Imagem gerada por I.A.
Já me disseram muitas vezes que
sou egoísta. Recordo particularmente o dia em que mo disseram porque afirmei
não querer ter filhos – posição que mantenho, apesar de tantas vezes me terem
dito “isso muda com a idade”. Nesse dia – que era um dia de sol – havia
crianças a chapinhar na piscina e o semblante seco e altivo de quem me dizia que
era egoísta. Descobri, pela voz de outrem, que eu não queria filhos porque isso
implicaria ter de olhar para além do meu umbigo... e dar-me a outros... e ser
por outros... pelos outros...
Este é o contexto. Mas o
contexto tem pouca pertinência para o que te quero dizer. É que hoje... hoje, é
para ti que escrevo. Para ti, filho nunca gerado e que, por isso, não nasceste,
tal como longamente previsto. Escrevo-te para te pedir que não ouças as
palavras cruéis que me disseram naquele dia de verão, porque não são verdade...
embora talvez eu seja egoísta em muitas coisas... e ande longe da retidão
santificada que vai retomando o seu lugar nas narrativas do que é ser-se “uma
boa mulher”. A tua inexistência, no entanto, não é fruto de egoísmo, mas de
amor... e posso prová-lo!
Eis o ente que nasce da luz.
Assim sagraria o teu corpo pequenino. Havia de conhecer-te os pormenores do corpo.
De contar cada um dos vinte dedos. De aguardar pelos olhos abertos. Pelo
sorriso primeiro. Por todos os que se seguissem. De beber-te as lágrimas, como
quem sorve a tua dor. De embalar-te. De palmilhar os quilómetros da Terra na
minha sala de estar, até que a agitação se transformassem em acalmia e
dormisses. De proteger o teu sono. Os teus sonhos... os teus sonhos... os teus
sonhos. O mundo gosta de os roubar, então teria de protegê-los assim. Como quem
obsessivo-compulsivamente quer roer a desumanidade e envolver-te na manta
etérea da utopia. A tua avó diria que é utopia, como diz quando eu falo do
mundo que quero e de como é para ele que tento caminhar, esbarrando em
barreira, após barreira, após barreira...
Quando nascesses, havia de te
erguer à janela e dizer: Natureza, eis o meu filho. Filho, esta é a tua Mãe
Maior. E ela havia de lançar sobre ti o pólen protetor, que ao tocar a pele
seria armadura.
Quanta beleza!
Mas cortaram as árvores que te
seriam madrinhas para abrir a autoestrada. E entraram tanques de guerra e
bombas. E 48 horas bastam para que 14 mil bebés sucumbam à miséria da fome, enquanto
fogo chove e a terra treme. A luz apaga-se. Toda a luz se apaga. Governos caem
e homens comuns votam como se fossem deuses. Ditam as pragas egípcias ao mundo,
até quando o mundo é no fim do mundo, na ponta mais ocidental de uma europa diluída,
onde só à palavra Euro se diz Amén.
Depois, água vira sangue, gafanhotos, rãs, piolhos e moscas
infestam o espaço, o gado sucumbe, úlceras comem a gente, o céu vai cuspindo
rocha, primogénitos morrem... tu morres. Ou, se não morreres, não viverás.
Quererás
amar, e não podes. Quererás escolher, e não podes. Quererás ser, e não podes.
Odiar-te-ão. Porque és mulher, porque és homossexual, porque és autista. Porque
tens uma trisavó indiana. Porque tens um avô retornado. Porque tens uma mãe
artista, mulher, autista... Porque trazes nas veias Abril. Porque queres ser
livre. Não te quererão para que sejas soldado, mas para que sejas bala. Arma de
arremesso. Assim, morres mais depressa e não ocupas espaço, não gastas recursos.
A tua morte serve a economia.
Então,
dizem-me para te ter. Porque, se estiveres vivo, podem garantir que vais
morrendo. Sonho a sonho. Ideia a ideia. Liberdade a liberdade. Mente, alma,
corpo... até que vires o pó branco que alinham com cartões e inalam, entre
copos de gin, rindo nos seus palácios,
erguidos sobre a vala comum do povo.
A tua inexistência não é fruto
de egoísmo, mas de amor...
Em tom mais brando,
perguntaram-me uma vez: “Porque não queres ter filhos? Acho-te tão maternal!”.
Respondi: “Eu não tenho dúvidas de que teria criança para dar ao mundo... mas
não tenho mundo para dar à criança.”
Hoje, acrescento: a ti, que não
nasceste, deixo a herança. Um voto dobrado em quatro, que não vence a maioria,
mas fala sobre o mundo que queria dar-te, se existisses. Uma lágrima nos
resultados que, como a tua avó, chamam utopia a esse mundo. Um pensamento simples,
sobre a falta que me fazes e como, ainda assim, não te quero aqui. E a
liberdade. Deixo-te a liberdade toda. Porque a terei até ao fim. Mesmo que seja
o meu fim. (E desconfio que será!)
Um dia, tu que não nasceste, e
eu, que morrerei a lutar, havemos de nos encontrar nesse universo utópico. Egoistamente,
vou agarrar-te contra o peito e contar-te, de viva voz, esta história.
Num dia de sol, com crianças a chapinhar na
piscina, alguém de semblante seco e altivo me disse que era egoísta, que não
queria filhos porque isso implicaria ter de olhar para além do meu umbigo... e
dar-me a outros... e ser por outros... pelos outros... E, então, eu, que não
tive filhos, dobrei o meu voto em quatro... e fiz da humanidade a filha que não
tive, tentando dar-lhe o presente mais bonito de todos. Ela recusou. Gritantemente.
E eu vivi. E eu morri. Sem ti. Por ti. Para ti. Num mundo que – honestamente – não
merecia nenhum de nós dois.
Marina Ferraz
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