Fotografia de Bruna Calado
A madrugada em que agrediram e agrilhoaram a memória deles foi a madrugada mais triste de que há memória. Nessa noite, pisaram os cravos da Celeste; vedaram os caminhos de Salgueiro Maia; e Sophia nem soube dizer qual era a madrugada que esperava. A gaivota não voou. Zeca calou-se. Não houve depois do adeus, mas apenas antes... muito antes... décadas antes de qualquer despedida.
As pedras dormiram ao relento, à medida que se desmontavam as tendas. E os sem abrigo continuaram ignorados na sua condição de gente sem teto. Os heróis foram levados para as esquadras e privados de direitos e dignidade.
Chamaram-lhe contenda. E ninguém depôs as armas. De um lado, cães, balas de borracha, gás lacrimogénio e bastonada... do outro, cartazes, canções, pacifismo e a Constituição aberta. Só isso cabe numa tenda feita de insónia, senhor agente. Senhor, somos gente. Gentilmente pedindo para existir num país que seja mais justo para todos.
De praça em praça, fugindo por medo do agora, aqueles que defendem o futuro procuram ainda quem os entenda e atenda à suas necessidades.
Hoje à noite, depois desta triste madrugada que veio matar os mortos, muitos pais vão beijar os filhos amontoados nas suas camas, num T1 frio e húmido, sem condições, que custa 80% do salário. Não poderão já dizer-lhes que não há monstros na noite, nem que, se os houver, as autoridades ficarão do seu lado. Então, não dirão nada além de boa noite, mesmo sabendo que a noite, tal como a madrugada, é pesada e dolente.
Da praça vêm gritos. Só eles dão esperança. A voz ensonada do menino pergunta quem grita. O pai responde que é o povo. Nós somos o povo. É isto que diz a criança, já entrando no sono fundo. E os pais afundam também, ainda acordados. Da praça vêm gritos. Os heróis cantam em vez de guerrear. Montam tendas que serão desfeitas. Permanecem e lutam.
Densamente tristes, dentro das casas insustentavelmente caras, os casais aninham-se de desespero. Agrediram e agrilhoaram a memória deles. Dos pais. Dos avós. Dos capitães. O salário já não chega a meio do mês... e nunca mais é Abril.
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