terça-feira, 17 de maio de 2022

 


Há um relógio no corredor. Com laivos dourados. E um simples, redondo e branco, na casa de banho. E o do pulso, de metal. Os ponteiros marcam horas, minutos e segundos. Mas eu não noto que se importe com o tempo. Não quando estamos ali.

 

 

 

Há muitas histórias penduradas nos lábios que sorriem. E, quando sorri, enrugam-se-lhe mais os olhos, tão iguais aos da irmã. Às vezes, quando sorri, é como se ela sorrisse. E, como a amava mais do que a minha própria vida, sorrio também.

 

É leve e divertido. É inteligente e cativante. Sobre o amor tem histórias que descrevem o amor. Sobre o trabalho, aventuras de fazer corar as pedras da calçada. Há uma anedota e outra, ponteando a conversa. E memórias ocasionais, que lhe vertem dos olhos com saudosismo.

 

 

Éramos cinco. Diferentes como estes cinco dedos. Abre a mão para nos mostrar os dedos, na mão onde o relógio dá horas, sem que ele queira saber do tempo. Mas eu sou o mais diferente de todos.

 

Olhando para ele, recordo outras histórias. A do “maninho” que nasceu à minha avó, desavisada, que nem notara a gravidez da mãe. A das folhinhas de amoreira que ela pedia ao senhor Tomé, no Seminário, para que ele pudesse criar livremente os seus bichos-da-seda. Mas depressa me salta a memória para o chá, na mesa dos meus avós, com a tia a ouvir as anedotas que ele descreve picantes e a dizer, em uníssono com a minha avó: Oh Zé!

 

Sobreviveu a ambas. Talvez justamente pela sua forma jovial e ridente de viver os dias. Mas sente-lhes a falta. E lembra-as com um cuidado extremo, manuseando as memórias com um cuidado tal que parece acariciar pétalas de flores vivas, muito frágeis, muito sensíveis.

 

É um homem com dias cheios e feitos de gente. Toda a gente o conhece, porque ele se dá a toda a gente. Entrega o nome, essa relíquia de mãe e pai, graça de outros tempos, e usa-o para criar laços. No caderninho onde anota os contactos, existem funcionários de supermercado, amigos inusitados e médicos de todas as especialidades. Sempre privados. Ao hospital, ele que trabalhou em saúde, chama de matadouro.

 

Pensaríamos facilmente, pela lista de contactos vasta, que é um homem social. E é. Mas só o é até não ser, porque ninguém pense domar-lhe o espírito ou moê-lo para fazer farinha. Eu sou o que sou. Mas quando deixo de ser o que sou... nunca mais volto a ser o que sou. Palavras ditas à porta de um elevador. No rés-do-chão. Mostrando-lhe os alicerces que sustentam o Eu. Mas ele sabe. Eu sei. Sabemos todos. A sua alma mora na cobertura do edifício mais alto da cidade, onde é dona de muitas qualidades fora de época.

 

Bebemos um copo de vinho. Ele prefere os que têm a casta Syrah. Água é para que uma pessoa se afogue. Brincamos. Mas se for para afogar, que seja com a água de Penacova, que é mais filtrada. Chegamos à conclusão que a malha que me tece tem muito da dele. E sinto orgulho.

 

Todos os relógios param. O do pulso. O da casa de banho. O do corredor. Aquele pequenino e nunca referido que fica, azul, na sala. Todos param quando chego e voltam a correr quando saio.

 

 

 

Ele para o tempo. Faz viagens no tempo. Acorda fantasmas idos. Oh Zé... Faz previsões de eternidade. E toca-me na mão, levemente, para contar mais uma história, mais uma anedota, mais uma lembrança...

 

Saio de lá muito rica, depois do tempo parado. E gosto do meu nome na voz dele, mesmo na despedida. E do sorriso que me traz de volta outro olhar. Embriago-me de sensações.

 

Há um relógio no corredor. Com laivos dourados. E um simples, redondo e branco, na casa de banho. E o do pulso, de metal. E mais alguns que se espalham, aqui e ali, pela casa... Mas, realmente, eu nunca olho para eles. E ele também não. E sabem porquê? O tempo é curto demais para isso... e ficam sempre histórias por contar.


 Marina Ferraz





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