terça-feira, 31 de maio de 2016

Pega-me ao colo




Pega-me ao colo. Como se eu fosse menina. Estou tão cansada. Não do dia. Da vida. Preciso que me pegues ao colo.

Eu sei que já sou outra coisa. Tenho mais do que um metro e vinte de altura. E penso pela minha cabeça. Pago as minhas contas, mal ou bem, conforme dá. E decido a minha hora de deitar. Ponho o meu despertador. Vou para o meu trabalho. Eu sei. Sei que já não sou criança. Mas, às vezes, tal como se fosse, preciso de colo. Preciso de mimo. Porque o mundo lá fora é um destruidor nato de sonhos e a minha alma velha insiste com o meu coração, ainda jovem, que ainda não é tempo de desistir. Pega-me ao colo, por favor. Faz festinhas na minha cabeça. Diz-me que vai ficar tudo bem. Conta-me outra vez a história onde se dizia que eu era especial e que podia ser quem quisesse. Eu sei que não sou criança. Mas sou pessoa. Preciso de colo. Preciso de sonhos. Preciso de ti. Pega-me ao colo, por favor.

Foi o mundo. Primeiro, foi o mundo. Veio, lá de fora, meter-se nas entranhas do meu espírito, arrancou-me dos teus braços e disse: “outra hora, agora não”. Impôs-me metas ridículas, estabeleceu-me horários impossíveis e desgastou-me até ao ponto incontornável de não haver mais tempo para me aninhar em ti. E, depois do mundo, veio a sociedade. A sociedade disse-me que, agora, não era o tempo mas a idade. Como se a idade fosse cargo. Como se a idade me despromovesse e eu já não pudesse esperar, dos outros, a mesma afeição. Disseram-me: trabalha e não esperes mais que o carinho seja parte do teu dia. Crescer era isso mesmo. Crescer era uma treta. Mas eu, contestatária nata do que o mundo e a sociedade dizem, dei por mim encolhida no meu canto, depois do trabalho feito e das contas pagas (ou por pagar). E ainda precisava. Ainda precisava dos embalos que a criancice sempre trouxe consigo.

Eu sei. Sei que sou outra coisa. Tenho quatro paredes em meu redor e um senhorio que reclama pelas prestações com uma pontualidade tão genuína que me faz questionar, por vezes, se faz profissão do acerto dos ponteiros do relógio. E tenho o carro à porta, intercalando entre o barulho ruidoso do motor e a luz intermitente da falta de gasolina. Tenho o som do forno, que apita quando é hora de servir o meu jantar e as gatas que miam quando é hora de servir o delas. Tenho os olhos azuis do meu companheiro de vida, que vem, todos os dias, para as mesmas paredes, lidar com o mesmo senhorio, o mesmo carro, o mesmo forno, as mesmas gatas. Olho ao espelho e sei. Não sou louca. Não sou criança. Mas, às vezes, tal como se fosse, preciso de colo. Pega-me ao colo, por favor. Faz festinhas na minha cabeça. Diz-me que vai ficar tudo bem. Conta-me a história de como, no final de tudo, o sol sorri, do alto, apenas para me ver sorrir de volta. Eu sei que não sou criança. Mas sou gente. Preciso de colo. Preciso de conforto. Preciso de ti. Pega-me ao colo, por favor.

É um desentendimento que permanece nas entrelinhas da vida. Essa noção de que crescemos e deixamos de precisar de carinho. Eu tenho braços. Eles não foram feitos para segurarem os joelhos junto do meu peito para que sobre eles possa chorar. Foram feitos para abraçar alguém. É esse o trabalho dos meus braços. E, se assim é, preciso que o trabalho de alguém seja abraçar-me a mim. Preciso que o trabalho de alguém seja cuidar de mim. Não sempre. Mas às vezes. Quando me pesa esta realidade de adulto que ainda não o quer ser.

Não. Não sou frágil. Sou pessoa. As pessoas fortes também sentem. Não. Não sou criança. Sou gente. Os adultos também precisam de ouvir histórias de encantar. Não. Não sou louca. Ou talvez seja. Mas os loucos são como as pessoas fortes e os adultos: também precisam de atenção. De amor. De sentir que, algures, entre a confusão que a vida cria no seu ciclo de dores e contenções, tudo vai ficar como sonhámos que seria.

Preciso de afecto. Preciso de ti. Preciso de sentir que vai ficar tudo bem.

Pega-me ao colo. Como se eu fosse menina. Estou tão cansada. Não do dia. Da vida. Preciso que me pegues ao colo. Embala-me, como se fosse menina. Como se fosse criança. Sei que não sou. Mas preciso disso para poder levantar-me, depois, e ser mulher.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Monstros como nós


Lá fora. Nas ruas. Nas praias. Nas florestas. Monstros como nós. Olhares ausentes. Mãos fechadas. Ou abertas. Vazias. Dormentes. Cheias de dores. Lá fora. Dentro de si. Longe de nós. Ao nosso lado. Desertos e tão cheios de tudo. Monstros como nós. Carregando medo nas bolsas. Sorrisos nos rostos que choram em segredo. Apáticos nos seus sentidos. Intensos na sua passividade ausente. São do mundo. Não são de ninguém. Ninguém os quer. Monstros como nós.

Sem nome. Com todos os nomes. Rostos desfigurados. Servos do destino. Senhores de lugar nenhum. Sentam-se no trono da desilusão e aplaudem as estrelas que lhes moldam o destino. Céticos. Crentes desnorteados. Dogmáticos. Filhos dos Deuses. Filhos da Ciência. Filhos de ninguém. Monstros como nós. Docentes de ensinamentos perdidos. Discípulos eternos da irmandade solitária dos espaços sem dono. Monstros como nós.

Lá fora. No desassossego. No alvoroço. Na aflição. Na calma. No sossego. Monstros como nós. Com a pena. Com o som. Com a voz. Com a palavra. Com a alma rasgada. Penhorada. Perdida. E corações de pedra. Isentos de felicidade. Repletos de alegria. Binómios intemporais de tudos e nadas que não se escrevem. Monstros como nós.

Sem face. Com rasgos de fera. Cândidos. Temidos. Andando. Por aqui. Por ali. Por todo o lado. Sob o manto. Sobre a Terra. Debaixo do mesmo Sol. Das mesmas estrelas. Poeira de estrelas. Varridos como poeira comum. Pelas pessoas. Pelo mundo. Monstros como nós.

Humildes. Humilhados. Gastos dos pronomes. Gastos das desilusões. Tantas. Quantas? Ninguém sabe. Sabemos todos. Grito comum. Grito calado. Caminho. Pedra imunda da calçada. Pés de espinho pisado na demora. Vão. Monstros como nós.

Não servem ninguém. Dizem, algures, que não servem para nada. É mentira. Servem! Servem para isto. Para não estarmos sozinhos na nossa solidão. Para sabermos que caminham. Nas mesmas ruas. Nas mesmas praias. Nas mesmas florestas. Rumo ao mesmo horizonte. Monstros como nós.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 17 de maio de 2016

Intermitências


Ela começou, aos poucos, a sentir. Era uma dormência, inconstante e cheia de necessidades, pendurada no canto do olho, como se fosse lágrima. Mas não era. E ela sorria. Às vezes, enquanto esfregava a banca da cozinha, tentava remover a camada de limpeza que ficava por baixo da camada de gordura. E tentava corroer a pedra, com uma energia tresloucada. Passando o pano de um lado para o outro, imaginava que corria distâncias impossíveis, sem destino nem obrigação. E, pendurando-o no fio do avental, anuía para si mesma e para a pedra intacta e imaculada. Foi aí, por entre a tarefa. Aos poucos. Foi aí que ela começou a sentir. As intermitências. Mas, porque não conhecia a sensação, ela julgou que era apenas mais uma partida da sua cabeça. E disse, aos botões da sua solidão: “deixa-te disso, menina”. E obedeceu a si mesma. Estava habituada. A obedecer.

Ela começou, aos poucos, a descobrir. Era um espelho de duas faces, que lhe reflectia as expressões mais infelizes e lhe ampliava os gestos mais horríveis. Dos olhos, feiíssimos, fazia dois poços pestilentos, dos quais saiam apenas as vulgares pestanas. Dos lábios, disformes, fazia fossas recheadas de dentes tortos. E, se acaso ela sorria a esse espelho, ele devolvia-lhe um grito e abria mais uma fissura, bem a meio, cruzando com todas as outras. E ela, que não era nada de se olhar ao espelho, aventurou-se a aproximar-se dele e a tocar-lhe. Sentindo, mais do que nunca, a intermitência. Essa que, tendo nascido junto à banca da cozinha, parecia agora furar-lhe as entranhas e roçar-lhe a pele.

Ela começou, aos poucos, a aceitar. Era uma novidade daquelas que se estampam nas páginas mais importantes dos jornais gratuitos do metropolitano. A aceitação. Feia como o seu rosto e imaculada como a sua banca. Como se o feio e o limpo estivessem sempre no mesmo prato e fossem servidos sempre à mesma hora. Ela era alheia à feiura e à limpeza. Ainda mais à aceitação. A verdade era esta: por mais evidente que fosse, por mais que sentisse e confrontasse a realidade do espelho, ela não sabia que estava a aceitá-la. Acreditava, por alguma razão obscura, que estava a fazer escolhas e a tomar opções. Dona do seu nariz torto e abatatado. Mas não. Sentindo o formigueiro causado pela intermitência, ela estava simplesmente no caminho da aceitação. E esta tinha raízes que lhe cresciam dentro da pele, feito veias. Nelas não corria o sangue que lhe dava a vida mas o veneno que se entranharia no peito e a tornaria finalmente senhora de si.

Ela começou, aos poucos, a odiar as paredes da casa. Não só as paredes. Também os tetos e o chão. E as pessoas que viviam sob aquele teto e aquele chão, na guarida daquelas paredes. E o suposto Deus que abençoava as gentes e as casas. E tudo o resto. Sentir a intermitência, a crescer de dia para dia, como um feto crescendo dentro do peito, rasgando-lhe a vontade de viver. Estava grávida de emoções e não conseguia pari-las. Era uma dor que gerava no silêncio, com um sorriso parcelado no rosto, onde ainda se pendurava a dormência, feito lágrima. E pensou muitas coisas para si. Muitas coisas que não disse porque sabia que eram injustas e que, cedo ou tarde – ou, provavelmente, em ambas as circunstâncias – se arrependeria das palavras.

Ela começou, aos poucos, a morrer. Não da intermitência mas do silêncio. Era a vida. E, perante a imagem da morte, continuou a preferir essa candura. A do silêncio. Era um sofrimento solitariamente constante.

Num momento de fraqueza, escondeu-se debaixo das mantas empoeiradas das memórias do passado. Escondeu o rosto. E pensaria o mundo: pudera que se esconda, posto que é horrenda a sua imagem. Mas não. Não era feia. Nunca tinha sido feia. Não era o espelho mas o seu olhar sobre o espelho que lhe distorcia a imagem. Não era falta de beleza mas ódio que, feito suor, se pregava à pele numa camada fina e epidémica. Toda cheia de ódio pela sua imagem e pelo contraste entre os seus sentidos e a limpeza imaculada dos espaços, ela fazia dos dias o inferno e das horas a tortura. A sua lealdade para consigo mesma era intermitente e desvanecia, à medida que o compromisso com a morte ia estabelecendo os pontos-chave do contrato que prometera assinar.

Ela começou, aos poucos, a admiti-lo: não queria viver. E o coração, que era o único que a ouvia nos silêncios, soube-o. Como uma luz de sala, acabada de mudar, trabalhava bem mas gerava uma ocasional intermitência fantasmagórica. Um dia parou por alguns minutos. Poderia ter voltado a bater. Mas, no negrume da falha, ela que nunca sentia nada além da intermitência, sentiu. Paz. Tanta paz. E o coração adormeceu com um sorriso.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 10 de maio de 2016

Uns dias acorda a sorrir



Uns dias acorda a sorrir
Outros a chorar
Não tem dono nem altar
Uns dias acorda a sorrir
Outros a chorar

Tem mãos de ser contrafeito
E olhos cegos de ver
Não é quem queria ser
Vive num mar imperfeito
Tem uma fé sem querer.

Chora e ri, ri e chora,
Vai andando sem pensar
Corre... mas tão devagar
Que se prende na demora
De um tempo sem passar.

Uns dias acorda a sorrir,
Outros acorda a chorar
Não sabe como ficar
Mas também não quer partir
E não quer estar

É e não é e vai sendo
E está sem estar em ninguém,
Diz que vai ficar bem
Mas em si vai morrendo
Na hora que nunca vem.

Uns dias acorda a sorrir
Outros a chorar
Quem lhe dera poder dar
A dádiva de sorrir
Ou nunca mais acordar...


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 3 de maio de 2016

Há uma dor


Há uma dor. No canto inferior esquerdo da minha alma. Mesmo ao lado do coração. Uma pressão constante, feita nas ondulações mais ou menos pacatas da rotina.
Passando ao de leve, com as pontas dos dedos do pensamento moribundo, talvez sinta, levemente, o atrito provocado pela tumidez das entranhas da esperança que ali se plantam e nascem, feito cancro, ganhando metástases nas paredes irregulares dos meus sonhos.
Não sei se há cura.
Há uma dor. Nem sempre me lembro dela, porque é crónica, constante... torna-se natural. Mas as pontadas, senhor, as pontadas que ela insiste em dar, nos momentos mais cruciais da vida: inegáveis, persistentes. Às vezes, penso que vou morrer. E a morte seria vista com agrado nesses momentos em que a dor vem. A morte seria a porta de saída no final da estrada dos agouros.
Não sei se há cura.
Há uma dor. À medida que ela se instalava em mim, cada vez mais aguçada, cada vez mais intensa, cada vez mais permanente, as pessoas afastaram-se. Há sempre o medo do contágio para aqueles que, de tão idênticos à norma, se sabem sãos. E, a cada passo que davam, sempre para longe de mim, eu soube que me deixavam ali, para definhar e morrer nos contornos do meu sofrimento. Acenei-lhes, à medida que desapareciam, nos horizontes, nas curvas, nos limites do caminho. Sorrindo por fora. Chorando por dentro. Com a dor.
Não sei se há cura.
Há uma dor. Ela fica lá, intermitente, seguindo o ritmo do bater do meu coração. Lateja. Cada pulsação é uma palavra e cada palavra, em si, é já poema sem rima, pronto a figurar no livro louco da história de mim. É uma dor sozinha. Não faria sentido uma dor diferente em alguém tão pouco consensual. As raízes do negrume alastram a cada dia, entranham-se mais fundo em mim e vão arrancando aos poucos o que me resta de humanidade. Já não sou o que me ensinaram a ser. Já não quero sê-lo. Odeio saber que o fui. Sim! As raízes desta dor chegam-me ao cerne da mente e arrancam a sanidade de mim.
Não sei se há cura.
Há uma dor. Ela mói por dentro. Por fora, ela cria pedra onde havia pele. Seca os olhos e impede as lágrimas. À medida que embrandece o âmago de mim, muralha-me o que é imediato e visível nos contrastes do espelho. E faz da minha incoerência um poema que muito poucos entendem e muito menos querem entender. A dor toma forma de gente, à medida que alastra. Subitamente, já não fica apenas no canto inferior esquerdo da minha alma. Em vez disso, ocupa-a. Toda a alma é dor. Mas percebo. A dor é sonho. A dor é esperança. E a doença faz de mim quem eu sou.
Não sei se há cura.
Se houver, talvez possa tomá-la para acordar e conhecer os contornos da realidade. Talvez possa ser como todos os outros. Será que há cura?
Não sei.
Não sei se há cura.
Mas sei que, se houver, não a quero encontrar.
Antes a dor sozinha da esperança do que o desapego são da apatia.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Amar um monstro


Não digas a ninguém que me amas. As pessoas não vão entender, como também eu não entendo. Não digas a ninguém que me amas.

Trago nas mãos. Nas mesmas mãos que demos e onde dedos se enlaçaram. Trago nelas o vazio. E o sabor salgado dos teus lábios, guardo-o nos recantos poeirentos dos meus, enxutos de paixão e de fé. A palavra amor ainda ecoa. Sórdida. Inesperada. Acidental. Falaste-me de amor.  Porquê? Não devias ter-me dito. Não devias ter dito a ninguém.

Tínhamos a aceitação. Tu fingias não ver o monstro sob a minha pele. Eu fingia que podia sentir de forma casual a partilha dos momentos. E era na aceitação que bebíamos a esperança de que amanhã pudéssemos ainda encontrar-nos pelas ruas e selar beijos escondidos da multidão. Traíste-me. Falaste de amor. E acabou. Porque não havia amor. Havia apenas ilusão e mentira. E um monstro, que era eu. E uma pessoa, que eras tu. Ninguém pode amar um monstro.

Amor. As tuas palavras despidas. Despidas até ao tutano da alma. Despojadas de tudo o que a palavra amor deve ter. E as minhas palavras. Iguais. Reais. Assustadoras. Não. Quem me dera que nunca tivéssemos falado de amor. Quem me dera que tivéssemos tido a força de saber que as regras fundamentais do mundo não podem ser quebradas, nem mesmo por nós.

Palavras. São só palavras. Mas as palavras são sempre algo mais. Não digas a ninguém que me amas. Dá às gentes o silêncio que, em vez de ti, hoje me beija. Não digas. Não digas a ninguém essas palavras. Não digas a ninguém que me amas.

No lugar de mim, está a dor. No lugar de ti, a ausência. No lugar de nós, o riso desvairado da multidão.  Não lhes digas. Não lhes digas que me amas. Que me amaste. Não fales de amor.

Desassossega-me o olhar furtivo lançado ao vidro fosco da parede da minha memória. Qual espelho, reflete-se nele a minha mágoa. Reflete-se nele a história. E é como se não existíssemos. Como se fossemos esse amor que anunciaste, de forma fortuita e vazia. Há somente pedras quebradas no chão da minha esperança. E a certeza de que nunca poderia ter acreditado num amor assim.

Não digas a ninguém que me amas. Faz do coração bandeira e do amor segredo. Não digas a ninguém que me amas. É melhor assim.

Amor. Palavra solta. Vazia. Usada para dar  ao sonho gasto a ilusão do que não é. Por que razão falarias de amor? O meu rosto desfigurado das lágrimas não despertaria sentidos em nenhum universo de compaixão. E, se sou indigna do amor de alguém, que razão louca poderia, alguma vez, fazer-me merecer o teu? Logo o teu, que és único no universo e, simultaneamente, o universo inteiro. Não mereço o teu amor. Não mo dediques. Mas, principalmente, se o sentires, não fales dele. Deixa-o amornecer num qualquer canto silencioso de ti.

Não digas a ninguém que me amas. Nem mesmo a mim. Nunca mais. Não o digas! Afinal... por que razão dirias? Não sou digna de amor. Não! Não digas a ninguém que me amas. O meu sorriso não é motivo que te valha a mentira. Guarda-a para ti. Incapaz de a esquecer, eu vou abraçá-la com carinho. Até dormir. Até morrer. Mas não digas a ninguém que me amas. Ninguém pode amar um monstro.

Marina Ferraz


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Retoques


A mulher entrou. E era lindíssima. Mas o mundo não a via.

Com uma voz temerosa, apresentou a decisão: "Quero abandonar o que é único e selvagem em mim... preciso de uma vida mais fácil".

Sorriram. Sorrisos de plástico. Todos iguais. Anuindo. Como os cachorrinhos de plástico nas bagageiras dos carros. Entusiasticamente. Disseram-lhe: "Apenas alguns retoques e será perfeita". Por um preço. Ela queria pagar o preço. A invisibilidade pesava-lhe nas costas como um tormento de muitas eras.

Retoques.

Começaram pelas roupas. Despiram-na. Mas não a despiram apenas de roupa. Tiraram-lhe a gordura das ancas, da barriga, das nádegas, das coxas. Sugaram-na por tubos e tubinhos. Encheram-lhe os lábios e os peitos. Atenuaram os traços das rugas junto aos olhos, junto aos lábios.
Esticaram-lhe a pele. Corrigiram-lhe a miopia. Partiram-lhe os óculos e deitaram-nos fora. Mas olhos negros como os dela ficavam pesados numa mulher. Puseram-lhe lentes. De cor. Azuis.

Retoques.

Levaram-na para uma sala. Pintaram-lhe o cabelo. Esticaram-lhe o cabelo. Amaciaram-lhe o cabelo. Hidrataram-lhe o cabelo. Desfrisaram-lhe o cabelo. Fizeram-lhe madeixas no cabelo. Estipularam o lugar onde devia surgir uma ocasional onda no cabelo. Domaram-lhe o cabelo.
Aproximaram os lasers. Livraram-se dos pelos. Que chatice, uma mulher ter pelos onde devia ter apenas pele. Não há espaço para pelos na perfeição. Fizeram-lhe o buço. E as axilas. E as pernas. E as virilhas. E as zonas intimas.

Retoques.

Pintaram-lhe a pele esticada. Com pré-bases e bases e pós bases e pós para depois das pós-bases. Pós soltos. Pós compactos. Pós do tom da pele. Pós bronzeadores. Blushes. E puseram-lhe pestanas falsas. Arrancaram metade das sobrancelhas. Pintaram as sobrancelhas. Pintaram as falhas por entre as sobrancelhas. Maquilharam-lhe os olhos, agora azuis: sombras sobrepostas, esfumadas, esbatidas, aperfeiçoadas. Eyeliner. Máscara de Pestanas.
E nos lábios. Batom. Vermelho carmim, feito dentro da linha perfeita - também vermelha - sobreposto com uma camada de brilho voluptuoso.

Retoques

Vestiram-na com roupa justa, adequada ao novo corpo, ao novo look, ao novo penteado, à nova maquilhagem.

"Já sou perfeita?", perguntou, olhando para si. E a resposta foi rápida: "Apenas mais um retoque e será".

Retoques.

Tiraram-lhe o cérebro. Silenciaram-lhe a voz. Programaram-na para anuir. Tornaram-na portadora do "sim" perpétuo, fosse qual fosse a pergunta. E, de olhos presos no infinito do espelho, ela soube que tinha conseguido.

O autómato saiu. Agora, era perfeito. O mundo aplaudiu.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Espelho meu


Se não fosses tão bonita, encontrarias no caminho das flores os espinhos e, nas ruas da fidelidade, os contornos da dor pejados de crueza.
Se não fosses tão bonita: Em vez de sorrisos, pedras. Em vez de palavras, silêncios. E tropeços. E rasteiras. Pedaços reiterados de injustiça nos jardins da serenidade.
Se não fosses tão bonita. Mancharia a pele branca o negro da mácula e trarias sob o olhar a insónia tatuada das noites choradas.
Se não fosses tão bonita: solidão de fel na promessa de alguém. A pessoa que diz que vem e não chega. Aquela que chega e te rasga a fé. Aquela que vai e te rasga a alma. Pedaços de lâmina entre as pulsações, cortando o peito por dentro. Palavras de desagrado, mentidas, oleadas nas mãos secas da desumanidade.
Se não fosses tão bonita, olharias o horizonte para descobrir a parede de betão e concreto. Cada passo seria a luta de uma eternidade. Um avanço duro, esgotado de forças, esgotado de ti. E o sangue nas mãos que embatem contra o destino que se não move. Fumo em vez de nuvens. Penhascos em vez de céu.
Espelho meu, espelho meu. Se não fosses tão bonita. Nas tuas palavras de atrito. No teu pensamento interrogativo. Na tua forma de ver o mundo. Se não fosses tão bonita. Na brusquidão da tua sinceridade. No erguer do sobrolho da tua inquietude. Na profundeza da tua mente irrequieta. Nas tuas perguntas dispersas, que descentram os limites e incomodam as pessoas. Se não fosses tão bonita...
Amei-te a alma. Lá, no jardim dos espinhos. Por entre as pedras, e os silêncios, e os penhascos. Espelho meu, espelho meu. Um medo que atordoa. Um pensamento que mói. E plantei flores no jardim da mágoa, construí muralhas com as pedras do caminho, cantei canções nos silêncios ancorados do mundo. Dos penhascos fiz asas. Dos espinhos fiz armas. Não sabia que serias tão bonita.
Espelho meu, espelho meu. Pela beleza do teu rosto que te suaviza a rudeza das palavras. Pela leveza do teu corpo que emerge as noções do teu questionamento. Pela forma ténue dos movimentos que agradam mesmo aos pobres de espírito. Sou eternamente grata aos Deuses.
O mundo que embateu contra mim, embala-te. As pessoas que me pisaram, elevam-te. O mundo que me destruiu, coroa-te. Mas ainda és espelho de mim. Não te perdeste no embalo do mundo nem te iludiste com a realeza das vénias.
Se não fosses tão bonita... o mundo seria diferente se não fosses tão bonita. Mas tu não. Tu serias igual. E ainda terias as asas, e a música, e a muralha. Ainda terias um jardim de flores plantadas. E ainda me terias ao lado, empunhando as armas de espinhos. Chegarias ao horizonte. Nem que te levasse ao colo.
Espelho meu, espelho meu: se não fosses tão bonita, ainda serias o meu mundo.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A feira dos enganos


"Vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra." Era o que dizia o letreiro. Mesmo à frente da banca vazia. Mesmo à frente da rapariga de olhar realista e duro. De braços cruzados. Semblante firme, desencantado com a vida. Tinha ar de pessoa que conhecia o mundo. E, à sua frente, o letreiro. Um letreiro onde se lia: "vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra.".

Mas ninguém se aproximava dela. Embora fosse bonita. Se lhe dissessem que o era, provavelmente diria apenas que a beleza era um conceito inexistente, feito e formatado para integrar padrões irrealistas e fazer as pessoas gastar fortunas à procura do ideal  da perfeição. Ninguém lhe dizia que era bonita. Ninguém se aproximava dela ou da banca onde permanecia, vendendo verdades.

Quando começara a vender verdades, tinha vendido uma ou duas. Tinha vendido a alguns depressivos, presos em relacionamentos abusivos ou sem amor, a noção de que tinham duas pernas e desculpas demais. Tinha vendido a alguns famosos a ideia de que, no prazo de dez anos, ninguém saberia quem eram. Tinha vendido a algumas beatas a ideia de que não importava quantas promessas faziam e cumpriam, nem quantos Domingos passavam a murmurar orações na igreja, se a seguir tricotavam e vestiam nos becos das ruas alguns dos traços mais desprezíveis da humanidade.

Fizera poucas vendas. Todas repletas de qualidade. Mas poucas. E pouco importava a qualidade do produto que vendia. Ninguém gostava dele. A verdade estava para as palavras como os brócolos estavam para os legumes. Não importava quão bons fossem, a grande maioria das pessoas seria sempre, de alguma forma, intolerante a eles.

Ela continuava lá. De braços cruzados. Na feira. À espera do cliente que não vinha. E ela sabia que não vinha. Nem dizia a si própria outra coisa. Sabia que ia levantar-se da cama. Abrir a banca. Esperar pela hora do fecho. Sem uma venda. Nem uma sequer. Levantava-se apenas para colocar o letreiro e o retirar. O letreiro onde se lia: "vendo verdades por 5 cêntimos. Preço por palavra.".

A feira tinha a abertura e o fecho. A banca estava vazia. A feira enchia e esvaziava. A banca estava vazia. E, na banca vazia, ela estava cheia de verdades para dizer. Mas ninguém queria ouvi-las.

Ao seu lado, outra banca. A fila alongando-se por metros e metros. As pessoas expectantes. Mesmo ao pé da banca vazia, que ignoravam. Alinhavam-se, em filas mais ou menos coordenadas. Com risinhos e conversas fúteis. Aguardando pela vez. Ao lado da banca vazia da rapariga das verdades, estava a  mais popular da feira. Sempre cheia. Da abertura ao fecho. Também tinha um letreiro. O letreiro dizia "Vendo mentiras bonitas a  10 cêntimos por palavra.".

Marina Ferraz



*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 30 de março de 2016

Ainda te lembras?


Ainda te lembras? O dia em que o viste pela primeira vez. Aquele rosto de herói de telenovela, o semblante de artista de cinema. A forma como, ridiculamente, não conseguiste descolar os olhos dele. A maneira como ele te sorriu, devolvendo-te um olhar cheio de sonhos.
Ainda te lembras? Falaste dele à tua mãe, à tua irmã, às tuas amigas. E riste da ideia de que o destino te pudesse levar ao encontro dos braços dele. Mas ele levou. Não foi? Deste por ti a passear pelas ruas, perdida em conversas que te pareciam mundos. E desejaste, em silêncio, que ele te desse a mão. Não acreditavas que fosse acontecer. Mas aconteceu. Não foi?
Ainda te lembras? A passagem lenta, permeada de segundos que eram horas, da mão dada à partilha do beijo. Ali, mesmo em frente ao rio. Com as árvores de testemunhas e as nuvens apressadas para não choverem sobre o nascer do vosso amor.
Ai! Como o amavas, nesse tempo em que ele te era improvável e o improvável te acontecia. Amava-lo tanto que acordavas a sorrir. Cantavas pela casa. Espetavas beijos repenicados nas bochechas dos teus pais. Rodopiavas. Dançavas. Parecias tola. Sim! Parecias! Mas não eras... eras apenas alguém que estava a encontrar, nas dobras da folha da vida, os primeiros contornos do amor. E nascia, nesse valezinho da tua história, um pássaro que era o sonho. Deixaste-o voar pelo céu da tua esperança.  E ele voou mais alto do que podias sonhar.
Ainda te lembras? O dia em que ele te apareceu à porta, engolindo em seco, para te dar um ramo de rosas e conhecer os teus pais. A maneira como se sentou à mesa, por entre a paixão e o desconforto e anunciou que tinha, por ti, apenas sentimentos caros e boas intenções. A maneira como o teu pai lhe apertou a mão antes dele sair, resmungando entre dentes que nunca ninguém seria bom o suficiente para ti. A forma como, olhando os teus olhos, meios chorosos, acrescentou: "mas parece bom rapaz". E a resposta que lhe deste: "é, papá, é o melhor homem do mundo".
Ainda te lembras? O melhor homem do mundo levou-te ao topo da montanha, ajoelhou-se, estendeu-te o anel e implorou, mais do que pediu, para que fosses dele. Justificou: "não quero viver mais um dia sem ti. Quero morrer ao teu lado. Não há ninguém como tu!". E tu, que não acreditavas que fosses especial, aceitaste-lhe as palavras e o anel. Subiste com ele ao altar. Fizeste votos de amor perante a tua família, os teus amigos e o teu Deus. E desceste na alegria de trazeres outro nome e a promessa de outra vida.
Ainda te lembras? À medida que os anos passaram, ele deu-te o calor das manhãs de sol com um beijo e a dádiva de dois filhos. Esteve ao teu lado no nascimento dos dois, limpando-te o suor da testa e, desgrenhada e pálida, olhou para ti e disse-te que eras linda.
Não creio que te lembres. Ouço-te dizer que não queres voltar para casa. Que te cansa a presença dele. Que precisas de tirar férias do teu casamento. Mas olha bem: sentado no sofá, ainda que tenha todos os defeitos do mundo, está alguém que te deu os melhores momentos da tua vida, alguém que te quis, alguém que te apoiou... Ainda é o mesmo homem do rosto de herói de telenovela e semblante de estrela de cinema. Ainda é o mesmo homem que descreveste como "o melhor homem do mundo".
Talvez, na ilusão do tempo, te cansem os pormenores desengraçados do convívio diário. Talvez eles pareçam maiores do que os elogios que lhe teceste. Talvez te sintas traída pela forma como a paixão virou rotina. Mas lembra-te. Lembra-te dele. Lembra-te da forma como o teu coração batia na presença dele. Acima de tudo, imagina uma vida onde ele não esteja. E valoriza tudo o que terias perdido sem o amor.
Ainda te lembras? Os votos. "Vou amar-te para sempre." Faz isso! Ama o amor. Ama-o.  Ele ainda está aí.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet

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