terça-feira, 7 de abril de 2015

Uma história


"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, 
ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."
- Albert Einstein -

A maioria das histórias começa com "era uma vez". Esta não. Esta começa com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes vazias de uma casa onde já não mora ninguém. E, se houve tempos em que algo existiu para que se dissesse "era uma vez", não foi hoje. Não agora. Não no toque insistente deste telefone que toca sem que vivalma o atenda.
Dentro das paredes nuas da casa onde ecoa o som estridente da ausência, nunca houve história que merecesse ser contada. Nunca houve amor. Nunca houve amizade. Afago. Carinho. Ternura. Talvez tenha havido intrigas. Se as houve, elas foram camufladas e perderam-se, escorrendo ao de leve pelas frestas do soalho velho, que range sozinho, como se fantasmas tristes caminhassem sobre si.
Seria uma boa história para começar com "era uma vez", se houvesse fantasmas. Mas não há. Há tão somente o vento, insistindo contra as traves de madeira velha, assobiando baixinho, qual viúva carpideira de outras eras. E talvez, por entre as notas agudas do seu eterno sopro, ele traga os fantasmas etéreos do passado. Mas não importa. O telefone toca. O som ecoa. O vento, embora responda, não pode atender.
No pó que se acumula sobre a mobília, repousa a memória do vazio. Um vazio que, obviamente, o telefone não conhece. Porque toca. Ainda. De novo. Outra vez. Não há passos que corram na sua direcção, nem mãos que se estendam num ímpeto voraz.
Talvez pudesse começar por "era uma vez" a história da pessoa que insiste em ligar para a casa vazia onde já ninguém mora. Ou a história de quem deixou o telefone ligado, no abandono da vida. Mas não merece esse começo a história do vazio. O vazio é apenas isso. Sem que, noutros tempos, noutra dimensão, noutro modo se encontre o incentivo para dizer que algo aconteceu. O vazio é apenas isso. E a pessoa que insiste em ligar, tal como aquela que morreu sem que ninguém se lembrasse de desligar o telefone são apenas a memória apagada nas paredes vazias, soterradas sob a camada densa de pó. Se ninguém disser delas "era uma vez", em breve serão também vazio. Serão absorvidas por ele, condenadas a desaparecer neste pedaço de papel onde não há espaço para começar histórias com conteúdo.
Esta história não começa com "era uma vez". Começa com o toque insistente do telefone a ecoar nas paredes vazias de uma casa onde já não mora ninguém. E, como não há quem more nela, a história acaba como começa. O telefone toca. Ninguém atende. Porque é que ninguém atende? Porque é que a casa está vazia? Porque é que alguém insiste em ligar, se não há quem responda?
Nenhum de nós sabe e, de alguma forma, sabemos todos a resposta. Estamos certos de saber. Ficamos todos na sala a olhar para o telefone que toca, ainda não estejamos lá. Imaginamos. Não precisamos que nos digam nada. Sabemos que a casa está vazia e que o telefone toca. Apenas isso. E, a maravilha é esta: Subitamente, cada um de nós tem uma história que merece começar com "era uma vez"...

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 31 de março de 2015

Compromisso


Comprometo-me a ficar sempre ao teu lado. Foi esta a frase que disse. A frase que ouviste, dentro do teu vestido branco, enquanto me sorrias, com lágrimas nos olhos. Não vertias as lágrimas. Ouvias. Ouvias os votos que eu dizia, como se o destino estivesse nas minhas mãos. Comprometo-me a ficar para sempre ao teu lado. Comprometo-me com o compromisso que hoje faço e, dele, faço o degrau que escolho subir, neste caminho leve e ponderado que faço em direcção a ti, no desejo de vir a merecer-te.
Não sei se alguém me ouviu dizer estas palavras ou se as disse em segredo. Mas disse-as. Ainda que as tenha dito para mim. Só para mim. E tu, no teu vestido branco ouviste. Sei que ouviste. Sorrias. Porque sorririas tão abertamente se não ouvisses com clareza essas palavras que eu dizia ou pensava ou pensava querer pensar?
Mas as palavras são só palavras. Os pensamentos são só pensamentos. A memória é uma traição. O teu vestido não era branco. Não sorrias. E eu não te amava. Tu não me amavas. Ninguém amava ninguém.
Comprometo-me a dizer a verdade. Uma verdade sem altar, da qual faço degrau que escolho subir na direcção dos infernos. A verdade é crua. Incomoda. A verdade queima, fere, deixa cicatrizes. Toda a gente diz que sim. Mas ninguém quer a verdade.
Sim. Inventei a história. A história do compromisso que não fiz com a pessoa que não conheci e que jamais vi dentro de um vestido - branco ou não. Inventei-a. Contei-a muitas vezes. Mas nunca menti. Uma ilusão não é o mesmo que uma mentira. E, para mim, o compromisso foi feito e foi ouvido e foi cumprido. Por mim, teria sido verdade. Mas o amor? O amor é caprichoso. Nunca chegou. Nunca me fez olhar uma mulher e sentir que queria fazer, com ela, o compromisso. Comprometi-me com a ilusão. Dela, fiz estrada. E ela deu-me as alegrias negadas pela vida.
Mas as palavras são só palavras. Os pensamentos são só pensamentos. A memória é uma traição. E a alegria ofertada pelas ilusões quebra e parte nos encontros constantes com uma realidade que dói. O compromisso nunca feito desfaz-se. Vira poeira. Segue com os ventos dos infernos aos quais chamamos ruas e momentos e pessoas. E não são coisa nenhuma, além do desvanecer de uma esperança que nunca se devia ter tido.
Comprometo-me com o compromisso. Era isso que eu queria ter dito à pessoa que nunca surgiu. O amor, esse que ouvi dizer que se dá e prostitui, excluiu-me. Nunca amei ninguém. Nunca ninguém me amou. Se alguém me tivesse amado, teria talvez compreendido a necessidade insensata que guardava desse amor. Se alguém me tivesse amado, teria conhecido a vastidão do desejo que permeia o sentido de ser maior do que eu. Mas nunca ninguém me amou... e eu nunca amei ninguém. Fui um homem sem amor, apaixonado pela ideia do compromisso eterno entre almas-irmãs. Busquei conforto nas estrelas. Tinham-me dito que elas concretizavam os desejos mais profundos do coração humano. Mas também era mentira. Porque é que as pessoas mentem assim?
As palavras são só palavras. Os pensamentos são só pensamentos. A memória é uma traição. E a vida que passa não é mais do que um caminho para a morte. Podia dizer que não tenho medo da morte. Mas não quero mentir. Assusta-me a ideia de fechar os olhos para sempre. Não tenho medo de morrer. Mas tenho medo de morrer sem ter amado. Sem ter sido amado. Sem conhecer o amor. E, enquanto alguns andam pelas ruas, a atirar sentimentos ao lixo, a negar ao coração os sentidos, a recusarem o compromisso, eu fiquei agarrado às paredes vazias de um mundo onde nunca realizei o sonho de me dar completamente a alguém.
Comprometo-me. Comprometo-me com a loucura. Escolho viver na ilusão. E lá estás tu. Tu, no teu vestido branco. Ouves, não ouves? Comprometo-me a ficar sempre ao teu lado.    

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 24 de março de 2015

Coisas da idade



São coisas da idade. Quando eu era menina, o Tempo espreitava-me pela janela, quando eu me despia. Ficava a olhar para o meu corpo, com deslumbramento. O meu corpo de criança, com a pele lisa e clara, onde as brincadeiras imprimiam, de volta em vez, uma cicatriz ou um arranhão. Ele não parecia ver as mazelas. Via o meu corpo de menina, espreitando pela janela. E dizia, sussurrando, achando que eu não ouvia: um dia vou chegar a ti, um dia.
O meu corpo de menina não era perfeito. Misturava os traços da minha preguiça com a minha paixão pelo chocolate. Tinha formas redondinhas, que se enfatizavam no cabelo desalinhado, cheio de caracóis rebeldes que se desfaziam e espetavam numa amálgama volumosa de caos. Mas o Tempo não se importava com o meu corpo imperfeito nem com o meu cabelo desengraçado. Não era isso que via quando olhava para mim. Via apenas a juventude. A juventude inerente à facilidade com a qual, antes do banho, ficava nua, de pés descalços. Olhava para mim, quando eu me despia, perdido em pensamentos e emoções mais fortes que a vida. E dizia, sussurrando, achando que eu não ouvia: um dia vou chegar a ti, um dia.
São coisas da idade. Fui mulher. Tornar-me mulher significou importar-me com o tempo que olhava para mim e dizer-lhe que, se ia continuar a olhar, eu tinha de despir, não só a roupa, mas a vergonha, o desconforto, o complexo. E fiz do meu corpo algo que, tal como o Tempo, eu gostava de olhar. E, olhando ao espelho, para cada uma das imperfeições atenuadas, para o cabelo controlado com mais produtos do que o orgulho deixa admitir, descobri que os traços mais bonitos que trago são ainda as cicatrizes que ficaram da infância.
As linhas brancas e acastanhadas do meu corpo, essas cicatrizes que nunca desapareceram, fazem parte de uma história que nem sempre se pôde contar em voz alta. Contam como, antes de ser uma pessoa confiante, fui atacada, diminuída, troçada. Contam como fui ferida, no embalo da ilusão de que não merecia melhor. Mas nem todas as histórias são tristes. Também contam como brinquei com os meus irmãos na praia, como rebolei descuidadamente na relva fresca, como trabalhei nos jardins e nas vindimas e na construção de amanhãs. Amo essas cicatrizes com uma devoção tão profunda que as mostro ao Tempo, apontando-lhas. "Vês? É a tua marca!", digo-lhe. Mas ele abana a cabeça. E murmura: um dia vou chegar a ti, um dia.
São coisas da idade. Um dia, serei anciã. O Tempo espreitará pela janela. Vai sorrir e troçar, como, antes dele, fizeram tantos. Terei cabelos brancos. O corpo marcado pelo sol, pela vida, pelos anos que correram. E dirá, sussurrando, na consciência de que o ouço: hoje é o dia, cheguei a ti.
Mas é a coisa mais bonita do mundo: a idade. Essa que atravessa corpo e alma. Que nos faz envelhecer, crescer, ganhar traços de maturidade. Essa que nos aproxima da morte, esbatendo perfeições e imperfeições. E, mesmo sem saber, espreitando pela janela, não é para o corpo que o Tempo olha mas antes para o que fica além dele, nessa alteração sublime que, dia após dia, nos diz que tudo é efémero. A idade é o renascer da sabedoria a cada dia que passa. E, com o Tempo, aprendemos isto: não querer o ontem nem o amanhã, viver... é esse o segredo da felicidade. 

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

 Página Oficial de Facebook de Marina Ferraz

segunda-feira, 16 de março de 2015

Como o céu e o mar


A alegria é azul. Azul como o céu e o mar, que são os mesmos há milhares de anos, sem que ninguém lhes diga que a forma como são está errada.
O mar vem em ondas, embater nas mesmas rochas, fazendo o mesmo som. O som do mar é triste e faz chorar as gaivotas. Mas as pessoas sorriem a olhar o mar. Não dizem que ele devia ter encontrado outra canção nem que se devia libertar de sereias, secar o choro. E, por isso, o mar, esse mar que é o mesmo há milhares de anos, é alegria.
O céu bebeu das lágrimas do mar e chora-as. Inverno após inverno, deixa cair as lágrimas sobre o mundo. E é soturno, às vezes, com as suas nuvens pesadas e cinzentas. Anoitece, faz-se em trevas e deixa cair estrelas, qual diamantes de desejo, as mesmas estrelas há milhares de anos... Mas as pessoas sorriem a olhar o céu. Não dizem que ele devia encontrar estrelas que não caíssem ou estar sempre limpo da angústia escura das nuvens.  E por isso, o céu, esse céu que é o mesmo há milhares de anos, é alegria.
O mar e o céu não são crianças por terem sereias imaginárias e Deuses. Têm seres fantásticos e divindades porque têm a idade do tempo e são respeitados na sua condição anciã. Ninguém chama o mar de criança por ele estar calmo, por ele estar bravo, por ele resmungar no rebentar violento de uma onda. Ninguém olha para a jovialidade do céu porque ele resolve provocar dilúvios ou secas. Não há, na idade infinita do céu e do mar uma juventude de acusações. Ninguém lê a tristeza do mar como extenuante. Ninguém lê as lágrimas do céu como excessivas. Olhando para eles, lê-se alegria. A alegria de uma constância que permanece, década após década, século após século.
Então o mar e o céu são alegria azul e o azul é a alegria do mundo. Sem mudanças, sem o silêncio das tempestades, sem o desanuvio dos tormentos. O mar e o céu são alegria, apesar de continuarem aí, a chorar, a gritar, a embater violentamente contra praias e prados.
São Natureza, diriam, na justificação fugaz dos sorrisos com os quais brindam as atitudes ferozes desse céu e desse oceano. E são. São Natureza. Mas eu também sou. Também sou Natureza. Também sou alegria. E também continuarei por aí a chorar, a gritar, a embater violentamente contra o mundo, não em água, não em ar, mas em palavras. Há uma serenidade azul na minha alma. E sou feliz. Feliz como o mar, feliz como o céu. Feliz como esses que vivem intempestivamente há milhares de anos, sem abandonarem o que os torna imortais.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 10 de março de 2015

A hora exacta


 "Se tu vens, por exemplo, as quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. 
Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. 
Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! 
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..."

- Antoine de Saint-Exupéry
  
A que hora chegas, meu amor? Diz-me a hora e o minuto exacto dessa chegada. O segundo no qual posso aproximar-me na janela e ver mais do que o vazio do asfalto corroído pelas sombras delineadas da tua ausência. Tardas. Tardas e o coração adormece. Não quero esperar mais. Preciso de ti.
A que hora chegas, meu amor? Diz-me porque dura, na ausência, o silêncio de ponteiros que andam, sem sentido, marcando sempre a hora da saudade. Eles andam em rodopio, numa busca incessante pela tua chegada. E eu, como eles, vagueio pela memória de ti, à procura do indicio que me conte qual o momento no qual o meu coração vai poder bater mais perto do teu.
A que hora chegas, meu amor? Marcámos a hora da partida. Cumprimos esse horário com a devoção tardia e matura de um ancião. Medimos até os entremeios dos segundos, com medo de que fosses tarde. Nessa constante de ter medo do atraso, esquecemos o futuro para viver o presente. Nunca soube a que horas tornarias a virar a esquina da rua. Nunca soube o momento no qual poderia aproximar-me das janelas sem medo de contemplar o vazio.
O relógio continua. A sua dança milenar a entoar cânticos mudos e desfeitos em promessas sobre uma hora que não chega. E olho para ele, desejando a hora. Mas que hora? Não sei dizer! Sei apenas que o relógio marca a hora da saudade e os minutos da minha solidão. Preciso que ponhas termo a esta inconstância, a esta loucura. A que hora chegas, meu amor?
Quero saber! Quero saber a hora, o minuto, o segundo concreto da tua chegada. Quero preparar a alma para a felicidade. Quero preparar o coração para o amor. No momento de te receber, não quero ser uma figura taciturna e cheia de vazios. Quero ter um sorriso no rosto e um beijo pronto. Quero ter passos que corram na direcção da porta e um abraço preparado. Sobre a mesa, quero ter uma vela acesa, seu fogo consumindo aos poucos a cera, aquecendo a sala e o Universo.
A que hora chegas, meu amor? Saíste à hora certa e com a promessa de voltar. Mas preciso que me digas quando. Como poderei viver as horas da tua ausência sem saber em que momento a ausência se desfaz?
Os ponteiros avançam. Foi a hora da partida. A hora da tristeza. A hora da saudade. A hora da solidão. Cada minuto feito com as nuances da espera. E fico a olhar para a medida sem sentido dos números que avançam sem que eu saiba qual desejar. Não sei qual é a hora do regresso. E, por isso, permaneço imóvel, nesta espera feita de impaciência e desespero. Não! Não deixes que assim seja. Não deixes nas mãos do acaso esse momento que desejo e sem o qual os ponteiros não fazem sentido. Por favor... Quero preparar o coração. A que hora chegas meu amor?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 3 de março de 2015

Como um poema



É em ti que eu começo e acabo. Como um poema. Sabes? A minha métrica desfeita em vozes e pensamentos que se consubstanciam nessa tua presença. Como um poema. E é tão incerta a minha rima...
Às vezes sinto que as tuas mãos poderiam ser o primeiro verso do poema que sou. O seu toque leve sobre as teclas pretas e brancas do piano, tocando com igual devoção o que existe de luz e caos neste universo incerto de coisas por sentir. Mas sentes. Sentes todas. E a todas dedicas igual sentido de plenitude. É por isso que acredito que as tuas mãos são o primeiro verso de mim. Onde começas a escrever-me, delineando cada traço bom e mau, feliz e infeliz. É em ti que eu começo e acabo. Como um poema.
É nos teus lábios que se dá o crescendo dos meus sentidos. Verso após verso. Linha após linha. É no toque suave dos teus lábios que ultrapasso o que existe de certo e incerto no traço inconstante de mim, desenhado pelas tuas mãos e rasgado pela vida. Cada beijo é uma história nova e a mesma história. Como se eu própria fosse narrativa e me completasse aos poucos nesse toque de eternidade, feito nos sopros prudentes dos lábios entreabertos. Se sou muito ou pouco ou quase nada... é a essa pergunta que respondem os teus lábios. E é nessa resposta que vou descobrindo recantos de mim. É em ti que eu começo e acabo. Como um poema.
 Mas é nos teus olhos que expludo em sentido e que me concluo. No brilho dos olhos, que explica que as mãos não tocam apenas por desejo e que os lábios não se entreabrem somente por paixão. É nos teus olhos que encontro as conclusões mais certas e profundas para a explicação de mim. E é neles que me compreendo com mais rigor e intensidade. Nos teus olhos. Esses olhos onde o brilho não esmorece quando o sol se põe. Esses olhos que amam o horizonte, a lua, as estrelas na distância mas que se pousam em mim e me dizem que sentem mais pelo que fica perto. E que declamam o poema feito nas mãos e nos lábios, acrescentando ao desejo e à paixão a centelha de amor que os move e os permeia e os torna unos. É em ti que eu começo e acabo. Como um poema.
A minha rima é incerta. Feita dos traços do teu toque, do teu sabor, do teu olhar. Incerta como o tempo lá fora que sorri e chora e se desfaz em névoa, sem que saibamos porquê. Mas eu sou como um poema. Um poema feito nos traços da vida que te pôs no meu caminho. Um poema feito no embalo do Universo que nos escreveu a sina nas estrelas. Um poema que permeia cada segundo de (in)sanidade de mim. São poucos os que compreendem a minha alma. São poucos os que adentram as muralhas e conhecem o meu "eu". Mas tu compreendes. Tu sabes. Eu sou como um poema. Um poema que tu sabes interpretar como ninguém, porque é teu. E é em ti que eu começo e acabo.

Marina Ferraz 
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aquela pessoa


Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que está e que, em não estando, permanece, como se a presença não fosse o destino mas a estrada. Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que nos deseja secretamente o melhor e que discute com os ventos desfavoráveis, como se um grito, uma voz, uma certeza, pudesse mudar o curso das Estações.
Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que nos faz rir, que nos deixa chorar, que sabe ver a mágoa atrás de um sorriso e a irritação atrás do rosto inexpressivo. Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que não se importa de ouvir a mesma história vez após vez, que nos abana quando precisamos de ser chamados à razão e julgamos precisar de um afago. Aquela pessoa que sabe que a nossa alma não é sempre pura e que a nossa perfeição rachou, caiu e se perdeu nas valetas da vida.
Estamos todos à procura daquela pessoa. E estamos todos à procura na cegueira de não ver que ela já existe. Existe nas amizades de facto. Aquelas que surgem, talvez do nada, e constroem as barreiras de uma muralha que não havia em nós. Não há amor maior do que a amizade. Não há nada mais forte do que a amizade que resiste ao fim de um amor.
E "aquela pessoa" pode nem ser uma pessoa só. "Aquela pessoa" é quem sabe, quem sente, quem segue e quem pode dizer com toda a certeza que, independentemente de tudo, está ali.
Aquela pessoa é muitas vezes plural. São os anjos, são os irmãos, são os tigres e os ventos. Aquela pessoa é a amizade personificada pelos actos e as palavras e os sentidos. Aquela pessoa é a amizade em forma de mensagens, ralhetes ou conselhos. Aquela pessoa é a amizade construída na certeza de que, mesmo se tudo piorar amanhã, ainda não estaremos sós.Estamos todos à procura daquela pessoa. Aquela pessoa que entende que o amor é muito maior do que um romance a dois. Aquela pessoa que sabe que o coração humano nasceu para ser repartido e se oferecer, migalha a migalha, aos que farão para sempre parte de nós. Aquela pessoa que nos olha e sabe que estará sempre lá para nós porque, de alguma maneira, por algum motivo, para ela também somos "aquela pessoa".

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Despida



Despi o meu quarto das recordações de ti e as minhas mãos da esperança infantil de que podiam voltar a ser agarradas pelas tuas. Despi as paredes de fotografias e as caixas de cartas de amor. Despi o corpo de desejos e selei os lábios para os despir de palavras.
Despi o chão de caminhos e os pés de regressos. Despi a alma de esperança e a vida de sentidos.
Despi a fé de esperança, despi o ar de sentido e até o céu de estrelas para não poder pedir desejos.
Despi-me de bondade e de pureza. Procurei a raiva. Despi a angústia de vergonha e o ódio de medos.
Fiz tudo isto na esperança de poder avançar, de poder roubar aos olhos o desejo de olhar para trás para te procurarem. Mas ninguém pode despir o coração de amor. Ninguém pode arrancá-lo do peito  e arrancar-lhe o único motivo para bater.
Então, para não arrancar a vida ao meu corpo, aceitei amar-te na distância, na saudade e o no silêncio. Eis a vida que levo. Uma vida deserta, despida de quase tudo, onde os olhares estão fixos no passado e a dor se mantém presente. Uma vida nua e fria, despida de esperanças para o futuro.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ansiedade


É um tremor no corpo. Que se estende, fluído e demorado, em cada poro. Faz bater mais forte o coração mas não o move. E não o condena. Não é como o amor. É um deserto de coisas por sentir que se estende dentro da ilusão da plenitude. A vontade permanente do que vem a seguir à última página de nós.

Querer saber. É um querer saber que não quer saber de nada, nem mesmo de si. E que provém da mais breve migalha de história. Ninguém sabe a história. E ninguém sabe porque é que existe esta vontade de saber o que fica nas entrelinhas entre o tudo-quantificável e o nada-inimaginável que nos tende a vida.

É uma ilusão. Mas tudo é uma ilusão, contando que se tenha no olhar ainda um pouco da criança que se foi. E essa ilusão vem, tardia e descontente, iluminar as trevas do pensamento que cresceu e se fez homem.

Não é infelicidade, mas não é feliz. Não é desespero, mas não é calmo. É um tremor no corpo que continua. Não passa. Não esmorece. E magoa o espírito que trazemos dentro. Magoa o coração. Esse que nos põe nas mãos, na boca, na barriga. Há batimentos compassados em todo o lado. Como pequenos relógios a tiquetaquear pelas veias, na esperança (certamente infundada) de haver uma hipótese em mil e de a termos agarrado.

É inesperado. E não tem nem um laivo se subtileza. Ataca sob o sol. Debaixo da luz. À frente de quem quer que seja. Quer ser tudo o que não é. E, talvez por isso, vive numa constante vontade de deixar o presente e saltar para o futuro. Mas o futuro faz-se sempre presente. E é sempre de olhos no horizonte, nessa busca pelo impossível, que ela se torna amarga.

É um tremor no corpo. Trespassa a pele. Vem sem avisar. E acelera o mono existencial que trazemos no peito, como quem traz promessas inaudíveis. Não. Não é o amor. Não poderia, jamais, ser o amor, embora venha muitas vezes à sua conta, preencher os espaços em branco das demoras. Tem muitos nomes, a idade do pensamento e redime-se todos os dias no choro da imortalidade.

Não importa por que motivo vem. Acaba sempre por vir cumprimentar as gentes. Não se importa com a idade, o género, a posição social. É cega e dá-se a qualquer um, nas avenidas onde se vendem afectos ao preço do ar. E enquanto agita as almas descontentes, numa busca feita de devaneios, caminha, passo a passo, rumo ao abismo.

Hoje, escolheu-me a mim. Dou-lhe a mão e vou com ela. Vou. Vou sem saber se avanço na direcção do sonho ou do abismo. Vou. Vou e descubro.

Caímos juntas. Eu e a ansiedade. Havemos de cair tantas vezes que, um dia, talvez ela se erga sozinha, deixando-me no chão das desilusões. Mas não hoje. Hoje, levanto-me com ela. Tenho mais uma cicatriz. Mas está tudo bem. Sorrimos uma à outra. Ambas sabemos: cair não é mais do que voar por uns segundos.


Marina Ferraz

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Segundo acto


A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Faço uma vénia à solidão. Começa o segundo acto desta peça chamada vida. Aquele que decorre sobre as tábuas esfarpadas do chão da realidade, onde caminho, de pés descalços, sem outro texto que não o do pensamento. A luz do palco apagou-se. E o sorriso, tal como a roupa, tal como os ornamentos, não era meu para trazer para casa. Deixei-o lá, pendurado no cabide, juntamente com a ilusão.
A luz do palco apagou-se e estou cansado.
Ainda ouço os aplausos. Os risos. Gargalhadas. E a sombra do desassossego, esquecida no camarote, juntamente com as mágoas e as desilusões. Naquela casa de três paredes, conto muitas vezes a história de quem nunca fui. E sou-o. Sou-o nos olhos das multidões contentes que riem e aplaudem e incentivam.
Sou uma marioneta. Os meus fios puxados pela ilusão sadia de que, um dia, as luzes do palco vão apagar-se e o sorriso não vai. Mas, todos os dias, quando se apagam os holofotes, deixo no palco a pele e o sorriso e o calor da vida. E preparo a alma para encarar o frio das ruas onde a morte espreita e o sangue gela.
A luz do palco apagou-se. Com ela, deixo apagar o sorriso. Fecho-me em mim. Custa ser eu. Não sei ser outra coisa. E arrasto os pés, pelos caminhos cinzentos da rua suja, cumprimentando o vento e as estrelas. Tenho lágrimas dentro da alma. E quero deixá-las verter. Mas fica-me o desconforto do choro. Fica-me o desconforto de não ter, sequer, por ou para quem chorar.
A luz do palco apagou-se. Apago o sorriso. Fecho-me em mim. E estou cansado. Avançando pela rua onde não há nada, compreendo que, entre o palco dos sorrisos e o choro calado da alma, não há mais do que ruas desertas onde fico sem mim, esperando que amanheça.
Vou só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Vou só deitar-me por uns minutos. Ouvir o silêncio. O grito insensato do silêncio. Vou só deitar-me um pouco. Aqui mesmo, no centro da rua. No centro da linha. No centro da eternidade vazia de mim.
E sinto. O tremor. A promessa. A promessa insensata de que, no final de todas as coisas, virá a recompensa. Talvez a recompensa seja o sorriso. Talvez seja o choro. Não importa. Não quero saber. Quero só deitar-me um pouco. Estou tão cansado. Tão cansado da vida. Tão cansado de mim.
O tremor. A promessa. O som. Acabou o segundo acto desta peça chamada vida. A luz do palco apagou-se.  Deixo acender o sorriso. Tenho lágrimas nos olhos. E nunca mais estarei triste.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet