem subscrevo. Mas declaro que li e compreendo a normativa, juntamente com todas as suas variantes, interpretações e lacunas. A lacuna é, claro, a palavra vaga (e, acredito eu, vazia) liberdade. É uma liberdade relativa e integrada nos termos. Tão integrada nos termos que exclui facilmente raças, ideologias, religiões, tons de pele, estilos de corpo, estilos de roupa, tipos de beleza, opções sexuais e outros. Apodero-me, aqui, da lacuna e reclamo o meu direito à liberdade de pedir, ainda que sabendo as consequências inerentes ao requerido, para que me permitam viver a vida sendo simplesmente quem sou.

Na ausência de argumentos que se enquadrem nas regras estipuladas, tentarei simplesmente explanar as razões que me fazem desejar, numa primeira instância, e solicitar, numa segunda, a emancipação social.
Primeiramente, acontece que, tendo passado grande parte da minha vida tentando responder de forma equilibrada e respeitadora às regras, compreendi que, independentemente do esforço empenhado na tarefa, esta não parece surtir resultados. Apesar das muitas estratégias desenvolvidas e postas em prática, nunca, em nenhum dos meios que frequentei, obtive das pessoas um olhar que não remetesse para a diferença óbvia entre o que elas eram e o que eu parecia ser. Partindo do estimulo inevitável - eu a ser eu - chegava a resposta, naqueles olhares, com variantes estabelecidas entre o nojo, o ódio, a incompreensão, a comiseração e a semi-aceitação. Os olhares resultavam em atitudes. As atitudes despoletavam a distância. O meu lugar foi construído, portanto, a muitas mãos, todas elas selando, pedra a pedra, a muralha que cercou o meu espaço seguro, no qual, pelas referidas razões, não existe vivalma além de mim.

Em segundo lugar, como percebi ao longo da minha permanência no isolamento voluntário exercido, as normas estipuladas e sob as quais quase todas as pessoas assinam tendem a criar, nos indivíduos, uma visão redutora e complacente, cheia de opiniões-cliché e vazia de espírito crítico. Por exemplo: toda a gente sabe que existe um universo sem fim mas todos vivem como se não houvesse mundo além deles próprios. A maioria das pessoas tem uma religião, a mesma maioria não sabe explicar a própria crença. As pessoas têm necessidades desnecessárias e desprezo por necessidades básicas. Como estas, outras. Na minha solitária prisão anti-social descobri que, na maioria dos temas, tenho mais perguntas do que respostas. As perguntas incomodam as outras pessoas. Roubam-lhes a paz. A liberdade, talvez. As perguntas fazem de mim criminosa nos termos regulamentados.

Por fim, a arte. A arte que me fez monstro. A arte que me fez bicho. A arte que confirmou, aos olhos etéreos da sociedade, que a loucura flamejante dos meus olhos tinha razão de ser. Reclamo o direito de qualquer artista viver a sua liberdade, longe das normas contratuais aplicáveis aos restantes indivíduos de uma sociedade. Reclamo-o porque, no estatuto inferior que ocupam; na camada decadente para a qual são varridos, são os artistas que se erguem para mostrar o que as pessoas não sabem, o que não vêem, o que não ouvem. São eles que carregam a história, navegando em mares de preconceito, levando de porto em porto a ilusão de um mundo melhor.

Não são argumentos que se enquadrem nas normas estipuladas pelo regulamento que molda a sociedade e a torna coesa, habitável, estável e, supostamente, perfeita. Mas são os únicos argumentos possíveis no centro da liberdade idealizada que, infelizmente, não saiu do papel.

Declaro que li e compreendo os termos e as condições inerentes à vida no centro deste mundinho no qual não sei se quero estar. Não assino. Não antes de me roubaram a vontade. E a sanidade. E a alma. E a vida. Em nome da liberdade.

Venho, por este meio, pedir autorização para ser eu própria. Mas declaro que o serei... com ou sem autorização.


