domingo, 22 de setembro de 2013

Sete


Sete. São sete. São sete as letras da palavra memória. E a memória permanece. Permanece intocada nos recantos de tudo o que, afinal, não era bom, não era para ser e nem tão pouco era real.
E falo da memória. Falo porque não tenho medo. Já não tenho medo. Tenho só memória. Uma memória que se estende e se levanta, revelando o que havia por detrás de um sentimento que nunca foi nosso mas apenas meu.
São sete. Sete letras da palavra memória que se prende a sete anos de espera. Esperar por ti foi simplesmente esperar pela morte. Estava à espera da morte e sabia-o. O que eu não sabia era que o amor andava aí, à minha procura, à minha espera, dizendo que, algures, entre as árvores e os monstros de pedra, alguém queria fazer-me feliz.
A memória diz que também me fizeste feliz. Momentos efémeros de uma felicidade que se lavou com anos de lágrimas e amarguras. A dor era uma parte incontornável de mim mas não era minha. Vinha dos teus silêncios, da tua crueldade, da forma como usavas de mim somente o que era simples para desapareceres nos ventos.
São sete. Sete anos. Sete anos que tiveram muitos dias. Em qualquer um desses dias poderias ter mudado a história para criares uma memória em que  pudesse retratar-te de outra forma. Mas escolheste assim. Escolheste ser alguém que nunca esteve e para quem eu estive sempre. Alguém que deixava as promessas por cumprir, aglomerando-as em estruturas de fel e pedra poida, para serem vendidas a preço de saldo.
Na minha memória os teus olhos já não brilham e o teu sorriso já não ilumina. Porque a pessoa que eu um dia amei não existe atrás deles. A pessoa que eu amei morreu há muito tempo atrás, deixando somente a concha vazia e oca onde havia um ser humano que eu soube ser bom, decente, apaixonado e completo. A pessoa que eu amei perdeu-se nos confins de tudo o que nunca poderia ter sido para ter algo que eu não posso nem quero compreender. E espero que tenha valido a pena.
Nunca soube tanto sobre o amor. Mas, pensando em ti, o presente do verbo amar é "morreste-me". Morreste-me a ponto de te tornares memória e da memória dizer que a espera foi inútil. A pessoa pela qual esperei não poderia ter voltado porque, se alguma vez existiu, não existe mais. Amei verdadeiramente a ilusão. Chorei verdadeiramente a perda. Não sei se a mágoa era feita de amor ou luto. Sei que a palavra memória tem sete letras e que durante sete anos vivi sete vidas que foram mortes acordadas.
Sete. Sete anos e tantos dias em que podias ter mudado a forma como te revejo nas sete letras da memória. Sete anos para aprender que o amor é feito de tudo o que eu nunca tinha tido.
Sete. São sete as letras da palavra memória. E a memória permanece. Permanece intocada nos recantos de tudo o que, afinal, não era bom, não era para ser e nem tão pouco era real. Mas não importa. Estou a cumprir a promessa, com a memória pousada ao de leve sobre um coração que pecou, talvez, por te ter querido tanto. Estou a cumprir a promessa. Estou finalmente a cumprir a promessa que não fiz. Abri as asas e o céu chama. Adeus.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Consulta

Música: Helder Godinho | Vejam a letra desta música aqui 

O que quer saber? Diga-me. Não tenho nada a esconder. Já superei o medo dos fantasmas. Já deixei de ter lágrimas quedadas na primeira sombra da memória. O que quer saber? Pergunte. Responderei a qualquer coisa.

Se me considero triste? É por aí que quer começar? Está bem! Eu falo sobre isso. Sim, acho que sou um pouquinho triste. Não como se as decepções tivessem corrompido a minha alma. Não como se a vida tivesse sido a pior das minhas inimigas. Mas sim, sou um pouquinho triste. Acho que nasci com esse dom. O dom de ser triste. Pede que explique? Porquê? Não se entende assim? Está bem. Eu explico melhor. É como o senhor, por exemplo, tem o dom de curar loucuras. O meu dom é ser triste e tem o mesmo sentido que o seu. Entenda: a minha tristeza escorre pela tinta da caneta e imprime textos. Gosto de pensar que esses textos curam... se não loucuras, ao menos mágoas.

Como é que a tristeza de um texto pode curar? Deixe-me rir. A tristeza alheia cura mais do que qualquer outra coisa. Não ponho em causa a bondade das pessoas nem os seus doces e altruístas corações. Não acho que a cura venha de uma felicidade pela dor dos outros. Acho que a mágoa cura porque as pessoas entendem que não estão sós. A solidão dói mais do que a mágoa, sabe?

Se sou sozinha? Não sei. Nunca pensei nisso. O que é estar sozinho? Vivemos no meio de multidões... Sinto-me sozinha às vezes, sim. Mas isso significa que o seja? Não, não acho que seja sozinha. Acho que sou uma pessoa que anda por aí acompanhada pela solidão.

Quer uma palavra que me defina? Não posso dizer. Não insista, por favor. Não posso... talvez se fossem duas... em duas poderia talvez escolher o amor e o sonho. Mas aí faltaria dizer palavra e escrita e saudade... eu não sou uma palavra. Eu sou um universo de palavras e, acredite em mim, nem todas boas.

Se desejo a morte? Tanto como uma vida melhor, suponho. Mas isso também depende do que a morte é para cada pessoa, não é? Como eu vejo a morte? Eu vejo-a como mais uma passagem da alma. Ela veio de algum lugar, ela vai para algum lugar. Não sei se desejo a morte mas sei que não a temo. Se for o fim de tudo? Mesmo que seja o fim. Não temo. Para quê? Não vivi vida que me faça temer um fim perpétuo do que quer que seja.

Não está aqui para me julgar. Eu ouvi. E também sei que o está a fazer. Está a julgar-me em olhares que tentam ser indiferentes e em palavrões científicos nesse seu bloquinho branco. Mas eu não me importo que me julgue. Dirá, em palavreado médico, que sou louca. Mas eu sei que o sou. Dirá que sou depressiva? Bipolar? Esquizofrénica? Tudo bem. Pense o que quiser. No fim, o senhor ficará com notas no caderno e eu ficarei comigo. O senhor pensará que eu preciso de drogas e eu pensarei que estou bem. E a maior das loucuras é que, quando sair dessa bata branca e a realidade se abater, também vai sofrer e também vai sentir-se só. Em momentos de desespero talvez deseje a morte. Mas vai engolir a loucura desses pensamentos, recalcá-los, ignorá-los. É assim ou não é? Nunca se sentiu desta forma? Pode afirmar que nunca se viu a erguer os braços numa oração pelo fim?

Eu incomodo-o. Sei que sim. Incomodo-o, não porque sou louca mas porque sou sincera. Porque assumo o que penso e o que sinto. Porque não tenho medo de pensar e de sentir seja o que for. Agora que respondi às suas perguntas, diga-me só, com honestidade... responderia às minhas?


