terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Lianor


"Descalça vai pera a fonte/Lianor pela verdura;/Vai fermosa, e não segura." (Luís de Camões)

Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Da beleza, se a tem, vulgar e corriqueira, num mundo de posters gigantes com modelos de elite, dirão talvez um piropo, se não houver à escuta agentes de autoridade. Dos pés descalços, se assim os leva, terão somente juízos. Alguns dirão que é pobre. Outros dirão que é louca. E outros dirão que a pobreza não é desculpa e que a loucura não é doença. Da segurança, essa que não tem, ninguém falará. Ninguém fala do que é importante, com medo que as palavras tornem real a realidade. É a mente tacanha das gentes: essa que teme mais falar do monstro do que ser por ele atacada.
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Ninguém quer saber dela. Poderia ir calçada e ser feia. Poderia ir pelo asfalto em vez de seguir pela cama verde dos prados. Não importa. Não importa como vai para a fonte. Não importa onde vai. Não importa quem é. Num mundo onde se acumulam pessoas nesses nichos centrais chamados cidade, há muito pouco que importe a quem quer que seja. Então Lianor não terá um poema moderno, sem rima nem métrica. Não será atirada para prosa fraccionada, amontoada e díspar. Continuará lá: eternamente indo para a fonte onde ia nos dias em que a sua beleza era rara e a sua segurança importava a alguém.
Hoje não! Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Provavelmente Lianor nem vai à fonte. Só disse que ia. Talvez se vá encontrar com o namorado no café. Talvez vá fumar um cigarro à revelia dos pais. Os pais que serão, talvez, os únicos que se importam em saber onde ela vai... embora também eles já não queiram saber como.
Sob os pés, a erva verde que pisa de pés descalços canta poemas de outros tempos. E Lianor, moça jovem de espírito, criança de pensamento, mulher de corpo e intuito, pisa-a inconsciente de que a terra cante. E, como não se acha bonita de pés descalços, ignora a mensagem constante dos tempos idos e bebe da desatenção dos tempos modernos. Nem ela quer saber como vai para a fonte. Só quer ir. Possivelmente porque os outros foram. Possivelmente porque os outros não foram e ela quer provar-se diferente da maioria. Seja porque for...
Ninguém quer saber como é que Lianor vai para a fonte. Não vai segura. Ninguém a sabe formosa. Dela ficam os passos sobre o verde do caminho. Não vai segura. Se acaso morrer perguntarão, talvez pela vez primeira: como é que Lianor foi para a fonte? Mas não haverá resposta. Apenas silêncio. Houve o tempo das palavras. E ele passou...

Marina Ferraz

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Lágrimas de tinta



Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Onde? No papel. Neste papel. Chovem. Cada gota é uma tempestade. Cada tempestade é um olhar seco pelas avalanches do mundo. Deste mundo. Cínico. Arrogante. Perdoa-me. Apetece-me pedir perdão ao mundo. Mas o mundo não perdoa ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Que escorrem. Delineando palavras. Concretos de coisa nenhuma, saídos do pensamento tosco de mim. Não consigo. Hoje não consigo. É um universo de sentidos presos, à procura das frestas entre a minha sanidade. Infiltrando-se nas rachas da racionalidade moribunda do meu eu. Perdoa-me. Apetece-me pedir perdão à lógica itinerante dos tempos. Mas é a triste verdade. Ela não perdoa ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Delas, cria-se o rio das ideias maceradas no silêncio de mim, na solidão do eu, na cegueira dos eternamentes. Criei as ideias sozinha. Mãe solteira dos pensamentos. Chamaram-me meretriz. E fui. Rameira das gentes que não me pagaram o bastante para compensar todas as formas como me corromperam. Não pagaram. Mas deram-me as ideias. Delas foram progenitoras ausentes. Renegaram-nas. E fizeram de mim filha única dos tempos e mãe sozinha de pensamentos presos às raízes do que me torna, também a mim, gente. Apetece-me pedir perdão às pessoas. Mas as pessoas não perdoam ninguém.

Chovem-me os dedos. Lágrimas de tinta. Se queriam calar-me a voz, deviam ter-me cortado as mãos. Como fazem aos que roubam pão e fruta. E pedaços de dignidade. E tectos sob os quais dormir. Como cortam a esses. Porque, os que roubam ouro e diamante, esses permanecem de mãos cheias, atadas ao corpo roliço que não serve para nada, alimentando-se da pobreza alheia, anafando-se nela e dela tirando o provento dos dias por devir.

Deviam ter-me cortado as mãos. Deviam! Se queriam calar em mim as palavras, deviam tê-las cortado. Porque os meus dedos chovem. Lágrimas de tinta. E elas gritam. Como um recém nascido, faminto e que não sabe ainda de onde sugar o néctar da vida. Gritam e continuarão a gritar. Até que me cortem as mãos.

