terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O quinto shot

 


Depois do quinto shot a conversa talha-se em inglês. O inglês é simples e acompanha o ritmo do pensamento. Alerta a bartender para a ideia de que acabaram os copinhos cheios de absinto de 80% vol. A partir dali, só suminho pintalgado de álcool e olhares de confirmação, para ver se estamos bem.

 

Sabemos que o inglês a alerta, mas não nos importamos. Queremos só a pacatez de estarmos as duas, sentadas no balcão do bar, meio obscuro, a beber um bocadinho acima do razoável, obrigando os fígados a arcar com as consequências de todas as escolhas feitas nos momentos em que o coração domina o cérebro.

 

Ela diz-me uma ou duas coisas que eu já sei. E eu respondo com três ou quatro que ela já sabe. E sorrimos uma à outra. Ponteando a conversa com exclamações de apreço. Tive saudades tuas. Damos as mãos.

 

Levo sempre comigo um cansaço que me confere o ar inegável de quem inveja os mortos. E ela esconde-se nas camisolas desportivas – usualmente da secção infantil de rapaz – e sorri-me, meio preocupada com as olheiras.

 

Devemos ser esquisitas. Quando nos perguntam se queremos e precisamos de mais alguma coisa, queremos somente o que enche os 44 ml do copo arrefecido, duas rodelas de limão e sal. Devemos ser esquisitas. Brindamos sempre ao mesmo e com a mesma intenção. E até levamos livros e cadernos e cartas de tarot para o bar.

 

São histórias que se repetem. Que se repetiam. Que nunca eram a mesma história, mas condensavam um universo de pequenos universos do que pode ser narrado em loop. Simples. Como o quinto shot que nos levava ao twist linguístico.

 

I believe I’m a bit drunk now.

Me too.

We’ll be fine...

 

Era para termos ficado. Bem. Mas o bar fechou. A pandemia veio. Os bares abriram – não aquele, outros – e a entrada foi-nos vedada por novas normas. Somaram-se mais normas e novas portas fechadas. Beber ao balcão tornou-se perigo de saúde pública. Beber na via pública é proibido... e pedem que mantenhamos a distância. Não da bebida... uns dos outros. Menos afetos, menos toques, menos contacto...

 

E claro que o álcool não importa nada para a minha história com ela. Não cumprimos a política do não-afago. Continuamos a encontrar-nos quando o tempo permite e a deixar cair dos lábios expressões que enunciam a saudade. Reviramos os olhos às circunstâncias e aos rebanhos. Mas sentimos – eu sinto – que nos roubaram um espaço que era nosso, numa tradição que era nossa... e que faz falta.

 

 

Aos bocadinhos, os arcos-íris ridículos que penduraram em todo o lado – vai ficar tudo bem – perdem a cor e o sentido. Levam-me àquele balcão de bar, onde me sentava com a minha melhor amiga...

 

E, olhem... não me lembro... mas devo ter bebido cinco shots. Porque só me ocorre uma palavra. E está em inglês. Fuck!

 

  Marina Ferraz





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