Marina Ferraz




terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não



O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. Estávamos ocupados a olhar um para o outro, em busca de tudo o que ficava dentro dos olhares oscilantes, viajando aos trambolhões pela nossa mente revolvida.
O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. As nossas mãos tocaram-se numa caricia subtil. E os nossos olhos caíram no encaixe perfeito das nossas mãos, como se ali encontrassem a resposta para um quebra-cabeças infinito, chamado vida.
Tínhamos muito mais a perder do que a ganhar. Mas não fizemos caso disso. Quando o Universo disse "não", tínhamos os olhares perdidos, as mãos dadas e um sorriso no rosto.
Ensurdecemos. Ouvíamos apenas os nossos corações descompassados a baterem em uníssono, criando uma melodia pura, que atravessava estrelas e perdia guerras contra o luar.
Quando o Universo disse "não" e nós não o ouvimos, já era tarde para escutar qualquer negação divina. Eu era tua. Tu eras meu. Independentemente do passado, do futuro ou da vontade do Universo que dizia "não".
Tínhamos muito a perder. Mas também tínhamos os olhares colados e as mãos dadas e os corações a baterem em uníssono.
Quando o Universo disse "não", ainda que o tivéssemos ouvido, não teríamos dito "não" um ao outro.
As mãos largam-se. Os olhares perdem-se. O coração pára. O Universo disse "não". Mas eu não acredito. Não acredito que os olhares esqueçam o que viram, que as mãos apaguem o toque, que o coração pare de bater em sincronia.
Não acredito que as mensagens que os nossos sorrisos passaram se lavem com lágrimas nem que sejamos condenados por nos darmos em toques de felicidade.
O Universo disse "não" mas nós não o ouvimos. Estávamos ocupados a ser felizes. Estávamos ocupados  a ouvir tudo o que fica nas entrelinhas dos nossos silêncios.
Quando o Universo se cansou de gritar palavras que eu nunca ouvi, foi o amor que me tocou no ombro: "O Universo disse que não", avisou-me, num meio sorriso que nos interrompeu o olhar.
Eu fitei o amor e encolhi os ombros. "Ele disse que não?", perguntei e o amor anuiu, em silêncio. "Pois eu digo: que se lixe o Universo. Estou ocupada a ser feliz..."

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Aos olhos da Lua


A Lua olhou para baixo. Outrora fora o seu encanto. O mundo dos homens fascinara-a, no tempo em que os homens eram do mundo. Lembrava-se concretamente de rios sem barragens, de florestas sem gruas, de vilas sem cimento. Lembrava-se concretamente do verde, do azul. Um diamante em bruto, cheio de vida, sempre que olhava para baixo.
O Sol tinha-a avisado: "Não te iludas! Um dia, quando te beijar, não vais olhar para baixo e sorrir. Há na aprendizagem humana todos os meios que levam ao caos.". Ela tinha-o ignorado. O Sol podia ser quente mas também era pessimista. Os humanos eram fascinantes. Honravam-nos com oferendas e flores, com cânticos e orações. A Deusa Lua, o Deus Sol. Honravam a Terra e a Água e o Ar e o Fogo. O Fogo... lembrava-lhes a alegria quando o tinham descoberto.
Em tempos fora o seu encanto: olhar para baixo e encontrar florestas virgens, rios indomados, mares sem portos, pessoas que sabiam qual a imensidão da Mãe Natureza.
Então, por força do hábito, a lua olhou para baixo. Olhou na busca de uma ilusão. Fitou primeiro os passeios cinzentos, depois a imensidão vermelha e negra dos telhados, depois as florestas de betão. Suspirou. Era triste olhar para o mundo, naqueles dias. Triste como imaginar uma noite sem o beijo do Sol. Uma noite de escuridão.
Desviou o olhar. Acima de si, apenas o negro, ao seu lado o seu eterno amante, debaixo de si a destruição. Queria chorar e não podia. Era uma das coisas que nenhum Deus tinha dado à Lua: olhos que chorassem a devastação que viam.
Lançou um olhar de soslaio ao Sol. Ele dormia, descansado, com o brilho colado ao seu rosto. Como podia ele dormir tão descansado? O mundo, abaixo deles, já não os honrava. As flores tinham dado lugar a estatuetas disformes. Os rios corriam, imundos, para um mar tóxico que ceifava a vida a tantos, tantos seres vivos.
A Lua olhou para baixo. Não porque houvesse algo que valesse a pena ver mas apenas porque o caos lhe puxava o olhar minguante para um infinito de nada. Desesperou nesse olhar, como tinha desesperado antes, tantas vezes. O que seria de si quando os monstros voltassem? Destruiriam a sua face com mais do que bandeiras e pegadas? E se, olhando para si, disforme como a Terra, o Sol já não viesse para lhe beijar o rosto?
A Lua olhou para baixo. Se houvesse uma gota de água nos seus mares, teria chorado. Como não havia, afastou-se um pouco do Sol e fez-se nova para que ninguém, naquele mundo destruído, olhasse o céu e percebesse como ela estava triste.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Banda sonora