Marina Ferraz

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Verbo


Fiz da minha vida um alinhavo de palavras. Do meu quotidiano, um nome comum, onde os colectivos se ocultaram, na sombra de cidades e de pessoas cujo nome próprio se esbateu ou se fincou, em mil memórias e mil esquecimentos. Fiz da minha vida um alinhavo de palavras que se estende em frases e em textos e em romances.
No mundo gramatical da minha vida, não és virgula nem ponto final. Não te coloco nas frases dos meus dias como se pudesses pontuá-las. Não faço de ti "ous", nem "ses", nem "porques". Não te deixo servir de conjunção, unindo pontos sem emenda. Não faço de ti adjectivo para avaliar os contratempos e a felicidade, para descrever isto ou aquilo. Não és determinante nem pronome. Não há nada de definido ou indefinido em ti. Quando se trata de ti, não há possessivos, nem demonstrativos, nem numerais. Então, na gramática de mim, não poderias ser nada disto. E, não podendo ser nada disto, no mundo gramatical da minha vida, tens conjugações e tempos. És o verbo das frases insensatas da minha vida.
Consigo conjugar-te com facilidade. Vens no presente do indicativo dos verbos "sentir", "adorar", "querer". Vens no futuro do verbo "fixar", "continuar", "seguir", "permanecer". E deixas no pretérito perfeito os verbos "sofrer", "chorar"; os verbos "desistir" e "perder", os verbos que me acompanhavam num presente de desilusões que não existem contigo. És o condicional do verbo "ser" porque sempre me perguntei como seria encontrar alguém que me conjugasse no pretérito imperfeito para me dizer "era por ti que esperava".
És o verbo do mundo gramatical sobre o qual construo a vida. Às vezes és o "ser", o "estar"... pareces, permaneces, continuas. Pedes-me os advérbios de modo, desconstróis-me a ideologia de que  seja necessário pensar em complementos circunstanciais. Mas, circunstancialmente, arrancas-me os sentidos, vais buscar tempos compostos ou conjugas-te nos modos do conjuntivo.
No mundo gramatical da minha vida, não és virgula nem ponto final. Não és conjunção, nem adjectivo. Não és determinante nem pronome. Não o és porque não és o que se soma aos sentidos na busca de um sentido maior, melhor. Não és o que completa a frase. Não és o que a aumenta. És tão somente a base sobre a qual ela se constrói. A acção, o intento, a eternidade.
No mundo gramatical da minha vida és o que pode ser conjugado e vivido. Não poderias ser outra coisa. Porque estás em cada parte de mim. Porque me dás sentido. E, da mesma forma que não haveria vida sem ti, também não há frases sem verbo.

Marina Ferraz

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Feio (como o Mundo)



Da rapariga que usa os brincos de pérola feitos de plástico e da que usa a pulseira de prata feita de latão, dizem as raparigas que usam peitos feitos de silicone em vez de carne que são falsas. Talvez sejam! Que falsidade essa! Tão profunda e tão polida que se torna ricamente pobre. Disfarça-se de dificuldade luxuosa. Tão falsas essas raparigas que se tornam a elite dos cantos da rua. Que se disfarçam de mulheres e se fingem detentoras natas de direitos que não têm! Quem as fez acreditar que podiam falsear as jóias? Será que esqueceram o lugar que ocupam nos esgotos sociais? 
Do rapaz que se comove com a comédia romântica e do que não sai à noite para ajudar a mãe a arrumar a casa ou para cuidar da avó doente, dizem os rapazes que se juntam junto às esquinas com copos de cerveja e indecência na voz para falarem sobre as noites passadas com as miúdas a quem partiram o coração, que são maricas. Talvez sejam! Que mariquice essa! Tão profunda e tão intrínseca que faz deles avenida de impureza. Tão pouco máscula, tão pouco de homem. Parece que grita num tom rosado qualquer, de céu de fim de tarde, como purpurina no chão das boates de uma vida que ninguém quer. Será que esqueceram que pertencem aos armários do silêncio?
Das mulheres que se dividem entre dois empregos, o cuidado com os filhos, o casamento e as contas e as limpezas e o cuidado consigo próprias, dizem aquelas que se reúnem para discutir a vida alheia sobre cocktails, sob sombrinhas, nos clubes de elite, que são loucas. Talvez sejam! Que loucura essa! Tão profunda e tão desengraçada que as torna velhas mais cedo, acentuando as rugas do rosto e esmorecendo os sorrisos. E é porque querem. Na desculpa da falsa pobreza, querem a loucura. Essa de não ter tempo para o marido por causa dos filhos. De não ter tempo para os filhos por causa da casa. De não ter tempo para a casa por causa do trabalho. Parece que se esqueceram de viver sem a tecedura das desculpas. E não bebem cocktails. Pobrezinhas. Será que esqueceram o lugar da mulher, que deve aguardar pelo esposo no abraço das quatro paredes da casa? Será que esqueceram que devem tratar de si para que ele a ame e da vida alheia para que haja tema de conversa?
Do menino que usa roupa de adulto porque a outra não lhe serve e do que não consegue correr à volta do campo porque tem peso a mais, dizem os que jogam futebol nas equipas juvenis e se apaixonam diariamente pelo reflexo do espelho, que são balofos. Talvez sejam! Que gordura essa que se acumula e abana, feito gelatina, nas barrigas abastadas dos que não têm outro problema que não o do tacho e da meninice! Não é doença. É apenas mania. Apenas uma forma de ocuparem mais espaço no mundo. Terão esquecido que existe um espaço confinado para a sua presença? Quererão que se note que ali estão? Quererão ocupar a cadeira deles e a dos outros?
Francamente! Os pobres, os gordos, os cansados, os deprimidos, os homossexuais. Esses reprimidos. Francamente! O que fazem eles neste mundo? Não deveriam estar noutro lugar? Onde não incomodassem os outros, tão normais, tão dentro da norma, tão respeitadores da linearidade das coisas? Não deveriam estar num lugar onde fossem apenas... pessoas?
Dos que julgam, dos que comentam, dos que abalam, dos que maltratam. Dessas gentes normais. Dessas gentes que governam os países e o mundo. Dessas gentes que dominam as escolas e se popularizam na vida. Não sei se tenho o que dizer de todos eles. Vejo-os como são. Rosto de gente - tantas vezes bonito. Corpo de gente - tantas vezes bem tratado. Vida de gente - tantas vezes bem organizada. E acho-os feios. Acho-os feios nas palavras que dizem. Nas que pensam. E, a cada segundo, vejo-os vencer batalhas de injustiça, cujo prémio é pisar o outro sem motivo, sem resposta, sem retaliação.
Há uma feiura inerente no mundo. Nota-se menos no mundo das pessoas bonitas e magras e heterossexuais. Mas está em todo o lado. E algumas pessoas deviam maquilhar a alma... para esconderem como são feias por dentro.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A cada minuto



