terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Estás aí?



Estás desse lado. Eu sei que estás. Estás à minha espera. À minha procura. E, quando te perguntam porque estás só, respondes, com um meio sorriso "porque a solidão é uma estrada e ela é a minha meta".
Estás desse lado. Oculto por um mar de impossibilidades que nunca muda a maré para facilitar o encontro. Oculto por paredes de hera e contratempo. Com uma espada de fé erguida, caminhando em passos gastos na minha direcção.
Passo a passo. Um atrás do outro. Procuras e não me encontras por entre cidades cheias de gente vazia. Por entre desertos sem oásis nem alucinações. E desesperas um pouco mais a cada dia. Desesperas porque sabes que eu existo e não sabes onde estou. Porque sabes que, do outro lado, eu estou à tua procura sem saber onde tu estás.
Estamos perdidos, tu e eu. Amantes que nunca se viram e sempre se amaram, à espera do que todos dizem que é ilusão. Chamam-te louco? A  mim chamavam. Chamaram-me louca, enquanto se importaram. Mas já não se importam. Já não querem saber. Dizem que me perdi, que me dei, que me entreguei a uma ilusão. Mas não és ilusão, pois não? Estás desse lado, à minha procura, a tentar explicar às pessoas que a maior loucura de todas seria não procurares por mim.
Não desistas, por favor. Eu estou aqui. Estou aqui à tua espera. E, quando me perguntam, digo apenas que quero o horizonte que chega com os teus passos cansados.
Estás desse lado. Eu sei que estás. Estás à minha espera. À minha procura. E trazes junto ao peito uma imagem de mim que ainda não sou eu. Mas serei eu, um dia. Quando entenderes que essa imagem sem rosto tem os meus olhos e os meus lábios. Quando entenderes que não poderias amar mais ninguém.
Estás aí. Ninguém sabe mas eu sei. Estás à minha espera, à minha procura, curioso por saber se, deste lado, eu também espero por ti. E estás impaciente. Como se o era uma vez fosse longo demais e a história tardasse para acontecer. Mas acredita: ela vai acontecer. Porque, desse lado, estás à minha procura e, deste lado, eu espero por ti.
Estás desse lado. Não estás? Estás à minha procura? Estás à minha espera? Por favor... não deixes a resposta vazia ecoar no silêncio. Estás aí, não estás?

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet (autoria de Renata Pineze)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Em confidência



- Podem chamar poeirentas às minhas esquinas e fáceis às minhas conquistas. Eles nunca saberão, nunca sonharão o que me faz ser como sou!
A voz dele estava repleta de agonia. O rosto dele vinha marcado das lágrimas por verter. As mãos, velhas e enrugadas, tinham os jeitos de quem sabe que segurar uma cerveja entre os dedos não iria sarar a alma.
- Podem chamar o que quiserem, meu velho amigo. Podem dizer que as minhas decisões foram erradas. Não importa. Não importa.
Não dormia há dias. Podia dizer isso pelo arrastar das palavras, pelos silêncios mortos no centro das frases. Podia dizer isso pelo olhar cego, desvairado e intocável, rodeado de negro.
E continuou, de olhos loucos e perdidos nas bolhas quase inexistentes da bebida, num choro seco que doía.
- Ela ficou ali, sabes?  De joelhos no chão, a implorar. Mas ela não vê. Ela não sabe. Ela não pode saber. E, no topo das escadas, o choro. Aquele choro de inocência. Sem palavra. Sem mais do que um olhar a questionar. E eu saí. Eu saí. Eu saí como se o choro delas não importasse.
Deu um murro na mesa. A madeira gasta rangeu e ele cerrou os punhos. As veias, salientes e escuras surgiram, como se as palavras não bastassem.
- Elas ficaram ali, como se eu estivesse lá antes. Como se eu não tivesse posto o trabalho em primeiro lugar. Como se eu não tivesse perdido aniversários, Natais, primeiros passos e palavras. Elas choraram como se, antes de partir, eu tivesse estado lá.
A mágoa na voz adensou, à medida que o olhar escurecia, mais e mais, numa falsa tentativa de desapego.
- Nem uma foto, acreditas? Lá estão elas, as duas, sorrindo. Mas eu não. Onde estava o pai? Onde estava o marido? E elas choraram como se eu tivesse sido perfeito. Imploraram como se a minha ausência pudesse aumentar, como se a minha ausência ainda pudesse feri-las. Eles não sabem. Eles nunca sonharão o que me faz ser como sou.
Olhou para mim, finalmente, afastando o copo da cerveja com as pontas dos dedos encardidos pelo tabaco.
- Eu saí porque nunca estive. Sou um lugar vazio à mesa porque nunca dei graças. Sou o fantasma da fotografia porque nunca cheguei a tempo. Sou a pessoa mais infeliz do mundo porque virei costas e parti. E agora? Agora ele está lá. A chamar poeirentas às minhas esquinas e fáceis às minhas conquistas. A chamar erradas às minhas escolhas. A beijar a minha mulher. A embalar a minha filha. E eu estou aqui. Num bar. A beber até cair e a fumar até mal poder respirar. E não vou voltar. Porque elas estão lá, com ele, a sorrir, a tirar fotografias a três, a comer à mesa juntamente com ele. E estão a sorrir. Estão a sorrir porque eu saí para dar espaço ao sorriso. E, acredita em mim, foi a única coisa decente que algum dia eu fiz por elas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sombra


