terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Aviso de tempestade

 

Imagem retirada do Pixabay

Enquanto lá fora acontece aquele fenómeno estranhíssimo chamado inverno e a Proteção Civil nos vai avisando que Josephs e Kristins estão de passagem pelo território português, trazendo de outras terras o seu mau feitio, eu vou driblando outras tempestades, que chegam em tempo de campanha.

 

Discursos e discursozinhos tentam mostrar-nos o mau e o péssimo, pintando-os de ouro ou carvão. O país divide-se, subitamente, entre extremistas de direita que se dizem moderados e especialistas versados sobre a constituição que se dizem democratas.

 

Aqui e ali, vão caindo apoios a conta-gotas, que acrescentam à poça já lamacenta mais um pedaço de sargaço. Posturas e posições são elogiadas ou criticadas, como se fossem espelho de uma convicção ou de uma alma. A crítica e o elogio esquecem que o mercado de influências, como o do futebol, se move maquiavelicamente por interesses que enchem contas bancárias. Quantas vezes teriam vozes um som tilintante, não fosse a digitalização da moeda? Jamais saberemos...

 

Convém não pensar nisso. Mais concretamente convém que nós – o miserável e útil povinho – não pensemos nisso. Nas trocas de valores e de promessas e de favores... Convém que o vento a 140 km/h varra do nosso pensamento qualquer réstia de bom senso, para sermos parte da horda e amiguinhos do sistema.

 

Comunicação e política focam-se na tempestade e pedem-nos, subrepticiamente, que não sejamos tempestade. Duas palmadinhas nas costas e a frase feita que convém ao momento: Não faças uma tempestade num copo de água.

Que copo? Que água?

Estamos a morrer à sede neste país à beira-mar. Mas, por falar em beira-mar... alerta vermelho de agitação marítima. Foquem nisso. Não saiam de casa. Já há ondas que cheguem. Não façam ondas, pessoas...

 

A alma dói. O ano passado já se falava em mais de 14 mil sem-abrigo em Portugal... ficamos em casa... e eles?

Entra o entretenimento para nos fazer esquecer também disto. Tomara que não falte a luz, para que a televisão se mantenha ligada e possamos acompanhar os enredos especialmente selecionados para a nossa paz mental.

 

A segunda volta das presidenciais ainda está a duas semanas. O vento vai ser pior esta noite, mas tudo passa. Mudem o vosso carro, se estiver debaixo de postes e árvores. Liguem a televisão. Desliguem a mente. Distraiam-se.

 

Não façam tempestades num copo de água. Num copo de vinho, ainda vá que não vá, porque a embriaguez anestesia. Mas num copo de água... isso não!


Marina Ferraz



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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O cubículo

 


O voto é livre e livres vamos. É esta a ideia, não é? A da liberdade. A da liberdade que levamos ao opressivo cubículo da cabine eleitoral, escondendo o rosto e pegando na caneta para exercer um direito, um dever. Agentes secretos expondo o enigmático X. As nossas ideias. Ou as ideias que nos impingem. Uma delas.

 

Ali, no cubículo, escondidos da realidade triste da vida, somos os heróis e os vilões. Talvez por isso ocultos atrás da massa opaca, para que não nos vejam os intérpretes dessas subjetividades. Ali, no cubículo, compomos versáteis narrativas de alguns segundos. Somos observados, mas só pelos candidatos. Esses olham-nos. Todos sorrisos. Atiram-nos falsa felicidade a partir dos seus quadradinhos. Sorriem como fizeram nas fotos dos seus casamentos. Forçadamente e a questionar, no seu íntimo, se não estariam melhor noutro lugar. Mas impera sorrir. Sorrisos cativam votos. X marca o lugar. Era assim com os mapas do tesouro. E eles querem ser o tesouro. Só assim podem lucrar com o tesouro.

 

Candidatos que o são e candidatos que não o são sorriem-me. Têm narrativas nos olhos. Alguns dizem que querem salazares e outros que querem um jornalismo mais manso. Alguns dizem que querem salvar o mundo. E há quem seja mais lúcido e diga que quer putas e vinho verde. Abençoados sejam os honestos, que para eles sempre haverá uma adega.

 

Ali, no cubículo, eu talvez devesse ouvir o que dizem esses caçadores de voto. Antes que lancem os cães, achando que o engodo vertido não basta. Mas envolvem-me as estruturas metálicas do verbo desdito e a caneta fala mais alto, enforcando-se no fio que a amarra. São as suas súplicas que ouço, enquanto tiranamente a sufoco com os meus dedos para que cumpra a minha vontade. Essa de oferecer o dito X a algo que se aproxima mais do sonho que eu tenho para o meu país. Essa de fazer parte do legado-dádiva que os meus avós me deram, tentando honrar-lhes a memória e seguir a minha própria voz.

 

Saio. O opressor cubículo é de liberdade e, por isso, dobrando em quatro o boletim, saio.  Saio como quem vai respirar o ar que faltava. Como se o sufoco arrastasse. A cabine de voto é uma divisão onde os tetos são de fragilidade e as margens são ansiosas.

 

O voto é livre e livres vamos. Mas até a caneta está presa por um fio. Quem é queremos enganar? O X marca o lugar do nosso enforcamento. Estamos a escolher a corda.


 Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Útil

 

Imagem retirada do Pixabay

“Útil” é uma palavra que me irrita. Não nasci irritada com ela. Nasci como nascem os bebés, inútil e sem saber palavras, incluindo essa. Mas cresci e, com todas as ferramentas alegadamente úteis da escola, que queriam tornar-me útil para a sociedade e garantir que seria uma boa escrava ao longo das horas úteis dos dias úteis, desenvolvi um inútil rancor à palavra.

Úteis, diria a minha avó, eram os dicionários. Nestes, ensinou-me a pesquisar palavras. Útil: Que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso. Pois sim...

 

Vejamos alguns exemplos:

O dia útil é, frequentemente, aquele no qual não aproveitamos o dia para nada que nos preencha. Dias de trabalho, frequentemente em ambientes fechados, em gabinetes sem janelas, depois da hora de ponta da manhã e antes da hora de ponta da tarde.

A dica útil é, lembremos, aquele conselho não solicitado que alguém se lembrou de dar porque é sempre mais divertido metermo-nos na vida dos outros do que cuidar da nossa...

A vida útil é, frequentemente, o tempo do alegado bom funcionamento e raramente ultrapassa o tempo da garantia antes de um equipamento estourar.

 

Ou seja: não é que não seja útil, a questão é: útil para quem?

 

Ouvindo falar de voto útil, arrepio-me. Vou ao dicionário, como a minha avó me mandaria fazer, apenas para constatar que não me equivoquei quanto ao significado do termo. E lá está a confirmação:  voto: ato de votar; votação; manifestação da vontade ou opinião numa eleição ou numa assembleia; ato de escolher por meio de votação; sufrágio.

Falar de voto útil é compactuar com o sistema, com os outros, com a narrativa em vigor, com o diz-que-disse, com a dica útil, com as sondagens e com a puta que as pariu a todas. Votar útil é não votar, porque não existe a real manifestação da vontade individual, nem o ato de escolha baseado na preferência do eleitor.

 

Sempre que alguém se faz útil, está a fazer-se útil aos que fazem dos outros mera ferramenta. Degrau para o palanque, que pisam a bel-prazer. E, por isso, encaro que o voto útil seja uma espécie de vénia muito rentinha ao chão, na qual esquecemos que o direito de escolher é algo que se perde com facilidade e demasiado valioso para que dele assim se abdique.

 

Votarei em quem quero e não em quem querem que eu queira. Votarei sabendo que a possibilidade de ver numa segunda volta a pessoa em quem voto é quase irrealista. E votarei sabendo que essa fantasia só o é porque muitas pessoas querem ser úteis. Votarei em quem perde, com orgulho, mas recusando-me a ser degrau para levar ao pódio as gentes úteis que não têm feito mais do que aproveitar-se da nossa utilidade para rechearem as próprias contas e atingirem interesses pessoais.

 

Há um tipo de voto ao qual chamam voto útil. Eu chamo-lhe voto fútil. Reflexo de uma sociedade embrutecida à conta do desgaste da cultura e da educação. Pensar nisto não seria útil... seria indispensável. Logo, não interessa...

 

Não creio que este seja um texto útil... mas talvez, assim, sirva para alguma coisa!


 Marina Ferraz



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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

É a falar

 

Imagem retirada do Pixabay

É a falar que as pessoas se entendem. Isto dizia, em tom de desentendimento, uma senhora ao marido no supermercado. As prateleiras, que não falavam, olhavam para eles com os seus olhos-produto. Imaginei o que pensará uma lata de polpa de tomate quando ouve uma destas. É a falar que as pessoas se entendem.

 

 

Ando por aqui há uns meses e a validade do meu B.I. diz-me que, provavelmente, metade das pessoas no supermercado irão levar-me a dianteira. Dirão que estou processado – estou – e que sirvo só para quando não há outro mais fresco – válido. Mas, no processo, o facto é que já vi de arbusto e mão e fábrica e lata mais do que muito tomate que se acha melhor do que os outros. Vi homens discutirem com homens sobre procedimentos agrícolas. Mulheres discutindo com mulheres sobre processos de apanha. Homens discutindo com mulheres em procedimentos fabris. Mulheres argumentando com homens sobre distribuição. Enfim, homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, mulher com homem, gente com gente que o binarismo cansa-me até às sementes.

 Ainda que a lata diga do campo para a sua casa, o processo demora mais do que o tempo da leitura. Só isso já me serviria para dizer que a palavra é desentendimento como o desentendimento é palavra. Mesmo sem que seja verbalizada, a comunicação falha. Aqui, vejamos... campo? Que campo? De ténis? De futebol? Minado? Sim, sim, sabemos que provavelmente será agrícola... mas se foi estufa, conta como campo? E sabemos que não o foi? E eu não estou na sua casa. Estou numa prateleira de supermercado, a ouvir uma potencial dona de casa irada a falar do cabrito que o marido quer comprar em vez de borrego, usando as palavras é a falar que as pessoas se entendem com propriedade.

A comunicação é tão estável como isótopos radioativos. Ou, falando em termos mais mundanos – que ninguém precisa de entender de Física Nuclear e da Radioquímica para falar com uma lata de 800 gramas – como um castelo de cartas. As pessoas acham que dando as cartas está tudo resolvido e o jogo se faz... como se não ventasse...

 

 

Talvez a polpa de tomate pense isto. Para um produto de conserva sem sal, até o acho pouco conservador. Mas quem sou eu? Eu só ouço... e sigo em silêncio. Que assim ninguém se desentende!


Marina Ferraz



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