Chovem-me os dedos. A dor. Lágrimas de tinta. E revolta-me a indignação que os faz chover, como se dentro de mim fosse sempre Inverno. Não consigo parar. Não quero parar. E, porque magoa, apetece-me pedir perdão a mim mesma. Mas eu já não perdoo ninguém desde que os dedos me chovem.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Nove minutos de sol



Aviso: O texto que se segue contém linguagem forte que pode ser considerada imprópria e/ou obscena.

6:43
Estendo a mão à senhora do manto negro. Sentada no chão, encostada à parede suja de uma casa qualquer. Ela ignora-a. Deixo-a cair junto ao corpo. O céu negro. A tomar tons baunilha. A tomar tons rosados. Aos poucos. Ajudem-me. Ninguém. Só a senhora do manto negro. E dor. É noite que deixa de o ser e dia que ainda o não é. Sinto o coração bater no peito. Querer sair do peito. A dor. Encosto-me à parede. A senhora do manto negro permanece. Ao meu lado. Dentro de mim? Não vejo bem, parece tudo desfocado. Já não sei a diferença.

Começou como começa sempre, suponho. Tinha quinze anos. E começou da forma mais simples. Uma passa na ganza do Rui, o amigo fixe. Os meus pais eram uma merda com os seus horários e as suas regras. Um monte de merda ambulante, nos seus fatinhos engomados e com os telefones agrafados à orelha. Uns filhos da puta. Não se importavam em aparecer quando era importante mas davam-me piços de duas horas se não tinha 18 a matemática. Desses filhos da puta, estão a ver? Aqueles que acham que o mundo gira ao redor do cu deles e que a merda que fazem cheira a rosas. A passa na ganza do Rui foi o melhor momento que tinha tido em anos. A passa na minha própria ganza soube melhor. Para dar uma pequena ideia: é como aquele momento antes de acordar, em que se sonha de forma quase consciente. Aquela sensação de conforto, felicidade, alegria pura. Apetece brincar e rir. Pode não ser uma sensação real. Mas parece. Faz estremecer os recantos inquietos da alma.

6:44
Ainda negro. Mas já não. Amarelo? Acha que é amarelo? A senhora não responde. Aguarda.

Não consigo lembrar-me do Rui. Mas a imagem vem à cabeça. É a imagem ossuda e fantasmagórica da morte a estender-me o cigarro acabado de enrolar. "Esta cena é fixe e não vicia.". Eu não sei se acreditei. Aos quinze anos fingimos que acreditamos no mundo como queremos que ele seja. O fantasma não queria ferir-me. Era mais um iludido de quinze anos. Mas, sem lhe lembrar outro rosto, firmo para mim que foi a morte que me ofereceu aquela primeira ganza, porta de entrada para tantas outras.
O lado porreiro de ter pais de merda era que não davam muito pelas minhas fugas. Aos dezasseis já era presença frequente nos bares da cidade. Ofereciam-me bebidas e shots. Quando não eram os empregados do bar, eram os rapazes ou as amigas. Não precisava de muito dinheiro para ter noites em grande. Só o suficiente para bancar a ocasional ganza que, ao fim de pouco tempo, deixou de ser ocasional. Não era que viciasse. Era só que os efeitos pareciam cada vez menos satisfatórios. A dada altura, não eram suficientes para me fazerem feliz. Comecei a fumar mais. E mais. Mas foi assim que, aos dezasseis anos, senti que não era suficiente.

6:45
Negro a tender para baunilha. Definitivamente, baunilha. É baunilha aquela linha no céu. Apetece trincá-lo. Fincar nele os dentes. Fito a figura negra que aguarda, imóvel, ao meu lado. Será que está lá? Rio. Mas o riso dura o tempo de meia respiração. O coração bate frenético no peito. Não consigo respirar. Não consigo. Não consigo respirar.

"Isto não vicia e vai ser uma trip, miúda". Era uma rave. Uma festa. O pessoal estava ao rubro e o rapaz - não propriamente namorado mas amigo com extras - era uma pessoa que tinha em conta. Hesitei dois segundos. Devia, talvez, ter hesitado quatro ou uma hora. Mas aceitei. Era só ecstasy. Não viciava...
Deu-me a noite da minha vida. Senti-me feliz, viva. Era quase eufórica a minha vontade de dançar, cantar, saltar. Cores e movimentos e sons. Tudo amplificado e distorcido e elevado ao máximo. No meio do entorpecimento da minha vida, a pastilha que ele me deu foi como se tivessem, subitamente, ligado a minha felicidade no volume máximo.
No meio da confusão, puxei-o para mim e beijei-o, enquanto dançava com ele. Não sabia como havia de retribuir as sensações que recebia. Não sabia como agradecer. Acabei por agradecer como todos os homens querem que se agradeça. Acordei na cama dele. O efeito da pastilha tinha passado. À luz do dia, as coisas pareciam diferentes. Não me lembro do rosto dele mas vêm-me à cabeça a imagem de uma caveira negra, petulante. Foi a morte que me apresentou ao ecstasy.
Comecei a dormir ocasionalmente com ele, à troca de mais comprimidos. Mas, eventualmente, ele cansou-se e tive de começar a pagar.
No início, custou-me as mesadas. Depois, o pouco que tinha guardado. Mas era um preço justo. O preço a pagar para me sentir viva. Para me sentir feliz.