A cada minuto, acontece. É o jogo mais cruel do mundo. O jogo mais injusto. Mas acontece. A cada minuto. Algures. Sem outra razão que não a da ausência de razões. Alguém aposta tudo. Alguém perde tudo. Todos os dias. Milhares de pessoas. O mundo está cheio delas. E não importa o quanto se saiba. Não importam os riscos. As pessoas apostam. As pessoas perdem. As pessoas não aprendem.

É o jogo mais injusto de todos. Joga-se para se perder. Mas com a ilusão. Sempre com a ilusão. Porque um dia, em algum lugar, alguém ganhou. E essa pessoa. Essa pessoa singular que ganhou tudo, tinha apostado como ninguém e não perdeu. Em vez de perder, ganhou o que nunca ninguém ganha. E foi feliz até ao seu último suspiro. É esta a esperança. É esta a ilusão. É este o patamar inferior, a raiz, a fundação que sustenta o acto ponderado de se pôr tudo sobre a mesa, disposto a perder tudo.

A pessoa que ganhou não sabia que ia ganhar e não acreditava que ia perder. Era, por isso mesmo, igual a todas as outras pessoas. Mas o jogo, que não é justo, baseado nos alicerces bambos da sorte, foi-lhe favorável. O mundo não mudou. Nada mudou. Não houve sol que se pusesse mais cedo nem lua que andasse mais alta. Mas, de alguma forma, foi nesse dia que o jogo virou religião. As pessoas afirmam, por aí, no mundo inteiro: "eu acredito no jogo". Não o dizem assim, é claro, dizem de outra forma. Dizem que acreditam no amor.

A cada minuto, acontece. É o jogo mais cruel do mundo. O jogo mais injusto. Há quem perca tudo. Quem enlouqueça. Quem morra. Mas, independentemente do dano, as pessoas continuam a jogar, a apostar, a perder, a jogar de novo, a apostar de novo, a perder de novo. É um vício sem época e que nunca sai de moda. Faz pior do que o tabaco. Fere mais do que droga. Entranha-se mais do que as bebidas ébrias. Mas é socialmente aceite. Fica bem. E toda a gente se envolve nesse jogo do amor. Porque o prémio, constantemente acumulado, é o da felicidade perpétua que toda gente quer ter.

E, neste segundo, a cada segundo, em todos os locais do mundo, é certo: alguém ama alguém. Alguém aposta tudo. E alguém perde. E alguém chora. E alguém recomeça.

É o jogo mais injusto do mundo. Quase ninguém se sagra vencedor nessa saga incompleta de busca pelos improváveis. E, a cada minuto, acontece. Alguém morre do jogo. Alguém morre de amor.

Aposto tudo. No mesmo jogo. Pelas mesmas razões. Acredito nele. Acredito que posso ganhar. Mas não é só pelo prémio. É pela possibilidade. Essa que vivo todos os dias, independentemente do resultado final.

Apostei tudo. É verdade. E ganho todos os dias.

Se um dia perder... ao menos vivi.

