terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Carta aberta ao rio

 

Imagem da Sic Notícias

Mondego,

 

Esta carta é para ti, mas não é. Porque vens de um ciclo. E esse ciclo é maior do que tu. Então, embora me dirija às tuas águas, sabes que falo também do céu e das nuvens, dos ventos e das margens, das gentes e dos peixes. Falo-te como se fosses universo. Não te importes com isso! Não penses que, na tua pequenez de rio, não mereces essa condição infinita do que vai além do mundo. Acredita, já conheci pessoas infinitamente mais pequenas e que se julgam universo... Está tudo bem!

 

Algures, no fino fio do teu nascimento gelado, vieste correr país até te fazeres Atlântico. Eu venho da tua nascente e até à tua foz. Fiz-me gente neta de filhos do teu nascimento. Cresci na tua margem, nunca à margem de ti. Povoo ainda a tua foz, para me banhar na ideia de me corres dentro.

 

Da mesma forma que não és universo, mas rio... eu não sou humanidade, mas humana. Da mesma forma que te transformo no tanto que não és, deixo-me transformar no tanto que não sou... e que me parece tão pouco.

 

Devo-te, nessa condição de humanidade, um pedido de desculpas. Enquanto te domávamos e vilipendiávamos com a nossa ideia de superioridade. Enquanto engendrávamos caminhos que não tinhas, impúnhamos limites que não querias e travávamos o teu correr, tiranamente esquecemos a tua força.

 

À força quisemos ser mais do que tu. E elogiámos os nossos feitos, negando consequências que não víamos. Mas a tua força, infinitamente superior à nossa, é paciente: caraterística que tanto falta aos humanos, como eu. Diria que é o maior antagonismo entre Natureza e homem. A tua força demora, mas não falha. A nossa é rápida e só não falha em falhar.

 

Galgaste as margens e bebeste as casas. Lágrimas uniram-se ao teu leito e aumentaram-te o imenso caudal. Alguns dirão que nos deves um pedido de desculpas.

 

Mas não. Não é para cobrar essa dívida cogitada por gente que te escrevo. Escrevo porque nós te devemos um pedido de desculpa.

 

Por entre tanta dor e tanta destruição, não sei se alguém se lembrará de o fazer: de te pedir desculpa. Pelos olhos fechados, pela ambição excessiva, pelo jogo do humano divino que quer controlar até a Mãe. Não posso, como imaginas, ser humanidade a desculpar-me ao universo. Quem sou eu? Mas, agora entre mulher e rio, peço-te perdão pela cegueira e pela tirania.

 

Como tu, impõem-me caminhos e rotas, vedam-me passagens e determinam margens. Na maioria dos dias (sou) rio... e só me apetece chorar.

 

Se eu chorasse, tenho a certeza: também inundava o mundo.

 

 

Uma filha da tua margem


Marina Ferraz



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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Os dispensáveis

 

Imagem do Expresso

Todos são iguais. Exceto os que, por motivos de força maior (ou menor), são menos iguais. E os que, por razões várias, são simplesmente desiguais.

Assim se entende a desigualdade entre quem vota, quem não vota, quem podia votar e não votou e quem não podia votar, mas queria fazê-lo.

 

Quem me conhece sabe que sigo noites eleitorais de uma forma semelhante à de qualquer apostador desportivo na final da Champions. Quando chega a grande noite, já tenho a literatura toda. Li os programas dos partidos, vi os debates, procurei notícias nacionais, internacionais e siderais. Sei as sondagens (embora não lhes ligue muito) e, mesmo descrente de que a ação divina venha a alterar resultados, ponho uma velinha à esquerda... É a esperança de dizer paz à sua alma a uma tirania que segue viva.

Por norma, se é noite eleitoral, mesmo sem televisão, tenho um navegador web aberto, com sei-lá-eu-quantos separadores, para garantir que vou acompanhando a par e passo os números, as declarações, os comentários. Como qualquer bom adepto, neste caso do Clube da Liberdade, também me exalto, enervo e só não roo unhas porque nunca as tenho muito acima do sabugo.

Ainda assim, no domingo, não o fiz. Era, talvez, o momento de decisão mais importante dos últimos anos, mas não o fiz. O desconforto, tão presente em mim, fez-me sentir que não queria, não podia, fazer parte disto... Não quando 36 852 eleitores eram transformados em gente dispensável.

 

Voltemos atrás.

 

Eu votei no dia 1 de fevereiro, em mobilidade. As eleições, agendadas para dia 8, depois de duas tempestades agressivas e que devastaram parte do país, deixaram de fora algumas zonas afetadas, onde (e bem!) se adiou o sufrágio. Ficaram, então, os referidos 36 852 eleitores com as eleições proteladas para o próximo dia 15 de fevereiro. Ora, quando eu votei, não houve noite eleitoral. Faz sentido. A contagem, julguei eu, deveria ser feita com a totalidade dos votos e não com os votos antecipados. Votar, afinal, é um direito e um dever! Mas, para minha surpresa (e indignação), a noite eleitoral de dia 8 decorreu como se nada fosse. O vencedor e o vencido foram anunciados. Fizeram os seus discursos. Os media beberam de toda a narrativa, sempre dizendo que os votos de dia 15 não podem alterar o resultado, o que matematicamente faz sentido, mas...

 

Tudo bem! Esses votos não alteram o resultado. Digamos a esta gente, portanto, que é dispensável. Que ir votar ou não ir votar é igual. Que o seu voto não serve para decidir nada.

 

Ide lá agora dizer que todos são iguais. Porque eu insisto. Todos, exceto os que, por motivos de força maior (ou menor), são menos iguais e os que, por razões várias, são simplesmente desiguais.

 

O facto é que esta eleição, de resultado animador (dadas as opções) valorizou, a meu ver, um argumento que cabia ao vencido: há cidadãos de primeira e de segunda.

 

A mensagem que isto me passa é simples: cuidado minha gente! Se perderem tudo... provavelmente, perderão mais. Até a relevância da vossa cidadania. Até a relevância do vosso voto. Além de desalojados, serão dispensáveis...

 

Escrevo isto com tristeza.

 

E logo agora! Logo nestas eleições, nas quais o resultado poderia ter-me aliviado o espírito.


Marina Ferraz



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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O (falso) herói

 

Imagem retirada do jornal Expresso

Há uma frase que me acompanha desde menina. De tanto a escutar, não sei a origem. Sei que se me entranhou nos poros. Nada atrapalha mais quem faz do que aquele que nada faz. Expressão que toma também outras formas, que passo a citar para que não existam erros de interpretação, tão frequentes quando a verdade não convém: se não podes ajudar, não atrapalhes.

 

Bem-vindos à campanha eleitoral em tempo de destruição. É um bocadinho tipo amar em tempos de cólera, mas menos literário e mais corrosivo. Filme de comédia triste que ninguém pediu. Sequela de outros filmes. Quase se ouve o genérico: Dos mesmos produtores de “vou ali bater com um raminho num fogo extinto”, chega agora o emocionante “vou ali entregar três garrafinhas de água no meio dos escombros”. Corramos para o cinema, a sessão passa às 13h e às 20 nos canais nacionais e tem seguimento permanente nos canais incluídos nos serviços das principais operadoras de subscrição de TV.

 

Ali está, o herói. Rosto lívido, olheiras fundas. Nem dormiu a pensar que teria de usar a força braçal para transportar itens de primeira necessidade. E não pensemos que seja fácil ou leve. Não são garrafinhas de 250 ou 300 centilitros, nem de meio litro sequer! São de litro e meio, está bem? Tenham tento na língua antes de criticar! Agora sua, descendo escadas com o peso atroz dos produtos. Benze-se, porque todos sabemos que água benta hidrata mais. Aplauda-se o herói. Mas ele nega que o seja. Só um homem, sendo homem. E que importa isso da campanha? Aplauda-se o homem a ser homem, então. O salvador, descido pelos degraus de pedra como Cristo dos céus, ou assim se imagina que possa ser, para cumprir a missão divina que em outras ocasiões já revelou ao mundo. Deus lhe confiou uma missão. Palavras antigas, mas que assim se confirmam com o milagre da conceção de produtos potáveis à desgraçada gentinha.

 

As câmaras viradas para o herói ignoram temporariamente as aldeias remotas às quais nenhuma ajuda chega. E a cidade destruída. E a ausência de luz. E de rede. E de geradores. Voltará lá, porque dá audiências. Mas pára tudo! É preciso mostrar o heroísmo político das gentes da nossa raça. Exultar a gente da nossa raça. Que sabemos todos que se esta tempestade fosse uma Maria em vez de uma Kristin, estaria tudo em pé, como a azinheira de Fátima... mas vêm esses estrangeiros e já se sabe... pobres que são, tudo estragam. Eis a prova!

 

Largando o herói, que não direi quixotesco para não ofender D. Quixote, deixem-me focar os heróis reais. Gente saída à rua para ajudar. Voluntários. Bombeiros. Escuteiros. Pessoas que, mesmo com pouco, dão o que têm, nem que seja o corpo ao manifesto. Não haverá filme sobre eles, nem atenção na hora nobre da TV. Anónimos chegam e partem, fazendo o que podem: tanto, com tão pouco. Aceitando, com um simples revirar de olhos (ou nem isso) que a atenção do país seja voltada para o herói máximo, esse divino, das garrafinhas. Aceitando que os pedidos de ajuda sejam interrompidos para ouvir a sua retórica.

 

Comenta-se. Uns gritam, outros sussurram. Toda a gente consegue transportar duas garrafinhas de água e acenar para a câmera. Qualquer pessoa! Até uma criança de 3 anos!

 

Ouçamos esses gritos e sussurros.

Caríssimos salvadores divinos, rostos magnânimos da política portuguesa, transportadores de meia dúzia de mantimentos e palavras ocas.... por favor, se não forem para realmente ajudar, fiquem em casa, onde não atrapalham. Quem realmente quer trabalhar, agradece.


Marina Ferraz



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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Aviso de tempestade

 

Imagem retirada do Pixabay

Enquanto lá fora acontece aquele fenómeno estranhíssimo chamado inverno e a Proteção Civil nos vai avisando que Josephs e Kristins estão de passagem pelo território português, trazendo de outras terras o seu mau feitio, eu vou driblando outras tempestades, que chegam em tempo de campanha.

 

Discursos e discursozinhos tentam mostrar-nos o mau e o péssimo, pintando-os de ouro ou carvão. O país divide-se, subitamente, entre extremistas de direita que se dizem moderados e especialistas versados sobre a constituição que se dizem democratas.

 

Aqui e ali, vão caindo apoios a conta-gotas, que acrescentam à poça já lamacenta mais um pedaço de sargaço. Posturas e posições são elogiadas ou criticadas, como se fossem espelho de uma convicção ou de uma alma. A crítica e o elogio esquecem que o mercado de influências, como o do futebol, se move maquiavelicamente por interesses que enchem contas bancárias. Quantas vezes teriam vozes um som tilintante, não fosse a digitalização da moeda? Jamais saberemos...

 

Convém não pensar nisso. Mais concretamente convém que nós – o miserável e útil povinho – não pensemos nisso. Nas trocas de valores e de promessas e de favores... Convém que o vento a 140 km/h varra do nosso pensamento qualquer réstia de bom senso, para sermos parte da horda e amiguinhos do sistema.

 

Comunicação e política focam-se na tempestade e pedem-nos, subrepticiamente, que não sejamos tempestade. Duas palmadinhas nas costas e a frase feita que convém ao momento: Não faças uma tempestade num copo de água.

Que copo? Que água?

Estamos a morrer à sede neste país à beira-mar. Mas, por falar em beira-mar... alerta vermelho de agitação marítima. Foquem nisso. Não saiam de casa. Já há ondas que cheguem. Não façam ondas, pessoas...

 

A alma dói. O ano passado já se falava em mais de 14 mil sem-abrigo em Portugal... ficamos em casa... e eles?

Entra o entretenimento para nos fazer esquecer também disto. Tomara que não falte a luz, para que a televisão se mantenha ligada e possamos acompanhar os enredos especialmente selecionados para a nossa paz mental.

 

A segunda volta das presidenciais ainda está a duas semanas. O vento vai ser pior esta noite, mas tudo passa. Mudem o vosso carro, se estiver debaixo de postes e árvores. Liguem a televisão. Desliguem a mente. Distraiam-se.

 

Não façam tempestades num copo de água. Num copo de vinho, ainda vá que não vá, porque a embriaguez anestesia. Mas num copo de água... isso não!


Marina Ferraz



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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O cubículo

 


O voto é livre e livres vamos. É esta a ideia, não é? A da liberdade. A da liberdade que levamos ao opressivo cubículo da cabine eleitoral, escondendo o rosto e pegando na caneta para exercer um direito, um dever. Agentes secretos expondo o enigmático X. As nossas ideias. Ou as ideias que nos impingem. Uma delas.

 

Ali, no cubículo, escondidos da realidade triste da vida, somos os heróis e os vilões. Talvez por isso ocultos atrás da massa opaca, para que não nos vejam os intérpretes dessas subjetividades. Ali, no cubículo, compomos versáteis narrativas de alguns segundos. Somos observados, mas só pelos candidatos. Esses olham-nos. Todos sorrisos. Atiram-nos falsa felicidade a partir dos seus quadradinhos. Sorriem como fizeram nas fotos dos seus casamentos. Forçadamente e a questionar, no seu íntimo, se não estariam melhor noutro lugar. Mas impera sorrir. Sorrisos cativam votos. X marca o lugar. Era assim com os mapas do tesouro. E eles querem ser o tesouro. Só assim podem lucrar com o tesouro.

 

Candidatos que o são e candidatos que não o são sorriem-me. Têm narrativas nos olhos. Alguns dizem que querem salazares e outros que querem um jornalismo mais manso. Alguns dizem que querem salvar o mundo. E há quem seja mais lúcido e diga que quer putas e vinho verde. Abençoados sejam os honestos, que para eles sempre haverá uma adega.

 

Ali, no cubículo, eu talvez devesse ouvir o que dizem esses caçadores de voto. Antes que lancem os cães, achando que o engodo vertido não basta. Mas envolvem-me as estruturas metálicas do verbo desdito e a caneta fala mais alto, enforcando-se no fio que a amarra. São as suas súplicas que ouço, enquanto tiranamente a sufoco com os meus dedos para que cumpra a minha vontade. Essa de oferecer o dito X a algo que se aproxima mais do sonho que eu tenho para o meu país. Essa de fazer parte do legado-dádiva que os meus avós me deram, tentando honrar-lhes a memória e seguir a minha própria voz.

 

Saio. O opressor cubículo é de liberdade e, por isso, dobrando em quatro o boletim, saio.  Saio como quem vai respirar o ar que faltava. Como se o sufoco arrastasse. A cabine de voto é uma divisão onde os tetos são de fragilidade e as margens são ansiosas.

 

O voto é livre e livres vamos. Mas até a caneta está presa por um fio. Quem é queremos enganar? O X marca o lugar do nosso enforcamento. Estamos a escolher a corda.


 Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Útil

 

Imagem retirada do Pixabay

“Útil” é uma palavra que me irrita. Não nasci irritada com ela. Nasci como nascem os bebés, inútil e sem saber palavras, incluindo essa. Mas cresci e, com todas as ferramentas alegadamente úteis da escola, que queriam tornar-me útil para a sociedade e garantir que seria uma boa escrava ao longo das horas úteis dos dias úteis, desenvolvi um inútil rancor à palavra.

Úteis, diria a minha avó, eram os dicionários. Nestes, ensinou-me a pesquisar palavras. Útil: Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso. Pois sim...

 

Vejamos alguns exemplos:

O dia útil é, frequentemente, aquele no qual não aproveitamos o dia para nada que nos preencha. Dias de trabalho, frequentemente em ambientes fechados, em gabinetes sem janelas, depois da hora de ponta da manhã e antes da hora de ponta da tarde.

A dica útil é, lembremos, aquele conselho não solicitado que alguém se lembrou de dar porque é sempre mais divertido metermo-nos na vida dos outros do que cuidar da nossa...

A vida útil é, frequentemente, o tempo do alegado bom funcionamento e raramente ultrapassa o tempo da garantia antes de um equipamento estourar.

 

Ou seja: não é que não seja útil, a questão é: útil para quem?

 

Ouvindo falar de voto útil, arrepio-me. Vou ao dicionário, como a minha avó me mandaria fazer, apenas para constatar que não me equivoquei quanto ao significado do termo. E lá está a confirmação:  voto: ato de votar; votação; manifestação da vontade ou opinião numa eleição ou numa assembleia; ato de escolher por meio de votação; sufrágio.

Falar de voto útil é compactuar com o sistema, com os outros, com a narrativa em vigor, com o diz-que-disse, com a dica útil, com as sondagens e com a puta que as pariu a todas. Votar útil é não votar, porque não existe a real manifestação da vontade individual, nem o ato de escolha baseado na preferência do eleitor.

 

Sempre que alguém se faz útil, está a fazer-se útil aos que fazem dos outros mera ferramenta. Degrau para o palanque, que pisam a bel-prazer. E, por isso, encaro que o voto útil seja uma espécie de vénia muito rentinha ao chão, na qual esquecemos que o direito de escolher é algo que se perde com facilidade e demasiado valioso para que dele assim se abdique.

 

Votarei em quem quero e não em quem querem que eu queira. Votarei sabendo que a possibilidade de ver numa segunda volta a pessoa em quem voto é quase irrealista. E votarei sabendo que essa fantasia só o é porque muitas pessoas querem ser úteis. Votarei em quem perde, com orgulho, mas recusando-me a ser degrau para levar ao pódio as gentes úteis que não têm feito mais do que aproveitar-se da nossa utilidade para rechearem as próprias contas e atingirem interesses pessoais.

 

Há um tipo de voto ao qual chamam voto útil. Eu chamo-lhe voto fútil. Reflexo de uma sociedade embrutecida à conta do desgaste da cultura e da educação. Pensar nisto não seria útil... seria indispensável. Logo, não interessa...

 

Não creio que este seja um texto útil... mas talvez, assim, sirva para alguma coisa!


 Marina Ferraz



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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

É a falar

 

Imagem retirada do Pixabay

É a falar que as pessoas se entendem. Isto dizia, em tom de desentendimento, uma senhora ao marido no supermercado. As prateleiras, que não falavam, olhavam para eles com os seus olhos-produto. Imaginei o que pensará uma lata de polpa de tomate quando ouve uma destas. É a falar que as pessoas se entendem.

 

 

Ando por aqui há uns meses e a validade do meu B.I. diz-me que, provavelmente, metade das pessoas no supermercado irão levar-me a dianteira. Dirão que estou processado – estou – e que sirvo só para quando não há outro mais fresco – válido. Mas, no processo, o facto é que já vi de arbusto e mão e fábrica e lata mais do que muito tomate que se acha melhor do que os outros. Vi homens discutirem com homens sobre procedimentos agrícolas. Mulheres discutindo com mulheres sobre processos de apanha. Homens discutindo com mulheres em procedimentos fabris. Mulheres argumentando com homens sobre distribuição. Enfim, homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, mulher com homem, gente com gente que o binarismo cansa-me até às sementes.

 Ainda que a lata diga do campo para a sua casa, o processo demora mais do que o tempo da leitura. Só isso já me serviria para dizer que a palavra é desentendimento como o desentendimento é palavra. Mesmo sem que seja verbalizada, a comunicação falha. Aqui, vejamos... campo? Que campo? De ténis? De futebol? Minado? Sim, sim, sabemos que provavelmente será agrícola... mas se foi estufa, conta como campo? E sabemos que não o foi? E eu não estou na sua casa. Estou numa prateleira de supermercado, a ouvir uma potencial dona de casa irada a falar do cabrito que o marido quer comprar em vez de borrego, usando as palavras é a falar que as pessoas se entendem com propriedade.

A comunicação é tão estável como isótopos radioativos. Ou, falando em termos mais mundanos – que ninguém precisa de entender de Física Nuclear e da Radioquímica para falar com uma lata de 800 gramas – como um castelo de cartas. As pessoas acham que dando as cartas está tudo resolvido e o jogo se faz... como se não ventasse...

 

 

Talvez a polpa de tomate pense isto. Para um produto de conserva sem sal, até o acho pouco conservador. Mas quem sou eu? Eu só ouço... e sigo em silêncio. Que assim ninguém se desentende!


Marina Ferraz



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