Pensamos que foi. Depois de lavado. De esfregado do corpo. Com pedra-pomes como ensinam os idosos, que pouco podem e tanto sabem. Pensamos que foi. Que deixou apenas arranhões. E que os arranhões cicatrizaram. E as crostas caíram. E o sol fez o trabalho de apagar as linhas. E se não há linhas pautadas, talvez a memória não escreva. Não inscreva. Pensamos que foi.
Não foi.
Retraio-me no toque. Inconsciente. Doem-me as costas. Não sei porquê. Inclino a cabeça para a esquerda. Encolho-me nas frases altas. E olho para o chão. Eu a ser eu. Digo. Mas eu não era este eu que eu sou.
Um dia, não disse não.
Logo eu, que faço do não a palavra mais prostituída de todas, que a dissolvo na língua, feito saliva e a cuspo a torto e a direito, por vezes sem razão nenhuma, apenas como adorno linguístico.
Um dia, não disse não.
Deitada na marquesa e com as mãos sapientes de uma curandeira de linhagem, com o grito prestes a ser vomitado, pendendo da garganta com o sadio da pressão impressa em mim. Tortura lenta no caminho para a cura. Pedindo aos olhos crescidos que se lembrem de que têm a idade dos meus dias e não chorem. Pedindo a todas as aprendizagens sociais que me limitam os gestos que não me falhem. E ela diz. Podes gritar. E eu choro, em vez disso. E ela diz. É, o abuso fica marcado no corpo.
Espanto-me e não nego. Pergunto-me se abusaram de mim. Concluo que abusei de mim. Logo eu que faço do não a palavra mais prostituída de todas, que a dissolvo na língua, feito saliva e a cuspo a torto e a direito. Um dia, não disse não.
Retraio-me no toque. Inconsciente. Doem-me as costas. Não sei porquê. Inclino a cabeça para a esquerda. Encolho-me nas frases altas. E olho para o chão. Há um desconforto permanente na zona da anca. Um nervo no braço esquerdo que nunca ficou curado, mas que representa a salvação. Ao doer digo. Podia ter sido pior. Ao doer digo. Podia ter sido mesmo pior. Encarar uma lesão como a única decisão sábia de meio ano. E a falta dessa prostituta pessoal, a palavra não, como a prova de que posso perder-me de mim.
Descobrir que o abuso fica no corpo. Colado aos ossos.
Nenhuma distância nos separa do corpo.
Nenhum caminho nos leva para onde ele não está.
Lavar. Esfregar. Com pedra-pomes como ensinam os idosos, que pouco podem e tanto sabem. Arranhar. Ferir. Deixar cicatrizar. Regar de sol. E perceber que não sai. Que não foi. Que é. Que será provavelmente um sempre. Mais um sempre. Lesão emocional colada nos ossos, dentro do tutano. Libertando venenos ocasionais.
Pedir. Leva-me assim, com defeito.
Com uma memória dura colada nos ossos.
Aceitar que mãos curandeiras aliviem o que é de superfície. Vestir uma roupa bonita. Sorrir.
Aceitar.
Encontrar quem nos faz dizer sim, com vontade.
Deixar que esse sim se prostitua, dissolvido na língua, feito saliva, e cuspido a torto e a direito.
Deixar que a bondade se cole aos ossos também. Que a alegria se cole aos ossos também. Até o abuso ficar escondido por camadas e camadas de amor. E o corpo absorver a mágoa para criar felicidade, da mesma forma que a terra abraça o estrume para nos dar colheitas.
Pensamos que foi. Não foi. Nada do que passámos, passa. Mas o que fazemos com isso é. Será sempre. Uma escolha.
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Wow, óptima analogia e mensagem.
ResponderEliminarCongrats