Não quero que sejas como eu. Não quero que vivas como eu vivo. Não quero que sigas os meus passos, que uses os meus gestos ou as minhas expressões. Não quero que penses como eu penso nem que acredites nas coisas em que eu acredito tão profundamente. É isso mesmo. Não quero que sejas igual a mim!
Não quero que te curves aos mesmos Deuses nem que sigas os mesmos trilhos. Não poderia amar jamais alguém que me seguisse aonde eu fosse sem perguntas, sem dizer "chega" aos meus exageros e sem erguer a voz aos meus erros. Não poderia aceitar alguém que me desse razão a todo o momento. Por isso, se há uma regra a regra é esta. Não quero que sejas como eu.
As pedras da calçada conhecem os meus passos. Sabem que eles não são sempre certos e que, por vezes, escorrego e caio nas curvas desta estrada que é a vida. As pedras da calçada sabem que eu firmo as mãos e me levanto sozinha. Elas sabem que eu sou desastrada mas forte. Elas sabem que eu consigo viver por mim.
Tu não és uma pedra da calçada. Não sabes quem sou. Não sabes a força que tenho para me levantar nem sabes que jamais aceitaria uma vida sem quedas. É isso que me torna humana. Às vezes é preciso que doa. Às vezes é preciso que o coração sangre para acordar mais forte, no dia que vem a seguir.
Não quero que sejas como eu. Que me imites os movimentos dançados, que sorrias quando estás triste. Não quero que te sentes à frente do papel branco e descarregues nele as angústias por achares que ninguém entende. Não quero que penses, para ti, que a vida é a página em branco que fica a seguir àquela que já foi escrita, riscada, amarrotada e atirada para o cesto do lixo.
Se te amar, acredita, vai ser porque tu és diferente de mim. Porque és uma peça que me falta. Uma confiança que não tenho. Um riso que não sai por entre as lágrimas. Se te amar, vai ser porque vou saber, de olhar para ti, se estás bem ou mal, feliz ou triste. Nunca, jamais poderia amar alguém igual a mim.
Acredita. Não quero quem me siga. Quero quem me complete. Não quero quem concorde comigo. Quero quem me chame à razão. Não quero quem se cale com medo de me magoar. Quero quem me grite motivos e razões. Não quero quem esteja nos bons momentos para desaparecer nos maus. Quero quem esteja sempre lá, concordando ou não, para me segurar nas quedas ou simplesmente dizer "eu avisei". Para seguir comigo, concordar comigo, agir como eu e desaparecer nos momentos de escuridão, eu já tenho a minha sombra. Esteve ali a vida toda, a imitar-me cada movimento, a seguir-me por cada caminho. Ela é exactamente como eu e eu nunca me apaixonei por ela.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Temas



O vento nas árvores. A história da menina que cresceu. O horizonte. Os contos de fadas. O mar distante. A tristeza e o medo. O que fica depois da última página do livro. É esta a minha forma de falar de amor. É esta a minha forma de escrever a vida.
Não é um tema só. São mil temas, rondando o que considero ser o pilar central de tudo o que acontece no Mundo. Não é só tristeza e amor. É a vida contada em memórias de tristeza e na esperança de um amor. De um novo amor. De um velho amor. Mas de amor, qualquer que seja a sua forma.
Sim. Eu escrevo sobre amor. Sobre o que o amor fez. Sobre o que ele faz. Sobre as coisas que ele trará, se o destino for um vento favorável e a maré não me derrubar. Escrevo sobre o amor porque é ele que me rege. Porque é nele que me revejo e me encontro. É nele que eu me conheço.
Acusam-me muitas vezes de acreditar em contos de fadas. E têm razão. Acredito! Porque posso acreditar no que eu quiser e escolho acreditar no que é belo. Não vou fechar os olhos ao que não se vê, só porque alguns não querem vê-lo. Não vou negar a mim mesma o sonho. E vocês? Quantos de vocês não acreditam em contos de fadas?
O vento nas árvores. A história da menina que cresceu. O horizonte. Os contos de fadas. O mar distante. A tristeza e o medo. O que fica depois da última página do livro. É esta a minha forma de falar de amor… a minha forma de escrever a vida. Mas não se trata do meu amor e da minha vida. Trata-se de um amor maior e de uma vida comum que me sai dos dedos e quer tocar cada pessoa de uma ou outra forma.
É também o vosso amor e a vossa vida. São também os vossos pensamentos e as vossas formas de sentir. E, porque os textos têm vida própria, eles são a minha esperança no mundo, entregue e aberta, à espera que escolham sonhar comigo.
E sim, são sobre o amor. Muitas vezes sobre a tristeza. Muitas vezes sobre o desgosto e o medo. Mas nem sempre tristes. Porque, no fundo, as palavras são um refúgio universal e, por mais tristes que os textos pareçam, aos olhos de quem está feliz, para um mundo feito de contrariedades e injustiças, eles falam apenas da realidade sonhada de uma menina que sabe a verdade mas escolhe viver de fantasia.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Respira fundo



Respira fundo. O mundo vai ser injusto, por vezes. A vida é mesmo assim. Ninguém pode entrar nela sem esperar sofrer um pouco. Ninguém pode evitar os contratempos. Ninguém pode contornar as barreiras que aparecem no caminho.
Mas respira fundo. Porque podes saltar cada barreira e correr rumo à felicidade que mereces. As pessoas não são definidas pelos erros nem pelas desilusões. São definidas pela alma que se mantém firme e real, mesmo quando o mundo aponta o dedo ou pisa, sem razão.
Respira fundo e fecha os olhos. Tudo o que precisas de ver está dentro de ti. Por isso procura. Procura essa dimensão de ti que te dá razão sobre o que quer que venha. Procura a parte de ti que te torna superior às injustiças. Tenho a certeza de que encontrarás dentro de ti a peça chave que te torna maior do que as maiores coisas.
Não duvido nem por um segundo. Não duvido nem que me apresentem as mil justificativas que comprovam teses diferentes da minha. Não duvido que sejas mais e melhor do que as injustiças com as quais tecem as histórias que circulam por entre os Universos de mesquinhez. E não importa o que ninguém diga. Não importa o que ninguém pense. Sei, porque o sinto, que a vida é somente a tela na qual pintamos a história. E a história não é um ponto de vista. A história é a complexidade do que fica além do que uma ou outra pessoa vê em nós.
Respira fundo. Respira fundo e ouve a tua própria voz. Deixa que ela se erga, completa e inquebrável. E ouve-te a ti. A minha voz, só mais uma por entre tantas vozes, também não importa. Ignora-a. É a tua própria voz que tens de ouvir.
Então, faz assim: respira fundo e respeita o que essa voz te disser. Respeita-a além de tudo, apesar de tudo e independentemente de tudo. O mundo vai ser injusto. Mas a tua alma e o teu coração, mesmo que te digam coisas duras de ouvir, serão simplesmente reais. Ouve o que eles têm a dizer...
Respira fundo. O mundo é mesquinho e as pessoas, por vezes, ridículas e injustas. Mas respira fundo e segue. Ouve a tua própria voz. E nunca, por nunca ser, deixes de tentar ser feliz. 

