quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quando eles saíram



Quando eles saíram, ela entrou. Esgueirou-se pela porta, à medida que eu a fechava. Entrou pela fresta. Não notei de imediato. Ao entrar, ela ainda não era mais do que um grão de poeira. Esgueirando-se pelo espaço entreaberto da porta que eu fechava atrás de mim, depois de os ver ir, com acenos de mão e sorrisos nos rostos.
Quando eles saíram, ela entrou. Provavelmente, se eu soubesse, não a teria deixado entrar. Mas não sabia. E, inconsciente de tudo, quase lhe estendi o convite para que, entrando, se instalasse, também, nos locais mais recônditos de mim. Não o fiz. Ela não precisava que eu fizesse. Da minha casa fez a sua. Não se importou com os conceitos de privacidade nem com a invasão do espaço. E eu, que nem a tinha visto entrar, fiquei, aos poucos e poucos, ciente da sua presença, que se colava à sola do sapato e alastrava pelo chão, pelas paredes, pelo teto. Que se fazia subir pelas minhas pernas, se agarrava ao meu ventre, perfurava as minhas entranhas e se alojava no meu peito.
Quando eles saíram, ela entrou. Não se limitou aos recantos da casa e aos recantos de mim. Fez-se conquistadora do inconquistável e perfurou os limites do corpo até me tocar na alma e mergulhar nos meus sonhos. Já não era mais pequena do que um grão de poeira. Era maior do que o Universo e simultaneamente una com as mais pequenas partículas de imensidão. Do seu carácter, fiquei a conhecer o negrume feio e saudoso, que imaginei poderem pender, feito muco, do canto dos seus risos histéricos e vibrantes.
Quando eles saíram, ela entrou. E, ao tomar de assalto a minha vida, ela decidiu que era hora. Era chegado o tempo de convidar outros a entrar, para que pudessem provar os melhores vinhos da casa e as melhores lágrimas dos meus olhos.
Quando eles saíram, ela entrou. A solidão. E ficou por ali, a celebrar, no meu peito, com a tristeza e a saudade e o desalento. Fizeram uma festa no meu peito, até a noite cair. E, quando a noite caiu, decidiram prolongar a celebração no meu peito, intensificando mais e mais as batidas rítmicas da dor.
Um aceno. Um sorriso aberto. O contentamento fugaz. A porta que fecha.
Cumprimento o vazio. Quando eles saíram, ela entrou.
Um suspiro. Uma porta aberta. A solidão que persiste. Um sorriso que fechou.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Declínio da Primavera



Pura e leve amanhece
Nas auroras outonais
E vã estremece…

Despojada da mais remota vida,
Deixa-se olvidar pela quimera.
Vã se desvanece e cai esquecida
A última flor da Primavera.

Olvidada pelo mundo que conhece
Cai no silêncio e muda morre
Com ela a Primavera perece…

O universo conspira incerteza,
O mundo torna-se enfadonho,
‘Inda assim, com toda a realeza,
Cai a vã pétala de sonho.

Sentindo as nuances de abandono
Cai tranquila na manhã
Como s’apenas tivesse sono…

Cai, perecendo… é mais um dia!
Ninguém ouviu e ninguém espera
Que na pétala que hoje caía,
Tombasse igualmente a Primavera.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Atrás da bandeira



Estamos assim, mais ou menos, escondidos atrás da bandeira. Da parte vermelha da bandeira, para ser mais exata. A esperança é tão escassa que já não esconde ninguém.

Estamos escondidos atrás dos homens que morreram no mar para nos fazer mundo. E escondidos atrás do sangue vertido para nos fazer gente. Temos canções sobre a morte. Mas seguimos a vida a fugir dela. Perdemos tanto tempo a fugir dela que, por caminho, não vivemos. E dizemos como é brava a nossa carne mole, escondida atrás das glórias (?) do passado. O que fizemos pela glória? Nada. Nascemos. Não fomos nem marujos a tombar das caravelas, nem soldados a levar balas no peito. Não fomos donzelas a chorar à beira-mar pelos filhos que não retornaram e as filhas que, sem o saber, se faziam viúvas no partir da nau. E eles, que embraveceram as estruturas finas da nação, deixaram no aroma da maresia a ilusão. Tão valentes que se fizeram imortais e ganharam a fama questionável de heróis e Deuses. Mas nós? Nós estamos escondidos. Atrás da bandeira.

Estamos escondidos atrás da baliza, a ver os outros jogar. Roubamos-lhes o título, quando é bom, porque sentimos que nos representa. Da mesma forma, xingamos os maus resultados como se nos negassem a bravura dos nossos antepassados. Esses que eram fortes e indomáveis(?). Mas nós? Nós estamos escondidos. Atrás da bandeira.

Nos recantos das vitórias alheias, vamos buscando um pouco do verde que ainda nos pinta o lado esquerdo da bandeira. Coração de esperança, ondeando ao vento. Mas escondemo-nos atrás das glórias (questionáveis) do tempo que não retorna. (Não vá o futuro tecê-las e fazer-nos descobrir que, tal como os navios, naufragámos a nossa força ao largo do Cabo das Tormentas). Somos um povo. Somos uma nação. Unidos pelas causas mais insípidas ou pelas mais coerentes. Mas não somos heróis. Não acho que devamos pensar, sequer por um momento, na heroicidade do nosso corpo depositado em frente aos livros de História e aos ecrãs de televisão. Estamos escondidos. Gritando "golo", ocasionalmente, mesmo quando ele é mero golpe de sorte. Estamos escondidos. Atrás da bandeira.

Estar escondido é mais confortável. Mas ouvi-lo não é. E as vozes que gritam pela força que nos torna os melhores, os maiores, os favoritos são as mesmas que ultrajam o sentir destas palavras. Porque elas incomodam e roubam ilusões. E, sem as ilusões, subitamente somos apenas do nosso tamanho e não do tamanho dos feitos dos outros. E que pequenez essa, que é a nossa, pessoas simples e que nunca fizeram nada para enaltecer as cores da bandeira que nos esconde.

Estamos assim, mais ou menos, escondidos atrás da bandeira. Da parte vermelha da bandeira, para ser mais exata. A esperança é tão escassa que já não esconde ninguém. Pelo menos a minha já não esconde ninguém. Mas também não me escondo atrás dela. Não tenho, talvez, a força dos homens que nos marcaram o lugar no universo, nem quereria tê-la, porque a visão ampla apaga a glória. Não tenho as ambições dos que nos colocam no centro das atenções do mundo nem vontade de falar de uma história maculada por mortes e escravatura como se fosse sinónimo de glória. Mas tenho voz. Tenho opiniões. E pouca vontade de gritar "golo". Uma caneta e papel. Posso escrever. E, se posso escrever, não tenho, não vou esconder-me atrás da bandeira.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Deixa arder



Deixa arder. Como ardem as florestas. É triste. Mas deixa arder. E põe as culpas na vida. Ou nas outras pessoas.
Deixa arder. O sonho. A vida. A alma. Depois diz que tens pena. Porque a alma não se fez. Porque a vida não te quis. Porque o sonho não foi vida. Deixa arder. Uma oportunidade atrás da outra. A primeira porque não tens tempo. A segunda porque não tens capacidade. A terceira porque não tens vontade. E chora, depois. Agarrada à culpa alheia. Diz que te tramaram o sonho.
À medida que avanças na estradinha de ladrilho cinzento, vai dizendo que os passos são ditados por quem fez o caminho. E que, se é cinzento o ladrilho, eles te regem que os cinzentos passos avancem rumo ao cinzento de um futuro sem esperança. Não faças nada para mudares os caminhos, e as cores, e os destinos.
Arruma os arquivos, um a um. Põe-os na estante, catalogados. O sonho que nunca cumpri. A vida que nunca tive. O lugar onde nunca fui. O amor que nunca senti. Catalogados assim, a cinzento, na estante do tanto que não foste. E, se te perturbar a presença das folhas enumeradas na estante ao lado da qual perdes a poesia dos dias, aquece lume. Queima a sanidade. Amarrota o que podia ter sido e atira à chama. Deixa arder.
No centro do fumo – também ele cinzento – aceita a vida cinzenta que te destinaram. Não será difícil aceitar a proximidade quieta do tempo, se o fumo não te deixar ver que, além, existem montanhas e vales e lagos e mares de possibilidade por explorar. Cega no centro do fumo, à medida que deixas que ele te entre nas veias e te programe para pensar que é melhor assim.
Acorda um dia. Feliz. Não feliz-feliz. Mas feliz como se diz ser a felicidade nas ruas de ladrilho cinzento. E faz os teus passos – cinzentos e programados. Vai. Começa essa rotina de círculo infindável e desgastado.
Deixa arder. O sonho. A vida. A alma. Como ardem as florestas. É tristemente indolor. Quando deres conta, ardeu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 9 de agosto de 2016

O problema do mundo



Veio um atentado
E toda a gente se esqueceu
Dos problemas políticos

Veio a doença
E toda a gente se esqueceu
Do atentado

Veio a guerra
E toda a gente se esqueceu
Da doença

Vieram os refugiados
E toda a gente se esqueceu
Da guerra

Vieram os problemas políticos
E toda a gente se esqueceu
Dos refugiados.

O problema do mundo
Não é o ciclo
São as pessoas que se esquecem



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Viver sem ti



Tem sido difícil viver sem ti. Quando acordo, com o beijo do sol e o calor da manhã. Quando pouso os pés na madeira limpa do soalho. Quando canto fado no chuveiro. Às vezes, sorrio. E, depois, lembro-me que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Tem sido difícil sair à rua. Saltar de pedra em pedra, feito criança, brincando ao jogo das cores. E palmilhar as ruas sem destino, à procura dos sonhos nos recantos entre os azulejos toscos e as rachas das paredes. Não ter hora para voltar. Não ter compromisso que me prenda. Fico a ver o mundo que passa e o rio que corre. O trânsito que flui. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
Às vezes chego inesperadamente depois das sete a casa. E abro a porta sem cuidado. Chego depois das sete. Mas nunca chego atrasada. Não há horário. Nem hora certa. Nem obrigações. Entro em casa, dispo-me a caminho do quarto. Uso a minha camisola velha e os calções de desporto. Os pés nus no soalho. Ponho a rádio na estação de músicas lamechas e salto do sofá quando as baladas dão lugar a uma música dançável. Faço desfiles pelos corredores. Janto morangos com chocolate negro. Às vezes sorrio. E, depois, lembro-me de que não devo sorrir. E repito: tem sido difícil viver sem ti.
A minha mãe liga às terças e quintas. Na sua voz, a comiseração cortada e contada nas frases do costume: “não precisas de nada?”; “estás bem?”; “tens de aguentar firme!”. Aos fins-de-semana, os amigos arrastam-me para os bares. E repetem, feito oração, as premissas do costume: “tens de superar!”; “eu sei que não estás bem, mesmo que digas que sim…”; “depois de uma montanha, espera uma maior.”.
Eu olho ao espelho. À procura da dor. À procura da solidão. À procura da vergonha. Mas tudo o que vejo sou eu. Ponho a língua de fora. Sorrio. E, depois, lembro-me. Não devia sorrir. Devia chorar. Dizer que tem sido difícil viver sem ti. E talvez seja. Mas sabes? Foi mais difícil viver sem mim quando estava contigo.
Sorrio. E não tenho vergonha de sorrir. Tem sido perfeito viver sem ti.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 26 de julho de 2016

(Nunca) Para Sempre



Ela disse “para sempre”. E eu senti. O arrepio. Quase como se a vida se tivesse rido no meu ouvido. Quase como se ela tivesse aceite, ali, naquele momento, o desafio. E as palavras somaram-se. Ela acrescentou “nunca”. E eu soube. Ia acontecer.
Não foi no primeiro dia, nem no segundo. Quiseram os ventos. Quiseram as marés. Não foi no terceiro. Nem no quarto. Nem na primeira semana. Nem no primeiro mês. É a coisa mais engraçada de todas: “para sempre” é um tempo tão longo, que não será um ano a provar coisa alguma. Então, durante muito tempo, ela pensou que tinha razão. “Nunca”. E disse-o mais vezes. E mais vezes me arrepiei, no riso mudo da vida ao meu ouvido.
Calei-me. Desejei-lhe sorte. Mas não acreditei. Sou uma crente obstinada de quase tudo. Tenho mil Deuses. E acredito neles devotamente. Invisíveis e silenciosos como são. Acredito nos sins e nos nãos e nos talvez. Acredito até nas pessoas, ocasionalmente. Existem, no mundo, duas coisas em que não acredito: no “nunca” e no “para sempre”. Porque não sabemos quanto tempo é “nunca” e não sabemos quanto tempo é “para sempre”. E, seja quanto tempo for, é tempo demais para que o possamos definir numa certeza.
Um dia, ela bateu-me à porta. Chorando. E disse que o para sempre tinha acabado. Não o disse assim. Disse simplesmente “acabou”. Ninguém usa noções temporais indefinidas quando está triste. Só as definidas. Ontem. Hoje. Amanhã. Mas não se querem indefinições onde já há incertezas. Não se querem incertezas quando já tudo é incerto.
Podia ter-lhe falado do riso da vida. Mas não falei. Porque ela não o tinha ouvido por entre os seus próprios risos eufóricos, semeados entre o “nunca” e o “para sempre”. E não lhe falei do arrepio porque ela o tinha agora impresso na pele arranhada pelo fim dos amor. Feridas que haviam de se tornar cicatrizes um dia. Cicatrizes que haviam de a incomodar por muito tempo. (Para sempre? Quem sabe…).
Disse-me que não havia “para sempre”, disse-me que não havia “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “nunca”.
E disse-me que nunca tinha dito “para sempre”.
Dei-lhe um abraço. “Claro que não”, retorqui. E começámos novamente um rol eternidades. Só as duas. Porque a amizade é mesmo assim e amanhã é outro dia. E ela havia de voltar a acreditar no para sempre. E eu havia de lançar à vida um olhar de escárnio quando ela se risse. E a vida havia de me perguntar se eu não achava ridículo. E eu havia de dizer-lhe que a coragem de acreditar no improvável não era nada ridícula… que o ridículo morava na inveja da vida que, sabendo-se eterna, perdia o seu tempo a negar aos outros uma eternidade humana, tão pequena quanto os anos que vão do berço à sepultura.
Gosto de imaginar que vida se ofenderia com estas palavras. (Mas quantas piores ouviu já?). Caso se ofendesse, quem sabe virasse olhos por alguns momentos. Para vida, que é imortal, alguns momentos podem ser humanas eternidades toscas. E ela diria “para sempre” e talvez a vida não visse. Talvez a vida não tivesse o ímpeto do riso. Talvez ela não aceitasse o desafio. Talvez ela pudesse ser feliz para sempre.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 19 de julho de 2016

Deixa-o entrar



Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Deixa-o entrar. Com os seus raios, espero a alegria. Da alegria faço a flor que planto na jarra. Condenada à morte precoce pela separação das raízes. Mas deixa entrar o sol. E deixa que ele traga a felicidade. E a vida. Para beijar o rosto florido da morte que o espera dentro das paredes frias da casa. Vai. Vai abrir a porta ao sol.
Não tardes. Abre as portadas. As janelas. As cortinas. Chama-o. O sol. Convida-o a entrar na sala onde a jarra ostenta a flor que, exultando o aroma da manhã, acentua já a chegada das noites sem retorno. Não tenhas medo que ele entre. Ao entrar, cada sombra será brilho. Do brilho podes tirar a receita do amor que te leva a regar a morte, como se a consciência que te pesa lhe retardasse o desvanecer da última pétala caída. É um poema do romantismo. Meio agreste, meio tosco, cheio de floreados em torno do que perece e fica espalhado no chão, debaixo do chão, feito em cinza. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
No teu jeito sem jeito e na tua postura errónea de coisas incompreendidas. Não sabes o que fazer. Mas eu sei. E digo. Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. E qualquer espaço por onde os raios amarelados do tempo possam penetrar as frestas e encandear os olhos cegos do inesperado. Não queiras ser escuridão, se é a luz que te beija a pele. Deixa entrar o sol. Na tua casa. Na tua alma. Deixa-o beijar a jarra onde a morte se faz promessa e a beleza se faz castigo. E aprecia a tonalidade carente do amanhecer que te nasce nas paredes e que as pinta, salpicando-as de sombra e sonho, como se fossem uma coisa só. Vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa-o entrar.
Não tenhas medo. Respira. O ar. Dentro. Fora. Além de ti. Respira. Respira e vai. Vai abrir a porta ao sol. Deixa que ele afaste o que fica entre a beleza perene e a angústia permanente do que não pode sair pela porta pela qual, agora, entra o sol. E agradece a porta aberta. Agradece a janela aberta. Agradece as mãos que te deixaram abri-las. Agradece que elas abram. Agradece a alma que te prende a ti. Agradece ao sol que entra, mesmo sem convite, para te aquecer a frieza do desassossego triste.
Vai. Vai abrir a porta ao sol. E a janela. Esquece a amargura. Esquece a raiz. Esquece a jarra. Porque o sol que entra não me aquece. A raiz foi cortada. E a flor sou eu.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 12 de julho de 2016

Desenlace



O sonho, a fé, a ilusão:
Bebeu-os de uma só vez.
De tanto cair no chão
Foi chão que um dia se fez…

Mesmo de rojo, sonhando,
Não abriu mão do querer:
Arrastou-se mas levando
O tanto que podia ser.

Ferida aberta ou cicatriz
Esse ir sem saber aonde,
Caminho que não se diz,
Questão que não se responde.

Por assim olhar, do chão,
O tanto que queria perto,
Cegou o seu coração,
Peito rasgado e aberto.

Sentiu o sono chegar
Nessa ilusão da tortura.
Sorriu sem acreditar,
Um sorriso que não dura…

Esqueceu-se de sentir
E nem sequer quer saber
Se fecha os olhos para dormir
Ou se os fecha p’ra morrer…

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta aberta do meu amor por ti



Eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Desses que se vendem nas capas das revistas. Desses que se semeiam nas páginas térreas dos livros de cordel. Desses que se fingem atrás da câmaras de cinema. Era cliché. Mas não importava. Eu sonhei – amar.
Amei. De tão forçada a noção intemporal do amor. Procurei-o com fervura. Afundei as mãos nos recantos mais inusitados, tentando arrancar, até do fundo pantanoso da vida, algo que se parecesse vagamente com o amor. Mas disseram-me. Várias vezes. Eu sei que sonhas – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar. Mas olha, pequena, o amor é uma palavra que agoniza na beira da morte. O dia de hoje é veneno. A nossa época é veneno. E não há cura. Disseram-me, assim, que estava condenada. À morte. Não à minha, mas à do sonho. Esse sonho que eu sonhava tanto – amar.
Encontrei. Abraços. Beijos. Alcovas. Corpos que, vestidos ou nus, sempre me disseram o mesmo. O que eu já sabia. Era um sonho sem razão – amar. E confidenciei, nos teus ouvidos, a mágoa. E tu disseste que não. Não era impossível – amar. Meu triste amigo. Fiz missão de tentar explicar-te o que eu já entendera. O amor era um espectro agonizando nas catacumbas da Terra. E cada onda do mar era um soluço. Cada gota de chuva era uma lágrima. Cada trovão era um grito. Desse amor. O que estava morto no nosso tempo.
Negaste. Disseste que intercalava a vida entre dois momentos: os da ilusão cega e os da frieza excessiva. Se te dizia que nunca mais ia amar, falavas da ilusão – assim – “não amaste ainda”. Se te dizia que não havia amor, falavas da frieza – assim – “não amaste ainda”. E quando o dizias acordavas o sonho. Porque eu sonhei – amar. Todas as meninas sonham – amar. É um sonho comum – amar.
Sem nos olharmos no rosto, fomos palavras que se somavam e dias que se perdiam. Aprendi, de ti, que também tinhas um sonho – amar. Meu triste amigo. Quem me dera ter sabido ali. Mas estava tão ocupada a enterrar as mãos no chão pantanoso da vida que não desconfiei, sequer.
Foi uma construção feita em parcelas. Como um castelo de cartas – janelas abertas e sopros inusitados – a frequência instável das quedas. Passo a passo, entre o teu sonho e o meu. Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. É um sonho comum – amar. Mas o amor… não tinha o amor morrido?
Descobri que não quando o teu sonho encontrou o meu e lhe chamámos nosso. Redescobri-te atrás do rosto onde, tanto tempo, tinha estado apenas o meu melhor amigo. Percebi. Por fim. O amor não estava a definhar, envenenado pelo hoje. Estava a tomar forma nos laços. A dar nó nos laços. A criar entre nós a chama que não queima e a ferida que não incomoda.
Era o meu maior sonho – amar. Era o teu maior sonho – amar. Éramos o sonho um do outro.
Às vezes, a dúvida bate à porta. São as dificuldades. É a mágoa. É o desconforto. Fruto de anos de vida que nos pesam e nos confundem. Por segundos. Mas viram costas e partem. Por três anos não fizeram mais do que virar costas e partir.
És tu e eu. Não cabe nada no espaço entre o nosso abraço. Nada além do sonho. O meu maior sonho. E o teu – amar. Mas não só amar. Amarmo-nos… É um sonho que acorda e se faz real – todos os dias.  



Marina Ferraz




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