terça-feira, 8 de maio de 2012

Desvenda-me



Desvenda-me. Cor a cor. Peça a peça. Palavra a palavra. Gesto a gesto. Aprenderás com o tempo que sou a incógnita mais simples de todas as equações. Mas não posso mostrar-to. É algo que tens de descobrir sozinho...
Às vezes é só olhar melhor, ainda que para as mesmas coisas. Trago a transparência nos olhos e tenho a alma aberta, ainda que quebrada. Por isso olha para mim. Vê-me. Descobre os meus segredos com a suavidade de um toque ou de um suspiro.
Sou um enigma que só tu podes desvendar. Por isso decifra-me. Medo a medo. Ilusão a ilusão. É assim que poderás chegar ao fundo da minha alma. Passo a passo. Sem desistires de mim, sem desistires do que pode haver nos confins do que o mundo não vê em mim.
Não esperes que seja um livro aberto. Há muito nas entrelinhas do conto mal fadado com que pintei a história da minha vida. Mas podes interpretar-me. Mover-te qual personagem da história, conhecer o que ficou além do que eu própria sei. Hei-de te deixar chegar lá: ao lugar inóspito do meu coração onde nunca ninguém chegou. Hei-de te mostrar a incerteza e a dor.
Carinho a carinho. É assim que vais derrotar a minha insegurança. Matando os silêncios, trucidando as distâncias e abraçando o meu corpo de mulher perdida.
Toque a toque. Beijo a beijo. O sentir insensato dos teus lábios nos meus. É assim que vais quebrar a minha muralha. É assim que vais roubar a máscara de mulher forte e conhecer a menina carente. E talvez seja aí que, incerteza a incerteza, vais criar o adeus. Mas entende: é peça a peça, cor a cor, palavra a palavra que terás acesso ao melhor e ao pior de mim. E eu sou o que fica nessa realidade crua: o melhor e o pior. Não julgues tão facilmente!
Desvenda-me. Tenho a certeza de que consegues entrar no meu mundo de sonhos, onde geralmente só eu posso vaguear. Nesse mundo vais conhecer personagens e desejos. Personagens com vida própria e desejos que guardei pela certeza inabalável de que é impossível viver de sonhos. Vais conhecer nele a fada, a bailarina, a criança. Vais conhecer nele os rios de possibilidade e o horizonte que fica ao alcance de um toque. E, nesse mundo maravilhoso, também vais palmilhar os vales da minha loucura. Porque me perdi loucamente no desejo de viver na ilusão de uma vida melhor.
Podes decifrar-me. Sentido a sentido. Respiração a respiração. Sopro a sopro. Podes decifrar esse enigma que espantou universos e surpreendeu átomos. Esse ser que fez apaixonar umas pessoas e afastou outras.
Seja qual for o desfecho: desvenda-me. Cor a cor. Peça a peça. Palavra a palavra. Gesto a gesto. Decifra o que há de mais complexo em mim por entre a minha própria simplicidade. Não importa se depois fores embora, passo a passo. Só não quero que vás sem saberes quem eu sou.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Apenas isso


Não me dês o mundo ou a vida. Não me dês palavras caras e desassossegos de meia-noite. Não me dês castelos e palácios. Não me dês jantares caros em restaurantes finos, onde os talheres se somam até à beira da mesa. Não me dês viagens. Não me dês joias. Não me dês presentes... Não preciso dessas coisas e não as quero. Para quê? Para quê possuir mundos que não posso governar, casas nas quais não usarei mais do que meia dúzia de divisões, restaurantes em que não provarei mais do que um prato? Não preciso dessas coisas.
Vem aqui. Olha as estrelas. É isto que eu quero. A distância que fica à proximidade de um olhar e que não desaparece nos momentos de escuridão. A beleza que não se apaga. O brilho que não esmorece. Não tentes dar-me mais do que isso. A vida é feita de incertezas. Não me enchas de futilidades. Não me transformes numa coisa que não sou!
Queres dar-me algo? Pois dá... Dá-me um sorriso. Dá-me um beijo. Dá-me a mão no meio da rua, mesmo que haja gente. Dá-me tempo. Dá-me presença. Dá-me um pedaço de ti que possa trazer comigo. Dá-me um fragmento de memória que não possa ser esbatido pelo tempo. Dá-me a esperança vã de que ainda te voltarei a ver e que, quando te vir, ainda terás o olhar mais bonito do mundo.
Mas não. Não me dês promessas que não tencionas cumprir. Não me dês momentos que se transformem em mágoa ao redor de mil silêncios. Não me dês nada que saibas que vais levar contigo ao partir.
Não me dês um ramo. Dá-me uma flor apanhada no meio do nada. Não me faças uma serenata. Sussurra ao meu ouvido as palavras que te cruzam o pensamento, mesmo que elas não te pareçam bonitas. Não me dês protecção. Dá-me a certeza de que estarás lá, se eu não me bastar.
Tudo o que preciso está em ti. Tudo o que preciso está na simplicidade que trazes no rosto e nas mãos e nos bolsos recheados de sorrisos e sonhos para amanhã. Tudo o que preciso está aí.
É a loucura dos tempos. Tu sorris e o meu mundo sorri contigo. Destróis as muralhas em meu redor. Dilaceras os meus exércitos. Condenas-me. E és tudo o que preciso para saber que a vida vale a pena.
Então, não me dês um presente. Dá-me apenas a mão por um momento. Diz qualquer coisa, seja o que for. Sorri e deixa-me sorrir contigo. A vida magoa. E és só tu que me dás força. Então, se puderes, dá-me apenas isso... a mão, um abraço, um sorriso, um beijo, um momento... e se puderes, se conseguires, dá-me um espacinho pequenino na periferia do teu coração. Só um cantinho. Só para eu saber que não me darás a distância que me roubará a vida!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da  Internet

terça-feira, 24 de abril de 2012

História d' encantar


Foi uma história de encantar. Uma história daquelas que embalam crianças e as fazem sorrir durante sono. Uma história de princesas e fadas e arco-íris. Foi de facto uma história maravilhosa. Lembrar-me-ei sempre dela como um sonho. Que realidade podia deixar cicatrizes doces?
Foi uma história bonita. A menina sonhadora que cresceu e encontrou o amor. A menina poeta que escreveu eternamente sobre o sentimento mais inexplicável de todos. Hão-de contar esta história. A história do amor, a história dos amantes, a história das certezas e dos risos e dos corações acelerados. Vão contar esta história muitas vezes...
Eu vou certamente contá-la. Vou contá-la aos ventos e às marés. Sussurrá-la aos ouvidos das sereias e das ondinas, para que a espalhem pelos sete mares. Vou contá-la às fadas para que a elevem aos céus e a façam cair, na forma de pó, sobre cada vulto adormecido. Não haverá ninguém no mundo que não saiba o que é o amor. Não haverá ninguém no mundo que não saiba que ainda há histórias de encantar.
Foi uma história de encantar. Uma história de amor a queimar a alma até haver apenas cinza. Uma história de paixão a rasgar a pele até haver só cicatrizes. A história da princesa desterrada que nunca teve um trono, que nunca teve um salvador. A história da menina que viveu no chão, numa prece constante por um pouco de céu.
Foi uma história de encantar. Daquelas que fazem rir. Daquelas cuja ironia passa ao lado dos ouvintes. Daquelas que as crianças gostam de ouvir na inconsciência e que perturbam os adultos. Uma história onde a felicidade veio no fim. Na derradeira página, onde a morte se assumiu e a personagem principal ficou finalmente só pela eternidade.
Vamos contar ao mundo. Um dia a menina sonhadora cresceu e encontrou o amor. A menina poeta escreveu eternamente sobre o sentimento mais inexplicável de todos. Um dia a menina percebeu que toda a gente é cega à dor dos outros e que é por isso que as histórias de encantar têm finais felizes...
Não podemos dizer ao mundo que a menina encontrou o amor e que isso a destruiu até não haver mais sonhos dentro dela. Não podemos contar que os poemas eram punhais a dilacerar um sentimento no qual ela queria deixar de acreditar.
É uma história de encantar. É assim que deve ser. Um sorriso no rosto e uma tiara imaginária sobre o cabelo dourado. Os olhos vendados à realidade. Mas para quê, se a dor está lá e fere, alastra, corrói?
Foi uma história bonita. Uma história tão bonita que a faz sorrir todas as noites antes de ir dormir... que a faz sorrir abertamente antes de pedir aos Deuses, numa prece ponderada, para não acordar nunca mais!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de abril de 2012