Fazes parte da banda sonora da minha vida. A cada passo dado, sinto-te tocar os acordes da minha felicidade, numa busca pelo que fica dentro das melodias do amor.
Tocas-me com facilidade as cordas gastas da alma, como se soubesses de cor como travar o desafino constante das mágoas que me assombram e fazer soar apenas o que é belo em mim. Mas dás-me pelos defeitos e sorris-lhes. Fazes dos meus sons um caminho sem silêncios. Seguras-me a insegurança, sem sequer te aperceberes e matas-me a ansiedade com uma nota solta de alegria.
Fazes parte da banda sonora da minha vida. Tocas em mim. Tocas para mim. Tocas-me a mim. E, subitamente, é como se tudo fosse música, como se tudo encaixasse, peça a peça, e se eternizasse, aos poucos, numa balada de sentimentos e de sentidos.
E a música vai tocando. À medida que o tempo passa e a mágoa desvanece, abrindo espaço a um sem fim de emoções sadias, que se espelham em mil memórias inventadas sobre o que está para vir.
A música vai tocando: leve e certa, completa, suave, perfeita. Tem som, tem letra, tem voz. Todas elas unidas pela concordância sentida da dualidade das almas que se completam e se confortam.
Tem o tom da felicidade e do sonho. Tem o tom do que fica escondido sob as coisas que nem todos conseguem ouvir. Mas nós conseguimos: tu e eu. E, por conseguirmos ouvi-la,  sorrimos na distância incoerente, ao som de uma mesma canção, cheia de promessas de eternidade.
Fazes parte da banda sonora da minha vida. Como se todas as músicas do meu passado dolorido tivessem tocado penas e amarguras apenas para que, depois, tocasses tu. E foi em crescendo que me vi chegar a ti, sem saber que, na minha vida, podia ainda tocar algo tão belo.
Sim. A música vai tocando. O seu som inunda-me a sala, a casa, a alma... e deixa-me esquecer que alguma vez tive outra canção além da tua. Soas a esperança e a felicidade. Soas a destino e eternidade. E a música vai tocando em mim. Faz-me dançar. Sorrir. Faz-me sentir que nenhuma outra música me mereceu os passos e as coreografias. Faz-me sentir que nenhuma outra canção me mereceu as lágrimas - alegres ou tristes.
Fazes parte da banda sonora da minha vida. Cantas-me. Tocas-me. Conheces-me e entendes-me. E a minha alma gosta de ver as suas cordas serem tocadas pelos dedos insensatos das tuas palavras, dos teus planos, dos teus desejos.
É uma música perfeita. Uma música que só tu sabes tocar e só eu sei ouvir. Porque é nossa... e de mais ninguém!

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O mago


Vem comigo ver o mago. Chegou ontem à cidade e todos falam dele. Dizem que transformou terra em pedra. Dizem que transformou a rocha sólida em flor. Na flor mais suave, na flor mais linda. Dizem que olhou para o céu e transformou as nuvens em pó e o pó em estrelas.
Vem comigo ver o mago. Dizem, pelas ruas, que ele transformou muros em estradas e das estradas fez caminhos que davam para ir a qualquer parte do mundo.
Dizem que tocou no chapéu de um mendigo que pedia esmola e o transformou na mansão mais imponente, que sorriu a um seixo e ele se fez borboleta e voou, cada vez mais alto, mudando de cor, mudando de forma, até se tornar ave.
Vem comigo ver o mago. Ele passou pelas ruas da cidade e transformou lágrimas em sorrisos, saudade em harmonia, violência em dança.
Passou pelas ruas e transformou casebres em castelos, velhas em meninas, sementes em árvores com flores e frutos.
Anda. Vem comigo. Vamos ver o mago. Vamos vê-lo transformar a morte em vida, a dor em sossego, a podridão em arte. Vamos segui-lo em silêncio pelas ruas cinzentas e ver o cinzento ganhar cor a cada toque, a cada olhar.
Vem comigo ver o mago. Anda. Não percamos tempo! Quem sabe se ele não transforma o teu silêncio em palavras e a tua indiferença em amor.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A lista


Um dia vamos andar de mãos dadas pela rua. De dedos enlaçados num abraço apertado que se estende além dos olhares de quem passa. Não deveremos explicações a ninguém. Por isso, deixaremos que olhem, mesmo sabendo que, olhando para as nossas mãos, não nos compreendem a alma, também enlaçada em abraços e sentidos.
Iremos ver o mar. Sorrir aos pores do sol. Olhar dentro dos olhos um do outro, ignorando até as estrelas que espreitam do céu, depois de um sol invejoso se deitar com o oceano.
Um dia, vamos correr o mundo. O mundo poderá ser dois passos convergentes até um abraço cheio de cidades. E não vamos ter pressa, nem roteiro, nem destino. Apenas os braços um do outro, um sorriso nos lábios e um brilho no olhar.
Iremos a lugares que ninguém vai, por trilhos incertos. Cairemos aqui e ali no desconhecido. Mas vamos erguer-nos, erguer a esperança e confiar nas palavras nunca ditas do nosso coração.
Um dia, vamos abrir as asas e voar, à medida que o chão desaba sob os pés que firmámos durante tempo demais. E voaremos alto, voaremos juntos, enquanto as estrelas nos piscam o olho e a lua cresce no céu nocturno.
Iremos agarrar o café e a manta. Deitar no chão das nuvens a olhar o infinito. E vamos deixar que se dê um abraço entre as almas, enquanto cantas uma canção de embalar e deixas os dedos navegar nas ondas dos meus caracóis imperfeitos.
Um dia, serei tua e serás meu. Sem medo de perdermos quem somos por nos darmos. Sem medo de perder a liberdade por não querermos outra liberdade senão essa onde nos damos um ao outro.
Iremos adormecer abraçados e acordar com sorrisos comprometidos, por entre rostos sem maquilhagem e cabelos emaranhados. Riremos da forma sem jeito como me escondo debaixo das mantas e da forma desajeitada com a qual encaro tudo o que é novo.
Um dia, o sorriso vai transformar-se em rotina. Sorrindo, olharemos um para o outro e saberemos que tudo em nós foi certo, evidente, destinado. E o abraço das nossas almas ganhará raízes e asas, na certeza de que, por vezes, ser livre é apenas escolher ficar.
Um dia. Um dia, tu e eu seremos nós. Entre a simplicidade da minha lista de desejos, seremos mais do que a imaginação permite. Talvez sejamos eternos. Talvez sejamos poeira de um sonho real. Seja como for, tenho a certeza: quando esse dia chegar, seremos a expressão mais pura da felicidade.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carta do amor


Pessoas do mundo,

Gostaria de vos perguntar como estão. Seria simples começar assim, pela pergunta retórica do óbvio. Mas não vou perguntar. Sei a resposta. Vocês estão feridas. Feridas pela oportunidade que passou ao lado. Pela traição desvendada. Pela discussão inacabável. Pela rotina sem fim que vos encheu os dias. Então, como eu sei a resposta, não vou perguntar.
Querem saber como eu estou? Eu estou ferido também. Ferido pela vossa insensatez. Ferido pela forma como usam o meu nome, sem o pensarem, sem saberem o que ele significa. Ferido pela culpa que me atribuem quando os vossos erros tornam a vossa vida um inferno.
Eu estou cansado. Cansado de ouvir dizer que a culpa é minha. Cansado de ser chamado, abandonado, espezinhado. Cansado de ser o tema interminável dos vossos diários, das vossas conversas, das vossas ilusões. Estou cansado de ser chamado em vão, no primeiro vislumbre do desejo. Cansado de ser tratado como o fruto podre de uma árvore que jamais deu flor.
Eu não tenho culpa. Não tenho culpa que a cada passo que dão julguem encontrar-me nem que me vejam em sítios onde eu não estou, em lugares onde nunca fui, em recantos que jamais visitei. Eu escondo-me bem dentro dos confins do tempo. Quando me virem de verdade já terão usado o meu nome erradamente, já me terão traído e odiado.
Eu não sou perfeito. Levo tempo. Tempo para crescer, tempo para criar raízes. E preciso que respeitem o meu tempo. Mas eu não sou cruel. Não sou o vosso eterno inimigo. Não construo a minha felicidade na vossa tristeza. Eu sou as estrelas que brilham mais, os pores-do-sol mais bonitos, o mar mais intempestivo e azul. Eu sou o verde das árvores. Eu sou o curso dos rios. Eu sou o sorriso breve, envergonhado. Eu sou a mão dada pelos caminhos e a promessa feita e jamais quebrada. Eu sou a dificuldade superada, a paciência infinita, o choro de mansinho na hora da partida.
Gostaria de vos perguntar como estão. Seria mais simples. Mas eu sei como vocês estão. Estão sentados, à espera que eu entre nas vossas vidas e resolva os problemas que dizem que fui eu a criar. Mas eu não entrei nas vidas de todos vocês e, certamente, nunca vos feri. Quem vos feriu foi a ilusão de que me tinham nas mãos. Quem vos feriu foi uma ou outra pessoa que, como vocês, não me viu.
Eu não nasci para me dar. Nasci para que me dêem e me recebam no peito. A culpa não é minha se a ferida nasce da ilusão antes de me agarrarem com a ternura de um embalo. Tudo o que eu quero é que sejam felizes, inteiros. Que encontrem as minhas metades e as juntem. Que sorriam, superem e sejam mais e melhor.
Querem saber como eu estou? Eu estou desiludido com o mundo. Desiludido porque quanto mais ouço o meu nome, mais compreendo que não sabem quem eu sou...


Eternamente vosso,
Amor

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Daqui até ti


Daqui e até ti. Até ao infinito de todas as coisas do Universo não ser nada. Daqui até à distância incerta que o horizonte continua a delinear, paisagem atrás de paisagem e história atrás de história. Daqui até ao fim dos tempos. É esse o tamanho da ausência quando se ama alguém. É esse o tamanho da distância que separa uma proximidade inútil que não quer ser mais do que distância disfarçada de presença.
Daqui até tudo o que já fomos. Daqui até tudo o que podíamos ter sido, até tudo o que podíamos ter tido, se tivéssemos tentado. Queres tentar? Queres tentar fechar os olhos e procurar na distância o contentamento do que fica além da fotografia rasgada e da roupa gasta pelo tempo?
Fecha os olhos, então. Fecha os olhos e cega. Não vejas a minha dor. Não a conheças. Não te revejas nela. Fecha os olhos, simplesmente. Assim não verás que é daqui até ti, esta saudade de infernos que me encheu a alma.
Daqui até ao fim dos começos insensatos que ficam nos bosques da sensatez imaginada. Não há sensatez nenhuma no amor, não há sensatez que fique quando se ama alguém. O amor é louco e é loucura. Quem escolhe amar escolhe isso mesmo. Sensata? Não! Não sou sensata. E também não sou desapegada. Nem simples. Nem feliz. Sou louca. Louca pela ideia deste amor estúpido que cultivei. Louca e complicada.
Queres ver como sou? Então fecha os olhos. Fecha os olhos ao que disserem de mim e olha novamente para a pessoa que sabes que sou. Eu sou cada sorriso e cada lágrima. Sou tanto e tão pouco. Fecha os olhos e vê-me: despida e louca. Sem nada que me vista a alma dessas coisas que são tão importantes para quem não quer amar nada nem ninguém. Verás nesse olhar cego que sou complicada... e que sou uma idiota. Sabes que mais? Verás que sou eu. Eu além deles e independentemente deles, completamente de rastos aos teus pés, à espera de ser pisada outra vez.
Daqui até ao fim dos tempos. Daqui até ao fim da vida. Daqui até ao fim do mundo. Tudo parte daqui. E tu tens os olhos fechados... não vês o tamanho desta saudade de fel.
Fecha os olhos então. Eu vou fechar os meus também. E um dia, um dia não vou voltar a abri-los... e continuarei a ser louca, e continuarei a amar-te e a saudade continuará a ecoar... daqui até ti... daqui até o infinito de todas as coisas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pedidos


As minhas mãos pedem pelas tuas. Sussurram que os seus dedos devem estar enlaçados com os teus para poderem abraçar também os sonhos e conquistar o mundo com espadas de sentido. Elas pedem para dançar com as tuas, valsas que não tenham final nem coreografia. Elas pedem que os dedos se encontrem e se dêem, num eterno desapego de tudo o que fica além do universo onde as mãos se dão e se perdem e se esquecem de estarem abertas e vazias. As minhas mãos pedem pelas tuas.
O meu coração pede pelo teu. Impacientemente, sem justificação. Grita, corre, estrebucha. Quer o teu junto a si, para lhe sentir os batimentos, igualmente impacientes e corridos, gritantes. Diz que não há sentido na distância. Que te quer perto, que quer sentir o teu coração responder-lhe ao ridículo das pulsações arrítmicas, com  a mesma avidez, despida de ponderação ou calma. O meu coração pede pelo teu.
Os meus lábios pedem pelos teus. Querem sentir o toque de um beijo de veludo, que aqueça a alma, arrepie o corpo, mate a saudade, nos leve além do que o mundo possa achar de nós. Eles dizem que querem os teus, para serem um só, para serem completos, para se curvarem em sorrisos reais e plenos que não tenham outro fim senão a eternidade. Os meus lábios pedem pelos teus.
Os meus braços pedem pelos teus. Querem um abraço que se estenda daqui até ao infinito. Um abraço que não tenha apenas começo e fim, mas antes toda uma nova estrutura de tempo, que não tenha limites delineados nem caminhos definidos. Um abraço que nos leve ao toque arrítmico do coração e à criação do sorriso que os meus lábios querem com o teu beijo. Os meus braços querem sentir-te o corpo, enlaçar-se nele, como se abraçassem a lua ou as estrelas de um universo nunca sonhado pelo comum dos mortais. Os meus braços pedem pelos teus.
Os meus olhos pedem pelos teus. Querem essa suavidade azul pousada em mim. Querem esse brilho insensato que me faz sorrir e me derrete as mágoas, transformando-as na sombra pura de uma felicidade atroz. Pedem pela suavidade que trazes no olhar e com a qual me fazes crer que sou bonita e me fazes sentir a pessoa mais especial da história dos mundos. Os meus olhos pedem pelos teus.
O meu corpo pede pelo teu. Um grito de desespero que se forma nas mãos, segue até ao coração, se estende nos lábios, nos braços, no olhar... É entre arrepios e afirmações e desejos que nunca mais terminam que o meu corpo me diz que a minha alma também pede por ti. E é com sensações que vão além dos sentidos que, sem vergonha, o meu corpo me vai dizendo que te quer até ao limite onde nós sejamos realmente um só, perdidos do mundo e eternamente um do outro. O meu corpo pede pelo teu.
A minha alma? A minha alma pede pela tua. Mas ela não pede apenas. Ela implora. Diz que te conhece de outras Eras, de outros tempos, de outras vidas. Quando me pede pela tua, a minha alma não fala de abraços, nem de beijos, nem de sensações. Mas ela pede frequentemente, principalmente quando a noite cai. E, quando pede, eu ouço baixinho, a ecoar pelas sombras dos meus dedos, do meu coração, dos meus lábios, dos meus braços e dos meus olhos que pedem pelos teus... ouço-a pedir, não dizendo que quer a tua alma... mas que quer a outra metade de si.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet