No murinho se sentava a minha muralha. Homem forte, embora a
idade calejasse as mãos e arrastasse passos. Cada dia um pouco mais. Naquela
nuance de invisibilidade cega que carregamos nos olhos. Mas íamos. Juntos. E
trocávamos parcas palavras cheias de sentidos, à medida que ele se propunha a
concretizar todos os meus desejos e eu lhe depositava nas mãos a irrealidade de
sonhos que nunca viriam a ser. Íamos de mãos vazias. Dadas. E voltávamos com
gelados. Sentávamo-nos. No murinho. Lá onde crescia o chorão. E onde se acumulavam
as folhas, no final do Verão, quando o Outono batia à porta. Sentávamo-nos. E
desfrutávamos do doce sentido da vida enquanto aproveitávamos os raios de sol
poente. Depois de jantar. Depois do dia. Depois de não haver depois. No
murinho. Este murinho. Tão cinzento que se esquece. Tão pequeno que nem se
nota. Tão esquecível que as arestas lhe foram tomadas pelas ervas e as frestas
lhe foram invadidas pelo musgo. Tão esquecível que os buracos alastraram sem
que ninguém se lembre de o mandar arranjar.
No murinho se sentava a minha muralha. Sempre com um sorriso
para dar, por entre as rugas que se formavam, simpáticas, nos limites dos
olhos, e as manchas pequeninas, feito sardas, que lhe apareciam em pontos
específicos do rosto. Tinha sempre um sorriso. Um sorriso que caía bem por
entre a rijeza da postura idosa e idónea. E era bom sorrir de volta,
semicerrando os olhos. Em criança, parecia-me sempre que havia uma juventude
igual à minha no sorriso que lhe irradiava estrelas nos olhos. Companheiro de brincadeiras,
de caminhadas, de sessões de cinema em casa. Companheiro do gelado que comíamos
sentados no murinho.
Naquele murinho construímos a minha realidade. A que não
existia. Aquela que vivia dentro da minha cabeça de menina, no topo das nuvens
do meu coração. O sonho. Uma história ou outra sobre o dia na escola que se
dizia de um fôlego e virava, com facilidade, mote para me encher a alma com a
sensação plena do orgulho que ele tinha em mim. Naquele murinho, ao lado da
minha muralha, construí muito do que me viria a tornar. E algo na postura suave
e doce daquele homem, de cabelo ralo e branco, quase sempre com o típico boné
tapando a careca, me dizia que, fizesse o que fizesse, ele havia de me
proteger.
Eram conversas de chocolate quente. E gomos de maçã de
conversa. E dedos mindinhos dentro do whisky forte e velho. E peças de dominó a
chocar umas com as outras. E infinidades em segundos. E gelados. Gelados
comidos no murinho. Nesse murinho. Aquele no qual, ao meu lado, se sentava a
minha muralha.
Sobre o muro? Permanece lá. E, porque ninguém lhe liga,
deteriora-se. E, porque ninguém nota, perde pedaços de cimento e apodrece. E,
porque ninguém sabe, vai degradando aos poucos a ideia de que alguma muralha
possa, um dia, ter encontrado momentos de repouso sobre si. Sobre ele? Não está
aqui. Mas, porque ninguém liga, permanece. Mas, porque ninguém nota, ainda vive
e sorri. Mas, porque ninguém sabe, toma nuances de eternidade e deixa no ar
notas saudosas do tempo em que, no murinho, eu me sentava com o gelado ao lado
da minha muralha.
Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet
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