Não é como se alguém me quisesse. Porque é que ninguém me
quer? Não tenho olhos azuis nem cabelos louros. Mas sou um menino. Tenho boas
notas. Uma vez uma senhora disse-me que tinha um sorriso de super-herói. Não é
como se alguém me quisesse. Mas expliquem-me... porque é que ninguém me quer?
A vida não me quis. Começou por aí, por um abandono do
mundo. No dia em que nasci, sob o sol inebriante de uma Primavera tardia, a
vida não me quis. Nasci, é claro. Nasci chorando a morte da minha mãe. Um choro
que duraria anos, até me explicarem que a mãe está no céu. Mas que céu? O céu
não me quis. Quando falo com ele não me responde, embora as estrelas me pisquem
o olho e a lua se parta como o meu coração.
Talvez a minha mãe me quisesse. Nunca vou saber. A vida não
me quis. O mundo não me quis. E, indignados com o meu nascimento, vingaram-se
nela. Ela também não tinha cabelos louros. Também não tinha olhos azuis. Mas
era bonita. Vejo-a a sorrir na fotografia. Era bonita.
Não é como se alguém me quisesse. O meu pai, esse pai que as
histórias dizem que amou a minha mãe, nunca me amou. Lembro-lhe, qual miragem,
o rosto embaciado. Memória fugaz, de um desaparecimento eterno. Lembro-o com a
dureza do rosto e das mãos, com um copo na mão, a gritar ao telefone. Ou com as
paredes, quando já ninguém ligava. Um dia, o rosto foi-se. A casa ficou vazia. Eu fiquei só.
Achou-me ali, sentado no degrau da casa, uma senhora sem
nome. O rosto dela, enrugado. As mãos queimadas do sol. Estendeu-mas,
agarrou-me junto ao peito com ternura. Julguei que me quisesse porque me disse
que sorrisse porque tinha o sorriso de um super-herói. Mas ela também não me
quis. Levou-me para uma casa com outros meninos. Disse-me que eles eram como
eu. Que também não tinham mãe nem pai. Mas eu tenho mãe e pai. A mãe está no
céu e o pai está algures com um copo na mão a gritar com as paredes.
Não é como se alguém me quisesse. As outras crianças
disseram que eu era esquisito. As famílias de acolhimento levaram-nas, uma a
uma, entravam e iam, iam indo. Eu fiquei. Ninguém me quis.
Eu sei. Não tenho olhos azuis nem cabelos louros. Mas som
bom aluno. Entrei para a escola e a professora dá-me boas notas. Já sei ler
mais ou menos e sou bom com as contas. Porque é que ninguém me quer?
Ontem fizemos uma prenda para o pai. Pintámos uma imagem. E
eu pintei. Pintei como me lembro. Lembro-me mal. O meu pai é gritos e um copo
meio vazio. Não sei bem os traços do seu rosto nem as cores da sua face.
Sei-lhe as palavras chutadas, como se tudo fosse vermelho.
Assustaram-se com o vermelho. O rosto vermelho. Os olhos
vermelhos. Porque é que se assustaram com a imagem vermelha do meu pai? Foi por
isso que me disseram para vir aqui, ao seu gabinete, não foi? Pelo vermelho.
Entenda, não é como se alguém me quisesse. Mas o senhor diz
que pode ajudar-me. Diz que posso falar consigo. É assim, não é? Então,
diga-me...eu só quero saber... porque é que ninguém me quer?
Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet


.jpg)



.jpg)


.jpg)