Memórias no vazio


A memória riu baixinho, enquanto atravessava a sala deserta. A mesma sala deserta que estava apinhada de fantasmas tristes. A mesma sala deserta onde se amontoava a poeira do tempo. A mesma sala deserta onde ela estava sozinha. Sozinha como os fantasmas e a poeira e o deserto de uma alma despojada de sonhos.
Apoiou-se nos braços do sofá velho e gasto e olhou para ela. Bem dentro dos olhos apáticos. Bem dentro da alma carcomida pela saudade e a distância. Ela não reagiu. Não pestanejou sequer. Então, a memória beijou-a. Primeiro levemente, carinhosamente. Depois, com ansiedade. Finalmente com uma necessidade crescente de fazer parte do vazio que ela tinha nos olhos.
O ondear claro e óbvio da saudade anunciou-se nesse beijo e, qual intruso, foi sentar-se discretamente ao lado dela. E uma lágrima caiu-lhe dos olhos e percorreu-lhe o rosto exactamente ao mesmo tempo que um sorriso aflorava, quebrando a apatia.
Depois do beijo, o vazio. O vazio incoerente. A apatia acentuada. O medo desmedido que surgia na forma de lágrimas despidas de sensações.
E a memória abraçou-a e deixou-a chorar, enquanto a saudade adensava e se tornava corpórea, ganhando forma dentro dela.
Cansada. Demasiado cansada da vida. Demasiado cansada de não sonhar. Demasiado cansada da sala deserta onde ela não era mais do que outro fantasma com corpo. Demasiado cansada de ter de respirar. Foi no cansaço que ela recebeu a saudade e no cansaço que ela deu a mão à memória e a seguiu, deixando o corpo para trás.
E a memória deu-lhe a mão, limpou-lhe as lágrimas, arrancou-lhe um sorriso e sorriu também. Depois, qual amantes, deixaram a sala deserta. A mesma sala deserta onde os fantasmas tristes tinham adormecido e a poeira ainda adensava. A mesma sala deserta onde ela fingira viver durante tanto tempo. A mesma sala deserta onde ela já não estava. Onde já não estavam as suas memórias saudosas e a sua alma despojada de sonhos.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Alma quebrada


Toma. Leva também a minha alma. Leva-a juntamente com os sonhos que te dei e com o coração que me roubaste num beijo. É assim que deve ser. Não há outra maneira...
Leva-a. Leva a minha alma, mesmo rasgada, mesmo ferida, mesmo vazia de tudo o que algum dia foi bom. Leva-a nessa bagagem leve de memórias vãs que esquecerás na primeira estação. Mas leva-a. Mesmo que a percas. Mesmo que a deites fora. Não importa!
Leva a minha alma, da mesma forma que me levaste a esperança. Leva-a da mesma maneira como, tão subtilmente, fizeste de mim criada dos desejos insensatos do mundo. Não consigo trazê-la mais comigo.
Sorrisos, lágrimas e tantas, tantas memórias. É isso que estou a oferecer-te. Os meus sorrisos que eram teus, as minhas lágrimas tontas e desesperadas, cheias de promessas, e as memórias que guardei. Memórias de desenhos e de flores e de mil brincadeiras. Rir até chorar, sorrir num choro magoado, dar até uma gargalhada dorida por entre as piores coisas da vida. A minha alma é capaz de tudo isso. Então, por favor, leva-a contigo. Não preciso dela! Já não preciso de me rir ou de chorar ou de recordar o que quer que seja. Estou cansada... Tão, tão cansada...
Toma. Leva também esta alma suja, encardida, feita de trevas. Leva-a na maleta ou na algibeira. Leva-a, seja como for. Já não me importa. Mas leva-a, com cuidado ou aos tropeções, onde quer que vás. Porque, então, se alguém me perguntar como está a minha alma, poderei dizer que está contigo, sem ter de explicar que está quebrada e dorida.
Leva-a. Leva-me esta alma que já não me serve os dias nem as noites. Esta alma que já não me encara e que já não me responde. Esta alma que me odeia por tudo o que lhe fiz. Leva-a contigo e deixa-me só. Preciso de esquecer...
Os olhos ficam abertos, cansados das lágrimas, cansados da dor. O mundo gira e a alma pesa-me. Leva-a. Leva-a para longe e deixa-me dormir. Estou cansada... Cansada de ser uma pessoa e de ter uma alma ferida. Cansada de ser deixada para trás, com tão pouco como um peito dolorido que já gastou todo o amor que tinha para dar. Por isso leva-a. Leva a alma. Leva-a como levaste os sonhos que te dei o coração que roubaste. É assim que deve ser. Não há outra maneira.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Rumores