Marina Ferraz

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Lianor


"Descalça vai pera a fonte/Lianor pela verdura;/Vai fermosa, e não segura." (Luís de Camões)

Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Da beleza, se a tem, vulgar e corriqueira, num mundo de posters gigantes com modelos de elite, dirão talvez um piropo, se não houver à escuta agentes de autoridade. Dos pés descalços, se assim os leva, terão somente juízos. Alguns dirão que é pobre. Outros dirão que é louca. E outros dirão que a pobreza não é desculpa e que a loucura não é doença. Da segurança, essa que não tem, ninguém falará. Ninguém fala do que é importante, com medo que as palavras tornem real a realidade. É a mente tacanha das gentes: essa que teme mais falar do monstro do que ser por ele atacada.
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Ninguém quer saber dela. Poderia ir calçada e ser feia. Poderia ir pelo asfalto em vez de seguir pela cama verde dos prados. Não importa. Não importa como vai para a fonte. Não importa onde vai. Não importa quem é. Num mundo onde se acumulam pessoas nesses nichos centrais chamados cidade, há muito pouco que importe a quem quer que seja. Então Lianor não terá um poema moderno, sem rima nem métrica. Não será atirada para prosa fraccionada, amontoada e díspar. Continuará lá: eternamente indo para a fonte onde ia nos dias em que a sua beleza era rara e a sua segurança importava a alguém.
Hoje não! Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Provavelmente Lianor nem vai à fonte. Só disse que ia. Talvez se vá encontrar com o namorado no café. Talvez vá fumar um cigarro à revelia dos pais. Os pais que serão, talvez, os únicos que se importam em saber onde ela vai... embora também eles já não queiram saber como.
Sob os pés, a erva verde que pisa de pés descalços canta poemas de outros tempos. E Lianor, moça jovem de espírito, criança de pensamento, mulher de corpo e intuito, pisa-a inconsciente de que a terra cante. E, como não se acha bonita de pés descalços, ignora a mensagem constante dos tempos idos e bebe da desatenção dos tempos modernos. Nem ela quer saber como vai para a fonte. Só quer ir. Possivelmente porque os outros foram. Possivelmente porque os outros não foram e ela quer provar-se diferente da maioria. Seja porque for...
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Não vai segura. Ninguém a sabe formosa. Dela ficam os passos sobre o verde do caminho. Não vai segura. Se acaso morrer perguntarão, talvez pela vez primeira: como é que Lianor foi para a fonte? Mas não haverá resposta. Apenas silêncio. Houve o tempo das palavras. E ele passou...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Lágrimas de tinta



Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Onde? No papel. Neste papel. Chovem. Cada gota é uma tempestade. Cada tempestade é um olhar seco pelas avalanches do mundo. Deste mundo. Cínico. Arrogante. Perdoa-me. Apetece-me pedir perdão ao mundo. Mas o mundo não perdoa ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Que escorrem. Delineando palavras. Concretos de coisa nenhuma, saídos do pensamento tosco de mim. Não consigo. Hoje não consigo. É um universo de sentidos presos, à procura das frestas entre a minha sanidade. Infiltrando-se nas rachas da racionalidade moribunda do meu eu. Perdoa-me. Apetece-me pedir perdão à lógica itinerante dos tempos. Mas é a triste verdade. Ela não perdoa ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Delas, cria-se o rio das ideias maceradas no silêncio de mim, na solidão do eu, na cegueira dos eternamentes. Criei as ideias sozinha. Mãe solteira dos pensamentos. Chamaram-me meretriz. E fui. Rameira das gentes que não me pagaram o bastante para compensar todas as formas como me corromperam. Não pagaram. Mas deram-me as ideias. Delas foram progenitoras ausentes. Renegaram-nas. E fizeram de mim filha única dos tempos e mãe sozinha de pensamentos presos às raízes do que me torna, também a mim, gente. Apetece-me pedir perdão às pessoas. Mas as pessoas não perdoam ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Se queriam calar-me a voz, deviam ter-me cortado as mãos. Como fazem aos que roubam pão e fruta. E pedaços de dignidade. E tectos sob os quais dormir. Como cortam a esses. Porque, os que roubam ouro e diamante, esses permanecem de mãos cheias, atadas ao corpo roliço que não serve para nada, alimentando-se da pobreza alheia, anafando-se nela e dela tirando o provento dos dias por devir.

Deviam ter-me cortado as mãos. Deviam! Se queriam calar em mim as palavras, deviam tê-las cortado. Porque os meus dedos chovem. Lágrimas de tinta. E elas gritam. Como um recém nascido, faminto e que não sabe ainda de onde sugar o néctar da vida. Gritam e continuarão a gritar. Até que me cortem as mãos.

Chovem-me os dedos. A dor. Lágrimas de tinta. E revolta-me a indignação que os faz chover, como se dentro de mim fosse sempre Inverno. Não consigo parar. Não quero parar. E, porque magoa, apetece-me pedir perdão a mim mesma. Mas eu já não perdoo ninguém desde que os dedos me chovem.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Nove minutos de sol



Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.

6:43
Estendo a mão à senhora do manto negro. Sentada no chão, encostada à parede suja de uma casa qualquer. Ela ignora-a. Deixo-a cair junto ao corpo. O céu negro. A tomar tons baunilha. A tomar tons rosados. Aos poucos. Ajudem-me. Ninguém. Só a senhora do manto negro. E dor. É noite que deixa de o ser e dia que ainda o não é. Sinto o coração bater no peito. Querer sair do peito. A dor. Encosto-me à parede. A senhora do manto negro permanece. Ao meu lado. Dentro de mim? Não vejo bem, parece tudo desfocado. Já não sei a diferença.

Começou como começa sempre, suponho. Tinha quinze anos. E começou da forma mais simples. Uma passa na ganza do Rui, o amigo fixe. Os meus pais eram uma merda com os seus horários e as suas regras. Um monte de merda ambulante, nos seus fatinhos engomados e com os telefones agrafados à orelha. Uns filhos da puta. Não se importavam em aparecer quando era importante mas davam-me piços de duas horas se não tinha 18 a matemática. Desses filhos da puta, estão a ver? Aqueles que acham que o mundo gira ao redor do cu deles e que a merda que fazem cheira a rosas. A passa na ganza do Rui foi o melhor momento que tinha tido em anos. A passa na minha própria ganza soube melhor. Para dar uma pequena ideia: é como aquele momento antes de acordar, em que se sonha de forma quase consciente. Aquela sensação de conforto, felicidade, alegria pura. Apetece brincar e rir. Pode não ser uma sensação real. Mas parece. Faz estremecer os recantos inquietos da alma.

6:44
Ainda negro. Mas já não. Amarelo? Acha que é amarelo? A senhora não responde. Aguarda.

Não consigo lembrar-me do Rui. Mas a imagem vem à cabeça. É a imagem ossuda e fantasmagórica da morte a estender-me o cigarro acabado de enrolar. "Esta cena é fixe e não vicia.". Eu não sei se acreditei. Aos quinze anos fingimos que acreditamos no mundo como queremos que ele seja. O fantasma não queria ferir-me. Era mais um iludido de quinze anos. Mas, sem lhe lembrar outro rosto, firmo para mim que foi a morte que me ofereceu aquela primeira ganza, porta de entrada para tantas outras.
O lado porreiro de ter pais de merda era que não davam muito pelas minhas fugas. Aos dezasseis já era presença frequente nos bares da cidade. Ofereciam-me bebidas e shots. Quando não eram os empregados do bar, eram os rapazes ou as amigas. Não precisava de muito dinheiro para ter noites em grande. Só o suficiente para bancar a ocasional ganza que, ao fim de pouco tempo, deixou de ser ocasional. Não era que viciasse. Era só que os efeitos pareciam cada vez menos satisfatórios. A dada altura, não eram suficientes para me fazerem feliz. Comecei a fumar mais. E mais. Mas foi assim que, aos dezasseis anos, senti que não era suficiente.

6:45
Negro a tender para baunilha. Definitivamente, baunilha. É baunilha aquela linha no céu. Apetece trincá-lo. Fincar nele os dentes. Fito a figura negra que aguarda, imóvel, ao meu lado. Será que está lá? Rio. Mas o riso dura o tempo de meia respiração. O coração bate frenético no peito. Não consigo respirar. Não consigo. Não consigo respirar.

"Isto não vicia e vai ser uma trip, miúda". Era uma rave. Uma festa. O pessoal estava ao rubro e o rapaz - não propriamente namorado mas amigo com extras - era uma pessoa que tinha em conta. Hesitei dois segundos. Devia, talvez, ter hesitado quatro ou uma hora. Mas aceitei. Era só ecstasy. Não viciava...
Deu-me a noite da minha vida. Senti-me feliz, viva. Era quase eufórica a minha vontade de dançar, cantar, saltar. Cores e movimentos e sons. Tudo amplificado e distorcido e elevado ao máximo. No meio do entorpecimento da minha vida, a pastilha que ele me deu foi como se tivessem, subitamente, ligado a minha felicidade no volume máximo.
No meio da confusão, puxei-o para mim e beijei-o, enquanto dançava com ele. Não sabia como havia de retribuir as sensações que recebia. Não sabia como agradecer. Acabei por agradecer como todos os homens querem que se agradeça. Acordei na cama dele. O efeito da pastilha tinha passado. À luz do dia, as coisas pareciam diferentes. Não me lembro do rosto dele mas vêm-me à cabeça a imagem de uma caveira negra, petulante. Foi a morte que me apresentou ao ecstasy.
Comecei a dormir ocasionalmente com ele, à troca de mais comprimidos. Mas, eventualmente, ele cansou-se e tive de começar a pagar.
No início, custou-me as mesadas. Depois, o pouco que tinha guardado. Mas era um preço justo. O preço a pagar para me sentir viva. Para me sentir feliz.


6:46
Será rosa? A senhora de manto negro não parece interessada em responder-me. Respiro sofregamente em busca de um pouco de ar. Não há.

A cena mais surreal das pastilhas é que nunca deixam de animar. Mas o efeito passa e, quando passa, parece que o mundo vai ficando sucessivamente mais merdoso. Uma sensação de desalento, de medo, de angústia. A depressão de ser tudo um monte de esterco quando o corpo não tem acesso às pílulas da felicidade. Para mim, naqueles tempos, a felicidade era cara mas tomava-se com facilidade.
As minhas notas tinham ido pelo ralo. Os meus progenitores ameaçavam-me constantemente com cenas que não podiam importar-me menos. Gritavam e eu fingia que ouvia. A escola, para cá. O futuro, para lá. E eu ia pensando no futuro. Na futura festa. Na futura pastilha. Na futura sensação de libertação quando aqueles idiotas calassem a puta da boca.
Decidi dar uso à bela expressão "matar dois coelhos com uma cajadada só". Precisava de dinheiro e queria fazer aqueles dois sofrer. Ao fundo da rua da escola havia uma lojinha de compra e venda de artigos em segunda mão. Vendi o que encontrei e achei que valesse a pena vender. Comecei com coisas cuja falta sabia que ninguém ia sentir. Mas depois as escolhas escassearam. Comecei a levar coisas mais notórias, desejando que não me apanhassem tão depressa.
Consegui um bom dinheiro. Com esse dinheiro, pensei, iria comprar mais pastilhas. Mas não comprei. O vendedor desdenhou o próprio produto. "Isso é para meninos! Isto é que é merda da boa!". A merda da boa era cocaína. Ainda não tinha dezoito anos quando experimentei pela primeira vez. Hoje, não me lembro do rosto do vendedor. Na minha memória, entorpecida e desgastada, parece-se com Anubis. Lembro-me dele assim: com uma cabeça de chacal sobre os ombros. "Isto é que é merda da boa!". Seria ele mesmo assim? Não sei dizer. Era o Deus da Morte que me vendia cocaína.
A sensação de euforia preencheu-me completamente na primeira vez que cheirei. Era como se o mundo fosse meu, como se nada me pudesse parar. Queria tudo e sentia que podia ter tudo. E sim, eu sabia que aquilo podia viciar. Como não viciaria? Era a melhor sensação do mundo.


6:47      
O céu e os seus tons baunilha. A dor. Tanta. Tento debruçar-me para vomitar mas não tenho tempo. Vomito sobre mim própria. A senhora do manto aguarda.

A melhor sensação do mundo era cara. Vendi as minhas coisas para comprar cocaína. Depois comecei a vender cocaína para comprar mais com o lucro. As ruas escuras onde se fazia negócio tornaram-se casuais para mim.
Foi com dezoito que os meus pais se aperceberam que andava a surripiar objetos da casa. Suponho que a minha mãe gostasse de alguma das peças de ouro que nunca usava e tivesse partido daí a demanda pelos palitos que tinha vendido. Eles gritaram. Eu caguei para eles. E eles tentaram ensinar-me, indicando-me a porta de saída.
Saí. Saí mostrando o dedo do meio, com a roupa que tinha vestida e uma dose no bolso. Nunca mais voltei para casa.


6:48
A luminosidade aumenta. Doem-me os olhos. A senhora de negro olha para mim como se me achasse estranha. Levo a mão ao rosto. Quero escondê-lo. Dói-me o corpo. O peito. Ajudem-me. Ninguém.

Eu costumava ser uma miúda com pinta. Tinha os olhos azuis e o cabelo arruivado, bem tratado e comprido. Tinha 1,70 de altura que me aguçou a vontade de ir para os mundos da moda e o peso em torno dos 52 quilos, todos muito bem distribuídos, como se quer. Nunca fiz muito por ser magra. Simplesmente era. Foi na altura da cocaína que me despedi de mim assim. Como era. A pinta foi-se. Mas já não me importava. Não havia nada que gostasse em mim. O mundo parecia-me uma imensa caixa de merda, tipo a dos gatos, onde toda a gente se estava a cagar.
Naquele tempo, já andava a cheirar há quase um ano. Comecei a emagrecer mais e mais. A dada altura emagreci dez quilos em poucos meses. Na altura, o meu namorado, que pouco ou nada sabia de mim mas insistia em declarar amor eternos antes da queca, assustou-se com a perda de peso. "Podia haver mais de ti para amar", disse-me. E eu lembro-me de me rir e de o beijar, só mesmo para não lhe responder. Para não lhe dizer o quanto eu queria menos de mim para odiar.
Estava a viver com os meus namorados. Trocava de namorado e casa com facilidade. Trocava de droga como dava. Quem me conhecia dava-me algumas borlas ou fiava, ocasionalmente. Às vezes aceitavam-me o corpo como moeda de troca. Cheguei a pôr mãos a algumas carteiras e a vender serviços em algumas esquinas de hotel. O que tomava, dependia. Dependia do dinheiro que conseguia e do que havia na altura. Qualquer coisa que me fizesse sentir bem, servia. Fosse de engolir, snifar ou injectar. Já nem sentia as agulhas entrar nas veias. Sentia só o prazer antecipado da felicidade líquida.

6:49
A luz. Ameaça a sua presença com tons brancos entre os prédios da frente. Os prédios balançam. Dançam ao som do nascer do sol. Tudo desfocado. As imagens vêm e vão.

Nos meus 21, a cena da moda era o LSD. Quando tomava, era fixe. Como abarcar o mundo todo de uma vez só. Viver num mundo de fantasia. As cores eram mais fortes, os sons mais concretos, o tempo parecia estender, encurtar, moldar-se a mim. Quando acabava, queria morrer para não viver mais no centro da mediocridade do mundo real. Tentei matar-me algumas vezes, durante as ressacas. Tentei. Mas nunca com competência. Tudo o que consegui foram algumas cicatrizes no pulso e gritos enfurecidos de condutores prudentes. Sai da estrada, sua louca. Mas não consegui morrer. E estava farta. Tão cansada de ser feliz e infeliz e sei lá mais o quê.
Tinha deixado de ser a "alma da festa". Das centenas de amigos, passei a zero. Fiquei sozinha. Pessoas sozinhas aprendem a chamar "casa" à rua. Dormia onde calhava. Com quem calhava. Somos todos tão descartáveis como lixo quando já não há nada que possam tirar de nós. 


6:50
Já espreita, muito levemente. O brilho incomoda. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Sinto que há demónios a olhar para mim. Queima na pele. Queima nos olhos. Deixem-me em paz! A senhora de negro levanta-se. Vai deixar-me também... vou morrer sozinha.

A minha última dose foi ontem à tarde. Estava a ressacar. Doía-me o corpo. Sentia-me tremer. Foi um gesto de caridade darem-me o ácido. Não tinha dinheiro que chegasse. Dei o que tinha. Fiquei de pagar o resto depois. O gajo não pareceu confiar muito mas suponho que se tenha deixado levar pelo momento. Não é fixe estar a curtir a festa e ter uma miúda em desespero, a tremer por todos os lados, a implorar. "Vê como tomas isso...", avisou. O amenizar da consciência. Vi como tomei. Tomei de uma vez. Precisava.

6:51
Vivi no escuro. Os meus dias foram todos noite. Agora não. O sol já brilha por entre os prédios. O céu está claro.
A senhora de negro não parte. Estende-me a mão. É a primeira vez que, à luz do dia, me estendem a mão. É a primeira vez, em muito tempo, que me estendem a mão sem ser para receber dinheiro ou passar droga.
Agarro-lha. Vou. Para quem viveu a vida toda no escuro, a morte são só nove minutos de sol. E deve ser uma droga. Porque me faz feliz.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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Nota:  Este texto foi, também, a minha participação no 6º Concurso Literário da Editora Papel de Arroz, "O poder do vício".
Deixo, mais uma vez, uma nota de agradecimento aos responsáveis da editora, por continuarem a desafiar e incentivar os seus autores. Aproveito, ainda, para dar os meus parabéns a todos os participantes do concurso.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Dilemas maternais


Parabéns. Não vais ser pai. Não vais ser avó. Não vais ser tio. Não vais ser madrinha. Recebe esta nota com agrado. Não vais. Não vais ser a pessoa a bordar fraldinhas. Não vais ser a pessoa a levantar-se a meio da noite. Não vais ser o desencaminhador. Não vais ser a pessoa a espetar os polegares nas bochechas bolachudas da minha criança. Convido-te, por isso, a celebrar comigo.

Não julgues que vens celebrar a minha loucura. Vens celebrar a minha liberdade. A minha feminilidade liberta de preconceitos e de normas que me fez dizer que é tão válido não querer ter filhos como querer ter uma equipa de futebol a correr e a fazer tropelias pela casa. Não. Não fiques chocado. Sou mulher. Não quero ser mãe. E estou farta de ouvir as frases desusadas, fora de época e recheadas de preconceito e falta de aceitação. Estou farta do "ainda és nova, tens tempo". Estou farta do "isso é agora". Estou farta do "eu também disse isso e...". Não! Eu não quero ser mãe. E tenho tanto direito de não querer como qualquer outra pessoa tem de o querer.

Incomoda-me particularmente quando me dizem "Isso é se o teu companheiro não quiser ser pai". Porque é que ele pode querer não ser pai, se eu não posso querer não ser mãe? E porque é que ele querer ser pai havia de mudar a minha opinião? Porque é que a opinião ou vontade dele valem mais do que a minha?

Questões. Questões que me moem por dentro, no lugar onde não há-de crescer nenhum feto até se fazer gente. Questões que me dão dores de parto constantes sobre o futuro desta sociedade tão avançada que continua agarrada às noções da idade do bronze.

Quando me dizem "quero ser mãe", não costumo dizer "isso passa-te". Não costumo dizer "isso vai destruir a tua vida". Não costumo dizer "o que está errado contigo?". Costumo sorrir. Aceitar a beleza que é alguém querer gerar outro ser, criá-lo, fazer dele gente. E, quando acontece, costumo fazer desenhos fofinhos e pedir que os bordem em babetes com fita de bibe da cor que julgo mais interessante ou adequada. Costumo estar presente em batismos. Dar os parabéns depois dos partos. Oferecer a ajuda quando necessária. É uma escolha que aceito, em toda a sua plenitude.

Não querer ser mãe não quer dizer que não concordo com a maternidade. Quer apenas dizer que eu não a quero para mim.

Mas, de alguma forma, a minha escolha ofende as pessoas. Dizer que não quero ser mãe parece atacar directamente toda a gente que foi, é ou quer ser berço do futuro da humanidade. E eu questiono. O que é que, na minha escolha de mulher adulta e informada que conhece as opções e decide pela sua cabeça assusta tanto?

Não sei a resposta. Não saber, incomoda. Incomoda-me. Como incomoda os outros essa escolha que tomo e que sei, no mais profundo de mim, não ter espaço para a mudança. Essa escolha permanente que me rotula, entre outras coisas, como "louca", "egoísta", "maluca", "leviana" e mais umas quantas palavras de teor mais ofensivo e que dispensam enumeração.

Ofereço a mim mesma a escolha e a todos os outros o convite. Venham celebrar comigo. Não estou grávida nem quero estar. Não sou mãe nem quero ser. Venham celebrar. Não o afastamento da maternidade. Não a minha opção. Venham celebrar a liberdade de escolha.

Ser mulher, tal como ser homem, significa ser pessoa. Ser gente. Uma mulher não tem de ser mãe. Uma mulher não tem de ser nada que não queira. E espero que um dia, em breve, a sociedade dê à luz esta ideia... e seja mãe de uma nova era.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet e editada por MF

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Mudou tudo



Mudou tudo.
A manta está desarrumada. Pousada, como sempre, nas costas da poltrona. Descaída para um lado. Torta. Por dobrar. A manta está desarrumada. Apetece-me agarrar nela, rasgá-la em pedaços, queimá-la. Arrancá-la das costas da poltrona onde sempre a pousámos, julgando que a arrumávamos. Não! A manta está desarrumada. A poltrona não é lugar de manta.
Mudou de tudo.
Os móveis estão fora de sítio. Velhos e gastos da permanência imutável junto às mesmas paredes. A madeira pesa. Tento arrancá-los do lugar. Não se movem. Os móveis estão fora de sítio. Apetece-me reduzi-los a cascalho e varrê-los. Sei que julgámos que estavam bem ali. Mas não estão. Estão fora de sítio. Qualquer um veria com facilidade: estão dispostos erroneamente. Não fazem sentido nem ficam bem.
Mudou tudo.
A roupa está mal passada. Mal dobrada. Atolada nas gavetas demasiado cheias. Está engelhada, como sempre. Agarro nela, deito-a ao chão. Fica melhor no chão do que na gaveta onde fingia ter sido bem arrumada e passada a ferro.
Mudou tudo.
A louça não está bem assim. Empilhada, distribuída, na sua quietude de anos que lhes determinaram que era assim que estava bem. Não está. Está desalinhada, desorganizada. Não me traz sentido de estética ou de prática. E quero agarrar nela. Destruí-la. Fazer dela cacos desorganizados pelo chão. Quero ouvir o estilhaçar de copos e pratos e taças apenas para não ficarem ali - onde sempre estiveram - desordenados.
Mudou tudo.
A fotografia. Quão errada esta fotografia onde sorris e eu também. Onde estás vivo e eu também. Mudou a fotografia. O abraço. Errado como se também ele pudesse ser um pedaço desalinhado da casa. Ali permanecemos - como ontem e há um ano - abraçados e a sorrir. Quero agarrar a fotografia. Rasgá-la ao meio. Quebrar o abraço. Riscar os sorrisos. Desenhar lágrimas no meu rosto iludido e inocente.
Mudou tudo. Sinto raiva da casa que está igual. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. Dentro de mim que te amava. Que te amo. Que te vi morrer. Que voltei para casa. A minha casa. E descobri que ela permanecia igual, como se não sentisse a tua falta.
Mudou tudo. Mas entrar em casa é familiar, doce, bom. E dou por mim a querer chamar o teu nome e a ouvir os silêncios da ausência de resposta.
Morreste. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. E a casa permanece igual, sem que nada faça sentido.



Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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