quarta-feira, 20 de maio de 2009

Peças Soltas

Vá lá… não tem mal nenhum! Vamos fazer de conta que somos crianças. Que não temos responsabilidades nem horários. Que tu não precisas de sair agora para ir trabalhar e eu não preciso de ir tratar das minhas coisas. Vamos fingir que não temos nada para fazer além de prestar atenção um ao outro, está bem?
Sentamo-nos no chão de pernas entrelaçadas uma na outra, frente a frente. Eu mexo desajeitadamente no cabelo, enrolando-o no dedo com a típica desatenção de quem pensa no que jogar a seguir e tu ris da minha incoerência sem sequer saberes que é isso que te leva a rir.
Então, fingimos que não sabemos nada um do outro. Pode ser? Eu conto-te um sonho meu e tu contas-me um teu, depois eu conto-te um segredo e tu fazes o mesmo. Podemos começar pelas coisas mais simples. A tua cor favorita, o que mais gostas de fazer, qual é o teu clube de futebol… mas tu sabes que são só dois segundos até eu saber quais são os teus medos, de que é que te arrependes mais na tua vida, o que gostavas de ter feito e não fizeste (e porque não fizeste!).
É verdade que também o saberás de mim. Fragmentos do meu passado juntos num puzzle indefinido de milhares de peças. E há aquelas que nunca encaixam, não há? Acontece-me o mesmo quando penso em ti.
Quando dermos por nós, esta corrida louca e ingénua ao passado terá sido o maior erro de sempre mas, ainda assim, prefiro arriscar. Quero saber quem és! Quero saber porque é que olho para ti com olhos-estrela, porque é que me fazes sentir tão feliz.
E eu vou-te pintar de negro e roxo, as minhas cores favoritas enquanto faço o que gosto mais e imagino um futuro para nós. Não entenderás os meus medos nem as coisas de que me arrependo mais porque não sabes que elas só poderão existir depois de ti.
Quando te levantares e acabar este jogo. Quando conheceres de mim mais do que toda a gente e eu conhecer de ti mais do que devia, vai ser aí que as minhas peças soltas te vão começar a incomodar e que as tuas peças soltas vão começar a encaixar erradamente em todo o lado.
Quando acabar o jogo e tu já não estiveres sequer para te sentares comigo e fingires que somos crianças, vai ser aí que eu vou compreender que cada uma dessas peças a que não dei importância faziam parte do teu puzzle e jamais poderiam fazer parte do meu.
Mas hoje eu quero entender porque é que te olho com olhos-estrela. Quero saber porque é que me sinto tão feliz quando olho para ti.
Vá lá! Conta-me um segredo que eu conto-te um meu e não digo a ninguém o que me contares… não tem mal nenhum sermos crianças uma vez mais neste mundo onde crescer é a única coisa que parece realmente errada.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sábado, 9 de maio de 2009