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet (autoria de Paulo Freiras)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um sorriso



Ela entrou na sala. Trazia uma saia azul escura e uma camisola branca, já meio gasta do uso. À primeira vista não era diferente de ninguém. O cabelo louro esvoaçava-lhe nos passos e o corpo de bailarina dançava levemente, por si só, com a naturalidade óbvia de quem não o faz por querer. À primeira vista era apenas mais uma, como tantas. À primeira vista não passava de uma menina bonita, demasiado nova para saber o que é o sofrimento, demasiado velha para ser chamada de criança. Mas, então, ela sorriu. Um sorriso aberto, num semicerrar de olhos. E o meu mundo iluminou-se.
 Não é uma história muito longa. É simplesmente um momento, captado na memória, qual fotografia. É a história do sorriso que marcou uma vida. A minha vida. A história de como uma menina se tornou eternamente parte do meu coração e me move, sem esforço, na direção do para sempre.
Ela entrou na sala. Foi tão simples como um passo que a pôs ao alcance dos meus olhos. Tão natural como uma brisa de Primavera a agitar as folhas das árvores. Mas bastou. Bastou isso para me fazer sorrir. Bastou isso para apagar as mágoas e me dar um pouco de paz.
É a mais pura das verdades: à primeira vista ela é apenas mais uma menina. À primeira vista é a criança loura, de olhos azul esverdeados e passos dançantes. Mas eu parei para olhar melhor e descobri a verdade. Ela é o sorriso atrás das lágrimas. A fé no fim da esperança. A luz por entre as trevas. A mão que nos segura na beira do abismo. Ela é a segurança entre os medos. A força nos momentos de desespero. O abraço quando chega a solidão.
Ela entrou na sala. Caminhou em passos dançados. Sorriu-me. Arrebatou-me. E mesmo que, à primeira vista, ela seja apenas uma menina, para mim ela é perfeita. Então, encho-me de luz e de carinho e abraço-a, como se os meus braços pudessem criar uma muralha e protegê-la a vida inteira. Como se num abraço a pudesse salvar de tudo. Mas fica sempre aquela pontinha de certeza que se alastra no peito, qual veneno bom: poderei não ser capaz de a proteger de todos os males do mundo mas ela protege-me a mim e, entrando na sala a sorrir, sem sequer o saber, ela salva-me a vida todos os dias.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

sábado, 20 de outubro de 2012

A minha história



Se um dia alguém contasse a minha história, traço a traço, sem mentiras, sem nuances cor-de-rosa, então a minha história não seria uma história para todos. Seria um romance daqueles que ficam num canto poeirento da livraria porque ninguém compra o que não compreende.

Se um dia alguém contasse a minha história, diria talvez que fui a princesa da gaiola dourada, educada para ser tudo o que não fui, criada para seguir todos os trilhos que não segui.

Diriam, talvez, que sonhei demais, amei demais, chorei demais. Diriam que a minha vida foi feita na suavidade do exagero. Que nunca aprendi a viver de meios termos ou meios amores. Diriam que isso me matou, no alvorecer de uma Primavera e que tudo o que veio depois foi fragmento de uma morte em vida.

Se um dia contassem a minha história, a verdade da minha história, diriam que me apaixonei pela dor e que lhe dediquei, não só mil poemas, mas também a vida. Diriam que fugi, em encontros com o acaso, uma ou outra vez, para me perder nos braços da felicidade. Diriam que a felicidade fugia de mim, que eu fugia dessa fuga e que, por entre os becos do desencontro, acabámos por nunca passar muito tempo juntas.

Se um dia alguém contasse a minha história, traço a traço, sem mentiras, a minha história não seria sobre uma menina sonhadora, nem sobre uma mulher que a vida tornou forte. Esse romance versaria sobre as minhas mãos. As mãos que um dia pararam para escrever e para acarinharem as parcas pessoas que me conquistaram. Esse romance contaria que as minhas mãos se fecharam noutras mãos, que limparam lágrimas de rostos tristes e que se ergueram aos céus para invocar poderes maiores do que aqueles que a maioria entende. Contaria que as minhas mãos cruas e cruéis se fecharam em punho contra paredes de mágoa e lutaram mil batalhas apenas para perderem a guerra. Esse romance diria que as minhas mãos seguraram o meu coração na ponta da caneta e que isso me fez quem fui.

A minha história não seria para todos. E por isso não será escrita. Não será contada. Ninguém a saberá. Mas eu vou dizer-vos um segredo. Sim, eu sou escritora e falo muito sobre dor. Posso dizer que passei a minha vida a fazer isso mesmo: a dissecar cada pedacinho de sofrimento e a escrever sobre ele obsessivamente. Mas isso não significa que não dói! Significa apenas que as palavras, mesmo as mais duras, continuam a doer menos do que o silêncio. E que, talvez por fraqueza, não sou capaz de dar a mim mesma esses silêncios de papel. Então escrevo, por mais que doa!

Essa dor não é entendida e não fará parte de um romance sobre mim ou as minhas mãos. Essa dor vai viver comigo. Caminhar pelos meus dedos irrequietos e dormentes. Virar poesia e prosa. E, quando o tempo for certo, essa dor vai partilhar comigo a morte e vai voar pelo vento sobre uma ferida de pedra que contará, em silêncio, esta história pela eternidade…


Marina Ferraz
*Imagem retirada da  Internet

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Gaivota



Voa, gaivota, ao redor da minha ferida. O meu veleiro naufragou. As ondas engoliram a esperança alada do horizonte. Olhando, há apenas nevoeiro. Mas voa, gaivota.
Voa sobre o penedo da solidão escarpada. Sobre a areia do meu choro amargo. Sobre a solidão de mais um amanhã vazio.
Voa sobre o meu corpo de terra despida. Sobre as nuvens do meu olhar, onde há dilúvios sem fim à vista.
Voa, gaivota. Circunda no teu voo a ausência de mim. A ausência que é ser corpo sem alma a vaguear por desertos de vento. Voa dentro do meu peito, planando no sopro frio de uma morte que tarda. Mas voa, gaivota.
Voa, gaivota, junto às palavras que se sucedem e às ilusões que ficam intactas em mim. Voa na incerteza dos meus passos. Voa sobre a decadência da minha vontade, sobre a incoerência do meu pensamento.
Voa, gaivota. Sobrevoa o mundo. Este mundo que me destruiu até eu não ser mais do que um fantasma de mim. Este mundo que me atirou ao chão e me obrigou a cair tão fundo de costas direitas e rosto erguido. Voa sobre os vales e as praias. Sobre as casas imundas e as pessoas vazias e cinzentas. Voa.
Voa gaivota. Pescadores vão dizer que és presságio de chuva. Meninas apaixonadas vão sorrir ao ver-te em voo raso no caminho para casa. Milhares de pessoas vão passar indiferentes à tua dança eterna.
Mas voa, gaivota. Voa. Voa alto. Voa bem. Voa dentro deste peito quebrado. E, quando vier a tempestade e eu chorar, deixa as asas repousarem de mansinho no centro deste coração despenhado que, entre o desespero da vida e a ânsia da morte, tem apenas como certo o destino. Um destino de pedra e prata que lhe diz que, ao contrário de ti, ele nunca mais vai voar.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pessoas




As pessoas vão dizer-te que não és capaz. Que te falta alguma coisa. Que não basta. Que há um milhão de pessoas no mundo iguais a ti. Melhores do que tu. Mais focadas, mais exigentes consigo mesmas, mais perfeitas.

As pessoas vão dizer-te que nasceste no país errado. No continente errado. No mundo errado. Que não podes escalar as hierarquias nem definir outras regras. Que tens de te conformar com a realidade. Vão usar as palavras “acorda” e “põe os pés na terra”, como se acordar fosse bom e ter os pés na terra implique que não possas ter a cabeça num mundo de sonhos.

As pessoas vão empurrar-te de opinião em opinião. Vão atirar-te de regra em regra. Vão arrastar-te pelo chão rugoso das suas próprias vontades.

Não duvides. As pessoas vão magoar-te, usar-te, torturar-te. Vão tentar matar-te os sonhos, o sorriso, a vontade de lutar. E tu vais chorar, gritar, resmungar aos ventos a injustiça da vida, como se ela não fosse óbvia e inevitável.

Entende: o mundo não existe numa realidade só. O mundo tem milhões de olhares. Milhões de pensamentos. E todos eles um dia sentiram a injustiça. Todos eles um dia sentiram a dor. Talvez não a mesma dor que tu ou o mesmo sentido de errado, mas uma dor tão válida como a tua.

Por isso, as pessoas vão dizer-te para acordares do sonho e viveres a realidade. Tu não as vais entender. Algumas farão isso por maldade, por inveja, por necessidade de se sentirem superiores. Outras estarão apenas a tentar proteger-te da frieza do mundo, dizendo-te, de forma dura e directa, as lições que aprenderam à custa de muitas quedas. E todas essas pessoas vão soar cruéis aos teus ouvidos. Perceberás com o tempo que dói de pior forma quando as palavras proferidas são ditas por quem se ama mais.

As pessoas. Esses bichos de florestas de betão, sem outro Deus que não a ciência, sem outro sonho que não o dinheiro. As pessoas. Essas vítimas que nasceram por entre as outras e perderam sonhos mais válidos pelo caminho. As pessoas vão dizer-te para cresceres e entenderes que não podes ser quem queres, como queres, aonde queres.

Eu não posso proteger-te das palavras. Não posso dizer-te que não vais ouvir discursos de eternidade sobre o abismo. Não posso prometer que não vais cair no erro de te quedares nas opiniões alheias. Mas deixo-te isto: vou sonhar contigo, enquanto sonhares. Acreditar contigo, enquanto acreditares. Estar lá para te dizer que também caí na crueldade da vida e que isso não me afastou da convicção de que desejar algo é o primeiro passo.

As pessoas vão magoar-te. Vão usar balas de palavras, de desprezo, de autoridade. E, embora eu não possa mudar isto, posso prometer-te que, venha o que vier, eu não serei uma dessas pessoas.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Copo de água



Para o meu avô

A noite caía e, sentada sobre a cama, a menina chamava. Tinha os caracóis revoltos caídos pelo rosto e o jeito certo de quem julga saber tudo sobre o mundo e a vida. A certeza errada de que teria cinco ou seis anos para sempre e de que jamais deixaria de poder chamar por alguém, durante a noite, fosse por que motivo fosse.
A noite caía e a luz desligava-se sempre dois segundos antes da menina gritar, a plenos pulmões. “Trazes-me um copo de água?” E ouviam-se os passos, no corredor, sempre certos e convictos, carregando muito mais amor do que água dentro do copo. E, com o copo de amor, vinha um sorriso de verdade e um beijo de boa noite.
Então, em matando a sede de água e de carinho, a menina deixava a cabeça cair na almofada e dormia. O amanhã era a promessa de todas as coisas. A promessa de muitos copos com água, trazidos em bandejas de sorriso.
Houve muitos dias e muitas noites feitos em pedidos e em copos de água. E muito mais sorrisos entregues com a simpatia de um semicerrar de olhos. Mas as noites sucedem-se e as meninas crescem, para aprenderem que, um dia, não poderão gritar para pedir um copo de água antes de dormir.
Eu sei que já não sou essa menina. Sei-o bem. Mas, mesmo assim, quando a noite cai, ainda me sento na cama e fecho os olhos, para acordar a memória desse tempo em que podia gritar por alguém. Fecho os olhos para orar por um futuro no qual a minha alma seja livre de encontrar a alma de quem partiu. Fecho os olhos para ver, na escuridão do pensamento, o rosto que sorria ao entregar-me um copo de água e muitas medidas de amor incondicional.
“Trazes-me um copo de água?”. A pergunta fica no ar. Sem resposta. Sem passos no corredor. Sem um beijo de boa noite. Mas estás aqui. Mesmo sem me trazeres um copo com água. Mesmo sem entrares pela porta com um sorriso. Estás aqui porque, todas as noites, eu finjo, para mim mesma, que sou criança outra vez. E, na minha imaginação, entras pela porta do meu pensamento e preenches a saudade com mais um copo de amor. E é esse copo inventado que me adormece na ilusão de que nem a morte te pôde roubar de mim.

Marina Ferraz
*Imagem retirada da Internet