"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a
ciência é limitada,
ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."
- Albert Einstein -
A maioria das histórias começa com "era uma vez".
Esta não. Esta começa com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes
vazias de uma casa onde já não mora ninguém. E, se houve tempos em que algo
existiu para que se dissesse "era uma vez", não foi hoje. Não agora.
Não no toque insistente deste telefone que toca sem que vivalma o atenda.
Dentro das paredes nuas da casa onde ecoa o som estridente
da ausência, nunca houve história que merecesse ser contada. Nunca houve amor.
Nunca houve amizade. Afago. Carinho. Ternura. Talvez tenha havido intrigas. Se
as houve, elas foram camufladas e perderam-se, escorrendo ao de leve pelas
frestas do soalho velho, que range sozinho, como se fantasmas tristes
caminhassem sobre si.
Seria uma boa história para começar com "era uma
vez", se houvesse fantasmas. Mas não há. Há tão somente o vento,
insistindo contra as traves de madeira velha, assobiando baixinho, qual viúva
carpideira de outras eras. E talvez, por entre as notas agudas do seu eterno
sopro, ele traga os fantasmas etéreos do passado. Mas não importa. O telefone
toca. O som ecoa. O vento, embora responda, não pode atender.
No pó que se acumula sobre a mobília, repousa a memória do
vazio. Um vazio que, obviamente, o telefone não conhece. Porque toca. Ainda. De
novo. Outra vez. Não há passos que corram na sua direcção, nem mãos que se
estendam num ímpeto voraz.
Talvez pudesse começar por "era uma vez" a
história da pessoa que insiste em ligar para a casa vazia onde já ninguém mora.
Ou a história de quem deixou o telefone ligado, no abandono da vida. Mas não
merece esse começo a história do vazio. O vazio é apenas isso. Sem que, noutros
tempos, noutra dimensão, noutro modo se encontre o incentivo para dizer que
algo aconteceu. O vazio é apenas isso. E a pessoa que insiste em ligar, tal
como aquela que morreu sem que ninguém se lembrasse de desligar o telefone são
apenas a memória apagada nas paredes vazias, soterradas sob a camada densa de
pó. Se ninguém disser delas "era uma vez", em breve serão também
vazio. Serão absorvidas por ele, condenadas a desaparecer neste pedaço de papel
onde não há espaço para começar histórias com conteúdo.
Esta história não começa com "era uma vez". Começa
com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes vazias de uma casa onde
já não mora ninguém. E, como não há quem more nela, a história acaba como
começa. O telefone toca. Ninguém atende. Porque é que ninguém atende? Porque é
que a casa está vazia? Porque é que alguém insiste em ligar, se não há quem
responda?
Nenhum de nós sabe e, de alguma forma, sabemos todos a
resposta. Estamos certos de saber. Ficamos todos na sala a olhar para o
telefone que toca, ainda não estejamos lá. Imaginamos. Não precisamos que nos
digam nada. Sabemos que a casa está vazia e que o telefone toca. Apenas isso.
E, a maravilha é esta: Subitamente, cada um de nós tem uma história que merece
começar com "era uma vez"...
Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet









