terça-feira, 5 de junho de 2012

Ficar bem



Não! Não te preocupes! Eu vou ficar bem. O mundo vai ruir e o chão que me apoia os pés vai ceder. Os céus vão quebrar e as florestas de sonho vão ficar secas. Os sonhos vão deixar-me sozinha por uns tempos. Mas eu vou ficar bem. Não precisas de te preocupar...
As coisas más acontecem. Nascem das frestinhas de incerteza que sempre existem nas madeiras sólidas nas quais se constroem as esperanças. E crescem com o tempo, como se ansiassem por se tornar pequenas maldições do quotidiano. Elas acontecem a toda a gente. Mesmo às melhores pessoas. Mesmo às piores. Ninguém está livre da dor. Ninguém está livre dos contratempos. Sofrer é o único direito verdadeiramente universal.
Mas eu vou ficar bem! Vou ficar bem porque quando não houver chão, vai haver asas. Porque as asas são feitas de amor. E tudo é mais fraco do que o amor: mesmo o céu, mesmo o mundo, mesmo os sonhos. Então, eu vou ficar bem! Porque amo o suficiente e tenho as asas negras abertas.
O mundo vai ruir. Eu vou chorar. Eu vou gritar. Eu vou cair um pouco antes de me lembrar que o chão cedeu mas o céu existe. E, eventualmente, eu vou superar. Porque nenhuma destruição é mais forte do que a vontade de construir novamente. Porque nenhum mal é mais forte do que a minha alma. Porque os chãos ressurgem e os sonhos regressam. Porque amo e o amor nunca é ruína. Porque eu quero ser feliz!
Então, não te preocupes. Vai ficar tudo bem. Mesmo que, pelo caminho, eu sofra muito. Mesmo que, até encontrar a felicidade, eu tenha de abraçar a dor como minha igual e recebê-la no meu peito, com ternura. Quando tudo acabar, eu vou ficar bem. E, mesmo se esse dia tardar, eu não vou perder a esperança. Hei-de ser feliz, nem que o seja somente quando, num último suspiro, a morte me tomar nos braços e me fechar os olhos para o mundo que ruiu e as esperanças vãs que me marcaram a vida.
Não te preocupes. Eu vou ficar bem...

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 29 de maio de 2012

Crónicas da loucura



Foi nesse dia. Passaste à porta de minha casa. Esse teu jeito tão teu, tão cheio de promessas caladas que não tencionas cumprir. Foi nesse dia. Olhar longínquo, cabelo desgrenhado e traços suavemente esbatidos na inexistência de um sorriso. Foi nesse dia...
Um encolher de ombros. É assim que eu imagino esse dia. Um encolher de ombros meio trocista mas de lágrimas nos olhos. Um dedo apontado para a janela mais alta da casa. Duas ou três palavras suspensas no pensamento.
Foi no dia em que soubeste que parti. Pelo vento. Pelas marés. Pela ausência. Pela voz mesquinha de quem nos roubou o tempo. Não importa! Foi nesse dia. Nesse dia quiseste saber. E foi injusto porque não pude responder-te.
Falarás desse dia e hão-de te perguntar se morri. Dirás que não. E estarás a mentir. Porque eu morri. Sou um corpo a deambular. Mas a pessoa que conheceste já não mora em mim. Os sorrisos foram vencidos. As repetições insaciáveis moeram a alma até ao ínfimo da poeira dos saberes. E eu não moro mais em mim. Não estou viva. Estou louca. Enlouquecida pelo desejo de que tivesses passado pela porta de minha casa um tempo antes. Enquanto os meus olhos não se perdiam no vazio branco de uma loucura consciente. Enquanto eu não divagava pelos sonhos do cativeiro imortal dos espinhos da vida.
A loucura tomou-me. Tomou-me porque me deixaste a sós com a solidão das paredes brancas e na esperança do impossível, a orar aos Deuses por uma outra vida que não esta. A loucura tomou-me e embalou-me nos braços. Não se foi embora depois de meio beijo atirado ao ar. E eu apaixonei-me pela loucura porque ela não foi embora. Podes culpar-me? Podes realmente culpar-me por escolher a estabilidade?
Sim... sou louca! Sou louca porque as pessoas enlouquecem no amor que queima as veias. As pessoas são loucas... ri-te. Ri-te delas e da loucura que é abrir o coração para deixar alguém entrar. Ri-te dessa gentinha  que não soube bastar-se. Porque são loucas, essas pessoas. Loucas como eu sou agora. Louca como eu escolhi ser para não ficar sozinha para sempre.
Eu tenho os meus fantasmas. As minhas vozes. Repetem o mesmo. Vez após vez. Vez após vez. Vez após vez. Mas estiveram aqui e tu não estavas. Quiseram ficar quando tu não quiseste. Abraçaram-me a alma quando te cansaste do meu corpo.
Eu apaixonei-me pela loucura. E foi nesse dia que percebeste que me amavas. Nesse dia em que a minha casa já não me tinha. Nesse dia em que as quatro paredes choravam o luto de eu já não existir dentro de mim.
Conta a história. A história de como és especial por me ter quebrado. A história de como pudeste tocar-me no coração com as pontas dos dedos e deixar-lhe feridas que nunca sararam. Conta a história heroica de como vergaste as minhas vontades, de como definiste a minha vida, de como eu enlouqueci porque te foste. Se te faz sentir maior, conta tudo isso aos mundos. Hoje, na loucura, não vivo em mim. Não vou ouvir. Podes contar a quem quiseres...
Foi nesse dia que passaste à minha porta. E afinal eu importava, não é? Afinal talvez houvesse uma hipótese... Não sejas louco, tu também! Eu já morri. Não podes amar-me. Deixa o meu corpo definhar neste constante deambular neurótico da minha mente. Tens outras portas e outras casas. Sê feliz!
E as vozinhas repetem-se... vez após vez, após vez... "porque não vieste mais cedo?!". Não lhes respondas. Diz-lhes que sou louca. Diz-lhes que morri. Ao chegar às terras do Verão eu vou contar-lhes também. Contar-lhes que vivi de amor, que morri de amor e que sou amor... E eles vão saber que é verdade...todos eles. Todos os meus fantasmas. E, depois, vão agarrar-me nos braços e vão amar-me como tu nunca me amaste. Vão acolher-me e fazer-me ser feliz como eu nunca fui. Vão olhar para a minha história e dizer que eu morri de sanidade por amar tanta loucura!
Nesse dia. Nesse dia vou imaginar que passo à tua porta. Num jeito meu: em passos desajeitados e com os caracóis mal feitos esvoaçando ao vento. E o meu silêncio vai ter mil promessas... juntas com a certeza de que as cumpri a todas!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 22 de maio de 2012

Quem te levar



Vou baixar os braços. Com uma simplicidade ténue. Com um sorriso no rosto. Não vou lutar mais. Quando alguém te levar. Quando alguém que saiba pôr-te um sorriso de estrela nos olhos te levar. É aí que vou desistir. É então que vou deixar de travar batalhas contra o vento.
Mas quem te levar, que te faça feliz. Que acolha nos braços a tua dor. Que beba dos teus medos. Que abrace as tuas ansiedades. Quem te levar, que permaneça erguido nas tuas insónias. Que ame os teus defeitos. Que traga nos braços a imensidão e ela seja toda para ti. Não vou desistir por menos do que a perfeição.
Quem te levar, que tenha os olhos mais bonitos do mundo, a alma mais pura, o coração mais bondoso, o sorriso mais aberto. Que tenha palavras mais doces, certezas mais firmes, esperanças maiores. Quem te levar, que possa dar-te o que precisas em vez do que queres. Que saiba ver além do teu riso e encontrar as tuas lágrimas. Que saiba ler as entrelinhas das tuas não raras conversas de circunstância.
Vou baixar os braços e assumir a derrota. Desistir e recuar. Deixar que sejas feliz. Mas, quando o fizer, será porque podes ser feliz. Porque alguém te tocou na alma da mesma forma que tu tocaste na minha. Porque alguém te roubou o coração da mesma forma que roubaste o meu. E não pode ser qualquer pessoa. Tem de ser quem te conheça além da superfície. Tem de ser quem te veja além da muralha. Tem de ser quem saiba que, no fundo, também estás quebrado. Tem de ser alguém que tenha mergulhado nos teus sonhos e os apoie. Alguém que te diga que nunca é tarde para seres quem mais queres ser.
Não te iludas com fantasmas. Quem te levar tem de saber de ti o que nem tu sabes. Tem de te mostrar o que fica além das barreiras da tua própria mente. Tem de saber dar-te o mundo de sonhos que fica depois da ciência, a fé que fica além do que pode ser explicado em equações.
Vou baixar os braços e ceder. Reduzir-me à insignificância de não ser e nunca ter sido a pessoa que te arrebatou contra todas as probabilidades. Mas quem te levar, que te leve inteiro. Não vou deixar que vivas às metades por ninguém. És demasiado especial para te reduzires a menos do que és.
Admite. Também queres o amor estupido, as frases lamechas. Também queres um abraço no meio de uma frase inacabada. Também queres alguém que diga que não estar bem não é errado. Quem me dera que o soubesses: não é errado sofrer.
Seja como for: espero que o encontres. Esse amor idiota, esse amor ridículo, esse amor que queima nas veias e que não deixa dormir. Espero que esse amor tenha nome de pessoa. Espero que essa pessoa saiba merecer o teu amor. Espero ter coragem para baixar os braços e desistir.
Essa pessoa que te leve. Que te leve da minha vida. Que te leve dos meus sonhos. E, se te levar, que te dê tudo o que eu te dei e tudo o que nunca pude dar-te, por incapacidade ou simplesmente pela distância. Porque mesmo que o meu coração não sare. E é tão impossível curar as feridas que não se vêem. Mesmo que a minha alma não retorne. Mesmo que a minha vida seja uma morte acordada. Mesmo assim, ainda quero saber que, algures, seja onde for, seja com quem for, tu és feliz.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da  Internet

terça-feira, 15 de maio de 2012

A cor da desilusão



O último pedaço de chão ruiu e o último guardião do nosso templo foi embora. A esperança caiu, quebrou e ficou estilhaçada algures, num universo de promessas e de momentos que nem sabemos se foram reais ou apenas um sonho bom.
Sim! Eu também sei o que é pedir em vão. Pedir ao coração para esquecer. Pedir-lhe que pare, que atenue a dor com a altivez de um último suspiro. Pedir aos olhos que percam a cor, que percam o brilho, que percam a vida. E ver o desejo negado nas nossas mãos cruas, nos nossos dedos que já não se cruzam com fé para pedir desejos para o futuro, na alma que insiste que tudo passa com o tempo.
É esta a cor da desilusão. A desilusão crescente de se perder uma parte nós mesmos, de descobrir que não somos tão fortes nem tão corajosos como julgámos um dia. De descobrirmos que somos humanos e que podemos ser feridos mesmo que, aparentemente, estejamos bem.
Não dá para viver sem sentir. Sem sentir o medo, sem sentir a angústia, sem sentir a saudade de uma vida que se foi. E querer desistir é como querer travar a tempestade de um olhar que chora por amor. Está à distância do impossível, plantado nas inseguranças e nas parcas vivências que nos inundam a memória. Mas não podemos desligar o coração e não podemos pedir a nós mesmos para pararmos de sentir.
Seria bom. Um regresso às origens. Ser criança outra vez. Ir lá, onde os sonhos eram possíveis. Onde os amigos se zangavam connosco e nos perdoavam com a troca de um brinquedo no recreio. Onde nos diziam o que fazer e nós seguíamos, sem questionar se o caminho indicado era o mais certo. Era o tempo das ilusões e a época dos sonhos. Ainda assim, as feridas ficavam só na pele, os medos ficavam só no escuro do quarto e tudo era sarado com o abraço quente de alguém que jamais nos deixaria. Era o tempo da imaginação e ninguém sofria desilusões. Porque o amanhã era uma promessa. E as promessas eram simplesmente uma realidade que não imaginávamos que podia ser quebrada.
Olhem agora: tudo é feito de medo, mesmo a luz. Tudo é feito de angústia e de dor. Nenhum erro se corrige com simplicidade. Nenhuma cura chega com um abraço. Mesmo o melhor que vivemos traz a questão eterna e incontornável: "até quando?".
Talvez tenhamos perdido a esperança ou talvez ela nos tenha sido roubada. E, sem ela, resta o pedido mudo para que o coração pare, para não ferir mais a cada batimento, para parar o bater incessante de uma desilusão de fel.
Guardemos então o sonho. Seja o sonho qual for. Mesmo que ele esteja ancorado ao desejo de fechar os olhos e não sentir mais. Temos de procurar a criança que fomos antes das cores da desilusão nos roubarem a felicidade. Porque, mesmo assim, apesar de tudo o que se passou, a criança que fomos ainda tem fé. Ela ainda tem a certeza de que a esperança foi roubada pelo tempo numa brincadeira imprópria e que está escondida no futuro, à nossa espera. Nesse futuro que, independentemente das dores e das desilusões, temos de enfrentar de cabeça erguida!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da  Internet

terça-feira, 8 de maio de 2012

Desvenda-me



Desvenda-me. Cor a cor. Peça a peça. Palavra a palavra. Gesto a gesto. Aprenderás com o tempo que sou a incógnita mais simples de todas as equações. Mas não posso mostrar-to. É algo que tens de descobrir sozinho...
Às vezes é só olhar melhor, ainda que para as mesmas coisas. Trago a transparência nos olhos e tenho a alma aberta, ainda que quebrada. Por isso olha para mim. Vê-me. Descobre os meus segredos com a suavidade de um toque ou de um suspiro.
Sou um enigma que só tu podes desvendar. Por isso decifra-me. Medo a medo. Ilusão a ilusão. É assim que poderás chegar ao fundo da minha alma. Passo a passo. Sem desistires de mim, sem desistires do que pode haver nos confins do que o mundo não vê em mim.
Não esperes que seja um livro aberto. Há muito nas entrelinhas do conto mal fadado com que pintei a história da minha vida. Mas podes interpretar-me. Mover-te qual personagem da história, conhecer o que ficou além do que eu própria sei. Hei-de te deixar chegar lá: ao lugar inóspito do meu coração onde nunca ninguém chegou. Hei-de te mostrar a incerteza e a dor.
Carinho a carinho. É assim que vais derrotar a minha insegurança. Matando os silêncios, trucidando as distâncias e abraçando o meu corpo de mulher perdida.
Toque a toque. Beijo a beijo. O sentir insensato dos teus lábios nos meus. É assim que vais quebrar a minha muralha. É assim que vais roubar a máscara de mulher forte e conhecer a menina carente. E talvez seja aí que, incerteza a incerteza, vais criar o adeus. Mas entende: é peça a peça, cor a cor, palavra a palavra que terás acesso ao melhor e ao pior de mim. E eu sou o que fica nessa realidade crua: o melhor e o pior. Não julgues tão facilmente!
Desvenda-me. Tenho a certeza de que consegues entrar no meu mundo de sonhos, onde geralmente só eu posso vaguear. Nesse mundo vais conhecer personagens e desejos. Personagens com vida própria e desejos que guardei pela certeza inabalável de que é impossível viver de sonhos. Vais conhecer nele a fada, a bailarina, a criança. Vais conhecer nele os rios de possibilidade e o horizonte que fica ao alcance de um toque. E, nesse mundo maravilhoso, também vais palmilhar os vales da minha loucura. Porque me perdi loucamente no desejo de viver na ilusão de uma vida melhor.
Podes decifrar-me. Sentido a sentido. Respiração a respiração. Sopro a sopro. Podes decifrar esse enigma que espantou universos e surpreendeu átomos. Esse ser que fez apaixonar umas pessoas e afastou outras.
Seja qual for o desfecho: desvenda-me. Cor a cor. Peça a peça. Palavra a palavra. Gesto a gesto. Decifra o que há de mais complexo em mim por entre a minha própria simplicidade. Não importa se depois fores embora, passo a passo. Só não quero que vás sem saberes quem eu sou.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Apenas isso


Não me dês o mundo ou a vida. Não me dês palavras caras e desassossegos de meia-noite. Não me dês castelos e palácios. Não me dês jantares caros em restaurantes finos, onde os talheres se somam até à beira da mesa. Não me dês viagens. Não me dês joias. Não me dês presentes... Não preciso dessas coisas e não as quero. Para quê? Para quê possuir mundos que não posso governar, casas nas quais não usarei mais do que meia dúzia de divisões, restaurantes em que não provarei mais do que um prato? Não preciso dessas coisas.
Vem aqui. Olha as estrelas. É isto que eu quero. A distância que fica à proximidade de um olhar e que não desaparece nos momentos de escuridão. A beleza que não se apaga. O brilho que não esmorece. Não tentes dar-me mais do que isso. A vida é feita de incertezas. Não me enchas de futilidades. Não me transformes numa coisa que não sou!
Queres dar-me algo? Pois dá... Dá-me um sorriso. Dá-me um beijo. Dá-me a mão no meio da rua, mesmo que haja gente. Dá-me tempo. Dá-me presença. Dá-me um pedaço de ti que possa trazer comigo. Dá-me um fragmento de memória que não possa ser esbatido pelo tempo. Dá-me a esperança vã de que ainda te voltarei a ver e que, quando te vir, ainda terás o olhar mais bonito do mundo.
Mas não. Não me dês promessas que não tencionas cumprir. Não me dês momentos que se transformem em mágoa ao redor de mil silêncios. Não me dês nada que saibas que vais levar contigo ao partir.
Não me dês um ramo. Dá-me uma flor apanhada no meio do nada. Não me faças uma serenata. Sussurra ao meu ouvido as palavras que te cruzam o pensamento, mesmo que elas não te pareçam bonitas. Não me dês protecção. Dá-me a certeza de que estarás lá, se eu não me bastar.
Tudo o que preciso está em ti. Tudo o que preciso está na simplicidade que trazes no rosto e nas mãos e nos bolsos recheados de sorrisos e sonhos para amanhã. Tudo o que preciso está aí.
É a loucura dos tempos. Tu sorris e o meu mundo sorri contigo. Destróis as muralhas em meu redor. Dilaceras os meus exércitos. Condenas-me. E és tudo o que preciso para saber que a vida vale a pena.
Então, não me dês um presente. Dá-me apenas a mão por um momento. Diz qualquer coisa, seja o que for. Sorri e deixa-me sorrir contigo. A vida magoa. E és só tu que me dás força. Então, se puderes, dá-me apenas isso... a mão, um abraço, um sorriso, um beijo, um momento... e se puderes, se conseguires, dá-me um espacinho pequenino na periferia do teu coração. Só um cantinho. Só para eu saber que não me darás a distância que me roubará a vida!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da  Internet

terça-feira, 24 de abril de 2012

História d' encantar


Foi uma história de encantar. Uma história daquelas que embalam crianças e as fazem sorrir durante sono. Uma história de princesas e fadas e arco-íris. Foi de facto uma história maravilhosa. Lembrar-me-ei sempre dela como um sonho. Que realidade podia deixar cicatrizes doces?
Foi uma história bonita. A menina sonhadora que cresceu e encontrou o amor. A menina poeta que escreveu eternamente sobre o sentimento mais inexplicável de todos. Hão-de contar esta história. A história do amor, a história dos amantes, a história das certezas e dos risos e dos corações acelerados. Vão contar esta história muitas vezes...
Eu vou certamente contá-la. Vou contá-la aos ventos e às marés. Sussurrá-la aos ouvidos das sereias e das ondinas, para que a espalhem pelos sete mares. Vou contá-la às fadas para que a elevem aos céus e a façam cair, na forma de pó, sobre cada vulto adormecido. Não haverá ninguém no mundo que não saiba o que é o amor. Não haverá ninguém no mundo que não saiba que ainda há histórias de encantar.
Foi uma história de encantar. Uma história de amor a queimar a alma até haver apenas cinza. Uma história de paixão a rasgar a pele até haver só cicatrizes. A história da princesa desterrada que nunca teve um trono, que nunca teve um salvador. A história da menina que viveu no chão, numa prece constante por um pouco de céu.
Foi uma história de encantar. Daquelas que fazem rir. Daquelas cuja ironia passa ao lado dos ouvintes. Daquelas que as crianças gostam de ouvir na inconsciência e que perturbam os adultos. Uma história onde a felicidade veio no fim. Na derradeira página, onde a morte se assumiu e a personagem principal ficou finalmente só pela eternidade.
Vamos contar ao mundo. Um dia a menina sonhadora cresceu e encontrou o amor. A menina poeta escreveu eternamente sobre o sentimento mais inexplicável de todos. Um dia a menina percebeu que toda a gente é cega à dor dos outros e que é por isso que as histórias de encantar têm finais felizes...
Não podemos dizer ao mundo que a menina encontrou o amor e que isso a destruiu até não haver mais sonhos dentro dela. Não podemos contar que os poemas eram punhais a dilacerar um sentimento no qual ela queria deixar de acreditar.
É uma história de encantar. É assim que deve ser. Um sorriso no rosto e uma tiara imaginária sobre o cabelo dourado. Os olhos vendados à realidade. Mas para quê, se a dor está lá e fere, alastra, corrói?
Foi uma história bonita. Uma história tão bonita que a faz sorrir todas as noites antes de ir dormir... que a faz sorrir abertamente antes de pedir aos Deuses, numa prece ponderada, para não acordar nunca mais!

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de abril de 2012

Memórias no vazio


A memória riu baixinho, enquanto atravessava a sala deserta. A mesma sala deserta que estava apinhada de fantasmas tristes. A mesma sala deserta onde se amontoava a poeira do tempo. A mesma sala deserta onde ela estava sozinha. Sozinha como os fantasmas e a poeira e o deserto de uma alma despojada de sonhos.
Apoiou-se nos braços do sofá velho e gasto e olhou para ela. Bem dentro dos olhos apáticos. Bem dentro da alma carcomida pela saudade e a distância. Ela não reagiu. Não pestanejou sequer. Então, a memória beijou-a. Primeiro levemente, carinhosamente. Depois, com ansiedade. Finalmente com uma necessidade crescente de fazer parte do vazio que ela tinha nos olhos.
O ondear claro e óbvio da saudade anunciou-se nesse beijo e, qual intruso, foi sentar-se discretamente ao lado dela. E uma lágrima caiu-lhe dos olhos e percorreu-lhe o rosto exactamente ao mesmo tempo que um sorriso aflorava, quebrando a apatia.
Depois do beijo, o vazio. O vazio incoerente. A apatia acentuada. O medo desmedido que surgia na forma de lágrimas despidas de sensações.
E a memória abraçou-a e deixou-a chorar, enquanto a saudade adensava e se tornava corpórea, ganhando forma dentro dela.
Cansada. Demasiado cansada da vida. Demasiado cansada de não sonhar. Demasiado cansada da sala deserta onde ela não era mais do que outro fantasma com corpo. Demasiado cansada de ter de respirar. Foi no cansaço que ela recebeu a saudade e no cansaço que ela deu a mão à memória e a seguiu, deixando o corpo para trás.
E a memória deu-lhe a mão, limpou-lhe as lágrimas, arrancou-lhe um sorriso e sorriu também. Depois, qual amantes, deixaram a sala deserta. A mesma sala deserta onde os fantasmas tristes tinham adormecido e a poeira ainda adensava. A mesma sala deserta onde ela fingira viver durante tanto tempo. A mesma sala deserta onde ela já não estava. Onde já não estavam as suas memórias saudosas e a sua alma despojada de sonhos.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Alma quebrada


Toma. Leva também a minha alma. Leva-a juntamente com os sonhos que te dei e com o coração que me roubaste num beijo. É assim que deve ser. Não há outra maneira...
Leva-a. Leva a minha alma, mesmo rasgada, mesmo ferida, mesmo vazia de tudo o que algum dia foi bom. Leva-a nessa bagagem leve de memórias vãs que esquecerás na primeira estação. Mas leva-a. Mesmo que a percas. Mesmo que a deites fora. Não importa!
Leva a minha alma, da mesma forma que me levaste a esperança. Leva-a da mesma maneira como, tão subtilmente, fizeste de mim criada dos desejos insensatos do mundo. Não consigo trazê-la mais comigo.
Sorrisos, lágrimas e tantas, tantas memórias. É isso que estou a oferecer-te. Os meus sorrisos que eram teus, as minhas lágrimas tontas e desesperadas, cheias de promessas, e as memórias que guardei. Memórias de desenhos e de flores e de mil brincadeiras. Rir até chorar, sorrir num choro magoado, dar até uma gargalhada dorida por entre as piores coisas da vida. A minha alma é capaz de tudo isso. Então, por favor, leva-a contigo. Não preciso dela! Já não preciso de me rir ou de chorar ou de recordar o que quer que seja. Estou cansada... Tão, tão cansada...
Toma. Leva também esta alma suja, encardida, feita de trevas. Leva-a na maleta ou na algibeira. Leva-a, seja como for. Já não me importa. Mas leva-a, com cuidado ou aos tropeções, onde quer que vás. Porque, então, se alguém me perguntar como está a minha alma, poderei dizer que está contigo, sem ter de explicar que está quebrada e dorida.
Leva-a. Leva-me esta alma que já não me serve os dias nem as noites. Esta alma que já não me encara e que já não me responde. Esta alma que me odeia por tudo o que lhe fiz. Leva-a contigo e deixa-me só. Preciso de esquecer...
Os olhos ficam abertos, cansados das lágrimas, cansados da dor. O mundo gira e a alma pesa-me. Leva-a. Leva-a para longe e deixa-me dormir. Estou cansada... Cansada de ser uma pessoa e de ter uma alma ferida. Cansada de ser deixada para trás, com tão pouco como um peito dolorido que já gastou todo o amor que tinha para dar. Por isso leva-a. Leva a alma. Leva-a como levaste os sonhos que te dei o coração que roubaste. É assim que deve ser. Não há outra maneira.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Rumores


Há rumores pela cidade. Talvez não os ouças. Talvez não queiras ouvi-los. Mas há rumores a percorrer as ruas, cantando na voz do vento. E não consigo fugir-lhes. Perseguem-me, atormentam-me. E são mentira. Não são?! Diz-me que sim...
Ontem o vento contou-me que apagaram o brilho dos teus olhos. E, feito menina, chorei de dor, enquanto gritava que não podiam roubar-te a luz do olhar, da mesma forma que não podiam roubar o brilho das estrelas. Mas, depois, olhei para o céu. Apagaram as estrelas, meu amor. Há apenas o nevoeiro e a luz amarelada de uma cidade adormecida.
E o vento ri-se, enquanto espalha o rumor. "Apagaram o brilho dos teus olhos". Ele não sabe o que diz! Não sabe que o brilho dos teus olhos é esperança. Não sabe que, quando os teus olhos já não brilharem, o mundo chega ao fim...
Há rumores nas ruas desta cidade deserta. E risos cruéis. E gritos de alegria. Há fantasmas do passado. Portas fechadas e sonos profundos. E ninguém entende. Como é possível que ninguém entenda quando eu vi num primeiro olhar? Não podem apagar-te o brilho que trazes nos olhos. Não podem fazê-lo sem destruírem o que restou de bom nesta vida sem vida que trago sem ti. Não podem fazê-lo sem desequilibrar o universo...
Tentei explicar ao vento quem tu és. O vento não ouve. Não quer saber. Sopra somente, em gritos mudos. Espalha o rumor pelas praias, pelos vales, pelas serras e pelo que fica além do infinito. "Apagaram o brilho dos teus olhos".
Mas eu não acredito. Não posso crer! Ninguém poderia jamais roubar o brilho dos teus olhos. Ninguém poderia roubar-te a essência de seres feliz. Há rumores... rumores de que apagaram as estrelas, rumores de que inverteram as marés, rumores de que morreu um imortal. E que assim seja! Posso viver na escuridão das estrelas apagadas, no frio de marés invertidas e num mundo de efemeridades. Mas não! Não podem ter apagado a luz do teu olhar. O teu olhar que me é estrela, mar, maré e imortal. O teu olhar não pode ter perdido o brilho!
Há rumores pela cidade. Sopram na voz do vento e entranham-se na pele das pessoas que passam na rua. Dizem que apagaram o brilho dos teus olhos. Não sei se os ouves. Espero que não! Porque eu, que os ouço, encontrei o brilho das lágrimas para os meus olhos e é com ele que brindo os rumores de que os teus perderam o brilho.
Não ouças o rumor. Não ligues ao vento mesquinho e sem idade que se habituou a percorrer as ruas, sem se importar com ninguém. Olha para mim. Eu não acredito. Não acredito nestes rumores nem em quaisquer outros. Tu és tu: com a tua essência perfeita, a tua alma completa e o teu brilho nos olhos. E, se algum dia for diferente, correrão rumores de que o meu coração partido parou... correrão rumores de que o vento roubou, em palavras, a derradeira sombra de vida em mim... e esses, acredita, serão verdade!


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet (Starry Night - Van Gogh)