6:46
Será rosa? A senhora de manto negro não parece interessada em responder-me. Respiro sofregamente em busca de um pouco de ar. Não há.

A cena mais surreal das pastilhas é que nunca deixam de animar. Mas o efeito passa e, quando passa, parece que o mundo vai ficando sucessivamente mais merdoso. Uma sensação de desalento, de medo, de angústia. A depressão de ser tudo um monte de esterco quando o corpo não tem acesso às pílulas da felicidade. Para mim, naqueles tempos, a felicidade era cara mas tomava-se com facilidade.
As minhas notas tinham ido pelo ralo. Os meus progenitores ameaçavam-me constantemente com cenas que não podiam importar-me menos. Gritavam e eu fingia que ouvia. A escola, para cá. O futuro, para lá. E eu ia pensando no futuro. Na futura festa. Na futura pastilha. Na futura sensação de libertação quando aqueles idiotas calassem a puta da boca.
Decidi dar uso à bela expressão "matar dois coelhos com uma cajadada só". Precisava de dinheiro e queria fazer aqueles dois sofrer. Ao fundo da rua da escola havia uma lojinha de compra e venda de artigos em segunda mão. Vendi o que encontrei e achei que valesse a pena vender. Comecei com coisas cuja falta sabia que ninguém ia sentir. Mas depois as escolhas escassearam. Comecei a levar coisas mais notórias, desejando que não me apanhassem tão depressa.
Consegui um bom dinheiro. Com esse dinheiro, pensei, iria comprar mais pastilhas. Mas não comprei. O vendedor desdenhou o próprio produto. "Isso é para meninos! Isto é que é merda da boa!". A merda da boa era cocaína. Ainda não tinha dezoito anos quando experimentei pela primeira vez. Hoje, não me lembro do rosto do vendedor. Na minha memória, entorpecida e desgastada, parece-se com Anubis. Lembro-me dele assim: com uma cabeça de chacal sobre os ombros. "Isto é que é merda da boa!". Seria ele mesmo assim? Não sei dizer. Era o Deus da Morte que me vendia cocaína.
A sensação de euforia preencheu-me completamente na primeira vez que cheirei. Era como se o mundo fosse meu, como se nada me pudesse parar. Queria tudo e sentia que podia ter tudo. E sim, eu sabia que aquilo podia viciar. Como não viciaria? Era a melhor sensação do mundo.


6:47      
O céu e os seus tons baunilha. A dor. Tanta. Tento debruçar-me para vomitar mas não tenho tempo. Vomito sobre mim própria. A senhora do manto aguarda.

A melhor sensação do mundo era cara. Vendi as minhas coisas para comprar cocaína. Depois comecei a vender cocaína para comprar mais com o lucro. As ruas escuras onde se fazia negócio tornaram-se casuais para mim.
Foi com dezoito que os meus pais se aperceberam que andava a surripiar objetos da casa. Suponho que a minha mãe gostasse de alguma das peças de ouro que nunca usava e tivesse partido daí a demanda pelos palitos que tinha vendido. Eles gritaram. Eu caguei para eles. E eles tentaram ensinar-me, indicando-me a porta de saída.
Saí. Saí mostrando o dedo do meio, com a roupa que tinha vestida e uma dose no bolso. Nunca mais voltei para casa.


6:48
A luminosidade aumenta. Doem-me os olhos. A senhora de negro olha para mim como se me achasse estranha. Levo a mão ao rosto. Quero escondê-lo. Dói-me o corpo. O peito. Ajudem-me. Ninguém.

Eu costumava ser uma miúda com pinta. Tinha os olhos azuis e o cabelo arruivado, bem tratado e comprido. Tinha 1,70 de altura que me aguçou a vontade de ir para os mundos da moda e o peso em torno dos 52 quilos, todos muito bem distribuídos, como se quer. Nunca fiz muito por ser magra. Simplesmente era. Foi na altura da cocaína que me despedi de mim assim. Como era. A pinta foi-se. Mas já não me importava. Não havia nada que gostasse em mim. O mundo parecia-me uma imensa caixa de merda, tipo a dos gatos, onde toda a gente se estava a cagar.
Naquele tempo, já andava a cheirar há quase um ano. Comecei a emagrecer mais e mais. A dada altura emagreci dez quilos em poucos meses. Na altura, o meu namorado, que pouco ou nada sabia de mim mas insistia em declarar amor eternos antes da queca, assustou-se com a perda de peso. "Podia haver mais de ti para amar", disse-me. E eu lembro-me de me rir e de o beijar, só mesmo para não lhe responder. Para não lhe dizer o quanto eu queria menos de mim para odiar.
Estava a viver com os meus namorados. Trocava de namorado e casa com facilidade. Trocava de droga como dava. Quem me conhecia dava-me algumas borlas ou fiava, ocasionalmente. Às vezes aceitavam-me o corpo como moeda de troca. Cheguei a pôr mãos a algumas carteiras e a vender serviços em algumas esquinas de hotel. O que tomava, dependia. Dependia do dinheiro que conseguia e do que havia na altura. Qualquer coisa que me fizesse sentir bem, servia. Fosse de engolir, snifar ou injectar. Já nem sentia as agulhas entrar nas veias. Sentia só o prazer antecipado da felicidade líquida.

6:49
A luz. Ameaça a sua presença com tons brancos entre os prédios da frente. Os prédios balançam. Dançam ao som do nascer do sol. Tudo desfocado. As imagens vêm e vão.

Nos meus 21, a cena da moda era o LSD. Quando tomava, era fixe. Como abarcar o mundo todo de uma vez só. Viver num mundo de fantasia. As cores eram mais fortes, os sons mais concretos, o tempo parecia estender, encurtar, moldar-se a mim. Quando acabava, queria morrer para não viver mais no centro da mediocridade do mundo real. Tentei matar-me algumas vezes, durante as ressacas. Tentei. Mas nunca com competência. Tudo o que consegui foram algumas cicatrizes no pulso e gritos enfurecidos de condutores prudentes. Sai da estrada, sua louca. Mas não consegui morrer. E estava farta. Tão cansada de ser feliz e infeliz e sei lá mais o quê.
Tinha deixado de ser a "alma da festa". Das centenas de amigos, passei a zero. Fiquei sozinha. Pessoas sozinhas aprendem a chamar "casa" à rua. Dormia onde calhava. Com quem calhava. Somos todos tão descartáveis como lixo quando já não há nada que possam tirar de nós. 


6:50
Já espreita, muito levemente. O brilho incomoda. Não consigo respirar. Não consigo respirar. Sinto que há demónios a olhar para mim. Queima na pele. Queima nos olhos. Deixem-me em paz! A senhora de negro levanta-se. Vai deixar-me também... vou morrer sozinha.

A minha última dose foi ontem à tarde. Estava a ressacar. Doía-me o corpo. Sentia-me tremer. Foi um gesto de caridade darem-me o ácido. Não tinha dinheiro que chegasse. Dei o que tinha. Fiquei de pagar o resto depois. O gajo não pareceu confiar muito mas suponho que se tenha deixado levar pelo momento. Não é fixe estar a curtir a festa e ter uma miúda em desespero, a tremer por todos os lados, a implorar. "Vê como tomas isso...", avisou. O amenizar da consciência. Vi como tomei. Tomei de uma vez. Precisava.

6:51
Vivi no escuro. Os meus dias foram todos noite. Agora não. O sol já brilha por entre os prédios. O céu está claro.
A senhora de negro não parte. Estende-me a mão. É a primeira vez que, à luz do dia, me estendem a mão. É a primeira vez, em muito tempo, que me estendem a mão sem ser para receber dinheiro ou passar droga.
Agarro-lha. Vou. Para quem viveu a vida toda no escuro, a morte são só nove minutos de sol. E deve ser uma droga. Porque me faz feliz.


Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet


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Nota:  Este texto foi, também, a minha participação no 6º Concurso Literário da Editora Papel de Arroz, "O poder do vício".
Deixo, mais uma vez, uma nota de agradecimento aos responsáveis da editora, por continuarem a desafiar e incentivar os seus autores. Aproveito, ainda, para dar os meus parabéns a todos os participantes do concurso.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Dilemas maternais


Parabéns. Não vais ser pai. Não vais ser avó. Não vais ser tio. Não vais ser madrinha. Recebe esta nota com agrado. Não vais. Não vais ser a pessoa a bordar fraldinhas. Não vais ser a pessoa a levantar-se a meio da noite. Não vais ser o desencaminhador. Não vais ser a pessoa a espetar os polegares nas bochechas bolachudas da minha criança. Convido-te, por isso, a celebrar comigo.

Não julgues que vens celebrar a minha loucura. Vens celebrar a minha liberdade. A minha feminilidade liberta de preconceitos e de normas que me fez dizer que é tão válido não querer ter filhos como querer ter uma equipa de futebol a correr e a fazer tropelias pela casa. Não. Não fiques chocado. Sou mulher. Não quero ser mãe. E estou farta de ouvir as frases desusadas, fora de época e recheadas de preconceito e falta de aceitação. Estou farta do "ainda és nova, tens tempo". Estou farta do "isso é agora". Estou farta do "eu também disse isso e...". Não! Eu não quero ser mãe. E tenho tanto direito de não querer como qualquer outra pessoa tem de o querer.

Incomoda-me particularmente quando me dizem "Isso é se o teu companheiro não quiser ser pai". Porque é que ele pode querer não ser pai, se eu não posso querer não ser mãe? E porque é que ele querer ser pai havia de mudar a minha opinião? Porque é que a opinião ou vontade dele valem mais do que a minha?

Questões. Questões que me moem por dentro, no lugar onde não há-de crescer nenhum feto até se fazer gente. Questões que me dão dores de parto constantes sobre o futuro desta sociedade tão avançada que continua agarrada às noções da idade do bronze.

Quando me dizem "quero ser mãe", não costumo dizer "isso passa-te". Não costumo dizer "isso vai destruir a tua vida". Não costumo dizer "o que está errado contigo?". Costumo sorrir. Aceitar a beleza que é alguém querer gerar outro ser, criá-lo, fazer dele gente. E, quando acontece, costumo fazer desenhos fofinhos e pedir que os bordem em babetes com fita de bibe da cor que julgo mais interessante ou adequada. Costumo estar presente em batismos. Dar os parabéns depois dos partos. Oferecer a ajuda quando necessária. É uma escolha que aceito, em toda a sua plenitude.

Não querer ser mãe não quer dizer que não concordo com a maternidade. Quer apenas dizer que eu não a quero para mim.

Mas, de alguma forma, a minha escolha ofende as pessoas. Dizer que não quero ser mãe parece atacar directamente toda a gente que foi, é ou quer ser berço do futuro da humanidade. E eu questiono. O que é que, na minha escolha de mulher adulta e informada que conhece as opções e decide pela sua cabeça assusta tanto?

Não sei a resposta. Não saber, incomoda. Incomoda-me. Como incomoda os outros essa escolha que tomo e que sei, no mais profundo de mim, não ter espaço para a mudança. Essa escolha permanente que me rotula, entre outras coisas, como "louca", "egoísta", "maluca", "leviana" e mais umas quantas palavras de teor mais ofensivo e que dispensam enumeração.

Ofereço a mim mesma a escolha e a todos os outros o convite. Venham celebrar comigo. Não estou grávida nem quero estar. Não sou mãe nem quero ser. Venham celebrar. Não o afastamento da maternidade. Não a minha opção. Venham celebrar a liberdade de escolha.

Ser mulher, tal como ser homem, significa ser pessoa. Ser gente. Uma mulher não tem de ser mãe. Uma mulher não tem de ser nada que não queira. E espero que um dia, em breve, a sociedade dê à luz esta ideia... e seja mãe de uma nova era.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet e editada por MF

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Mudou tudo



Mudou tudo.
A manta está desarrumada. Pousada, como sempre, nas costas da poltrona. Descaída para um lado. Torta. Por dobrar. A manta está desarrumada. Apetece-me agarrar nela, rasgá-la em pedaços, queimá-la. Arrancá-la das costas da poltrona onde sempre a pousámos, julgando que a arrumávamos. Não! A manta está desarrumada. A poltrona não é lugar de manta.
Mudou de tudo.
Os móveis estão fora de sítio. Velhos e gastos da permanência imutável junto às mesmas paredes. A madeira pesa. Tento arrancá-los do lugar. Não se movem. Os móveis estão fora de sítio. Apetece-me reduzi-los a cascalho e varrê-los. Sei que julgámos que estavam bem ali. Mas não estão. Estão fora de sítio. Qualquer um veria com facilidade: estão dispostos erroneamente. Não fazem sentido nem ficam bem.
Mudou tudo.
A roupa está mal passada. Mal dobrada. Atolada nas gavetas demasiado cheias. Está engelhada, como sempre. Agarro nela, deito-a ao chão. Fica melhor no chão do que na gaveta onde fingia ter sido bem arrumada e passada a ferro.
Mudou tudo.
A louça não está bem assim. Empilhada, distribuída, na sua quietude de anos que lhes determinaram que era assim que estava bem. Não está. Está desalinhada, desorganizada. Não me traz sentido de estética ou de prática. E quero agarrar nela. Destruí-la. Fazer dela cacos desorganizados pelo chão. Quero ouvir o estilhaçar de copos e pratos e taças apenas para não ficarem ali - onde sempre estiveram - desordenados.
Mudou tudo.
A fotografia. Quão errada esta fotografia onde sorris e eu também. Onde estás vivo e eu também. Mudou a fotografia. O abraço. Errado como se também ele pudesse ser um pedaço desalinhado da casa. Ali permanecemos - como ontem e há um ano - abraçados e a sorrir. Quero agarrar a fotografia. Rasgá-la ao meio. Quebrar o abraço. Riscar os sorrisos. Desenhar lágrimas no meu rosto iludido e inocente.
Mudou tudo. Sinto raiva da casa que está igual. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. Dentro de mim que te amava. Que te amo. Que te vi morrer. Que voltei para casa. A minha casa. E descobri que ela permanecia igual, como se não sentisse a tua falta.
Mudou tudo. Mas entrar em casa é familiar, doce, bom. E dou por mim a querer chamar o teu nome e a ouvir os silêncios da ausência de resposta.
Morreste. Mudou tudo. Não aqui. Dentro de mim. E a casa permanece igual, sem que nada faça sentido.



Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Todas as noites


Todas as noites ele chorava. E ela levantava-se de um pulo. Percorria o corredor em surdina. Entreva no quarto. Beijava-lhe o rosto. E perguntava: " O que foi, meu amor?". Ele sentava-se na cama. Contava-lhe a história. O sonho. E terminava com a frase. Sempre a mesma. "Tenho medo, mamã".
Pacientemente, ela sorria. Estendia-se na cama ao lado dele. "Isso é porque és corajoso", dizia-lhe "Sem medo, não pode existir coragem". Adormeciam os dois. Todas as noites.
Todas as manhãs lhe diziam. "Devias deixá-lo chorar. Assim, nunca vai habituar-se a dormir sozinho". Todas as manhãs ela selava o conselho com um beijo e um sorriso breve que prendia à total ausência de resposta.
E chegava a noite. O choro. A corrida. A história. O abraço. O sono. O aconchego contente do que é presente e completo.
Mas, um dia, o choro não veio no cair da noite. E ela, que pacientemente aguardava em silêncio, começou a ouvir o tic-tac de todos os relógios da casa, da rua, do mundo, procurando algum sinal de lágrimas no quarto ao lado.
O choro não veio. O tempo passava. E sentiu os olhos repletos de lágrimas. Ele estava a crescer.
"Por que choras?", foi a pergunta ensonada que ouviu. Não contou a história. O sonho. A forma como custava ver o seu bebé ser menino e saber que amanhã seria homem. Os adultos não eram bons a contar esses contos de enredo parco, todo escrito em linhas de luz pela mão da alma.
Tudo o que disse foi: "Tenho medo". E tinha. Então, levantou-se, percorreu o corredor em surdina. Entrou no quarto. Beijou-lhe o rosto adormecido. Estendeu-se na cama ao lado dele. E pensou: "sem medo, não pode existir coragem". Adormeceu com o medo. A coragem viria, talvez, amanhã.


Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Traição



Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. E soube, justamente por isso, que seria difícil encontrar quem aceitasse amar-me. Mas tinha tempo. Tempo para esperar por quem soubesse entender que, por mais que amasse a ideia do amor, não conseguiria ser a moça recatada que não se dá por aí. Eu nunca poderia estar numa relação de amor com quem não entendesse que as minhas necessidades me levavam de encontro a outros amores. E pode parecer errado em todas as formas, mas a verdade é esta: posso ser infiel mas não podem, ninguém pode, acusar-me de mentira.

A todos aqueles que quiseram amar-me, eu avisei. - Há noites em que me dou à escrita. Há dias em que permito que as palavras percorram a minha pele com as pontas dos dedos. Há dias em que conheço personagens e as deixo entrar em mim, à medida que me envolvo nos traços mais superficiais e mais profundos do seu eu. Por vezes, não vou querer estar contigo. Vou querer estar com ela. Com a escrita. E é com ela que vou adormecer. Em alguns dias, vou querer acordar nos abraços quentes que ela me dá. Vou beijá-la na boca, sentir-lhe o veneno doce da amargura e permitir que ela faça de mim o que quiser. - Sim, avisei-os a todos. E quase todos partiram. Não entenderam. Não souberam que essa traição ao amor fiel era a única forma de não trair quem eu sou. Até ele. Ele soube. Ele entendeu. Ele também não sabe estar numa relação sem trair. Dorme frequentemente com a música. Tem, com ela, quase uma segunda relação. E, de alguma forma, formamos os quatro uma família onde toda a gente se trai e ninguém se importa.

Houve um dia em que acordei sozinha. Percorri, com os pés nus, cada divisão da casa. Encontrei-os aos três. Amantes improváveis, conferenciando em frente ao piano da sala. Ele e a música e a escrita, falando-lhe na voz, cantada, insolente. Julguei, por momentos, que tinha acordado com o ciúme. Mas, olhando para a ternura daquele momento a três, não consegui sentir-me traída. Nesse dia, mais do que ele ou a escrita, aprendi a amar a música que os ligava, que nos ligava, que nos tornava um só. Não é coisa de menina de bons costumes, eu sei. Mas, nesse dia, convidei-os a fazerem parte de mim. Foi o último dia em que acordei sozinha. A minha cama ficou cheia. A minha vida também.

Há quem nasça para o amor singelo de um só e saiba amar sem ser amado. Há quem nasça para o amor a dois, sem espaço para mais nada, para mais ninguém. Há quem nasça sem amor para dar ou receber. Por todos, tenho respeito e aceitação. Mas eu não nasci para esses amores que acontecem no limite de paredes de ferro. Não nasci para os contratos. Não nasci para o espaço confinado da partilha. O amor que eu sei sentir não é somente humano. Não amo apenas o que vejo. Não amo apenas o que toco. Amo esta dimensão meio louca do que não é concreto mas toca, do que não é visível mas atormenta. E amo amar essa loucura incoerente. É um amor que trai. Trai as noções do que o amor deve ser. Trai as convenções, ditadas, escritas, impostas, tatuadas na sociedade. Mas não me trai a mim. Não o trai a ele. Não trai os nossos amores inconcretos. E faz de nós parte inegável um do outro.

Eu nunca poderia estar numa relação sem trair. Ele também não. Precisámos de abrir espaço para amarmos os amores um do outro. Não queremos a fidelidade labiríntica de só estarmos nós e as paredes e os becos sem saída. Queremos dormir juntos e levar as nossas paixões para a cama, acordar do sono para o sonho. Acreditar nele. Fazer dele bandeira. Somos um do outro e da nossa arte e da nossa esperança. É impróprio e inadequado, indecoroso e lascivo. Mas é a maneira como devassamente nos propomos, todos os dias, a saber mais sobre o amor. Eu não o quero sem o seu outro amor. Ele não me quer sem o meu. E sabemos melhor do que ninguém que esta é uma traição à norma. Mas nós não amamos a norma. Amamo-nos um ao outro. E à música. E à escrita. Nunca poderíamos estar numa relação sem trair. É por isso que sabemos que seremos sempre fiéis a nós mesmos.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Os teus pensamentos


Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Imagino-os escritos, impressos, negros e delineados, nas folhas amarelecidos e gastas dos anos. Imagino-os ondeando por entre o aroma a papel antigo que paira nas alfarrabistas menos conhecidas. Não acho que os teus pensamentos pudessem fazer parte de outras obras. Acho que teriam a idade dessa alma velha que carregas dentro do recipiente jovem do corpo com o qual te encontrei - ou reencontrei,
Quando os teus olhos pousam em mim e eu não te devolvo o olhar, pelo que pensas que nem noto. É nesses momentos que gostava de folhear o teu pensamento. Saber como me vês, se me compreendes, se, secretamente, ponderas também como seria bom poderes ler o meu pensamento.
Não sei com que palavras pintas o retrato do que os teus olhos encontram nesse olhar subtil sobre o meu semblante. Sei como eles brilham. Porque é que brilham? Fico a perguntar se me vês ou se vês somente o retrato do que eu poderia ter sido. Não mereço o brilho dos teus olhos azuis. Mas, Deuses, dava uma vida para conhecer as nuances que te permeiam a mente quando olhas para mim.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Vê-los pontuados com exclamações e interrogações e reticências. Saber os tempos verbais e os complementos - oblíquos ou não - que os atravessam. De os respirar, compassando a leitura com o bater do meu coração caótico e arrítmico.
Talvez os teus pensamentos nem me dessem respostas firmes. Talvez fossem somente o incentivo de cem outras questões. Mas gostava de os ler. Lê-los seria como descobrir a escada para um segredo escondido num lugar distante. Uma consciência sã de que, se chegar a ti, talvez possa perceber-te até ao mais ínfimo grão de poeira.
Olho pela janela. Sinto os teus olhos presos em mim e sei que eles brilham. Não te devolvo o olhar. Deixo que olhes, perdido nesses pensamentos que só tu conheces.
Às vezes, gostava de ler os teus pensamentos. Como um livro. Mas os pensamentos prendem-se em ti e perdem-se no vazio que nos separa. Ignoro-os. Aproximo-me. Bebo do brilho dos teus olhos. Faço dos meus pensamentos som. Digo que te amo. É um pensamento velho, como a tua alma e a minha. Mas nunca fica gasto. E isso é tudo o que importa.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ninguém



Eu não sou ninguém.
A vítima não era ninguém.
O assassino não era ninguém.
Ninguém é ninguém.
Somos todos o mesmo pedaço amorfo de coisa nenhuma. Mas fizeram-nos acreditar que somos. A todos. A mim. À vítima. Ao assassino. Fizeram-nos acreditar que, de alguma forma, por algum motivo, éramos gente. Criaturas cheias de direitos. Cheias de ideologias. Cheias de frases de boca cheia. Fizeram-nos acreditar. Acreditar que o mundo nos olha como se fossemos alguém. Mas não. Não somos. Somos todos um pedaço amorfo de nada. E, se desaparecêssemos todos, não haveria ninguém para sentir a nossa falta.
Insistem. Todos somos gente. Todos somos alguém. A criação da noção do divino de nós, da nossa unicidade, da nossa importância. Não somos divinos. Nem únicos. Nem importantes. Somos todos pedaços de carne ambulante, a não servir para nada, a servir os interesses uns dos outros, a viver nos interesses dos outros, a ser o interesse dos outros e, além dessa dimensão que nos une a espécie, não somos nada. Nunca vamos ser nada. E somos pior do que nada porque criamos a nossa unicidade na cópia uns dos outros. Não somos nada e não somos originais. Juntamo-nos a grupinhos e ideiazinhas que não passam de mais pedaços de nada na boca de ninguéns. Importantes? Porquê? Quando foi que trouxemos ao mundo algo que importe ao mundo? Trouxemos apenas o que nos importa a nós - os fragmentos de ninguém que povoam o espaço. O mundo foi o que destruímos e continuamos a destruir no processo.
Sim, encheram-nos de noções e de projectos e de supostos objectivos e metas e idealismo. Que bonito! Encheram-nos da noção de que a nossa vida importa. De que as nossas acções importam. De que, seja lá por que for, o "mundo" precisa de nós. É um erro enorme. Somos nós que precisamos do mundo. Do que não é humano. Apenas o que não é humano poderá ser alguma coisa. Mas encheram-nos de medos e medinhos... Vem aí um apocalipse qualquer. E as pessoas temem. A guerra. A profecia. O dia que bate com o mês e o ano. O atentado. E, porque somos ninguém, é difícil perceber a noção mais simples. O mundo não vai acabar. Poderemos acabar nós, os ninguéns, mas o mundo vai sobreviver. E talvez esteja melhor sem nós.
Pondero. E sei que as palavras são duras. Mas digo-as. Fizeram-me acreditar que sou alguém e que sou livre. Sei que não sou. Sei que a liberdade vem com as amarras - não as do mundo - a desta humanidade desumana. E sei que não sou ninguém. Mas fizeram-me acreditar que sim. Por isso escrevo.
O assassino, que agiu em nome da crença, acreditou que era alguém e matou.
A vítima, que era alguém para alguém, filha de alguém, pai de alguém, irmã de alguém, neto de alguém, não é ninguém e morreu.
E eu, que escrevo este texto, não sou ninguém. Não quero ser ninguém. Mato e morro todos os dias. E sou feliz. Porque, de alguma forma, sei que não é o mundo que está errado. O mundo vive. O mundo respira. O mundo não precisa de nós para nada. Somos ninguém. E este mar de preocupação humana é uma partícula minúscula de um mundo maior, é apenas a gaiola de mentiras onde nos prenderam a todos.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Já nos perdemos



Já nos perdemos.
Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, por entre um mundo cheio de acontecimentos e pessoas que se acontecem, pareceu que não mudou nada.
Mas mudou.
Pelas ruas, há quem o diga. Consciência universal, caminhando de boca em boca, passando de mão em mão.
Já nos perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. O mundo inteiro sabe. Toda a gente sabe. Menos tu e eu.
Tu és louco. E eu também. O mundo não. E é por isso que o mundo sabe de nós o que nem mesmo nós soubemos aprender.
Meu amor. É a triste verdade. Já nos perdemos. Eu a ti. Tua  mim. Tu a ti. Eu a mim. Estamos perdidos um do outro e nós mesmos, por entre a confusão das almas que fizemos corpo na entrega dos sentidos. Avançámos demais rumo ao desconhecido que ficava além da pele e do toque e das palavras vazias.
As pessoas não acreditam no amor. E nós sim. Talvez por isso elas saibam que nos perdemos enquanto nós continuamos - ingénuos e inocentes - a aclamar o para sempre, como se ele existisse só para nós.
Não é verdade. Já os perdemos. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. E, no mundo inteiro, só não o sabemos nós. Tu e eu. Talvez porque não nos tenhamos perdido apenas um do outro mas também um no outro. Talvez porque vejamos um reflexo de nós no brilho dos olhares devolvidos.
Mas dizem. Ouves? Já nos perdemos. Ontem . Ou hoje. Ou amanhã. Seja como for. Eu já te perdi. Tu já me perdeste. Seja por desânimo ou desamor ou traição ou morte. Já te perdi. Já me perdeste. Já nos perdemos.
A verdade é dura. Magoa. Escondo-me dela. Em ti. No teu abraço. No meu canto.
Perco-me em ti.
Perdeste-te em mim.
Perdemo-nos um no outro.
Não sabemos que nos podemos perder de outra forma.
Somos loucos. Tu e eu. E na bênção desta loucura perdemos a noção. Não parece que possamos quebrar. Não por desânimo. Não por desamor. Não por traição. E a morte que tente. Mas eu não acredito.

Marina Ferraz

*Imagem retirada da Internet

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