quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Mudou tudo



Mudou tudo.
A manta está desarrumada. Pousada, como sempre, nas costas da poltrona. Descaída para um lado. Torta. Por dobrar. A manta está desarrumada. Apetece-me agarrar nela, rasgá-la em pedaços, queimá-la. Arrancá-la das costas da poltrona onde sempre a pousámos, julgando que a arrumávamos. Não! A manta está desarrumada. A poltrona não é lugar de manta.
Mudou de tudo.
Os móveis estão fora de sítio. Velhos e gastos da permanência imutável junto às mesmas paredes. A madeira pesa. Tento arrancá-los do lugar. Não se movem. Os móveis estão fora de sítio. Apetece-me reduzi-los a cascalho e varrê-los. Sei que julgámos que estavam bem ali. Mas não estão. Estão fora de sítio. Qualquer um veria com facilidade: estão dispostos erroneamente. Não fazem sentido nem ficam bem.
Mudou tudo.
A roupa está mal passada. Mal dobrada. Atolada nas gavetas demasiado cheias. Está engelhada, como sempre. Agarro nela, deito-a ao chão. Fica melhor no chão do que na gaveta onde fingia ter sido bem arrumada e passada a ferro.
Mudou tudo.
A louça não está bem assim. Empilhada, distribuída, na sua quietude de anos que lhes determinaram que era assim que estava bem. Não está. Está desalinhada, desorganizada. Não me traz sentido de estética ou de prática. E quero agarrar nela. Destruí-la. Fazer dela cacos desorganizados pelo chão. Quero ouvir o estilhaçar de copos e pratos e taças apenas para não ficarem ali - onde sempre estiveram - desordenados.
Mudou tudo.
A fotografia. Quão errada esta fotografia onde sorris e eu também. Onde estás vivo e eu também. Mudou a fotografia. O abraço. Errado como se também ele pudesse ser um pedaço desalinhado da casa. Ali permanecemos - como ontem e há um ano - abraçados e a sorrir. Quero agarrar a fotografia. Rasgá-la ao meio. Quebrar o abraço. Riscar os sorrisos. Desenhar lágrimas no meu rosto iludido e inocente.
Mudou tudo. Sinto raiva da casa que está igual. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. Dentro de mim que te amava. Que te amo. Que te vi morrer. Que voltei para casa. A minha casa. E descobri que ela permanecia igual, como se não sentisse a tua falta.
Mudou tudo. Mas entrar em casa é familiar, doce, bom. E dou por mim a querer chamar o teu nome e a ouvir os silêncios da ausência de resposta.
Morreste. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. E a casa permanece igual, sem que nada faça sentido.



Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Todas as noites


Todas as noites ele chorava. E ela levantava-se de um pulo. Percorria o corredor em surdina. Entreva no quarto. Beijava-lhe o rosto. E perguntava: " O que foi, meu amor?". Ele sentava-se na cama. Contava-lhe a história. O sonho. E terminava com a frase. Sempre a mesma. "Tenho medo, mamã".
Pacientemente, ela sorria. Estendia-se na cama ao lado dele. "Isso é porque és corajoso", dizia-lhe "Sem medo, não pode existir coragem". Adormeciam os dois. Todas as noites.
Todas as manhãs lhe diziam. "Devias deixá-lo chorar. Assim, nunca vai habituar-se a dormir sozinho". Todas as manhãs ela selava o conselho com um beijo e um sorriso breve que prendia à total ausência de resposta.
E chegava a noite. O choro. A corrida. A história. O abraço. O sono. O aconchego contente do que é presente e completo.
Mas, um dia, o choro não veio no cair da noite. E ela, que pacientemente aguardava em silêncio, começou a ouvir o tic-tac de todos os relógios da casa, da rua, do mundo, procurando algum sinal de lágrimas no quarto ao lado.
O choro não veio. O tempo passava. E sentiu os olhos repletos de lágrimas. Ele estava a crescer.
"Por que choras?", foi a pergunta ensonada que ouviu. Não contou a história. O sonho. A forma como custava ver o seu bebé ser menino e saber que amanhã seria homem. Os adultos não eram bons a contar esses contos de enredo parco, todo escrito em linhas de luz pela mão da alma.
Tudo o que disse foi: "Tenho medo". E tinha. Então, levantou-se, percorreu o corredor em surdina. Entrou no quarto. Beijou-lhe o rosto adormecido. Estendeu-se na cama ao lado dele. E pensou: "sem medo, não pode existir coragem". Adormeceu com o medo. A coragem viria, talvez, amanhã.


Marina Ferraz
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Traição



Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. E soube, justamente por isso, que seria difícil encontrar quem aceitasse amar-me. Mas tinha tempo. Tempo para esperar por quem soubesse entender que, por mais que amasse a ideia do amor, não conseguiria ser a moça recatada que não se dá por aí. Eu nunca poderia estar numa relação de amor com quem não entendesse que as minhas necessidades me levavam de encontro a outros amores. E pode parecer errado em todas as formas, mas a verdade é esta: posso ser infiel mas não podem, ninguém pode, acusar-me de mentira.

A todos aqueles que quiseram amar-me, eu avisei. - Há noites em que me dou à escrita. Há dias em que permito que as palavras percorram a minha pele com as pontas dos dedos. Há dias em que conheço personagens e as deixo entrar em mim, à medida que me envolvo nos traços mais superficiais e mais profundos do seu eu. Por vezes, não vou querer estar contigo. Vou querer estar com ela. Com a escrita. E é com ela que vou adormecer. Em alguns dias, vou querer acordar nos abraços quentes que ela me dá. Vou beijá-la na boca, sentir-lhe o veneno doce da amargura e permitir que ela faça de mim o que quiser. - Sim, avisei-os a todos. E quase todos partiram. Não entenderam. Não souberam que essa traição ao amor fiel era a única forma de não trair quem eu sou. Até ele. Ele soube. Ele entendeu. Ele também não sabe estar numa relação sem trair. Dorme frequentemente com a música. Tem, com ela, quase uma segunda relação. E, de alguma forma, formamos os quatro uma família onde toda a gente se trai e ninguém se importa.

Houve um dia em que acordei sozinha. Percorri, com os pés nus, cada divisão da casa. Encontrei-os aos três. Amantes improváveis, conferenciando em frente ao piano da sala. Ele e a música e a escrita, falando-lhe na voz, cantada, insolente. Julguei, por momentos, que tinha acordado com o ciúme. Mas, olhando para a ternura daquele momento a três, não consegui sentir-me traída. Nesse dia, mais do que ele ou a escrita, aprendi a amar a música que os ligava, que nos ligava, que nos tornava um só. Não é coisa de menina de bons costumes, eu sei. Mas, nesse dia, convidei-os a fazerem parte de mim. Foi o último dia em que acordei sozinha. A minha cama ficou cheia. A minha vida também.

Há quem nasça para o amor singelo de um só e saiba amar sem ser amado. Há quem nasça para o amor a dois, sem espaço para mais nada, para mais ninguém. Há quem nasça sem amor para dar ou receber. Por todos, tenho respeito e aceitação. Mas eu não nasci para esses amores que acontecem no limite de paredes de ferro. Não nasci para os contratos. Não nasci para o espaço confinado da partilha. O amor que eu sei sentir não é somente humano. Não amo apenas o que vejo. Não amo apenas o que toco. Amo esta dimensão meio louca do que não é concreto mas toca, do que não é visível mas atormenta. E amo amar essa loucura incoerente. É um amor que trai. Trai as noções do que o amor deve ser. Trai as convenções, ditadas, escritas, impostas, tatuadas na sociedade. Mas não me trai a mim. Não o trai a ele. Não trai os nossos amores inconcretos. E faz de nós parte inegável um do outro.

Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. Ele também não. Precisámos de abrir espaço para amarmos os amores um do outro. Não queremos a fidelidade labiríntica de só estarmos nós e as paredes e os becos sem saída. Queremos dormir juntos e levar as nossas paixões para a cama, acordar do sono para o sonho. Acreditar nele. Fazer dele bandeira. Somos um do outro e da nossa arte e da nossa esperança. É impróprio e inadequado, indecoroso e lascivo. Mas é a maneira como devassamente nos propomos, todos os dias, a saber mais sobre o amor. Eu não o quero sem o seu outro amor. Ele não me quer sem o meu. E sabemos melhor do que ninguém que esta é uma traição à norma. Mas nós não amamos a norma. Amamo-nos um ao outro. E à música. E à escrita. Nunca poderíamos estar numa relação sem trair. É por isso que sabemos que seremos sempre fiéis a nós mesmos.

Marina Ferraz
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Os teus pensamentos


Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Imagino-os escritos, impressos, negros e delineados, nas folhas amarelecidos e gastas dos anos. Imagino-os ondeando por entre o aroma a papel antigo que paira nas alfarrabistas menos conhecidas. Não acho que os teus pensamentos pudessem fazer parte de outras obras. Acho que teriam a idade dessa alma velha que carregas dentro do recipiente jovem do corpo com o qual te encontrei - ou reencontrei,
Quando os teus olhos pousam em mim e eu não te devolvo o olhar, pelo que pensas que nem noto. É nesses momentos que gostava de folhear o teu pensamento. Saber como me vês, se me compreendes, se, secretamente, ponderas também como seria bom poderes ler o meu pensamento.
Não sei com que palavras pintas o retrato do que os teus olhos encontram nesse olhar subtil sobre o meu semblante. Sei como eles brilham. Porque é que brilham? Fico a perguntar se me vês ou se vês somente o retrato do que eu poderia ter sido. Não mereço o brilho dos teus olhos azuis. Mas, Deuses, dava uma vida para conhecer as nuances que te permeiam a mente quando olhas para mim.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Vê-los pontuados com exclamações e interrogações e reticências. Saber os tempos verbais e os complementos - oblíquos ou não - que os atravessam. De os respirar, compassando a leitura com o bater do meu coração caótico e arrítmico.
Talvez os teus pensamentos nem me dessem respostas firmes. Talvez fossem somente o incentivo de cem outras questões. Mas gostava de os ler. Lê-los seria como descobrir a escada para um segredo escondido num lugar distante. Uma consciência sã de que, se chegar a ti, talvez possa perceber-te até ao mais ínfimo grão de poeira.
Olho pela janela. Sinto os teus olhos presos em mim e sei que eles brilham. Não te devolvo o olhar. Deixo que olhes, perdido nesses pensamentos que só tu conheces.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Mas os pensamentos prendem-se em ti e perdem-se no vazio que nos separa. Ignoro-os. Aproximo-me. Bebo do brilho dos teus olhos. Faço dos meus pensamentos som. Digo que te amo. É um pensamento velho, como a tua alma e a minha. Mas nunca fica gasto. E isso é tudo o que importa.

Marina Ferraz
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ninguém



Eu não sou ninguém.
A vítima não era ninguém.
O assassino não era ninguém.
Ninguém é ninguém.
Somos todos o mesmo pedaço amorfo de coisa nenhuma. Mas fizeram-nos acreditar que somos. A todos. A mim. À vítima. Ao assassino. Fizeram-nos acreditar que, de alguma forma, por algum motivo, éramos gente. Criaturas cheias de direitos. Cheias de ideologias. Cheias de frases de boca cheia. Fizeram-nos acreditar. Acreditar que o mundo nos olha como se fossemos alguém. Mas não. Não somos. Somos todos um pedaço amorfo de nada. E, se desaparecêssemos todos, não haveria ninguém para sentir a nossa falta.
Insistem. Todos somos gente. Todos somos alguém. A criação da noção do divino de nós, da nossa unicidade, da nossa importância. Não somos divinos. Nem únicos. Nem importantes. Somos todos pedaços de carne ambulante, a não servir para nada, a servir os interesses uns dos outros, a viver nos interesses dos outros, a ser o interesse dos outros e, além dessa dimensão que nos une a espécie, não somos nada. Nunca vamos ser nada. E somos pior do que nada porque criamos a nossa unicidade na cópia uns dos outros. Não somos nada e não somos originais. Juntamo-nos a grupinhos e ideiazinhas que não passam de mais pedaços de nada na boca de ninguéns. Importantes? Porquê? Quando foi que trouxemos ao mundo algo que importe ao mundo? Trouxemos apenas o que nos importa a nós - os fragmentos de ninguém que povoam o espaço. O mundo foi o que destruímos e continuamos a destruir no processo.
Sim, encheram-nos de noções e de projectos e de supostos objectivos e metas e idealismo. Que bonito! Encheram-nos da noção de que a nossa vida importa. De que as nossas acções importam. De que, seja lá por que for, o "mundo" precisa de nós. É um erro enorme. Somos nós que precisamos do mundo. Do que não é humano. Apenas o que não é humano poderá ser alguma coisa. Mas encheram-nos de medos e medinhos... Vem aí um apocalipse qualquer. E as pessoas temem. A guerra. A profecia. O dia que bate com o mês e o ano. O atentado. E, porque somos ninguém, é difícil perceber a noção mais simples. O mundo não vai acabar. Poderemos acabar nós, os ninguéns, mas o mundo vai sobreviver. E talvez esteja melhor sem nós.
Pondero. E sei que as palavras são duras. Mas digo-as. Fizeram-me acreditar que sou alguém e que sou livre. Sei que não sou. Sei que a liberdade vem com as amarras - não as do mundo - a desta humanidade desumana. E sei que não sou ninguém. Mas fizeram-me acreditar que sim. Por isso escrevo.
O assassino, que agiu em nome da crença, acreditou que era alguém e matou.
A vítima, que era alguém para alguém, filha de alguém, pai de alguém, irmã de alguém, neto de alguém, não é ninguém e morreu.
E eu, que escrevo este texto, não sou ninguém. Não quero ser ninguém. Mato e morro todos os dias. E sou feliz. Porque, de alguma forma, sei que não é o mundo que está errado. O mundo vive. O mundo respira. O mundo não precisa de nós para nada. Somos ninguém. E este mar de preocupação humana é uma partícula minúscula de um mundo maior, é apenas a gaiola de mentiras onde nos prenderam a todos.

Marina Ferraz

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Já nos perdemos



Já nos perdemos.
Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, por entre um mundo cheio de acontecimentos e pessoas que se acontecem, pareceu que não mudou nada.
Mas mudou.
Pelas ruas, há quem o diga. Consciência universal, caminhando de boca em boca, passando de mão em mão.
Já nos perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. O mundo inteiro sabe. Toda a gente sabe. Menos tu e eu.
Tu és louco. E eu também. O mundo não. E é por isso que o mundo sabe de nós o que nem mesmo nós soubemos aprender.
Meu amor. É a triste verdade. Já nos perdemos. Eu a ti. Tua  mim. Tu a ti. Eu a mim. Estamos perdidos um do outro e nós mesmos, por entre a confusão das almas que fizemos corpo na entrega dos sentidos. Avançámos demais rumo ao desconhecido que ficava além da pele e do toque e das palavras vazias.
As pessoas não acreditam no amor. E nós sim. Talvez por isso elas saibam que nos perdemos enquanto nós continuamos - ingénuos e inocentes - a aclamar o para sempre, como se ele existisse só para nós.
Não é verdade. Já os perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, no mundo inteiro, só não o sabemos nós. Tu e eu. Talvez porque não nos tenhamos perdido apenas um do outro mas também um no outro. Talvez porque vejamos um reflexo de nós no brilho dos olhares devolvidos.
Mas dizem. Ouves? Já nos perdemos. Ontem . Ou hoje. Ou amanhã. Seja como for. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. Seja por desânimo ou desamor ou traição ou morte. Já te perdi. Já me perdeste. Já nos perdemos.
A verdade é dura. Magoa. Escondo-me dela. Em ti. No teu abraço. No meu canto.
Perco-me em ti.
Perdeste-te em mim.
Perdemo-nos um no outro.
Não sabemos que nos podemos perder de outra forma.
Somos loucos. Tu e eu. E na bênção desta loucura perdemos a noção. Não parece que possamos quebrar. Não por desânimo. Não por desamor. Não por traição. E a morte que tente. Mas eu não acredito.

Marina Ferraz

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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Devolve



Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a leveza de alma com a qual acordava de manhã e que me fazia abrir a janela a cantar para dizer bom dia ao sol.
Devolve-me o sorriso com o qual caminhava nas ruas, desfilando um pouco de alegria pelo mundo e respondendo aos cumprimentos simpáticos de quem me sorria de volta.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a força que me mantinha de pé e me tornava uma cumpridora de metas. Devolve-me as metas. Essas que cultivei na redoma dos sonhos. Devolve-me os sonhos.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a vontade. Essa que me fazia caminhar sobre as dificuldades e fazer delas degraus. Devolve-me a inocência. A inocência que me fazia ver primeiro o melhor nas pessoas, acreditar nelas, ter fé. Devolve-me a fé.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me a paz que me envolvia onde quer que fosse. Devolve-me a liberdade de poder ir a qualquer lugar. Devolve-me os lugares que, em tempos, tive por meus. O amor que tinha para dar a quem, no espelho, me olhava de volta. Devolve-me o meu reflexo. Aquele que tinha sorrisos tatuados.
Devolve.
Devolve-me o que me tiraste.
Devolve-me os segundos, os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos. Devolve-me o tempo que perdi em ti. Com ele quero escrever um romance que valha a pena.

Marina Ferraz

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Recordo-me dele


Recordo-me dele. Moço peculiar dos tempos modernos. Engravatadinho e com ar de senhor dos seus passos, com sola de couro paga pelo pai e roupa passada a ferro pela mãe que o via, certamente, pelo maternal filtro opaco e que se emocionava ao chamar-lhe doutor. Ainda não era doutor. Seria, mais tarde, quando o nariz, largando as nuvens, encontrou um equilíbrio paralelo ao chão e a sua atitude petulante amenizou.
Recordo-me dele. Era um moço com muitas opiniões. Tantas, que se formavam e desvaneciam na efemeridade dos momentos. Tinha, por exemplo, uma opinião ao pequeno-almoço, com os pais, mas outra surgia, na mesma temática, assim que lia o jornal matutino. Esta evoluía no caminho para a faculdade e mudava ou não, consoante a posição tomada pelo professor. No final do dia, tinha passado por três clubes de futebol e cinco partidos políticos. Mas sempre os defendia de forma igual. Irrepreensível. Cheia de opiniões concretas e justificadas com argumentos irrebatíveis.
Recordo-me dele. Moço galante. Durante o tempo em que o conheci, encontrou vinte vezes a sua alma gémea. Aquela que referia como "a tal", "a mais bonita do mundo", "aquela com quem havia de casar". Enfatizava-lhes sempre as características. Tinham os olhos mais belos. Da sua cor favorita que, em alguns dias, era azul; noutros verde; noutros castanho. Tinham gostos iguais aos seus, quer se dedicassem ao desporto ou à costura. E as meninas derretiam nas suas palavras. Acreditavam nelas com afecto e devoção.
Recordo-me dele. Moço de lida fácil e de simples trato. Tinha muitos amigos. E concordava sempre com todos, fosse qual fosse o tema ou a ideia. Parecia viver num equilíbrio perfeito com as mentes alheias. Nunca discordava de ninguém. Nem mesmo quando, no mesmo espaço, aqueciam os ânimos na enunciação bipolar das ideias geradoras de conflito. Nunca lhe faltavam argumentos amenizadores. Defendia, em simultâneo, todas as opções com palavras recheadas de confiança e convicção. E todos queriam o brinde das suas palavras, porque era nelas que depositavam derradeira confiança.
Recordo-me dele. Moço de educação cuidada. Dizia sempre "bom dia" ao entrar na sala. Pedia-me a bênção. E a sua mãe, minha mulher, dizia "estão-lhe destinadas grandes coisas". Estavam. Tinha a mente jovem e distorcida, maleável. Bons estudos pagos, a custo, do meu bolso, tantas vezes vazio. Tornou-se político. Anda por aí a pregar a importância da família e do trabalho. Vejo-o na televisão. Digo aos companheiros da casa de repouso que é o meu filho.
Recordo-me dele. Mas, de alguma forma, ele esqueceu. De alguma forma, ele já não se recorda de mim.

Marina Ferraz
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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Um dia



Tinham criado laços na infância. Daqueles que se desfazem nas voltas da vida, mas nunca quebram. E que deixam sempre um não-sei-quê de saudade colada à sola do sapato. Das brincadeiras no terraço, tinham passado à seriedade dos problemas. E, na maioria dos dias, não pensavam uns nos outros.
Vinham do mesmo lugar. Uma terra pequenina, plantada no interior. Os pais, que não eram os mesmos, tinham deixado que se tornassem irmãos, nas correrias junto ao ribeiro, nos saltos à corda, nas histórias aterradoras no acampamento improvisado nos jardins das casas pobres e mal sustentadas.
«Um dia...», a brincadeira mais usual. O sonho construído a três vozes, por entre a pobreza dos dias que a sina lhes tinha marcado.
«Um dia, vamos ter uma casa enorme, com um cercado e cavalos», sorriam. Anotavam tudo, a lápis de carvão, nas margens brancas do jornal do dia anterior.
«Um dia, vamos viajar pelo mundo», atrevia-se outro.
«Um dia, vamos mergulhar nas águas das Caraíbas à procura de tesouros», acrescentava alguém.
Dos sonhos comuns e dos que eram apenas de um ou de outro, fizeram pedrinhas para construir a estrada sinuosa que os separou. Seguiram rumos distintos. Cada um o seu. E deixaram para trás a aldeia e os pais camponeses, com lágrimas nos olhos e promessas de voltar. Foi a vez dos pais jogarem esse jogo de sonhos para amanhã.
«Um dia voltam». Não o escreveram. Nem a tinta. Nem a carvão. Não queriam o lembrete diário do que podia nunca acontecer.
A vida não lhes sorriu por igual. Nos recantos dos dias, tão diferentes, iam jogando, em surdina, dentro das suas cabeças, o jogo. «Um dia...». E, quando se lembravam uns dos outros, deixavam, ocasionalmente, mensagens e cartas e memórias pendendo nos espaços partilhados que a nova era abriu na distância pouco concreta dos mecanismos eléctricos e electrónicos.
Até que alguém lançou o desafio: «um dia, temos de nos juntar, como quando éramos crianças». E todos concordaram. E todos foram.
Da semelhança que os juntara, quando eram crianças, veio o choque da diferença, tão vincada quanto os caminhos seguidos, que os separava agora que eram adultos.
Um, trazia as roupas gastas, num rosto cheio de aceitação. Dizia crer num amanhã melhor. «Mas não está mal assim», insistia. Emprego certo, mas não muito bom. Para pagar as contas. Para viver os dias. Para voltar amanhã. E repetir. Casamento vulgar. Sem grande amor. Sem grande apego. Feito das rotinas usuais, à espera dos filhos que talvez o colorissem, um dia.
Outro, trazia olheiras negras marcadas no rosto. A incerteza do amanhã. Trocava com frequência de tudo. De emprego. De cidade. De namorada. Nunca ficava em lugar nenhum tempo suficiente para que algo fosse concreto. «Sou feliz assim», disse. Mas também isso lhe parecia incerto na voz.
O outro trazia histórias da casa grande com o cercado e os cavalos. Histórias das viagens e dos tesouros encontrados no fundo do mar das Caraíbas. E dos braços que o envolviam na casa grande. E das crianças que montavam os cavalos. E dos amigos que fizera em locais exóticos. E do horizonte além do mar.
Olhando uns para os outros, como estranhos que nunca tivessem partilhado acampamentos nos jardins, falaram sobre as conquistas e as tentativas.
«Eu sabia que não conseguia, por isso nunca tentei», disse o primeiro. E encolheu os ombros, afastando a ideia de que podia ter sido diferente.
«Eu sabia que não valia a pena, por isso, mesmo começando, nunca acabei.», disse o segundo. E havia um certo orgulho no desapego que o fazia nómada de si mesmo.
Depois, o silêncio de olhos postos no semblante crescido e realizado do terceiro. Também ele encolheu os ombros. Havia humildade no seu olhar, que ainda brilhava com os sonhos do «um dia». E, nessa simplicidade, disse somente: «Eu sabia o que queria, por isso nunca desisti».