Lágrimas de Pedra II


Hoje, percorri ruas e vielas. Não era a mesma solidão. Já não era a solidão de não haver mais do que ilusões e desilusões na minha vida! Era a solidão deixada pela própria solidão, a ausência desse sentimento que sempre me fez odiar o ar que respirava.
Hoje, cheguei até ti vestida de enganos e de certezas, vestida de orgulho e de esperança. E levaste os meus medos para um qualquer lugar onde jamais poderia chegar sozinha.
Esta noite, ao contrário de tantas noites, tu olhaste para mim e fizeste-me uma vénia. Os teus olhos de pedra estiveram mais perto do que nunca, a tua mão tocou o chão para me cumprimentar. Amei-te mesmo depois de terem manchado a tua fachada. Descobri que te amaria ainda que fizessem contigo as maiores barbaridades e então sorri porque é bom ainda te amar depois de tudo o que se passou…
Calou-se a multidão a teus pés e cantou-se o fado. Cantou-se a beleza, o amor e saudade. As tuas lágrimas de pedra caíram, invisíveis para todas aquelas pessoas, mas eu vi-as. Vi-as quando as guitarras começaram a tocar e quando o meu orgulho e a minha esperança passaram o meu ombro esquerdo e a minha capa foi finalmente traçada.
Senti finalmente que uma era se acabava para outra começar. E ouvi a tua voz uma vez mais, dizendo que eu ia a tempo de mudar o rumo do mundo e que fechar os olhos por um tempo não significava que não pudesse abri-los para ver tudo de forma mais clara.
Então, de capa já traçada, olhei para ti e apercebi-me de que eu era muito pequena e que a vida era grande demais para a perder numa tristeza sem razão.
Não sei se foi pelas palavras finalmente ouvidas, pelos teus olhos pousados em mim ou se foi simplesmente pela minha capa negra finalmente traçada mas senti-me feliz. Realmente feliz. Aquela felicidade completa e única que é tão rara nesta vida.
Talvez o mundo me tenha levado por caminhos errados (tortuosos, até). Ou talvez não tenha sido o mundo. Admito: talvez tenha sido eu própria a culpada dos meus caminhos! Mas esses caminhos errados levaram-me justamente para o ponto de partida. Cheguei a casa. Não sei definir como gosto de voltar finalmente para casa! Gosto de sentir finalmente que sei onde está o meu lar. E se agora me sinto assim, não terão valido a pena todos os meus erros?
As tuas lágrimas de pedra nunca vão secar, da mesma forma que algumas partes de mim continuarão infinitamente maculadas. Tu e eu temos a eternidade. Temos a maravilhosa certeza de que é para sempre! - Tu tens os teus olhos de pedra, os teus abençoados olhos que ano após ano podem presenciar as reacções de pessoas que traçam a capa pela primeira vez, olhos que podem ter um vislumbre de paixão em mil gestos para depois verem num simples olhar o verdadeiro amor. E eu, eu terei sempre esse olhar, esse olhar agora livre de grandes gestos que não valem nada, mas repletos de sensatez e de maturidade.
Cheguei a ti, nua de tristeza e amargura. Foi a primeira vez que me olhaste e viste que eu sorria. Foi a primeira vez que acreditaste na minha expressão alegre. Foi a primeira vez que conseguiste acreditar quando afirmei não ser apenas tua.
E eu ouço a tua voz, como antes ouvia. Falas-me durante alguns minutos, fazendo-me corar um pouco com algumas expressões que, de tão reais, me fazem sentir embaraçada. De súbito a música pára e tu calas-te respeitosamente. Então, ergo o meu tricórnio no ar em vez de bater palmas (afinal, não se aplaude o fado), agito-o levemente num agradecimento mútuo ao fadista que me fez pensar, aos amigos que mataram a minha solidão, às palavras que acalmaram a minha saudade, à madrinha que traçou a capa negra do meu traje minhoto e a ti, meu abrigo, que estiveste aí uma vez mais, olhando para mim por entre a multidão e vendo-me vestida de orgulho e de alegria.
A lua estava cheia e ia alta no céu um pouco nublado. O fado recomeçou e eu vim embora, saciada. Silêncio… ouçam apenas o silêncio agora! Porque é música aos meus ouvidos o bater satisfeito do meu coração!

Marina Ferraz

8 de Maio de 2009
Serenata

quinta-feira, 30 de abril de 2009

As tuas ilusões


As tuas ilusões cansam-me. É como se ouvir as tuas palavras carregadas de sonhos e projectos me fizesse compreender quão superficiais são os meus próprios desejos.
Tu queres tanta coisa! Queres a casa grande no topo da montanha, com vista para um mar sem fim. Queres as viagens e os hotéis e os jantares em casa de familiares e amigos.
Tu queres acordar, olhar ao espelho e acreditar que o teu reflexo é o único reflexo nítido que há no mundo. Queres um elogio quando te arranjas um pouco mais antes de saíres de casa.
Queres ser o melhor entre os melhores, deixar para trás o brilho do teu sorriso e cativar milhões com um olhar ou uma palavra fugaz.
Tu queres o mundo, queres o Universo, queres o que está para além do Universo.
As tuas ilusões cansam-me porque a única coisa que quero é ter-te perto. Quero de volta a pessoa que apenas queria o que eu queria: o Tudo que era termos um do outro mais do que se pode comprar ou receber.
Tu queres as certezas e as incertezas. Queres as festas e os bailes e as pessoas. Queres ser mais do que tu e mais do que eu e até mais do que nós.
Não sei dizer-te como me magoa saber que queres ser mais do que nós… Eu daria a vida apenas para conseguirmos ser o que já fomos.
Falas-me dos teus sonhos e eu apoio-te. Apoio-te porque é a única coisa que posso fazer. Sei que estou a abrir-te a porta para ires embora da minha vida. Tu nem reparas…
As tuas ilusões cansam-me. Cansa-me tentar que me vejas e ser invisível ainda que me digas a cada dois segundos quão fantástico poderá ser o nosso futuro. Cansa-me ouvir-te falar de dias que nunca hão-de chegar. Cansa-me ter de esconder a sonhadora que sempre fui e pousar os pés na terra para que ao menos um de nós tente viver a realidade.
Cansa-me tanto! Cansa-me tanto sonhar apenas contigo, sonhar apenas em manter o pouco que tenho. Cansa-me tanto ouvir-te pedir demais e ter de ser tua aliada nessa guerra que travas com um destino que já nos foi favorável.
Cansam-me as tuas ilusões e ainda mais os meus medos. Assusta-me a ideia de te ver realizar tudo o que queres - não posso negá-lo! Já não mereço o que és agora, algum dia seria capaz de merecer-te se fosses tudo isso?
As tuas ilusões cansam-me. Cansam-me mais do que estou disposta a admitir, mais do que saberia dizer-te. Mas, por favor, não deixes de sonhar nem de me dizer que queres ser maior que tudo! Nunca pares de lutar para seres melhor. Eu sou a pequenina parte do Universo que já conquistaste. Não posso ansiar que sejas apenas meu! Voa. Eu ficarei aqui para te agarrar se um dia caíres… e, se não caíres, serei sempre a pessoa que ouviu os teus sonhos. Terei orgulho de ser essa pessoa ainda que, depois, não arranjes um espacinho para mim dentro do teu perfeito coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quinta-feira, 26 de março de 2009

“Fica para amanhã”

Hoje a agenda está cheia. Não tenho um minuto para te dizer o quanto gosto de ti. Hoje não posso amar-te, não tenho tempo para sentir. Tenta entender. Os dias repetem-se. Todos os anos. Seguidos naquela lógica infernal: mês, semana, dia, hora…
Tenho repletas as páginas da minha agenda. Compreende, amor. Hoje não posso, como ontem não pude e antes também não. Não tenho tempo para essas coisas…
Ontem, tinha posto na agenda que às dez horas e um minuto da manhã, naquele minutinho exacto, ia pensar em ti. Ia pensar que te amava. Se tivesse tempo suficiente, mandar uma mensagem só a dizer que te quero, que te amo, que és tudo na minha vida. Mas ontem, logo ontem, o relógio parou às dez horas e não te dei um pensamento. Nem me lembrei! Tenta entender!
Há quanto tempo adiámos o nosso almoço para “amanhã”? Já não me lembro! Uns meses? Uns anos? “Fica para amanhã, então” – lembro-me de dizer e tu suspiraste, o suspiro soou triste e replicaste apenas “Sim, amanhã…” Há quanto tempo foi isso?
Hoje a agenda está cheia. A agenda está cheia e eu estou cansada. Como um ser automático sigo as ordens que as palavras rabiscadas nas folhas numeradas me indicam. Como não tenho um minuto livre para pensar, o relógio avança, devagar é certo, mas avança…
O nosso almoço está marcado para “amanhã”. O amanhã é o dia que está depois do dia que é sempre o “hoje”. O amanhã está sempre a um dia de distância e nunca chega… Mas “amanhã” estarei contigo.
Às vezes questiono-me porque não entendes. Porque não vês que tem de ser assim? Se eu tivesse um minuto, ele seria teu. Amo-te tanto!
Tenho marcadas na minha agenda as seis horas que vou dormir. Já devia ter adormecido por agora! Não posso atrasar-me amanhã. Mas agora tenho a cabeça cheia e ninguém para me ouvir. Os olhos preenchem-se de lágrimas que não verto e adormeço assim.
Às seis em ponto o despertador toca. Levanto-me e olho a agenda. Hoje a agenda está cheia. Não tenho tempo para te ver, quanto mais para me sentar e almoçar contigo. Tenho saudades tuas mas tenta entender… não posso! Fica para amanhã… está bem?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Gostava

Gostava que aceitasses um bocadinho da minha alma porque o meu coração não me pertence e não tenho mais nada que possa dar-te.
Gostava que a aceitasses e a guardasses no bolso, juntamente com as memórias que atabalhoadamente fechaste, querendo esquecer e julgando ser possível fazê-lo.
Por entre as sombras do olvido, nos vales tenebrosos do silêncio, dou por mim a pensar. Penso que gostava que soubesses que a minha vida está vazia desde que não fazes parte dela e que aquele pedacinho da minha alma, o mesmo que queria dar-te, vagueia por aí, à espera que o encontres e o guardes no bolso.
Desejo que, cada vez que penso em ti, o sintas na pele e isso te faça feliz. Pouco me importa se essa felicidade vem de uma espécie de amor ou de um desejo de vingança. Porque, se te sentisses feliz cada vez que penso em ti, sentir-te-ias feliz a tempo inteiro. E que doce vingança seria ser triste sabendo-te feliz!
Não vou dizer que a tua felicidade seria o bastante para me tornar igualmente feliz mas não tenho medo de afirmar que ela me faria ser menos triste.
Por tudo isto, gostava que aceitasses um bocadinho da minha alma e a guardasses. Quem me dera poder dar-te também o meu coração e a minha vida…
Porque, estupidamente, não tenho medo de sofrer e isso faz-me feliz. Não precisei de fugir de ti nem de te evitar. Não precisei de falsos moralismos! Então, em vez de amar-te, pude viver-te. E se pudesses aceitar aquele pedacinho da minha alma, saberias que nem toda a felicidade do mundo seria melhor do que chegar ao momento em que te quis dar a minha alma, sabendo que o coração já tinha sido quebrado e esquecido no fundo de uma gaveta.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Segredo


Foi em segredo que escrevi o meu primeiro poema. Os meus primeiros versos eram feitos de um sorriso intemporal e quente a rasgar o meu rosto de criança. Tinha uma vida para viver. Mil desgostos à minha espera. Muitos mais poemas para me afogar.
Então, foi em segredo que segui a vida. E foi em segredo que compreendi que um poeta nunca aprende a ser verdadeiramente feliz.
Com um medo apenas superado por uma insanidade crescente, foi em segredo que guardei a minha suposta felicidade dentro de uma caixinha de jóias e foi em segredo que a selei para que os meus poucos momentos felizes não pudessem fugir de mim ou ser-me roubados.
Foi em segredo que me apaixonei e foi num segredo ainda maior que dei por mim a quebrar a minha caixinha e a oferecer-te a minha felicidade como se conhecer-te bastasse e já não precisasse de mais nada para poder sorrir. Nunca te apercebeste que ta oferecera porque foi em segredo que ta deixei no bolso, durante aquele abraço que nem te recordas de me teres dado mas que tinha mil promessas que apenas eu podia ouvir.
Foi em segredo que te vi virar costas e transformares o meu mundo num mundo que já não me pertencia, e foi o maior dos segredos a minha certeza de que, ainda que dissesses o contrário, não voltarias àquele lugar.
Imersa no silêncio dos murmúrios de um pensamento, foi sozinha e em segredo que compreendi e aceitei o que não tinha como ser compreendido ou aceite, e foi em segredo que limpei as lágrimas e ergui a cabeça.
Foi em segredo que rezei por ti, desejando que a minha felicidade ainda estivesse guardada no teu bolso e que nunca dele saísse. Foi em segredo que agradeci aos céus por te ter conhecido e que desejei que houvesse nos teus lábios um sorriso igual ao que ofereci ao espelho depois de escrever, em segredo, o meu primeiro poema.
Foi em segredo que adormeci sem vontade de acordar e foi em segredo que me entreguei a sonhos proibidos. E os meus olhos, sem lágrimas ou melancolia, fizeram-me acordar disposta a enfrentar um mundo onde eu já não queria estar.
Então, foi em segredo que encolhi os ombros, agarrei a caneta e escrevi um poema de amor. Foi um poema triste. Um poema sobre o silêncio e a saudade. Um poema sobre todos os segredos que a minha alma guarda e que jamais quebrará. E foi em segredo que continuei a respirar sem viver, pensando num breve sorriso que a única coisa realmente certa que fiz na vida foi deixar no teu bolso a parca felicidade que guardara e escrever um poema que, mais do que palavras, carrega todos os segredos do meu coração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sábado, 13 de dezembro de 2008

Lágrimas de Pedra


Ouço a tua voz. Acho-a linda. Como se a noite entrasse nela e as estrelas a iluminassem. A tua voz carente de menina irresponsável que não tem de pensar em nada. A tua voz de velha sonhadora que pode perder toda a sanidade nas últimas histórias de embalar. A tua voz de princesa e de plebeia, de miséria e de ostentação.
Ouço a tua voz. E não há nada senão o silêncio. O silêncio desta noite que me afogou na tua água como se ela fosse feita de todas as lágrimas que choro e me sepultou na tua pedra como se ela fosse parte do meu coração.
Conto-te o que se passa… tu passas-me a mão no ombro como se me entendesses, como se pudesses saber ou sequer sonhar o que se passa dentro deste incoerente peito onde cai toda a certeza de que me proibiram de amar.
Mas eu percorro ruas e vielas. Sempre na mesma solidão. A solidão de não haver mais do que ilusões e desilusões na minha vida! E chego até ti, nua de enganos e de certezas, despida de orgulho e de esperança, como se apenas tu pudesses levar os meus medos para um qualquer lugar onde jamais poderia chegar sozinha.
E tu fazes tudo isso sem ninguém notar! Dizes-me que está tudo bem, que não tenho culpa de sofrer, que foi um anjo negro que sussurrou ao meu ouvido que as minhas lágrimas seriam de pedra (tal como tu és!) e que, sendo de pedra, jamais poderiam desaparecer.
É a tua voz que me acalma… São as tuas doces palavras que me fazem acreditar que existe sempre um porto para ancorar e um horizonte a ser alcançado. São sempre elas que me fazem desejar o que não posso ter e que me fazem mentir ao coração quando ele pensa que tudo está errado.
Ouço a tua voz. Essa voz que, no silêncio, mais ninguém consegue ouvir. Ouço-a e decoro-a. Quando dou por mim, há um imenso amor que não controlo em torno dessa vontade de te ouvir, um desejo incandescente de estar sempre ao teu lado, mesmo quando estar ao teu lado é somente estar sozinha no mais escuro dos silêncios.
Porque te ouço mesmo sabendo que jamais proferiste uma palavra. Porque entendo a tua magia mesmo quando permaneces imóvel e cega, no mesmo local onde nasceste. Porque preciso de ti mesmo quando o meu mundo é só um fragmento de ruína e destruição.
E as minhas lágrimas de pedra caem sobre ti. Sobre a tua voz que apenas eu posso ouvir e sobre a tua bondade que ninguém conhece porque ninguém te ouve.Ouço a tua voz. Acho-a linda. Porque faço parte do teu misticismo, como se eu própria fosse uma extensão de pedra que não sabes que te pertence mas que jamais se desprendeu de tudo o que és. E eu ouço a tua voz… preciso dela ainda que ela seja feita de silêncios e ilusões. Porque é a tua voz, é para mim e estará sempre aí quando eu precisar. És a fonte das minhas lágrimas de pedra e o anjo negro que a elas me condenou sabia que em ti encontraria o consolo de haver sempre um abrigo, ainda que ele não ficasse na montanha!

Marina Ferraz

sábado, 29 de novembro de 2008

Carta à solidão



Querida solidão:

Bem sei que de pouco me serve escrever-te. Estás tão próxima de mim que ouvirias os meus pensamentos com a mesma facilidade com que lerás esta carta. Mas eu escrevo-ta. Não a escrevo porque acho que lhe darás algum valor mas antes para ter a certeza de que, dia após dia, te lembrarás que me lembrei de escrever para ti e não apenas sobre o que me fazes ou representas.
Esta carta não precisa de sair daqui. Certamente não precisará de envelope ou de selo. Porque neste exacto momento estás a lê-la, como se tu própria fosses os meus olhos fitando este papel ou a minha caneta, deslizando levemente e rabiscando de azul a brancura desta folha.
Começo por te agradecer por seres uma presença constante na minha vida. Porque todos se vão embora mais cedo ou mais tarde. Há quem o faça porque não mais encontre em mim as virtudes de outrora e quem desapareça da minha vida com altruístas pretensões de fazer de mim alguém mais feliz. Mas tu nunca vais a lado nenhum. Continuas comigo mesmo quando a multidão que me rodeia tenta provar que desapareceste numa qualquer curva deste caminho sinuoso chamado vida.
Demasiado assustada para te arranjar um quarto na minha casa, arranjei-te um espacinho dentro do meu próprio quarto. Aos poucos e poucos foi dentro de mim que te alojaste. Encontraste um espacinho naquele inevitável vazio que tenho no coração e preencheste-o de um modo inexplicável.
A cada passo que dei tu cravaste um punhal no meu peito. Fizeste de cada pessoa que conheci apenas mais uma pessoa que acabaria por ficar no passado e que jamais tornaria a encontrar.
Tomaste conta de mim e da minha vida. Invadiste o meu mundo, a minha casa, a minha vida. E depois fizeste-me sentir que se te fosses embora estaria ainda mais triste.
E eu dei-te sempre ouvidos. Não sei bem porquê! Não faz qualquer sentido, pois não?
Hoje que estás aqui, a ler esta carta enquanto a escrevo, eu venho pedir-te que fiques. Não te peço já que vás embora e me dês uma segunda oportunidade…. Aceitei que não irás a lugar algum, que jamais me deixarás ser feliz. Porque me darias uma segunda chance se não deste a primeira?
Pois fica, então! Fica comigo se é o que queres. Mas segue as minhas regras. Deixa-me imaginar que foste quando o meu coração acelerar. Deixa-me chorar quando me fizeres perder alguém. Deixa-me fingir que todas as pessoas que me rodeiam bastam para te anular. Deixa-me viver como se não existisses, ter um sorriso no rosto…
E, à noite, quando já ninguém estiver junto a mim, eu prometo que te dedico as sagradas horas de sempre, chorando por haver um vazio impossível de preencher nesse espaço que devia estar repleto de amor à vida. Dir-te-ei, como sempre, que quero morrer. E tu, fiel a ti própria, poderás dizer-me que só te tenho a ti e convencer-me de que não posso sobreviver sem que estejas comigo.
Minha querida solidão, hoje escrevo-te porque estou sozinha e porque estou triste. Escrevo-te porque és tu que estás aqui mesmo quando finges não estar. Escrevo-te porque já tens até as minhas palavras. Entrego-me toda a ti, ciente de que a felicidade e o paraíso são lugares que jamais conhecerei.
Tua,
Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Ir embora...


Tenho as malas feitas à porta e o quarto vazio. O coração, esse está demasiado cheio e demasiado cansado mas, habituada a conviver com o seu peso, já nem eu o noto.
Imagino que tenho um sorriso nos lábios. O sorriso de ter as malas feitas e nenhum destino. A alegria de ir embora outra vez. A alegria que sempre me deu virar costas ao passado.
As malas feitas sempre foram uma promessa. Uma promessa de que a seguir virá algo melhor, ainda que essa promessa seja apenas mais uma mentira que nem sequer conseguirei ouvir.
Faz-me feliz fazer as malas, faz-me feliz ir sozinha até uma qualquer estação e ir embora sabendo que não volto. Faz-me feliz deixar para trás os lugares onde não sou feliz.
Mas hoje tenho as malas feitas à porta, o quarto vazio e a melancolia do que estou a deixar para trás. Porque desta vez sei que estou a fugir. Não estou a fugir pelos mesmos motivos nem das mesmas coisas. Estou a fugir de mim.
E aquelas malas à porta já não me trazem sorrisos. Falam-me apenas alegremente de todas as pessoas que já sabiam há muito tempo que eu ia desistir. Troçam de mim por não ter mais força. Mas e daí? As pessoas que se riam…eu faço-lhes somente uma gigante vénia. Agradeço no final qual actriz que desempenhou o bom papel de fingir não se importar. E essas pessoas serão apenas fantasmas de um passado que nem saberei bem se vivi.
Porque tenho as malas cheias de recordações e não de pessoas. Porque levo comigo apenas o que me tocou a alma e não aqueles que tentaram anular-ma.
Hoje tenho as malas feitas e o quarto vazio. Ou talvez imagine apenas que tenho as malas feitas e o quarto vazio. Porque hoje quero ir embora e estou acorrentada, nem sei bem a quê…
Tenho saudades do passado, desse passado que aconteceu há anos e do passado que aconteceu há minutos atrás. Tenho saudades do passado porque o presente não dura e o futuro é incerto. Tenho medo. Muito medo. E, além disso, tudo o que tenho, são malas por fazer e lugares onde ainda não tentei ser feliz.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um pedido e uma oração



Este é um pedido e uma oração. Um pedido que de tantas vezes dito está gasto e uma oração que sei que jamais será ouvida.
Mas este é mais um pedido e mais uma oração. Igual a tantas outras orações e a tantos outros pedidos. Iguais como tantas coisas o são… Iguais com a diferença nítida de nada se repetir realmente nesta vida.
Não sei o que fizeste! Não te entendo porque estás em mim e bates levemente sem que realmente proves que estou viva. E, quando rezo baixinho sem saber para quê, tu mantens-te mudo como se tivesses descoberto a arte de bater imperceptivelmente quando mais preciso de ti.
E então, por entre as minhas palavras fúteis lançadas ao vento, eu sussurro para que apenas tu o ouças “hei… é amor!” e tu bates mais forte como se apenas esse pensamento te desse força.
Saberás por acaso, nesse teu bater, o quanto me dói dizer essas palavras? Não acho que saibas! Não acho que entendas os pedidos que ninguém satisfaz ou as orações que ninguém ouve. Acho que moras em mim sem compreenderes sequer qual foi o furacão que passou na nossa vida e me fez desistir de tentar curar-te.
E, se entendesses, sei que baterias debilmente, tal como o fazes agora sem saberes bem porquê.
E dizes que a culpa é minha. Culpas-me de erros que não conheces e fazes com que o meu rosto se inunde dos mais tristes sentimentos.
Se pudesses ver, meu coração, se pudesses ver com toda essa tua inocência o mesmo que os meus olhos vêm dia após dia, saberias porque te digo que é amor ainda que essas palavras me magoem mais do que tudo o que os meus olhos veêm.
Mas tu não sabes e hoje é a ti que peço para não vacilares. Hoje a oração é para ti. Hoje apenas quero que nesse teu leve e compassado bater compreendas que esta vida é um labirinto cuja saída jamais será achada.
E esta oração, igual a todas as outras, é diferente porque, hoje, quero que tu sejas forte, quero que tu ouças e quero que sejas tu a acalmar os meus medos e as minhas ilusões dizendo “hei… é amor”.
Hoje quero que tomes conta de mim com o mesmo cuidado com o qual tomo conta de ti. Hoje quero que digas aos meus lábios que não sintam falta de outros lábios e às minhas mãos que não sintam falta de outras mãos, do mesmo modo que eu sempre te disse que o amor jamais te abandonaria.
Este é um pedido e uma oração. É um pedido que começa com “era uma vez uma menina” e que não tem fim.
Dorme e acorda, coração. Respira fundo. Encontra-te em ti próprio. Porque hão-de te atirar pedras. Porque hão-de te dizer mentiras. Porque hão-de te criticar. Mas escuta esta oração que hoje me vejo proferir: eu tomarei sempre conta de ti e, se tomares também conta de mim, então nada nem ninguém poderá derrubar o que construímos. Conformados com a ironia da vida, a única coisa que nos hão-de poder dizer é “hei… é amor!”. E tu baterás mais forte. E eu sorrirei. E haverá uma espécie de tranquilidade na nossa dor. Não mais estaremos sozinhos. Eu tenho-te a ti e tu tens-me a mim e nós os dois teremos sempre este pedido e esta oração.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet