terça-feira, 6 de janeiro de 2026

É a falar

 

Imagem retirada do Pixabay

É a falar que as pessoas se entendem. Isto dizia, em tom de desentendimento, uma senhora ao marido no supermercado. As prateleiras, que não falavam, olhavam para eles com os seus olhos-produto. Imaginei o que pensará uma lata de polpa de tomate quando ouve uma destas. É a falar que as pessoas se entendem.

 

 

Ando por aqui há uns meses e a validade do meu B.I. diz-me que, provavelmente, metade das pessoas no supermercado irão levar-me a dianteira. Dirão que estou processado – estou – e que sirvo só para quando não há outro mais fresco – válido. Mas, no processo, o facto é que já vi de arbusto e mão e fábrica e lata mais do que muito tomate que se acha melhor do que os outros. Vi homens discutirem com homens sobre procedimentos agrícolas. Mulheres discutindo com mulheres sobre processos de apanha. Homens discutindo com mulheres em procedimentos fabris. Mulheres argumentando com homens sobre distribuição. Enfim, homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, mulher com homem, gente com gente que o binarismo cansa-me até às sementes.

 Ainda que a lata diga do campo para a sua casa, o processo demora mais do que o tempo da leitura. Só isso já me serviria para dizer que a palavra é desentendimento como o desentendimento é palavra. Mesmo sem que seja verbalizada, a comunicação falha. Aqui, vejamos... campo? Que campo? De ténis? De futebol? Minado? Sim, sim, sabemos que provavelmente será agrícola... mas se foi estufa, conta como campo? E sabemos que não o foi? E eu não estou na sua casa. Estou numa prateleira de supermercado, a ouvir uma potencial dona de casa irada a falar do cabrito que o marido quer comprar em vez de borrego, usando as palavras é a falar que as pessoas se entendem com propriedade.

A comunicação é tão estável como isótopos radioativos. Ou, falando em termos mais mundanos – que ninguém precisa de entender de Física Nuclear e da Radioquímica para falar com uma lata de 800 gramas – como um castelo de cartas. As pessoas acham que dando as cartas está tudo resolvido e o jogo se faz... como se não ventasse...

 

 

Talvez a polpa de tomate pense isto. Para um produto de conserva sem sal, até o acho pouco conservador. Mas quem sou eu? Eu só ouço... e sigo em silêncio. Que assim ninguém se desentende!


Marina Ferraz



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1 comentário:

  1. Sim, Marina querida, o falar serve para nos desentendermos, mas tb para nos entendermos, naturalmente. É verdade que o falar é próprio do homem, mas tb o é o acto de tentar convencer e dominar, de confundir e domesticar. E para isso, a linguagem serve maravilhosamente. Mas igualmente serve para nos expressarmos e comunicar os nossos sentimentos e aqui entras tu e os teus textos sempre tão autênticos. Fica bem apesar da friagem. Bj grande.

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