Marina Ferraz
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terça-feira, 3 de novembro de 2015

É difícil namorar com uma mulher bonita


É difícil namorar com uma mulher bonita.
Uma mulher bonita vai olhar ao espelho e sorrir. Saber que não precisa de mais ninguém além de si mesma para ser feliz. Vai estar contigo por amor e não por necessidade. Vai querer ouvir que gostas do que ela aparenta ser, do que ela veste, da maquilhagem que põe sobre o rosto ou do seu look natural e desgrenhado pela manhã. Vai querer ouvi-lo. Mas não vai precisar de o ouvir. Por mais que goste dos teus elogios, não precisará deles. Uma mulher bonita nunca vai precisar que lhe digas nada para se auto-valorizar.
Uma mulher bonita vai andar ao teu lado. Talvez te dê a mão. Mas não vai importar-se que olhem para ela. Vai desfilar pelas ruas, estejas ali ou não. Sorrir a estranhos. Fazer gestos de apreciação à vida. E vai afastar-te quando tiveres gestos de pretenso ciúme. Não vai aceitar que sejas possessivo. Uma mulher bonita sabe-o: sabe que pertence a si mesma e a mais ninguém. Não é tua. Está contigo. E, aos olhos dela, é isso que significa amar. Uma mulher bonita não acredita na noção ancestral de que é preciso um homem nem pensa que o amor se mede pela aniquilação de si. Uma mulher bonita sabe que, se amar tudo o que é, poderá amar-te mais.
É difícil namorar com uma mulher bonita.
Uma mulher bonita não vai importar-se se chegar atrasada aos compromissos. Ou, se se importar, vai levantar-se duas horas mais cedo para garantir que tratou de si. Vai ligar a algumas coisas fúteis, como a cor do verniz e o tamanho dos saltos. Mas, porque se sabe bonita, vai descartar a futilidade muitas vezes. Ao lado de uma mulher bonita, precisarás de saber falar sobre emoções e sentimentos... mas também precisarás de saber dar atenção ao mundo, aos problemas sociais, aos acontecimentos da actualidade. Com algumas destas mulheres, darás por ti a falar de política, economia, futebol... irás espantar-te com a quantidade de conteúdo interessante que se gera nos meandros do pensamento deste tipo de mulher.
Namorar com uma mulher bonita vai exigir que vivas segundo um padrão de decência acima da média. Este é o tipo de mulher que não vai aceitar que mudes de ideias de um segundo para o outro e que vai sentir-se enjoada com a ideia de que estás a fazer algo que não queres apenas para lhe agradar. As mulheres bonitas sabem que o são e não precisam que lhes façam favores para as conquistarem. Não gostam que as objectifiquem e as reduzam à aparência nem que as façam passar por parvas, num momento ou outro. Para serem agradadas, exigirão de ti a única coisa que te foi negada incessantemente ao longo da vida: que sejas tu mesmo. E, se te parece simples, és um idiota! Não há nada mais difícil do que deixar cair a máscara... principalmente ao lado de quem é visivelmente tão perfeito. Mas uma mulher bonita vai estar farta da falsidade. Vai estar farta da máscara. Vai querer o teu lado feio. Vai querer saber os teus gostos. Vai querer que digas quando não te apetecer fazer algo que ela gosta.
É difícil namorar com uma mulher bonita.
E é impossível namorar com uma mulher feia.
Não há mulheres feias.
Por isso, se a tua namorada não se sente uma mulher bonita, provavelmente não devias estar com ela. Ela merece alguém que a faça saber quão bonita é. Porque quando ela souber... ah! Quando ela souber vai ser difícil namorar com ela... mas vai valer cada segundo!

Marina Ferraz

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