Há rumores pela cidade. Talvez não os ouças. Talvez não queiras ouvi-los. Mas há rumores a percorrer as ruas, cantando na voz do vento. E não consigo fugir-lhes. Perseguem-me, atormentam-me. E são mentira. Não são?! Diz-me que sim...
Ontem o vento contou-me que apagaram o brilho dos teus olhos. E, feito menina, chorei de dor, enquanto gritava que não podiam roubar-te a luz do olhar, da mesma forma que não podiam roubar o brilho das estrelas. Mas, depois, olhei para o céu. Apagaram as estrelas, meu amor. Há apenas o nevoeiro e a luz amarelada de uma cidade adormecida.
E o vento ri-se, enquanto espalha o rumor. "Apagaram o brilho dos teus olhos". Ele não sabe o que diz! Não sabe que o brilho dos teus olhos é esperança. Não sabe que, quando os teus olhos já não brilharem, o mundo chega ao fim...
Há rumores nas ruas desta cidade deserta. E risos cruéis. E gritos de alegria. Há fantasmas do passado. Portas fechadas e sonos profundos. E ninguém entende. Como é possível que ninguém entenda quando eu vi num primeiro olhar? Não podem apagar-te o brilho que trazes nos olhos. Não podem fazê-lo sem destruírem o que restou de bom nesta vida sem vida que trago sem ti. Não podem fazê-lo sem desequilibrar o universo...
Tentei explicar ao vento quem tu és. O vento não ouve. Não quer saber. Sopra somente, em gritos mudos. Espalha o rumor pelas praias, pelos vales, pelas serras e pelo que fica além do infinito. "Apagaram o brilho dos teus olhos".
Mas eu não acredito. Não posso crer! Ninguém poderia jamais roubar o brilho dos teus olhos. Ninguém poderia roubar-te a essência de seres feliz. Há rumores... rumores de que apagaram as estrelas, rumores de que inverteram as marés, rumores de que morreu um imortal. E que assim seja! Posso viver na escuridão das estrelas apagadas, no frio de marés invertidas e num mundo de efemeridades. Mas não! Não podem ter apagado a luz do teu olhar. O teu olhar que me é estrela, mar, maré e imortal. O teu olhar não pode ter perdido o brilho!
Há rumores pela cidade. Sopram na voz do vento e entranham-se na pele das pessoas que passam na rua. Dizem que apagaram o brilho dos teus olhos. Não sei se os ouves. Espero que não! Porque eu, que os ouço, encontrei o brilho das lágrimas para os meus olhos e é com ele que brindo os rumores de que os teus perderam o brilho.
Não ouças o rumor. Não ligues ao vento mesquinho e sem idade que se habituou a percorrer as ruas, sem se importar com ninguém. Olha para mim. Eu não acredito. Não acredito nestes rumores nem em quaisquer outros. Tu és tu: com a tua essência perfeita, a tua alma completa e o teu brilho nos olhos. E, se algum dia for diferente, correrão rumores de que o meu coração partido parou... correrão rumores de que o vento roubou, em palavras, a derradeira sombra de vida em mim... e esses, acredita, serão verdade!


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet (Starry Night - Van Gogh)

terça-feira, 27 de março de 2012

Era uma vez...


- Conta-me uma história... - foi um pedido de brilho nos olhos e sorriso aberto, no limiar do sono e da esperança. A voz de veludo, meio rouca, com nuances de quem não tardará a conhecer reinos de fantasia no universo dos sonhos.
Sentei-me na beira da cama e afaguei-lhe os caracóis louros, enquanto lhe fitava os olhos entreabertos. Os olhos dela. Como poderei algum dia descrever os olhos dela? Eles são azuis e verdes e raiados de amarelo e avelã. Não têm cor e têm todas as cores. Fazem lembrar dois pequenos mundos. Neles há terra e mar. Terras cheias de aventuras e mares cheios de sereias e caravelas.
- Era uma vez... - as palavras fogem-me por entre os lábios antes que me aperceba. Saem de rompante, como se responder aos desejos dela fosse mais importante do que responder à minha própria lógica. E, com os olhos vivos, ela abana a cabeça.
- Quero uma história com final feliz. - dita com a voz mortiça e imperativa, sem mudar uma única linha na expressão calma do rosto.
Esboço um sorriso. Já esgotei os meus finais felizes. Esgotei-os na aprendizagem abrupta de que não existem fins que tragam felicidade. A palavra fim é apenas mais um sinónimo para dor e mágoa e medo. Mas não se diz isso a uma criança, pois não?
- Era uma vez... - não há continuação para esta história. Mas ela fecha os olhos e rende-se ao cansaço, como se eu a tivesse contado. E, de alguma maneira, eu sei que ela ouve o que eu não digo. Um conto com unicórnios e princesas e monstros que se dão por vencidos.
Quem me dera contar-lhe que os bons não ganham sempre. Quem me dera dizer-lhe que os monstros se escondem na pele de pessoas como nós. Quem me dera dizer-lhe que nunca nos apaixonamos por um príncipe encantado. Mas ela adormece e a minha dor acorda um pouco mais. Quem me dera construir-lhe as ilusões sobre o patamar das melhores coisas da realidade.
Minto! Qual é a realidade boa sobre a qual se pode construir uma ilusão sólida? O que queria era destruir a realidade para que ela pudesse viver qualquer ilusão. Qualquer uma! Queria que ela pudesse ser uma princesa ou uma bailarina ou uma sereia, com o seu grande, grande amor, no seu castelo de fantasia. Queria que ela tivesse finais felizes em cada curva do caminho. Era isso que eu queria. Queria mudar o mundo para ela não ter de aprender, como eu aprendi, que viver magoa.
Ainda ontem era eu. Uma menina de olhos mais simples e caracóis mais revoltos. Mas, na diferença, ainda ontem eu era exactamente como ela. Sonhadora e irrealista, a pedir um final feliz nos contos de encantar. Talvez por isso, toda a vida pedi três coisas: para amar, escrever e sonhar. Hoje sei que devia ter pedido para ser amada, ser lida e realizar os sonhos. Mas ninguém nos ensina em crianças quais os perigos da semântica! Ninguém nos explica que a realidade arranja maneiras de transformar os nossos desejos em espinhos que se cravam na pele.
Cubro-a levemente e deixo-a, adormecida. Nos seus sonhos, aposto que ela pede desejos. A vida tratará de lhe roubar os sonhos. O mundo tratará de lhe negar os pedidos. Mas, por agora, deixo-a sonhar. E, para mim mesma, guardo o papel de guardiã. Assumo a espada dos sentidos e luto contra os males do mundo. E, amanhã, quando ela acordar, terei perdido essa batalha porque outro dia terá nascido e outro passo será dado rumo ao termo da infância.
Fica um suspiro. Um suspiro que começa com "era uma vez". Era uma vez a certeza inabalável de que daria a própria vida para lhe dar um "e viveram felizes para sempre". Era uma vez a consciência de que a vida passa e fere. Era uma vez uma realidade que vence os sonhos e os derruba e nos destrói... Era uma vez...


Marina Ferraz

terça-feira, 20 de março de 2012

O diluir das horas


É o diluir das horas que me fere. Qual tortura lenta que me escorre pelo corpo, deixando a marca fria de uma saudade de fel. É o diluir do tempo que me deixa sozinha em mim, longe de mundos por devir e no desespero de saber irreais todos sonhos que guardei.
O desespero e a desilusão não passam de duas crianças incoerentes, caminhando de mãos dadas pelas minhas veias e brincando, despreocupadas com as batidas glaciais do meu coração. E as horas diluem. É a canção ilógica e compassada do relógio que segue, segundo a segundo, rindo da minha solidão.
O tempo escorre-me por entre os dedos. E eu tento fechar as mão em concha e mantê-lo lá, parado, até ser hora de te ver de novo. Mas ele escorre, gota a gota, obedecendo ao tic-tac do relógio, obedecendo às ordens do pêndulo velho que dança hipnoticamente à frente do meu olhar cego de alegrias.
O tempo não pára. Segundo a segundo transforma dias em anos e anos em pequenas eternidades cruas. É o diluir das horas que me fere. Os segundos eternos em que tardas, as eternidades curtas em que sinto que vou ficar bem mas que desvanecem e evaporam, que morrem passado um segundo.
Não há paz alguma para quem vive de sonhos. Somente dor. Somente desilusão. Somente a certeza inquebrável de que acordar seria ainda pior. E encosto a cabeça na almofada, ao som dos ponteiros do relógio que avança. E os ponteiros tardam cada vez mais, retardando cada batida e ditando a velocidade das batidas do meu coração.
Peço que parem. O tempo e o coração. Tão loucos, os dois. Tão iguais nessa loucura. Tão barulhentos por entre o vazio que me ecoa na alma. O diluir das horas fere mas eles não param. Perdem-se nos minutos e nas horas que me plantam eternidades no peito. E a dor, de tão longamente sofrida, enraíza-se mais, por caminhos novos e rouba-me as ilusões.
É o diluir das horas que me fere. E, fechando os olhos, a ferida alastra. Até os meus sonhos têm agora o sopro dessa realidade crua. Até os meus sonhos têm a noite eterna. Essa noite que se faz trevas e dança ao compasso dos ponteiros do relógio, moendo-me a alma nas horas de solidão.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 13 de março de 2012

Numa outra vida


Numa outra vida talvez. Quem sabe? Quem pode garantir que as tramas do destino não nos põe novamente nesta encruzilhada de sensações? Numa outra vida, talvez.
Ainda me lembro. Sorrisos de lágrimas nos olhos, corações acelerados, planos para um amanhã que nunca existiu. Foi essa a sombra do passado que se projectou para o presente e me impediu de seguir. Mas está tudo bem. Numa outra vida, talvez possamos ser novamente o que já fomos. Numa outra vida, talvez possamos vencer as manobras do destino.
Pousando as mãos sobre a plataforma gélida do meu corpo, descubro que me despi. Não só de roupas ou de medos, mas de sensações e de desejos. Respiro e não estou viva. Sou a incoerência desses vultos apagados que vagueiam avenidas perseguindo sonhos que nunca poderiam ser reais. Sou o espectro meio morto que aprendeu a fingir um "está tudo bem" de percurso e a engolir as lágrimas. O coração afogou-se nelas. Mas é a vida, não é? Numa próxima, talvez possa ser diferente.
E resta-me a aceitação. A aceitação muda. A aceitação calada. A aceitação de que esta vida já foi e já não é. E, não sendo, não terá mais nada para mim. A aceitação de que todos os meus passos foram fragmentos de caminho traçado na direcção do abismo. A aceitação do abismo e da queda e da morte.
Numa outra vida talvez. Talvez sorria. Sorrisos de alma. Talvez ame doentiamente e seja amada de igual forma, para que não digam mal do meu amor. Talvez encontre paz. Mas será numa outra vida porque esta está despojada de esperança e de sonhos. Porque esta não terá um amanhã. Já não tenho dias que sucedam às noites mas tão só a escuridão perpétua da minha alma a cegar-me os olhos e a impedir-me de ver toda a beleza que restou, se é que restou.
Não me desiludo mais. Despi também as ilusões. Sou apenas um corpo nu de tudo, deixado ao frio, na esperança de uma morte quente.
Mas, ainda assim, quem sabe? Talvez numa outra vida eu possa ser feliz. Talvez a traição do mundo seja apenas para me ensinar a receber melhor essa alegria. Talvez tivesse de conhecer o abismo antes de conhecer um chão mais quente e melhor.
Numa outra vida talvez. Vou agarrar-me a essa esperança durante a queda. Porque quero morrer a sorrir. Quero morrer como não vivi. Quero morrer humana para não ser esse monstro que tantas vezes me acusaram de ser. Por isso, numa outra vida talvez haja espaço para mim e para o que eu quero e para o que eu sinto. Talvez a minha próxima vida não esteja gasta e rota, vazia e gélida. Talvez uma outra vida possa ser chamada de vida.
Numa outra vida talvez. Ninguém tente roubar-me as minhas derradeiras ilusões! Vou fechar os olhos para esta. E numa outra.... ah, essa vida! Numa outra vida ainda vou provar a verdade de cada conto de fadas!


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 6 de março de 2012

Toque cigano


Estendo-te a mão aberta. A mão aberta e vazia de tudo. Despojada de tanto quanto se pode despojar um ser sem vida. Despojada das certezas. Despida das vontades. Vazia. Vazia como o meu mundo. Estendo-te a mão.
Estendo-ta na esperança de que possas olhar para ela e ler nas suas linhas incertas um futuro que não sei ter. Estendo-ta para que me adivinhes a sorte. Estendo-ta para que, num segundo de efemeridade, possas aliviar-me o espírito e dizer que há algo em mim que vai sobreviver à morte do meu coração e ao negrume da minha alma.
Agarra-me a mão nas tuas. Deixa o teu toque cigano sentir a minha pele. Deixa o teu olhar pagão percorrer as linhas desta mão vazia. Deixa-te saber a sina de uma escrava do destino. Deixa-te saber a sorte de uma meretriz que se verga à vontade fútil de um coração louco.
Na ancestralidade aprendida pelo teu olhar, deixa-te ver o que os outros não vêem. Saber o que os outros não sabem. Conhecer o que é negado a tantos quantos desconhecem o poder de um olhar ou de uma linha vincada na pele.
Agarra esta mão que te estendo. E, por favor, olha para as linhas insensatas que a preenchem. Olha para elas com esse teu olhar negro e cheio de esperança. Olha para elas até as saberes de cor. Olha para elas com o olhar de quem acredita que o mundo pode ser feito de coisas que as outras pessoas ignoram .
Agarra a minha mão nas tuas mãos trigueiras. Diz-me o que está por devir. Diz-me se há no mundo lugar para alguém que já perdeu tudo. Se o mundo se abre para quem perdeu até a vontade de viver. Diz-me o que não me dizem os livros e as explicações. Diz-me o que não dizem as pessoas que não crêem no destino.
Estendo-te a mão. Estendo-ta na esperança de que não a vejas vazia. Estendo-ta no desejo de que não a vejas como eu. Por favor... lê os traços insensatos desta mão. Adivinha-me o caminho ou o desfiladeiro. Adivinha-me a fortuna ou a morte. Adivinha. Seja o que for.
Estendo-te a minha mão vazia. Entrego o meu destino ao teu toque cigano. Possa o teu olhar ver o que não vejo. Possam as tuas palavras dar-me paz... A paz da esperança ou a paz do fim...


Marina Ferraz

* Imagem retirada da Internet